Qual é o seu ikigai?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na cultura de Okinawa, no Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”. No tradutor do Google, a tradução literal é “sal da vida”. No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, ele tem sido estendido a várias outras áreas.

Veja uma síntese gráfica do ikigai:

ikigai

Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (1) aquilo que amamos, (2) aquilo que fazemos bem, (3) aquilo do que o mundo precisa, e (4) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobri-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é sua missão. Quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é sua profissão.

A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz. Contudo, para viver uma vida plena, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai. Ou seja: uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer.

Além dessa atividade principal, é saudável dedicar-se também a atividades paralelas, como hobbies e voluntariado. Por exemplo, pode ser que você trabalhe como cientista, mas também goste muito de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby.

Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada. Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas.

E já que estamos falando nele, recomendo que você assista abaixo ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa. Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva outras para o buraco com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.

Por que os profissionais da geração Y estão infelizes com suas carreiras?

Veja também: A educação moderna criou adultos que se comportam como bebês

Ana é parte da Geração Y, a geração de jovens nascidos entre o fim da década de 1970 e a metade da década de 1990. Ela também faz parte da cultura Yuppie, que representa uma grande parte da geração Y. “Yuppie” é uma derivação da sigla “YUP”, expressão inglesa que significa “Young Urban Professional”, ou seja, Jovem Profissional Urbano. É usado para referir-se a jovens profissionais entre os 20 e os 40 anos de idade, geralmente de situação financeira intermediária entre a classe média e alta.

Os yuppies em geral possuem formação universitária, trabalham em suas profissões de formação e seguem as últimas tendências da moda. Eu dou um nome para yuppies da geração Y — costumo chamá-los de “Yuppies Especiais e Protagonistas da Geração Y”, ou “GYPSY” (Gen Y Protagonists & Special Yuppies). Um GYPSY é um tipo especial de yuppie, um tipo que se acha personagem principal de uma história muito importante.

Então Ana está lá, curtindo sua vida de GYPSY, e ela gosta muito de ser a Ana. Só tem uma pequena coisinha atrapalhando: Ana está meio infeliz. Para entender a fundo o porquê de tal infelicidade, antes precisamos definir o que faz uma pessoa feliz, ou infeliz. É uma formula muito simples. Quando a realidade da vida de alguém está melhor do que essa pessoa estava esperando, ela está feliz. Quando a realidade acaba sendo pior do que as expectativas, essa pessoa está infeliz.

Para contextualizar melhor, vamos falar um pouco dos pais da Ana. Os pais da Ana nasceram na década de 1950 — eles são Baby Boomers. Foram criados pelos avós da Ana, nascidos entre 1901 e 1924, e definitivamente não são GYPSYs. Na época dos avós da Ana, eles eram obcecados com estabilidade econômica e criaram os pais dela para construir carreiras seguras e estáveis. Eles queriam que a grama dos pais dela crescesse mais verde e bonita do que eles as deles próprios. Algo assim:

Eles foram ensinados que nada podia os impedir de conseguir um gramado verde e exuberante em suas carreiras, mas que eles teriam que dedicar anos de trabalho duro para fazer isso acontecer.

Depois da fase de hippies insofríveis, os pais da Ana embarcaram em suas carreiras. Então nos anos 1970, 1980 e 1990, o mundo entrou numa era sem precedentes de prosperidade econômica. Os pais da Ana se saíram melhores do que esperavam, isso os deixou satisfeitos e otimistas.

Tendo uma vida mais suave e positiva do que seus próprios pais, os pais da Ana a criaram com um senso de otimismo e possibilidades infinitas. E eles não estavam sozinhos. Baby Boomers em todo o país e no mundo inteiro ensinaram seus filhos da geração Y que eles poderiam ser o que quisessem ser, induzindo assim a uma identidade de protagonista especial lá em seus sub-conscientes. Isso deixou os GYPSYs se sentindo tremendamente esperançosos em relação à suas carreiras, ao ponto de aquele gramado verde de estabilidade e prosperidade, tão sonhado por seus pais, não ser mais suficiente. O gramado digno de um GYPSY também devia ter flores.

Isso nos leva ao primeiro fato sobre GYPSYs: eles são ferozmente ambiciosos.

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O GYPSY precisa de muito mais de sua carreira do que somente um gramado verde de prosperidade e estabilidade. O fato é, só um gramado verde não é lá tão único e extraordinário para um GYPSY. Enquanto seus pais queriam viver o sonho da prosperidade, os GYPSYs agora querem viver seu próprio sonho. Cal Newport aponta que “seguir seu sonho” é uma frase que só apareceu nos últimos 20 anos, de acordo com o Ngram Viewer, uma ferramenta do Google que mostra quanto uma determinada frase aparece em textos impressos num certo período de tempo. Essa mesma ferramenta mostra que a frase “carreira estável” saiu de moda, e  também que a frase “realização profissional” está muito popular.

Para resumir, GYPSYs também querem prosperidade econômica assim como seus pais – eles só querem também se sentir realizados em suas carreiras, uma coisa que seus pais não pensavam muito. Mas outra coisa está acontecendo. Enquanto os objetivos de carreira da geração Y se tornaram muito mais específicos e ambiciosos, uma segunda ideia foi ensinada à Ana durante toda sua infância:

Esta é provavelmente uma boa hora para falar do nosso segundo fato sobre os GYPSYs: eles vivem uma ilusão. Na cabeça de Ana passa o seguinte pensamento: “mas é claro… todo mundo vai ter uma boa carreira, mas como eu sou prodigiosamente magnífica, de um jeito fora do comum, minha vida profissional vai se destacar na multidão”. Então se uma geração inteira tem como objetivo um gramado verde e com flores, cada indivíduo GYPSY acaba pensando que está predestinado a ter algo ainda melhor: Um unicórnio reluzente pairando sobre um gramado florido.

Mas por que isso é uma ilusão? Por que isso é o que cada GYPSY pensa, o que põe em xeque a definição de especial: “melhor, maior, ou de algum modo diferente do que é comum”. De acordo com esta definição, a maioria das pessoas não são especiais, ou então “especial” não significaria nada. Mesmo depois disso, os GYPSYs lendo isto estão pensando: “Bom argumento… Mas eu realmente sou um desses poucos especiais”.

É aí que está o problema. Outra ilusão é montada pelos GYPSYs quando eles adentram o mercado de trabalho. Enquanto os pais da Ana acreditavam que muitos anos de trabalho duro eventualmente os renderiam uma grande carreira, Ana acredita que uma grande carreira é um destino óbvio e natural para alguém tão excepcional como ela, e para ela é só questão de tempo e escolher qual caminho seguir. Suas expectativas pré-trabalho são mais ou menos assim:

Infelizmente, o mundo não é um lugar tão fácil assim, e curiosamente carreiras tendem a ser muito difíceis. Grandes carreiras consomem anos de sangue, suor e lágrimas para se construir – mesmo aquelas sem flores e unicórnios – e mesmo as pessoas mais bem sucedidas raramente vão estar fazendo algo grande e importante nos seus vinte e poucos anos. Mas os GYPSYs não vão apenas aceitar isso tão facilmente.

Paul Harvey, um professor da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, e expert em GYPSYs, fez uma pesquisa onde conclui que a geração Y tem “expectativas fora da realidade e uma grande resistência em aceitar críticas negativas” e “uma visão inflada sobre si mesmo”. Ele diz que “uma grande fonte de frustrações de pessoas com forte senso de grandeza são as expectativas não alcançadas. Elas geralmente se sentem merecedoras de respeito e recompensa que não estão de acordo com seus níveis de habilidade e esforço, e talvez não obtenham o nível de respeito e recompensa que estão esperando”.

Para aqueles contratando membros da geração Y, Harvey sugere fazer a seguinte pergunta durante uma entrevista de emprego: “Você geralmente se sente superior aos seus colegas de trabalho/faculdade, e se sim, por quê?”. Ele diz que “se o candidato responde sim para a primeira parte mas se enrola com o porquê, talvez haja um senso inflado de grandeza. Isso é por que a percepção da grandeza é geralmente baseada num senso infundado de superioridade e merecimento. Eles são levados a acreditar, talvez por causa dos constantes e ávidos exercícios de construção de auto-estima durante a infância, que eles são de alguma maneira especiais, mas na maioria das vezes faltam justificativas reais para essa convicção”. E como o mundo real considera o merecimento um fator importante, depois de alguns anos formada, Ana se encontra aqui:

A extrema ambição de Ana, combinada com a arrogância, fruto da ilusão sobre quem ela realmente é, faz ela ter expectativas extremamente altas, mesmo sobre os primeiros anos após a saída da faculdade. Mas a realidade não condiz com suas expectativas, deixando o resultado da equação “realidade – expectativas = felicidade” no negativo. E a coisa só piora. Além disso tudo, os GYPSYs tem um outro problema, que se aplica a toda sua geração: eles estão sendo atormentados.

Obviamente, alguns colegas de classe dos pais da Ana, da época do ensino médio ou da faculdade, acabaram sendo mais bem-sucedidos do que eles. E embora eles tenham ouvido falar algo sobre seus colegas de tempos em tempos, através de esporádicas conversas, na maior parte do tempo eles não sabiam realmente o que estava se passando na carreira das outras pessoas. A Ana, por outro lado, se vê constantemente atormentada por um fenômeno moderno: Compartilhamento de fotos no Facebook.

As redes sociais criam um mundo para a Ana onde: A) tudo o que as outras pessoas estão fazendo é público e visível a todos, B) a maioria das pessoas expõe uma versão maquiada e melhorada de si mesmos e de suas realidades, e C) as pessoas que expõem mais suas carreiras (ou relacionamentos) são as pessoas que estão indo melhor, enquanto as pessoas que estão tendo dificuldades tendem a não expor sua situação. Isso faz Ana achar, erroneamente, que todas as outras pessoas estão indo super bem em suas vidas, só piorando seu tormento.

Então é por isso que Ana está infeliz, ou pelo menos, se sentindo um pouco frustrada e insatisfeita. Na verdade, seu início de carreira provavelmente está indo muito bem, mas mesmo assim, ela se sente desapontada. Aqui vão meus conselhos para Ana:

1) Continue ferozmente ambiciosa. O mundo atual está borbulhando de oportunidades para pessoas ambiciosas conseguirem sucesso e realização profissional. O caminho específico ainda pode estar incerto, mas ele vai se acertar com o tempo, apenas entre de cabeça em algo que você goste.

2) Pare de pensar que você é especial. O fato é que, neste momento, você não é especial. Você é outro jovem profissional inexperiente que não tem muito para oferecer ainda. Você pode se tornar especial trabalhando duro por bastante tempo.

3) Ignore todas as outras pessoas. Essa impressão de que o gramado do vizinho sempre é mais verde não é de hoje, mas no mundo da auto-afirmação via redes sociais em que vivemos, o gramado do vizinho parece um campo florido maravilhoso. A verdade é que todas as outras pessoas estão igualmente indecisas, duvidando de si mesmas, e frustradas, assim como você, e se você apenas se dedicar às suas coisas, você nunca terá razão pra invejar os outros.

Fonte do texto em inglês: Wait but why.

Fonte da tradução em português: QGA.

Da possibilidade de se defender teses radicais com razoabilidade e moderação

Opinião da professora Andrea Faggion, publicada no Facebook.

Tenho impressão de que há uma certa confusão na assimilação de pessoas razoáveis e moderadas com pessoas que defendem posições políticas de centro. Particularmente, penso que moderação de temperamento, até como uma ética do discurso, não tem a ver com a radicalidade das teses que a pessoa defende. Você pode defender teses bem radicais, como o anarquismo, e ser uma pessoa razoável e moderada, que admite a falibilidade subjetiva, ou seja, reconhece que o outro pode estar discordando de você, não por ser um canalha ou um idiota, mas simplesmente porque você pode estar errado e ele pode estar certo, ou então porque a sua posição pode até ser a mais correta, mas não é uma verdade auto-evidente, no sentido de uma tese que seria compreendida imediatamente como verdadeira por qualquer pessoa sã e de boa-fé que tomasse conhecimento dela. Infelizmente, o modus operandi atual consiste na defesa de teses, passando necessariamente pela depreciação de qualquer um que possa defender a tese oposta, apenas por defender a tese oposta. Esses grupos conquistarão o meu respeito no dia em que começarem a respeitar seus adversários intelectuais.


Suspensão do juízo à portuguesa

Crônica do professor de filosofia português Carlos Pires, publicada no portal Crítica.

Recentemente ouvi um diálogo curioso entre duas moças:

– O que pensas do casamento entre homossexuais?
– Sei lá! É uma coisa tão discutível…
– Mas és a favor ou contra?
– Já te disse: é discutível. Cada pessoa tem a sua opinião.
– Mas é isso mesmo que eu quero saber: a tua opinião. Acho que deverias tomar partido.
– Isso é a tua opinião!

O leitor certamente já assistiu conversas desse tipo, em que se diz “isso é discutível” não para iniciar um debate, mas para declarar que o debate é inútil e encerrar a conversa. Não sei o que se passa em outros países, mas em Portugal é comum encontrar pessoas que não percebem que o adjetivo “discutível” significa justamente que algo pode (ou até mesmo deve) ser discutido. Serão essas pessoas filósofos céticos que, perplexos com a diversidade de opiniões suscitada por muitos assuntos, concluem que nada se pode saber e que o mais sensato é suspender o juízo? Apesar das inúmeras objeções em que o ceticismo incorre, essa seria uma explicação lisonjeira, mas é duvidoso que seja o caso. Os céticos não se calam e procuram argumentar, de modo a justificar a ideia de que o melhor é suspender o juízo. Podemos acusá-los de se auto contradizerem, mas não de preguiça intelectual. Pelo contrário, as pessoas que, como resposta à pergunta “Concordas com X?”, se limitam a dizer simplesmente “isso é discutível” em vez de discutirem, calam-se e não argumentam. Não se dão ao trabalho de pensar.

Talvez se consiga explicar melhor o seu comportamento relacionando-o com o relativismo. Tais pessoas (mesmo as que nem conhecem a palavra “relativismo”) parecem acreditar que o fato de existir mais de uma opinião sobre um assunto qualquer significa que todas as opiniões valem o mesmo e que é sintoma de arrogância tentar mostrar que uma é melhor que outra. Por isso, perante uma opinião divergente, acham que faz sentido retorquir apenas dizendo que “esta é a tua opinião” – em vez de perguntar “porquê” e discutir as razões dadas na resposta. Dessa atitude relativista até à ofensa ou aborrecimento quando alguém critica abertamente a sua opinião vai um pequeno passo. Um passo que é dado muitas vezes: em vez de discutirem as ideias envolvidas na crítica e de confrontá-las com a opinião criticada sentem-se pessoalmente postas em causa. É como se toda a argumentação fosse ad hominem. O que torna difícil a discussão livre e imparcial, como se pode verificar em diversas áreas da sociedade portuguesa.

Breve definição de filosofia

Filosofia é o estudo das questões fundamentais. Em uma frase curta, essa é a melhor definição que encontrei – aquela que considero a mais explicativa empregando a menor quantidade possível de palavras. Estendendo-nos um pouco mais, podemos dizer que filosofia é a dedicação intelectual aos problemas mais conceituais, às perguntas mais profundas, às dúvidas mais inquietantes que afetam nosso pensamento. Mas essa é apenas uma das três maneiras de definir filosofia. Podemos definir filosofia a partir de três perspectivas diferentes: (1) objetivamente, dizendo o que ela estuda – qual é o seu objeto de estudo; (2) etimologicamente, dizendo o que significa o termo “filosofia”; e (3) comparativamente, dizendo que diferença há entre ela e outras expressões do saber humano, como a ciência ou a religião, por exemplo. Vejamos como isso é possível.

A definição dada acima é objetiva, pois diz qual é o objeto de estudo da filosofia – a saber, as questões fundamentais. Tradicionalmente, consideramos questões fundamentais aquelas relacionadas à existência, ao conhecimento, à verdade e aos valores. A partir disso, desenvolveram-se as disciplinas principais da filosofia: ontologia (filosofar sobre a existência); epistemologia (filosofar sobre o conhecimento); lógica (filosofar sobre a verdade); e a chamada filosofia prática (filosofar sobre os valores, sejam eles éticos, estéticos, políticos, etc.). Ontologia (comumente chamada também de metafísica), epistemologia (também chamada de teoria do conhecimento) e lógica constituem a parte teórica da filosofia; enquanto que ética, estética e filosofia política constituem a parte prática. É claro que, além desse tronco principal, a filosofia possui ainda outras disciplinas, como por exemplo a filosofia da mente, da linguagem, da natureza, da ciência, da religião, da educação, entre outras tantas “filosofias”.

Por que existe algo ao invés do nada? Deus existe? Como tudo começou? Por que razão estamos aqui? Nossas vidas têm algum propósito? Nossa mente é de uma natureza diferente do nosso corpo, ou somos seres meramente físicos? Existe livre-arbítrio? Como o conhecimento é possível? O que podemos conhecer? Quais são os limites da ciência? Quais os critérios da verdade? Como a linguagem se relaciona com a realidade? O que faz com que algumas ações sejam moralmente boas e outras más? Você provavelmente já se fez algumas dessas perguntas em algum momento da vida. Estas são as últimas perguntas com as quais finalmente nos deparamos se continuarmos, tal como comumente fazem as crianças, perguntando indefinidamente pelo porquê das coisas.

Essas perguntas não pertencem a uma ciência em particular, ao domínio exclusivo de alguma área especializada do saber, mas afligem todos aqueles que em algum momento deixam de se contentar com a banalidade do cotidiano, do senso comum, das respostas prontas. Há 25 séculos, surgiu na Grécia uma tradição de pensamento que desde então se dedica racionalmente a essas questões. Filósofos desenvolvem-nas de uma forma disciplinada, rigorosa e sistemática, com o objetivo não apenas de respondê-las, mas também, acima de tudo, de entender exatamente o que está sendo perguntado. Eles descobrem pressupostos ocultos e refletem criticamente sobre as razões de nossas crenças e ações. A esta intensa atividade intelectual é que chamamos “filosofia”.

Podemos ainda definir a filosofia etimologicamente. Nesse sentido, o termo “filosofia” é composto por duas palavras gregas e significa literalmente “amor à sabedoria” (philos = amor, amizade; sophia = sabedoria). Por fim, podemos definir a filosofia estabelecendo uma relação entre ela e outros tipos de saber, e indicando em que ponto ela se distingue deles. Em suma, a filosofia difere da mitologia e da religião por sua ênfase em métodos e argumentos racionais; e difere da ciência moderna pelo pouco uso que faz de experimentos e observações empíricas, isto é, por geralmente não recorrer a procedimentos empiricamente verificáveis em suas investigações.


Escrevi este texto assim, muito claro, direto, conciso, sucinto, porque textos deste tipo, especialmente quando o que se promete é uma definição de filosofia, são muito raros. A grande maioria dos textos introdutórios que se propõem esclarecer ao leitor leigo o que é a filosofia ou não suprem a expectativa, deixando o leitor frustrado, sem uma resposta, ou oferecem uma definição ampla demais, vaga demais, vazia de significado demais. Isso é parcialmente compreensível e acontece por causa da própria natureza da filosofia, de fazer pensar em vez de fornecer respostas prontas; e principalmente por causa do medo que os autores têm de serem taxados de dogmáticos, por estarem sistematizando demais o assunto, quase que encaixotando uma definição padrão.

Eu não temo tal acusação. Considero uma grande virtude o poder de síntese, a habilidade de concisão, o saber indicar de modo sucinto e em poucas palavras a ideia principal, o ir direto ao ponto, sem enrolação, o não tomar desnecessariamente o tempo e a paciência do leitor ou ouvinte. Acredito que só entendeu realmente uma ideia quem é capaz de explicá-la em poucas palavras; e só compreendeu de fato um texto quem pode resumir a ideia principal em uma frase. Penso que essa irritante prolixidade para definir filosofia acontece porque aqui no Brasil somos muito influenciados pela tradição continental de filosofia contemporânea. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a tradição analítica é mais forte e mais presente, o paradigma é outro. Na página inicial do Departamento de Filosofia da Universidade Harvard, por exemplo, dois grandes botões direcionam os visitantes a textos muito curtos: What is Philosophy? (O que é filosofia?) e Why study Philosophy? (Por que estudar filosofia?). Como no artigo que publiquei acima, o Departamento de Filosofia de Harvard, considerado um dos melhores do mundo, explica a definição de filosofia de forma clara, direta e sucinta, de modo que qualquer leigo possa compreender muito rapidamente o que se faz ali naquele departamento.


“(…) De modo que, se os homens filosofaram para libertar-se da ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento unicamente em vista do saber e não por alguma utilidade prática. E o modo como as coisas se desenvolveram o demonstra: quando já se possuía praticamente tudo o de que se necessitava para a vida e também para o conforto e para o bem estar, então se começou a buscar essa forma de conhecimento. É evidente, portanto, que não a buscamos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e, mais ainda, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não está submetido aos outros, assim só esta ciência, dentre todas as outras, é chamada livre, pois só ela é fim para si mesma.” (Aristóteles, Metafísica A, 982 b, 19-27)


O filósofo e o futuro

Em geral, quando pensamos no futuro, tentamos imaginar o que será diferente, o que vai mudar. Daí surgem as mais variadas especulações sobre ciência, tecnologia e inovação. O papel do filósofo, ao contrário, é perguntar o que vai permanecer, o que vai continuar valendo, o que não vai mudar. Porque, afinal, é isso o que mais importa. Desisti de estudar jornalismo no primeiro ano do curso por um motivo muito simples: os textos jornalísticos não resistem ao tempo. Uma notícia incrivelmente bem escrita hoje, na qual o jornalista investiu tanto tempo, esforço e talento, estará velha amanhã. Os textos jornalísticos relatam fatos, e estes estão sempre presos ao tempo em que aconteceram. Passam-se os dias e aquela reportagem magnífica já ficou ultrapassada por novos fatos, novas notícias, novos tempos. Em vez de jornalismo, resolvi estudar filosofia. E o motivo não foi outro: os bons textos filosóficos, ao contrário dos jornalísticos, pretendem-se atemporais, almejam a imortalidade, resistem aos séculos. Platão e Aristóteles, 25 séculos depois, continuam atuais; enquanto que ninguém mais lembra o que William Bonner disse semana passada no Jornal Nacional.


O que é filosofia?

Trecho de um ensaio de Adonai Sant’Anna, doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), publicado originalmente por Produções Eclipse. Apesar da utilidade, considero essa tentativa de definição de filosofia muito prolixa pro meu gosto.


Em um primeiro momento pode-se afirmar que filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade. O problema desta definição reside principalmente na qualificação sobre o que, afinal, é verdade; sendo que o próprio conceito de verdade é tema de debate interminável entre filósofos há milênios. Ou seja, se aceitarmos esta primeira definição de filosofia, é seguro dizer que nem mesmo filósofos conseguem qualificar o que é filosofia, de maneira a estabelecer um consenso entre eles.

Do ponto de vista histórico, filosofia pode ser percebida como a origem dos estudos sistemáticos que visam responder a questões fundamentais levantadas por seres humanos a respeito do mundo físico, da metafísica, da vida, da moral, das artes e da própria natureza humana. Neste sentido, com o passar do tempo a filosofia foi diluída em múltiplas disciplinas, como física, matemática, biologia, química, economia, sociologia, psicologia, linguística, ciência política, entre outras. Consequentemente, existe uma tendência natural entre pessoas de julgar que filosofia é um ramo do conhecimento distinto de outros, como as ciências exatas e as ciências biológicas.

Já do ponto de vista social, este modo de percepção fica mais acentuado diante da realidade do mercado de trabalho, no qual muitos filósofos trabalham simplesmente como professores, pesquisadores ou escritores. Mesmo que um filósofo trabalhe como um consultor jurídico, um conselheiro político, um diretor de relações públicas, um publicitário, um jornalista ou um administrador de empresas, pessoas em geral tendem a percebê-lo como um consultor jurídico, um conselheiro, um diretor, um publicitário, um jornalista ou um administrador, mas não como um filósofo. Menos ainda como um profissional da filosofia aplicada. Esta percepção reside principalmente no fato de que discussões claramente identificadas como filosóficas, nos dias de hoje, têm um caráter altamente especulativo ou, pelo menos, sem consenso algum. Com efeito, até hoje os filósofos não chegaram a um acordo sobre o que é, afinal, a verdade.

Logo, a ironia da filosofia é que ela foi o ponto de partida para estudos metodológicos sobre o mundo e o ser humano, sendo que esses mesmos estudos promoveram um distanciamento da própria filosofia, no atual sentido acadêmico do termo. Quando um físico teoriza sobre a origem do universo, ou um biólogo teoriza sobre a origem da vida, essas ideias são essencialmente filosóficas, mesmo que os próprios pesquisadores não percebam desta forma. A separação entre filosofia e ciência, apesar de suas origens históricas, sociais, institucionais e pragmáticas, não é algo trivialmente perceptível no que diz respeito às finalidades últimas tanto da filosofia quanto da ciência.

A obra mais conhecida de Isaac Newton, por exemplo, é o livro Princípios Matemáticos de Filosofia Natural. A ideia de estabelecer princípios matemáticos fundamentais que regem dinâmicas de objetos materiais sob a ação de forças é algo de caráter essencialmente filosófico. O problema de entender a dinâmica de corpos físicos foi qualificado e respondido por Isaac Newton. Hoje esta obra é percebida como uma das grandes conquistas da física, sendo que na época foi compreendida como um inspirador passo dado pela filosofia natural. Tanto é verdade que o próprio conceito de força, na mecânica de Newton, chegou a ser percebido como um conceito metafísico por pensadores importantes, como Heinrich Hertz e Hermann von Helmholtz.

Em um encontro da British Association for the Advancement of Science, realizado em junho de 1833, o filósofo William Whewell argumentou o seguinte: “Assim como os praticantes de artes são chamados de artistas, os praticantes de ciências deveriam ser chamados de cientistas”. Foi então que nasceu o termo “cientista”. E rapidamente Isaac Newton passou a ser menos conhecido como simplesmente um filósofo, para então ser reconhecido como um dos mais importantes cientistas de todos os tempos.

O distanciamento entre ciência e filosofia deu um importante passo, neste momento, graças a um filósofo. Mas que ninguém jogue a culpa sobre Whewell! Isso porque um filósofo jamais deve deixar de expressar o que pensa, mesmo que seu pensamento seja de alguma forma prejudicial à própria filosofia, enquanto prática cultural. Este é tão somente um exemplo irônico de como o pensamento pode minar o próprio pensamento. Apesar do inegável impacto filosófico da obra de Newton, não é usual entre estudantes de filosofia de hoje o estudo de cálculo diferencial e integral. Cientistas são aqueles que resolvem problemas importantes, enquanto filósofos são aqueles que discutem sobre especulações que estão fora do alcance das ciências, como o sentido da vida, a utopia política, o conceito de belo, o livre arbítrio, a existência de Deus, a imortalidade da alma, a vida após a morte, a natureza metafísica do universo, etc.

Enquanto um cientista é aquele que sabe (ou pelo menos julga que sabe), um filósofo é aquele que incessantemente busca saber. A própria origem etimológica das palavras sustenta pelo menos parcialmente esta visão. “Filosofia” deriva do grego φιλοσοφία, ou seja, “amor à sabedoria”, enquanto “ciência” deriva do latim scire, que se traduz simplesmente como “saber”. O amor à sabedoria é uma postura de questionamento crítico, enquanto o saber é algo que permite efetivamente resolver problemas.

O sucesso da obra de Newton para derivar matematicamente as leis de Kepler passou a ser percebido por muitos como um saber, um conhecimento, uma crença verdadeira: as órbitas planetárias seguem as leis de Kepler por consequência das leis físicas enunciadas por Newton. O filósofo, por sua vez, é aquele que reconhece que existem outras possíveis formulações matemáticas que igualmente permitem descrever as órbitas planetárias, em acordo com os princípios percebidos por Kepler. A teoria da relatividade geral de Einstein é um exemplo bem conhecido de teoria que permite descrever órbitas planetárias semelhantes, sem apelar de forma alguma a qualquer conceito de força. Portanto, forças existem no mundo real ou não? Onde está a verdade no conceito de força?

Os estudos alquímicos de Newton costumam ser ignorados por cientistas em geral, como uma espécie de embaraçoso erro intelectual daquele que deu início à ciência moderna. Quase setenta anos após a morte de Newton, em 1796, o historiador James Pettit Andrew se referiu à alquimia como uma “fantástica pseudociência”. E foi assim que nasceu a necessidade de se promover uma distinção entre ciência e pseudociência. Mas filósofos também não conseguem entrar em um acordo sobre qual seria exatamente a diferença entre ciência e pseudociência. Por enquanto não quero estender esta discussão sobre o papel da filosofia ao longo da história, uma vez que este ramo do conhecimento atinge não apenas a física, mas também as artes, a política, a psicologia, entre outras áreas.

Por que afirmei no início deste texto que “filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade”? A resposta é simples. O ponto de partida de qualquer investigação filosófica é invariavelmente uma pergunta. E perguntas são comumente formuladas na esperança de se obter respostas. Essas respostas surgem à medida que investigações são feitas, de maneira sistemática e crítica.


A filosofia é superior?

Artigo de Luiz Helvécio Marques Segundo, professor de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais, publicado originalmente no portal Crítica.


É prática comum entre nós apresentar a filosofia ao grande público ou aos alunos que têm seu primeiro contato com a disciplina louvando-a como um presente dos deuses aos meros mortais. Dizem que nada lhe pode ser superior e que qualquer área de investigação lhe é subserviente. É como se o filósofo tivesse um acesso privilegiado à verdade. Dizem também que nada pode ser mais prático, pois a filosofia liberta o ser humano dos grilhões da ignorância. Salvo um pequeno fundo de verdade dessa última afirmação, o resto é enganador. A filosofia não é mais importante que a física, ou a matemática, ou a história; tem exatamente o mesmo valor que qualquer outra atividade cognitiva. E como essas disciplinas, tem também aplicações práticas.

O estudo da filosofia abarca apenas uma parte da realidade, a parte que diz respeito àquelas questões que só podem ser tratadas através da argumentação e do raciocínio intenso. O filósofo não se preocupa em responder questões do tipo “Qual é a constituição do átomo?” ou “É o teorema de Fermat verdadeiro?” ou ainda “Quais foram as causas da segunda grande guerra?”. Ao invés, tenta responder questões do tipo “Será toda a realidade formada apenas de partículas elementares, ou será que há coisas como pensamentos, números ou deuses?”, “Há limites para o conhecimento humano?” ou ainda “Há ações certas e ações erradas?”. Isso não significa que o filósofo despreze a ciência, significa apenas que o campo de investigação da filosofia é diferente do das ciências como a matemática, física ou história. A filosofia muitas vezes precisa da ciência, assim como a ciência da filosofia.

Assim como a filosofia tem seus limites de investigação de certo modo determinados, o mesmo acontece com a física ou a história. O físico tratará da parte da realidade onde há campos, átomos, energia, etc. O historiador tratará da parte da realidade onde estão envolvidos fatos importantes para o mundo e que precisam de ser interpretados, reconstituídos e documentados. Tentará mostrar, por exemplo, como se encadeiam os motivos que levaram as sociedades feudais européias a dar início às cruzadas. Bom seria se pudéssemos tratar disso tudo de uma só vez, mas infelizmente não é esse o caso. Somos limitados cognitivamente e essa limitação só nos permite investigar uma coisa de cada vez. Já se vê por que razão a filosofia não é mais importante que as outras áreas de investigação. Para oferecer uma explicação razoável da realidade precisamos dos melhores resultados de cada área de investigação. É como se estivéssemos a montar um quebra-cabeças: cada peça é igualmente importante para o resultado final — se faltar uma peça, ficamos sem conhecer pelo menos aquilo que estava naquela peça e o que ela representava no resultado final. O mesmo acontece no quebra-cabeças da realidade: se uma das áreas de investigação não fornece as peças que lhe cabem, a nossa imagem da realidade será pior do que se as tivéssemos.

A situação poderia ser revertida: há peças dispensáveis no quebra-cabeças da realidade, e tais peças são justamente as fornecidas pela filosofia. Geralmente, ouvimos essa reação com a famosa e irritante “A filosofia não serve para nada!”. Talvez alguns também protestassem que a filosofia só fornece pseudo-peças, pois só as ciências são capazes de fornecer as peças originais. Mas a resposta a isto é fácil; basta olhar para o quebra-cabeças: muitas pessoas acreditam em Deus, acreditam que o aborto ou a eutanásia são errados, e há também aqueles que acreditam que só as ciências empíricas (física, biologia, química, etc.) é que podem oferecer conhecimento genuíno sobre a realidade. É inegável que essas crenças são importantes para a maioria de nós; e defendê-las não deixa de ser menos importante. Ora, ninguém vai ao laboratório para tentar provar sua verdade; ao invés, usa o raciocínio puro para tentar mostrar a verdade dessas crenças. Portanto, as peças que a filosofia fornece ao nosso quebra-cabeças não são menos importantes do que as peças que a física, a biologia ou a história fornecem. E na aplicação, qual é a mais importante? A física oferece conhecimento suficiente para a construção de aviões, transferência de dados via internet, operações de correção da visão, etc. O avanço na biologia possibilitou a cura da pneumonia; e o estudo da história nos ajuda a evitar os erros que humanidade cometeu no passado.

E a filosofia? Bem, a filosofia… pode nos libertar dos grilhões da ignorância. A expressão “libertar dos grilhões da ignorância” é um tanto pomposa; melhor substitui-la por “a filosofia aguça nosso olhar crítico sobre a realidade”. Neste sentido, a aplicação prática da filosofia nada deve à das ciências. Mas a contribuição mais importante da filosofia para nossas vidas comuns é mesmo a avaliação de argumentos. Avaliar argumentos não é uma atividade exclusiva da filosofia, fazemos isso também em outras áreas. No entanto, pelo fato de a filosofia ser uma disciplina de natureza a priori, isto é, feita pelo raciocínio apenas, a avaliação de argumentos é uma de suas tarefas principais; e sendo esta uma tarefa principal, é de se esperar um grande avanço nas técnicas de avaliação de argumentos. Qualquer bom manual de lógica fornecerá uma quantidade razoável dessas técnicas. Ao avaliar argumentos filosóficos, os filósofos dão atenção às ambiguidades da linguagem natural, procuram imprecisões e ideias escondidas, e tentam tornar algumas ideias mais plausíveis, entre outras atividades.

Em suma, a filosofia torna nossa capacidade de pensamento muito mais precisa e eficaz. É de se esperar, portanto, que em situações corriqueiras onde estejam envolvidos argumentos, alguém que pense como um filósofo tenha mais probabilidades de avaliar corretamente tais argumentos e dizer se são bons ou não. O estudo da filosofia, portanto, fornece algo precioso ao ser humano: a capacidade para avaliar cuidadosamente as justificações que alguém tem para determinadas ações ou crenças. Mesmo não sendo a atividade intelectual mais importante — não há a mais importante! — a filosofia compõe, com certeza, uma parte interessante da investigação do quebra-cabeças da realidade. E ao montar essa parte do quebra-cabeças adquirimos certas capacidades extraordinárias para avaliar e oferecer razões a favor ou contra muitos dos nossos pontos de vistas mais comuns. Eis a modesta contribuição da filosofia para o ser humano comum.

Os filósofos mais importantes do ocidente

Quais são os filósofos mais influentes e importantes para a cultura e civilização ocidental? A metodologia que usei para responder a essa pergunta foi muito simples e a pesquisa levou menos de uma hora para ser concluída. Primeiro eu pesquisei por “filosofia” na página em língua portuguesa e por “philosophy” na página em língua inglesa da Wikipedia. Uma vez abertas as respectivas páginas sobre “filosofia” na Wikipedia (em português e inglês), usei o bom e velho “Ctrl+F” para localizar, em cada uma das páginas, referências aos nomes dos maiores filósofos que a humanidade produziu e a tradição consagrou. Em seguida fiz uma lista com os 18 filósofos cujos nomes aparecem mais vezes, tanto na página em português como em inglês. Depois disso, somei os dois resultados e obtive uma lista geral. Todo esse trabalho está resumido na tabela a seguir. Merece destaque o distanciamento com que os filósofos gregos clássicos (Platão e Aristóteles) lideram o ranking. Depois deles, os modernos Kant e Descartes aparecem também com certa folga em relação aos demais.

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Se você tem alguma noção de filosofia e consegue ler razoavelmente em inglês, vai se divertir respondendo este pequeno teste. São 12 questões simples de múltipla escolha sobre variados temas e problemas filosóficos. Não há respostas certas ou erradas: o que se espera é a sua opinião honesta sobre cada tema. A partir de suas respostas, um algoritmo irá dizer com qual filósofo (ou escola) suas ideias mais se assemelham. Sem nenhuma surpresa, meu resultado deu majoritariamente Platão (82%) e Aristóteles (78%). Os filósofos aos quais eu menos me assemelho são Nietzsche e Sartre. Mas então, qual filósofo você é? CLIQUE AQUI PARA FAZER O TESTE.


O gráfico das ideias

O britânico Simon Raper usou um algoritmo para processar dados extraídos da Wikipedia e montar o infográfico abaixo, no qual cada filósofo é representado por um nó na rede e as linhas entre eles representa as respectivas influências. O algoritmo que produziu o gráfico foi programado para colocar os nós mais conectados no centro do diagrama, assim vemos os nomes dos filósofos mais influentes em tamanho maior e agrupados no centro. As cores representam as diferentes escolas e tradições filosóficas.

Clique na imagem para ver no tamanho original:

Inspirado pela criação de Raper, o blog Griffs Graphs resolveu ir mais longe nessa empreitada. Usando o mesmo algoritmo, eles montaram um gráfico ainda mais completo, incluindo, além dos filósofos, políticos, cientistas, artistas, escritores e todos os demais pensadores mais importantes de todos os tempos e de todas as áreas do saber. O resultado foi esse abaixo. Clique na imagem para ver no tamanho original:


O infográfico em formato de fluxograma abaixo é uma excelente ferramenta para quem estuda Filosofia Antiga, especialmente os filósofos pré-socráticos. Os nomes são posicionados de cima para baixo conforme a linha do tempo (lado esquerdo), as cores representam as diferentes escolas (legenda do lado direito) e as setas representam as influências (as vermelhas por oposição). Clique na imagem para vê-la em tamanho maior.

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