Você já leu um texto idiota hoje?

Boa parte de nossas leituras do cotidiano só serve para nos irritar. Esse é o tema do artigo a seguir, de Danilo Venticinque para a revista Época.


Qual foi a última vez que você leu um texto sabendo que iria detestá-lo? Fiz isso hoje. Dezenas de amigos publicaram no Facebook um artigo de um polemista que eu prometi não mais levar a sério há anos. O título já deixava claro que o tema era ridículo, até mesmo para os padrões do autor. Os comentários de quem compartilhava também indicavam isso: dedicavam-se a explicar, das mais diferentes maneiras, o quanto o artigo era lamentável. A despeito dos avisos, cliquei no link. Perdi cinco minutos e confirmei duas certezas: o texto era, de fato, ridículo – e eu era ridículo por dar atenção a ele.

Fazer propaganda negativa é uma maneira infalível de chamar atenção para um texto na internet. Estamos sempre ocupados demais para leituras de fôlego, mas jamais perdemos a oportunidade de ver alguém usar argumentos rasteiros, tentar defender o indefensável e protagonizar uma peça de humor involuntário. Como se não bastasse perder nosso tempo, ainda compartilhamos os textos que detestamos para garantir que nossos amigos também cairão na mesma armadilha. No fim do dia, milhares terão trocado alguns minutos de seus dias por uma leve irritação, uma vaga sensação de superioridade e nenhum aprendizado.

A culpa, evidentemente, não é do autor do texto. Temos o privilégio de viver numa época em que qualquer um pode publicar qualquer opinião, mesmo que todos os outros habitantes do país discordem. Se a polêmica barata ganha projeção, os culpados são os leitores, que seguem lendo e – pior – compartilhando textos que detestam. Fãs de séries de televisão criaram um verbo para isso: “hatewatch” (algo como “assistir com ódio”). É o velho hábito de acompanhar um programa ruim apenas pelo prazer de criticá-lo.

Há quem faça o mesmo com a literatura. Cansei de ver leitores que se prendem a um livro ruim até a última página só para dizer, com satisfação pelo dever cumprido: “li tudo e detestei”. Esse costume se repete na internet, mas há um agravante. Quando alguém de confiança nos diz que um livro ou série de televisão é péssimo, a tendência é que procuremos outra coisa para ler ou assistir. Ninguém tem horas sobrando para gastar com bobagens. Com as leituras online, o instinto é fazer o oposto. Quanto mais amigos disserem que um texto é desprezível, menores são as nossas chances de desprezá-lo. Afinal, o que são cinco minutos?

Não canso de repetir: quem diz que as pessoas leem pouco hoje em dia está enganado. Lemos muito, mas escolhemos muito mal – e às vezes parecemos nos orgulhar disso. De cinco em cinco minutos dedicados a alardear a ignorância alheia, desperdiçamos todo nosso tempo de leitura e passamos dias inteiros sem aprender nada. Com a enorme quantidade de informações que temos a nossa disposição, é preciso muito esforço para escolher sempre tão mal. Para cada texto idiota no Facebook há incontáveis leituras valiosas que podem ser feitas sem sair da frente do computador.

A liberdade que permite a qualquer um publicar as maiores bobagens também permite que ignoremos a idiotice alheia e cliquemos em algo mais interessante. Por que não exercer esse direito? Quando aquele polemista divulgar sua mais nova barbaridade (como são produtivos!), pense nos outros milhões de textos que você poderia ler em vez de prestigiá-lo. Resista. Compartilhe outra coisa. Os idiotas não se tornarão menos idiotas sem a sua reprovação. Só terão um leitor a menos. Você, em compensação, ganhará tempo e sanidade se aprender a ignorá-los.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta:

%d blogueiros gostam disto: