Espécies extintas podem voltar à vida?

a-era-do-geloOs avanços nas técnicas de clonagem e de biologia molecular trazem novas perspectivas para a biologia da conservação. A possibilidade de trazer espécies extintas de volta à vida se torna cada vez mais concreta e começa a gerar uma discussão sobre um campo emergente da ciência, que está sendo chamado de “desextinção”. Se for possível ressuscitar espécies que entraram em extinção devemos fazer isso? Quais seriam as consequências para os animais que ainda estão por aqui? Por que utilizar recursos para projetos de desextinção se podemos investir na conservação de espécies ameaçadas que habitam a Terra neste momento? Para responder a essas perguntas, a National Geographic irá sediar o primeiro fórum público para discutir tema: O TedxDeExtinction.

O evento acontecerá amanhã (15 de março) das 9h30 às 18h (horário de Brasília), no Grosvenor Auditorium, na sede da National Geographic, em Washington, D.C. O evento também será transmitido ao vivo pela internet nos sites de National Geographic e TEDx.com (Technology, Entertainment and Design: Ideas Worth Spreading) – organização sem fins lucrativos dedicada ao conceito baseado em “ideias que merecem ser espalhadas”, na tradução literal do slogan em inglês. Os pesquisadores também irão apresentar projetos para trazer o mamute (Mammuthus primigenius), o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus), o íbex-dos-pirineus (Capra pyrenaica), o auroque (Bos primigenius) e o pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) de volta à vida.

Mais Informações: TEDxDeExtinction.

As Aventuras de Pi

Indicado ao Oscar de melhor filme, “As Aventuras de Pi” (2012) surpreende ao oferecer uma visão alternativa sobre a experiência do sagrado. O longa-metragem é baseado no livro best-seller escrito em 2001 por Yann Martel, uma narrativa em parte fantasia e em parte relato da luta pela sobrevivência, que discute o lugar do homem na natureza.

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Aos 40 anos, Pi é entrevistado por um jornalista sobre a história que mudou para sempre a sua vida: ser o único sobrevivente de um naufrágio quando era adolescente. A trama, toda em forma de flashback pelo protagonista, criará uma situação metalinguística interessante: em qual versão da história devemos acreditar? De Pi, do jornalista que transcreverá a história ou do autor do livro que supostamente teria se baseado na entrevista que Pi deu ao jornalista?

A história é a seguinte: Pi é um garoto indiano, filho de um dono de zoológico, vegetariano e muito religioso. Na sua busca pelo sentido da existência acaba confessando 3 religiões diferentes ao mesmo tempo: hinduísmo, islamismo e cristianismo. Numa determinada cena, seu pai é irônico sobre isso: “Se você se converter a mais umas 2 religiões, não precisará mais trabalhar, pois todo o seu calendário será feriado”. Quando Pi finalmente começa a se encontrar na vida e conhece um grande amor, seu pai, em dificuldade financeira, decide recomeçar a vida do outro lado do mundo, no Canadá, para onde pretende levar a família e vender os animais.

A cena que segue lembra a arca de Noé: um navio cheio de animais selvagens. No meio da viagem, em pleno Oceano Pacífico e sobre a temida Fossa das Marianas, uma tormenta afunda o navio matando todos à bordo, incluindo toda a família de Pi. Pi é a única pessoa que sobrevive, junto com um orangotango, uma zebra, uma hiena e o ameaçador tigre de bengala Richard Parker (é assim que ele é chamado), todos em um bote salva-vidas. Começa então a sua luta pela sobrevivência, uma jornada que colocará Pi diante de sucessivas provações que abalam sua relação com Deus, da necessidade de abandonar o vegetarianismo para se alimentar de peixes, e da violência de seus novos companheiros, já que a pequena embarcação cria uma amostra da cadeia alimentar, sobrando apenas Pi e o tigre.

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Após meses à deriva, tendo que oferecer (em sacrifício?) a maior parte dos peixes que conseguia pescar ao tigre para aplacar sua fome (ira?) e não ser devorado (castigado?) por ele, Pi finalmente é levado pela correnteza à costa do México e encontrado por pescadores locais, sendo levado imediatamente a um hospital. Dias depois, ele reconhece que, não fosse a presença imponente e amedrontadora do tigre,  não teria sobrevivido. Sua mente permaneceu lúcida e ativa por causa do medo constante que a fera selvagem oferecia (além de ter uma companhia, claro).

Ainda no hospital, Pi é procurado e interrogado por representantes da seguradora e da empresa responsável pelo navio, para que relatasse o ocorrido. Os executivos, como era de se esperar, não aceitaram a história fantasiosa de Pi, com todos aqueles animais e acontecimentos milagrosos e irrealistas. Então ele deu o que os executivos queriam e passou a contar-lhes outra versão, bem mais chata, normal, padrão. Enfim, a “versão oficial”, que foi amplamente divulgada na imprensa e arquivada nos relatórios.

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Ao concluir a sua história para o jornalista, o velho Pi coloca-o diante de uma escolha: “Eu lhe contei duas histórias. Nas duas o navio afunda, minha família morre e eu sofro. Qual das duas você prefere?” E é então respondido: “A que tem um tigre”. Então ele acrescenta: “É a mesma coisa com relação a Deus”. A analogia é facilmente percebida por qualquer espectador mais atento. Pi de repente se acha sozinho em um pequeno bote salva-vidas no meio da imensidão do oceano pacífico, sem o menor sinal de terra firme a milhares de quilômetros de distância. Acima dele apenas o céu, com todas as surpresas que reserva, vez ou outra trazendo assustadoras tempestades, relâmpagos e trovões. Abaixo dele a temível Fossa das Marianas, o ponto mais profundo da Terra, com incríveis 11 mil metros de profundidade, e escondendo em suas trevas as mais terríveis criaturas marinhas.

Pi é claramente uma representação da humanidade, presa neste pequeno bote salva-vidas que é o planeta Terra, que flutua sobre a vastidão do Universo desconhecido. Mas e o tigre? O que ele representa? Obviamente que, para o autor, o tigre é a representação de Deus. Assim como a existência humana, a história de Pi pode ser encarada de duas formas: ou ele está sozinho no meio do nada, sem esperanças e sem achar sentido para a existência; ou ele tem a companhia de um tigre, e dá sentido aos seus dias fugindo dele, alimentando-o e tentando uma aproximação amigável.

NOTA: A reflexão acima foi a minha interpretação pessoal do filme. No entanto, o próprio filme foi construído de modo a poder ser interpretado através de vários outros pontos de vista. Você pode assistir o filme e deduzir muitas outras analogias por si mesmo.

A arte de envelhecer

idosos velhiceO tema da velhice foi o objeto de brilhantes filósofos ao longo dos tempos. Um dos melhores livros sobre o assunto foi escrito pelo pensador e orador romano Cícero (106-43 a.C.): A arte do envelhecimento. Cícero nota, primeiramente, que todas as idades têm seus encantos e suas dificuldades. E depois aponta para um paradoxo da humanidade. Todos sonhamos ter uma vida longa, o que significa viver muitos anos. Quando realizamos a meta, em vez de celebrar o feito, nos atiramos em um estado de melancolia e amargura. “Todos os homens desejam alcançar a velhice, mas ao ficarem velhos se lamentam”, escreve. Para Cícero, “os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a idade, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade”.

Um  ótimo exemplo disso foi a francesa Jeanne L. Calment, que morreu aos 122 anos em 1997. Jeanne foi a pessoa que mais viveu no mundo desde os lendários personagens do Gênesis – como Matusalém (969 anos). “Deus deve ter se esquecido de mim”, brincava sempre a anciã. Em seu 110º aniversário, a francesa disse bem humorada: “Eu só tenho uma ruga, e estou sentada em cima dela neste momento”.

Permanecer intelectualmente ativo é uma forte recomendação de Cícero. “A memória declina se não a cultivamos ou se carecemos de vivacidade de espírito”, disse. Cícero lembra que Sófocles em idade avançada ainda escrevia suas tragédias. No fim da vida, Sócrates aprendeu a tocar lira. Catão, na velhice, descobriu a literatura grega. Machado de Assis, para citar um brasileiro, aprendeu alemão também na velhice, língua na qual escreveu seus melhores romances. “A vida segue um curso preciso e a natureza dota cada idade de suas qualidades próprias”, escreveu Cícero. “Por isso, a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos e a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.” Sem dúvida, ler as palavras de Cícero sobre o envelhecimento pode ajudar a aceitar melhor a passagem do tempo. Em outras palavras: ler Cícero dá mais resultado do que Botox!

Com informações de: Revista Época.

“Não sejas demasiado justo”

A crônica a seguir é de Rubem Alves e foi publicada no caderno de cultura da Folha de S.Paulo em abril de 2008. Para mim, em particular, este texto é especial porque, no mesmo ano, ele serviu de base para a prova de Língua Portuguesa do Concurso Público da UFPB – através do qual fui selecionado para o meu emprego atual. Não só por isso, mas também pela questão polêmica e relevante que aborda, trata-se de um texto belíssimo que merece ser lido e refletido.


Era um debate sobre o aborto na TV. A questão não era “ser a favor” ou “contra o aborto”. O que se buscava eram diretrizes éticas para se pensar sobre o assunto. Será que existe um princípio ético absoluto que proíba todos os tipos de aborto? Ou será que o aborto não pode ser pensado “em geral”, tendo de ser pensado “caso a caso”? Por exemplo: um feto sem cérebro. É certo que morrerá ao nascer. Esse não seria um caso para se permitir o aborto e poupar a mulher do sofrimento de gerar uma coisa morta por nove meses?

Um dos debatedores era um teólogo católico. Como se sabe, a ética católica é a ética dos absolutos. Ela não discrimina abortos. Todos os abortos são iguais. Todos os abortos são assassinatos. Terminando o debate, o teólogo concluiu com a seguinte afirmação: “Nós ficamos com a vida!” O mais contundente nessa afirmação está, não naquilo que ela diz claramente, mas naquilo que ela diz sem dizer: “Nós ficamos com a vida. Os outros, que não concordam conosco, ficam com a morte”. Mas eu não concordo com a posição teológica da igreja. Sou favorável, por razões de amor, ao aborto de um feto sem cérebro; e sustento que o princípio ético supremo é a reverência pela vida.

Lembrei-me do filme “A Escolha de Sofia”. Sofia, mãe de dois filhos, numa estação ferroviária da Alemanha nazista. Um trem aguardava aqueles que iriam morrer nas câmaras de gás. O guarda que fazia a separação olha para Sofia e lhe diz: “Apenas um filho irá com você. O outro embarcará nesse trem”. E apontou para o trem da morte. Já me imaginei vivendo essa situação: meus dois filhos (como os amo!), eu os seguro pelas mãos, seus olhos nos meus. A alternativa à minha frente é: ou morre um ou morrem os dois. Tenho de tomar a decisão. Se eu me recusasse a decidir pela morte de um, alegando que eu fico com a vida, os dois seriam embarcados no trem da morte. Qual deles escolherei para morrer? A ética do teólogo católico não ajudaria Sofia.

Você é médico, diretor de uma UTI que, naquele momento, está lotada, todos os leitos tomados, todos os recursos esgotados. Chega um acidentado grave que deve ser socorrido imediatamente para não morrer. Para aceitá-lo, um paciente deverá ser desligado das máquinas que o mantém vivo. Qual seria a sua decisão? Qual princípio ético o ajudaria na sua decisão? Qualquer que fosse a sua decisão, por causa dela uma pessoa morreria. Lembro-me do incêndio do edifício Joelma. Na janela de um andar alto, via-se uma pessoa presa entre as chamas que se aproximavam e o vazio à sua frente. Em poucos minutos as chamas a transformariam numa fogueira. Para ela, o que significa dizer “eu fico com a vida”? Ela ficou com a vida: lançou-se para a morte.

Ah! Como seria simples se as situações da vida pudessem ser assim colocadas com tanta simplicidade: de um lado a vida e do outro a morte. Se assim fosse, seria fácil optar pela vida. Mas essa encruzilhada simples entre o certo e o errado só acontece nos textos de lógica. O escritor sagrado tinha consciência das armadilhas da justiça em excesso e escreveu: “Não sejas demasiado justo porque te destruirás a ti mesmo” (Eclesiastes 7:16).

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