Universidade faz mal para a fé?

universidade-religiao-exatas-e-biologicasArtigo de Marcio Campos no blog Tubo de Ensaio.

Num dos capítulos finais de O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan mostra como nossa sociedade desestimula a curiosidade das crianças, impedindo que no futuro elas se interessem pela carreira científica. Bom, eu ainda não tenho filhos, mas quando tiver, certamente ficaria muito orgulhoso caso eles resolvessem se tornar cientistas. Mas não sei até que ponto pais religiosos ficam receosos quando os filhos entram na universidade. Josemaría Escrivá falava das pessoas que, ao entrar no ensino superior, largavam sua religiosidade “como quem deixa o chapéu à porta”. Mas afinal, a universidade faz mal à fé dos estudantes? Ateus militantes dizem que, quanto mais conhecimento científico, menos superstição (a palavra preferida deles para designar a religião). Será verdade?

Quatro pesquisadores da Universidade de Michigan resolveram verificar qual o impacto do ensino superior sobre a religiosidade dos estudantes. Eles publicaram seu estudo na internet e chegaram a conclusões interessantes. Vale a pena mencionar que os pesquisadores escolheram a universidade porque, para muitos jovens, é a primeira ocasião em que eles se separam dos pais (e de sua influência), tendo contato com novas ideias e grupos. Entre essas ideias estão o cientificismo, o pós-modernismo e o desenvolvimentismo, que têm impacto sobre as crenças religiosas e serão descritas detalhadamente pelos autores antes da apresentação dos resultados.

Aliás, falando em resultados, parece que o autor do PDF teria feito melhor se colocasse as tabelas e gráficos no lugar certo, em vez de deixar tudo no fim do artigo. De qualquer modo, me parece que os dados mais significativos estejam na Tabela 2. Lá, a pesquisa revela que optar pela formação em ciências Biológicas ou Exatas tem pouco efeito sobre a religiosidade dos universitários, tanto do ponto de vista da importância que cada um atribui à religião em suas vidas quanto em relação à frequência aos cultos religiosos. Uma possível exceção seria o impacto dos estudos na área de Matemática e Física diminuindo a importância da religião para os estudantes, mas não a participação nas cerimônias.

universidade-religiao-humanas-e-sociaisPor outro lado, quem realmente faz estrago na cabeça dos universitários são as ciências Humanas e Sociais. Já quem escolhe os cursos ligados à área de Educação acaba tendo sua religiosidade reforçada. O que isso indica? Que, daquelas três ideias acima, o pós-modernismo é mais daninho à religiosidade que o cientificismo; e posso ver o motivo – até porque na faculdade tentaram enfiar esse negócio na minha cabeça, mas não deu certo. O cerne da pós-modernidade é o relativismo, a noção de que as verdades absolutas não existem (curiosamente ninguém comenta que a “inexistência de verdades absolutas” é ironicamente propagandeada como… verdade absoluta). Como a maioria das religiões alega justamente o contrário, deixar-se convencer pelos teóricos pós-modernos leva ao enfraquecimento da fé.

Os pesquisadores também verificaram como a religiosidade influi na escolha da carreira a seguir, embora esta parte do estudo leve em consideração apenas universitários que fizeram uma nova opção de curso após desistir do anterior (os autores consideraram que a primeira escolha pode ter sido influenciada pela família, enquanto a segunda é mais certamente uma opção pessoal). Curiosamente, quanto maior a religiosidade dos estudantes, maior a chance de eles acabarem escolhendo um curso de Humanas ou Sociais – justamente aquelas que mais danificam o senso religioso dos universitários.

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