O que é filosofia?

Trecho de um ensaio de Adonai Sant’Anna, doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), publicado originalmente por Produções Eclipse. Apesar da utilidade, considero essa tentativa de definição de filosofia muito prolixa pro meu gosto. Se quiser uma definição que vá direto ao ponto, leia meu post intitulado Breve definição de filosofia.


Em um primeiro momento pode-se afirmar que filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade. O problema desta definição reside principalmente na qualificação sobre o que, afinal, é verdade; sendo que o próprio conceito de verdade é tema de debate interminável entre filósofos há milênios. Ou seja, se aceitarmos esta primeira definição de filosofia, é seguro dizer que nem mesmo filósofos conseguem qualificar o que é filosofia, de maneira a estabelecer um consenso entre eles.

Do ponto de vista histórico, filosofia pode ser percebida como a origem dos estudos sistemáticos que visam responder a questões fundamentais levantadas por seres humanos a respeito do mundo físico, da metafísica, da vida, da moral, das artes e da própria natureza humana. Neste sentido, com o passar do tempo a filosofia foi diluída em múltiplas disciplinas, como física, matemática, biologia, química, economia, sociologia, psicologia, linguística, ciência política, entre outras. Consequentemente, existe uma tendência natural entre pessoas de julgar que filosofia é um ramo do conhecimento distinto de outros, como as ciências exatas e as ciências biológicas.

Já do ponto de vista social, este modo de percepção fica mais acentuado diante da realidade do mercado de trabalho, no qual muitos filósofos trabalham simplesmente como professores, pesquisadores ou escritores. Mesmo que um filósofo trabalhe como um consultor jurídico, um conselheiro político, um diretor de relações públicas, um publicitário, um jornalista ou um administrador de empresas, pessoas em geral tendem a percebê-lo como um consultor jurídico, um conselheiro, um diretor, um publicitário, um jornalista ou um administrador, mas não como um filósofo. Menos ainda como um profissional da filosofia aplicada. Esta percepção reside principalmente no fato de que discussões claramente identificadas como filosóficas, nos dias de hoje, têm um caráter altamente especulativo ou, pelo menos, sem consenso algum. Com efeito, até hoje os filósofos não chegaram a um acordo sobre o que é, afinal, a verdade.

Logo, a ironia da filosofia é que ela foi o ponto de partida para estudos metodológicos sobre o mundo e o ser humano, sendo que esses mesmos estudos promoveram um distanciamento da própria filosofia, no atual sentido acadêmico do termo. Quando um físico teoriza sobre a origem do universo, ou um biólogo teoriza sobre a origem da vida, essas ideias são essencialmente filosóficas, mesmo que os próprios pesquisadores não percebam desta forma. A separação entre filosofia e ciência, apesar de suas origens históricas, sociais, institucionais e pragmáticas, não é algo trivialmente perceptível no que diz respeito às finalidades últimas tanto da filosofia quanto da ciência.

A obra mais conhecida de Isaac Newton, por exemplo, é o livro Princípios Matemáticos de Filosofia Natural. A ideia de estabelecer princípios matemáticos fundamentais que regem dinâmicas de objetos materiais sob a ação de forças é algo de caráter essencialmente filosófico. O problema de entender a dinâmica de corpos físicos foi qualificado e respondido por Isaac Newton. Hoje esta obra é percebida como uma das grandes conquistas da física, sendo que na época foi compreendida como um inspirador passo dado pela filosofia natural. Tanto é verdade que o próprio conceito de força, na mecânica de Newton, chegou a ser percebido como um conceito metafísico por pensadores importantes, como Heinrich Hertz e Hermann von Helmholtz.

Em um encontro da British Association for the Advancement of Science, realizado em junho de 1833, o filósofo William Whewell argumentou o seguinte: “Assim como os praticantes de artes são chamados de artistas, os praticantes de ciências deveriam ser chamados de cientistas”. Foi então que nasceu o termo “cientista”. E rapidamente Isaac Newton passou a ser menos conhecido como simplesmente um filósofo, para então ser reconhecido como um dos mais importantes cientistas de todos os tempos.

O distanciamento entre ciência e filosofia deu um importante passo, neste momento, graças a um filósofo. Mas que ninguém jogue a culpa sobre Whewell! Isso porque um filósofo jamais deve deixar de expressar o que pensa, mesmo que seu pensamento seja de alguma forma prejudicial à própria filosofia, enquanto prática cultural. Este é tão somente um exemplo irônico de como o pensamento pode minar o próprio pensamento. Apesar do inegável impacto filosófico da obra de Newton, não é usual entre estudantes de filosofia de hoje o estudo de cálculo diferencial e integral. Cientistas são aqueles que resolvem problemas importantes, enquanto filósofos são aqueles que discutem sobre especulações que estão fora do alcance das ciências, como o sentido da vida, a utopia política, o conceito de belo, o livre arbítrio, a existência de Deus, a imortalidade da alma, a vida após a morte, a natureza metafísica do universo, etc.

Enquanto um cientista é aquele que sabe (ou pelo menos julga que sabe), um filósofo é aquele que incessantemente busca saber. A própria origem etimológica das palavras sustenta pelo menos parcialmente esta visão. “Filosofia” deriva do grego φιλοσοφία, ou seja, “amor à sabedoria”, enquanto “ciência” deriva do latim scire, que se traduz simplesmente como “saber”. O amor à sabedoria é uma postura de questionamento crítico, enquanto o saber é algo que permite efetivamente resolver problemas.

O sucesso da obra de Newton para derivar matematicamente as leis de Kepler passou a ser percebido por muitos como um saber, um conhecimento, uma crença verdadeira: as órbitas planetárias seguem as leis de Kepler por consequência das leis físicas enunciadas por Newton. O filósofo, por sua vez, é aquele que reconhece que existem outras possíveis formulações matemáticas que igualmente permitem descrever as órbitas planetárias, em acordo com os princípios percebidos por Kepler. A teoria da relatividade geral de Einstein é um exemplo bem conhecido de teoria que permite descrever órbitas planetárias semelhantes, sem apelar de forma alguma a qualquer conceito de força. Portanto, forças existem no mundo real ou não? Onde está a verdade no conceito de força?

Os estudos alquímicos de Newton costumam ser ignorados por cientistas em geral, como uma espécie de embaraçoso erro intelectual daquele que deu início à ciência moderna. Quase setenta anos após a morte de Newton, em 1796, o historiador James Pettit Andrew se referiu à alquimia como uma “fantástica pseudociência”. E foi assim que nasceu a necessidade de se promover uma distinção entre ciência e pseudociência. Mas filósofos também não conseguem entrar em um acordo sobre qual seria exatamente a diferença entre ciência e pseudociência. Por enquanto não quero estender esta discussão sobre o papel da filosofia ao longo da história, uma vez que este ramo do conhecimento atinge não apenas a física, mas também as artes, a política, a psicologia, entre outras áreas.

Por que afirmei no início deste texto que “filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade”? A resposta é simples. O ponto de partida de qualquer investigação filosófica é invariavelmente uma pergunta. E perguntas são comumente formuladas na esperança de se obter respostas. Essas respostas surgem à medida que investigações são feitas, de maneira sistemática e crítica.

Memória fraca

Crônica de Pablo Capistrano, professor de filosofia de Natal-RN.

Costumo esquecer os nomes. De vez em quando eu olho alguém que já conheço faz tempo mas que não vejo há um bocado de anos e… travo. Esqueço o nome. Coisa de quem tem dislexia. Esqueço também o nome de coisas. Às vezes eu penso num objeto, faço a imagem mental, aponto até para ele na minha frente… e minha mente apaga. Fico irritado como se a falha na memória fosse um pecado, um deslize moral, uma distorção despudorada. Eu posso esquecer dos nomes das coisas e das pessoas, mas não esqueço das coisas e das pessoas. E também não fico feliz com a ausência dos signos em minha mente quando eu mais preciso deles.

Quando o filosofo alemão Martin Heidegger se meteu a estudar a cultura clássica e começou a se debruçar diante da etimologia profunda das palavras em grego, redefiniu vários conceitos da filosofia ocidental com base nesse joguinho. Uma das palavras mais fortes redefinidas por Heidegger é Aletheia, que em grego quer dizer “verdade, realidade”. Ela está relacionada a lanthanein e duas outras formas mais arcaicas: lethein, que significa “passar despercebido, não ser visto”, e lethe, que significa “esquecer”. Nesse sentido, a-lethes ou a-letheia significa algo mais profundo. Significa “não escondido ou não esquecido”; “aquilo que não se esconde nem se esquece”.

Quisera o ministro Edson Vidigal, do Supremo Tribunal de Justiça, ter se concentrado mais nas leituras de Heidegger antes de ir para a TV defender a estranha ideia de que “anistia é esquecimento”. Ao referir-se às fotos de Wladimir Herzog que emergiram do porão obscuro do inconsciente, o conspícuo julgador acabou por revelar, desvelar, tornar claro, o entendimento de uma parte substancial dos herdeiros do regime: a ideia de que, com a anistia “ampla, geral e irrestrita”, cai por terra a memória e, com ela, a verdade. Como o ministro, tem gente que acha que a Lei da Anistia é como o rio Lethes, que na metáfora poética da República de Platão separava o reino dos vivos do reino dos mortos, produzindo em quem passava por suas águas um poderoso e anestésico esquecimento.

Pode ser mais confortável esquecer. Pode ser mais simples, mais cômodo. Mas não é honesto, não é sincero, não é verdadeiro. O desvelamento do passado é um elemento de extrema importância para a redefinição do presente. Fechar no cofre velado do esquecimento os registros do período da ditadura é condenar os brasileiros de hoje ao risco de trilhar um caminho semelhante no futuro, é não querer encarar a massa mal formada de nossos próprios deslizes e de nossas próprias fragilidades políticas. A verdade é filha da memória, e a lembrança é o instrumento crucial do aprendizado social. Se a anistia for mesmo esquecimento, como o ministro Vidigal afirmou de forma enfática, ela é o contrário da aletheia; é a imagem desbotada, o documento rasurado, a palavra bloqueada, o silêncio, a escuridão, a ausência, o vazio. Hoje, apostar no esquecimento é apostar no cômodo vazio da memória, um lugar no qual o mais vergonhoso crime e a mais inusitada virtude têm o mesmo valor e a mesma valia.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pág. 1 de 11
%d blogueiros gostam disto: