Qual é o seu ikigai?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na cultura de Okinawa, no Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”. No tradutor do Google, a tradução literal é “sal da vida”. No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, ele tem sido estendido a várias outras áreas.

Veja uma síntese gráfica do ikigai:

ikigai

Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (1) aquilo que amamos, (2) aquilo que fazemos bem, (3) aquilo do que o mundo precisa, e (4) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobri-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é sua missão. Quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é sua profissão.

A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz. Contudo, para viver uma vida plena, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai. Ou seja: uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer.

Além dessa atividade principal, é saudável dedicar-se também a atividades paralelas, como hobbies e voluntariado. Por exemplo, pode ser que você trabalhe como cientista, mas também goste muito de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby.

Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada. Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas.

E já que estamos falando nele, recomendo que você assista abaixo ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa. Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva outras para o buraco com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.

Breve definição de filosofia

Filosofia é o estudo das questões fundamentais. Em uma frase curta, essa é a melhor definição que encontrei – aquela que considero a mais explicativa empregando a menor quantidade possível de palavras. Estendendo-nos um pouco mais, podemos dizer que filosofia é a dedicação intelectual aos problemas mais conceituais, às perguntas mais profundas, às dúvidas mais inquietantes que afetam nosso pensamento. Mas essa é apenas uma das três maneiras de definir filosofia. Podemos definir filosofia a partir de três perspectivas diferentes: (1) objetivamente, dizendo o que ela estuda – qual é o seu objeto de estudo; (2) etimologicamente, dizendo o que significa o termo “filosofia”; e (3) comparativamente, dizendo que diferença há entre ela e outras expressões do saber humano, como a ciência ou a religião, por exemplo. Vejamos como isso é possível.

A definição dada acima é objetiva, pois diz qual é o objeto de estudo da filosofia – a saber, as questões fundamentais. Tradicionalmente, consideramos questões fundamentais aquelas relacionadas à existência, ao conhecimento, à verdade e aos valores. A partir disso, desenvolveram-se as disciplinas principais da filosofia: ontologia (filosofar sobre a existência); epistemologia (filosofar sobre o conhecimento); lógica (filosofar sobre a verdade); e a chamada filosofia prática (filosofar sobre os valores, sejam eles éticos, estéticos, políticos, etc.). Ontologia (comumente chamada também de metafísica), epistemologia (também chamada de teoria do conhecimento) e lógica constituem a parte teórica da filosofia; enquanto que ética, estética e filosofia política constituem a parte prática. É claro que, além desse tronco principal, a filosofia possui ainda outras disciplinas, como por exemplo a filosofia da mente, da linguagem, da natureza, da ciência, da religião, da educação, entre outras tantas “filosofias”.

Por que existe algo ao invés do nada? Deus existe? Como tudo começou? Por que razão estamos aqui? Nossas vidas têm algum propósito? Nossa mente é de uma natureza diferente do nosso corpo, ou somos seres meramente físicos? Existe livre-arbítrio? Como o conhecimento é possível? O que podemos conhecer? Quais são os limites da ciência? Quais os critérios da verdade? Como a linguagem se relaciona com a realidade? O que faz com que algumas ações sejam moralmente boas e outras más? Você provavelmente já se fez algumas dessas perguntas em algum momento da vida. Estas são as últimas perguntas com as quais finalmente nos deparamos se continuarmos, tal como comumente fazem as crianças, perguntando indefinidamente pelo porquê das coisas.

Essas perguntas não pertencem a uma ciência em particular, ao domínio exclusivo de alguma área especializada do saber, mas afligem todos aqueles que em algum momento deixam de se contentar com a banalidade do cotidiano, do senso comum, das respostas prontas. Há 25 séculos, surgiu na Grécia uma tradição de pensamento que desde então se dedica racionalmente a essas questões. Filósofos desenvolvem-nas de uma forma disciplinada, rigorosa e sistemática, com o objetivo não apenas de respondê-las, mas também, acima de tudo, de entender exatamente o que está sendo perguntado. Eles descobrem pressupostos ocultos e refletem criticamente sobre as razões de nossas crenças e ações. A esta intensa atividade intelectual é que chamamos “filosofia”.

Podemos ainda definir a filosofia etimologicamente. Nesse sentido, o termo “filosofia” é composto por duas palavras gregas e significa literalmente “amor à sabedoria” (philos = amor, amizade; sophia = sabedoria). Por fim, podemos definir a filosofia estabelecendo uma relação entre ela e outros tipos de saber, e indicando em que ponto ela se distingue deles. Em suma, a filosofia difere da mitologia e da religião por sua ênfase em métodos e argumentos racionais; e difere da ciência moderna pelo pouco uso que faz de experimentos e observações empíricas, isto é, por geralmente não recorrer a procedimentos empiricamente verificáveis em suas investigações.


Escrevi este texto assim, muito claro, direto, conciso, sucinto, porque textos deste tipo, especialmente quando o que se promete é uma definição de filosofia, são muito raros. A grande maioria dos textos introdutórios que se propõem esclarecer ao leitor leigo o que é a filosofia ou não suprem a expectativa, deixando o leitor frustrado, sem uma resposta, ou oferecem uma definição ampla demais, vaga demais, vazia de significado demais. Isso é parcialmente compreensível e acontece por causa da própria natureza da filosofia, de fazer pensar em vez de fornecer respostas prontas; e principalmente por causa do medo que os autores têm de serem taxados de dogmáticos, por estarem sistematizando demais o assunto, quase que encaixotando uma definição padrão.

Eu não temo tal acusação. Considero uma grande virtude o poder de síntese, a habilidade de concisão, o saber indicar de modo sucinto e em poucas palavras a ideia principal, o ir direto ao ponto, sem enrolação, o não tomar desnecessariamente o tempo e a paciência do leitor ou ouvinte. Acredito que só entendeu realmente uma ideia quem é capaz de explicá-la em poucas palavras; e só compreendeu de fato um texto quem pode resumir a ideia principal em uma frase. Penso que essa irritante prolixidade para definir filosofia acontece porque aqui no Brasil somos muito influenciados pela tradição continental de filosofia contemporânea. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a tradição analítica é mais forte e mais presente, o paradigma é outro. Na página inicial do Departamento de Filosofia da Universidade Harvard, por exemplo, dois grandes botões direcionam os visitantes a textos muito curtos: What is Philosophy? (O que é filosofia?) e Why study Philosophy? (Por que estudar filosofia?). Como no artigo que publiquei acima, o Departamento de Filosofia de Harvard, considerado um dos melhores do mundo, explica a definição de filosofia de forma clara, direta e sucinta, de modo que qualquer leigo possa compreender muito rapidamente o que se faz ali naquele departamento.


“(…) De modo que, se os homens filosofaram para libertar-se da ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento unicamente em vista do saber e não por alguma utilidade prática. E o modo como as coisas se desenvolveram o demonstra: quando já se possuía praticamente tudo o de que se necessitava para a vida e também para o conforto e para o bem estar, então se começou a buscar essa forma de conhecimento. É evidente, portanto, que não a buscamos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e, mais ainda, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não está submetido aos outros, assim só esta ciência, dentre todas as outras, é chamada livre, pois só ela é fim para si mesma.” (Aristóteles, Metafísica A, 982 b, 19-27)


O filósofo e o futuro

Em geral, quando pensamos no futuro, tentamos imaginar o que será diferente, o que vai mudar. Daí surgem as mais variadas especulações sobre ciência, tecnologia e inovação. O papel do filósofo, ao contrário, é perguntar o que vai permanecer, o que vai continuar valendo, o que não vai mudar. Porque, afinal, é isso o que mais importa. Desisti de estudar jornalismo no primeiro ano do curso por um motivo muito simples: os textos jornalísticos não resistem ao tempo. Uma notícia incrivelmente bem escrita hoje, na qual o jornalista investiu tanto tempo, esforço e talento, estará velha amanhã. Os textos jornalísticos relatam fatos, e estes estão sempre presos ao tempo em que aconteceram. Passam-se os dias e aquela reportagem magnífica já ficou ultrapassada por novos fatos, novas notícias, novos tempos. Em vez de jornalismo, resolvi estudar filosofia. E o motivo não foi outro: os bons textos filosóficos, ao contrário dos jornalísticos, pretendem-se atemporais, almejam a imortalidade, resistem aos séculos. Platão e Aristóteles, 25 séculos depois, continuam atuais; enquanto que ninguém mais lembra o que William Bonner disse semana passada no Jornal Nacional.


O que é filosofia?

Trecho de um ensaio de Adonai Sant’Anna, doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), publicado originalmente por Produções Eclipse. Apesar da utilidade, considero essa tentativa de definição de filosofia muito prolixa pro meu gosto.


Em um primeiro momento pode-se afirmar que filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade. O problema desta definição reside principalmente na qualificação sobre o que, afinal, é verdade; sendo que o próprio conceito de verdade é tema de debate interminável entre filósofos há milênios. Ou seja, se aceitarmos esta primeira definição de filosofia, é seguro dizer que nem mesmo filósofos conseguem qualificar o que é filosofia, de maneira a estabelecer um consenso entre eles.

Do ponto de vista histórico, filosofia pode ser percebida como a origem dos estudos sistemáticos que visam responder a questões fundamentais levantadas por seres humanos a respeito do mundo físico, da metafísica, da vida, da moral, das artes e da própria natureza humana. Neste sentido, com o passar do tempo a filosofia foi diluída em múltiplas disciplinas, como física, matemática, biologia, química, economia, sociologia, psicologia, linguística, ciência política, entre outras. Consequentemente, existe uma tendência natural entre pessoas de julgar que filosofia é um ramo do conhecimento distinto de outros, como as ciências exatas e as ciências biológicas.

Já do ponto de vista social, este modo de percepção fica mais acentuado diante da realidade do mercado de trabalho, no qual muitos filósofos trabalham simplesmente como professores, pesquisadores ou escritores. Mesmo que um filósofo trabalhe como um consultor jurídico, um conselheiro político, um diretor de relações públicas, um publicitário, um jornalista ou um administrador de empresas, pessoas em geral tendem a percebê-lo como um consultor jurídico, um conselheiro, um diretor, um publicitário, um jornalista ou um administrador, mas não como um filósofo. Menos ainda como um profissional da filosofia aplicada. Esta percepção reside principalmente no fato de que discussões claramente identificadas como filosóficas, nos dias de hoje, têm um caráter altamente especulativo ou, pelo menos, sem consenso algum. Com efeito, até hoje os filósofos não chegaram a um acordo sobre o que é, afinal, a verdade.

Logo, a ironia da filosofia é que ela foi o ponto de partida para estudos metodológicos sobre o mundo e o ser humano, sendo que esses mesmos estudos promoveram um distanciamento da própria filosofia, no atual sentido acadêmico do termo. Quando um físico teoriza sobre a origem do universo, ou um biólogo teoriza sobre a origem da vida, essas ideias são essencialmente filosóficas, mesmo que os próprios pesquisadores não percebam desta forma. A separação entre filosofia e ciência, apesar de suas origens históricas, sociais, institucionais e pragmáticas, não é algo trivialmente perceptível no que diz respeito às finalidades últimas tanto da filosofia quanto da ciência.

A obra mais conhecida de Isaac Newton, por exemplo, é o livro Princípios Matemáticos de Filosofia Natural. A ideia de estabelecer princípios matemáticos fundamentais que regem dinâmicas de objetos materiais sob a ação de forças é algo de caráter essencialmente filosófico. O problema de entender a dinâmica de corpos físicos foi qualificado e respondido por Isaac Newton. Hoje esta obra é percebida como uma das grandes conquistas da física, sendo que na época foi compreendida como um inspirador passo dado pela filosofia natural. Tanto é verdade que o próprio conceito de força, na mecânica de Newton, chegou a ser percebido como um conceito metafísico por pensadores importantes, como Heinrich Hertz e Hermann von Helmholtz.

Em um encontro da British Association for the Advancement of Science, realizado em junho de 1833, o filósofo William Whewell argumentou o seguinte: “Assim como os praticantes de artes são chamados de artistas, os praticantes de ciências deveriam ser chamados de cientistas”. Foi então que nasceu o termo “cientista”. E rapidamente Isaac Newton passou a ser menos conhecido como simplesmente um filósofo, para então ser reconhecido como um dos mais importantes cientistas de todos os tempos.

O distanciamento entre ciência e filosofia deu um importante passo, neste momento, graças a um filósofo. Mas que ninguém jogue a culpa sobre Whewell! Isso porque um filósofo jamais deve deixar de expressar o que pensa, mesmo que seu pensamento seja de alguma forma prejudicial à própria filosofia, enquanto prática cultural. Este é tão somente um exemplo irônico de como o pensamento pode minar o próprio pensamento. Apesar do inegável impacto filosófico da obra de Newton, não é usual entre estudantes de filosofia de hoje o estudo de cálculo diferencial e integral. Cientistas são aqueles que resolvem problemas importantes, enquanto filósofos são aqueles que discutem sobre especulações que estão fora do alcance das ciências, como o sentido da vida, a utopia política, o conceito de belo, o livre arbítrio, a existência de Deus, a imortalidade da alma, a vida após a morte, a natureza metafísica do universo, etc.

Enquanto um cientista é aquele que sabe (ou pelo menos julga que sabe), um filósofo é aquele que incessantemente busca saber. A própria origem etimológica das palavras sustenta pelo menos parcialmente esta visão. “Filosofia” deriva do grego φιλοσοφία, ou seja, “amor à sabedoria”, enquanto “ciência” deriva do latim scire, que se traduz simplesmente como “saber”. O amor à sabedoria é uma postura de questionamento crítico, enquanto o saber é algo que permite efetivamente resolver problemas.

O sucesso da obra de Newton para derivar matematicamente as leis de Kepler passou a ser percebido por muitos como um saber, um conhecimento, uma crença verdadeira: as órbitas planetárias seguem as leis de Kepler por consequência das leis físicas enunciadas por Newton. O filósofo, por sua vez, é aquele que reconhece que existem outras possíveis formulações matemáticas que igualmente permitem descrever as órbitas planetárias, em acordo com os princípios percebidos por Kepler. A teoria da relatividade geral de Einstein é um exemplo bem conhecido de teoria que permite descrever órbitas planetárias semelhantes, sem apelar de forma alguma a qualquer conceito de força. Portanto, forças existem no mundo real ou não? Onde está a verdade no conceito de força?

Os estudos alquímicos de Newton costumam ser ignorados por cientistas em geral, como uma espécie de embaraçoso erro intelectual daquele que deu início à ciência moderna. Quase setenta anos após a morte de Newton, em 1796, o historiador James Pettit Andrew se referiu à alquimia como uma “fantástica pseudociência”. E foi assim que nasceu a necessidade de se promover uma distinção entre ciência e pseudociência. Mas filósofos também não conseguem entrar em um acordo sobre qual seria exatamente a diferença entre ciência e pseudociência. Por enquanto não quero estender esta discussão sobre o papel da filosofia ao longo da história, uma vez que este ramo do conhecimento atinge não apenas a física, mas também as artes, a política, a psicologia, entre outras áreas.

Por que afirmei no início deste texto que “filosofia é a atividade intelectual caracterizada pela busca sistemática e crítica da verdade”? A resposta é simples. O ponto de partida de qualquer investigação filosófica é invariavelmente uma pergunta. E perguntas são comumente formuladas na esperança de se obter respostas. Essas respostas surgem à medida que investigações são feitas, de maneira sistemática e crítica.


A filosofia é superior?

Artigo de Luiz Helvécio Marques Segundo, professor de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Minas Gerais, publicado originalmente no portal Crítica.


É prática comum entre nós apresentar a filosofia ao grande público ou aos alunos que têm seu primeiro contato com a disciplina louvando-a como um presente dos deuses aos meros mortais. Dizem que nada lhe pode ser superior e que qualquer área de investigação lhe é subserviente. É como se o filósofo tivesse um acesso privilegiado à verdade. Dizem também que nada pode ser mais prático, pois a filosofia liberta o ser humano dos grilhões da ignorância. Salvo um pequeno fundo de verdade dessa última afirmação, o resto é enganador. A filosofia não é mais importante que a física, ou a matemática, ou a história; tem exatamente o mesmo valor que qualquer outra atividade cognitiva. E como essas disciplinas, tem também aplicações práticas.

O estudo da filosofia abarca apenas uma parte da realidade, a parte que diz respeito àquelas questões que só podem ser tratadas através da argumentação e do raciocínio intenso. O filósofo não se preocupa em responder questões do tipo “Qual é a constituição do átomo?” ou “É o teorema de Fermat verdadeiro?” ou ainda “Quais foram as causas da segunda grande guerra?”. Ao invés, tenta responder questões do tipo “Será toda a realidade formada apenas de partículas elementares, ou será que há coisas como pensamentos, números ou deuses?”, “Há limites para o conhecimento humano?” ou ainda “Há ações certas e ações erradas?”. Isso não significa que o filósofo despreze a ciência, significa apenas que o campo de investigação da filosofia é diferente do das ciências como a matemática, física ou história. A filosofia muitas vezes precisa da ciência, assim como a ciência da filosofia.

Assim como a filosofia tem seus limites de investigação de certo modo determinados, o mesmo acontece com a física ou a história. O físico tratará da parte da realidade onde há campos, átomos, energia, etc. O historiador tratará da parte da realidade onde estão envolvidos fatos importantes para o mundo e que precisam de ser interpretados, reconstituídos e documentados. Tentará mostrar, por exemplo, como se encadeiam os motivos que levaram as sociedades feudais européias a dar início às cruzadas. Bom seria se pudéssemos tratar disso tudo de uma só vez, mas infelizmente não é esse o caso. Somos limitados cognitivamente e essa limitação só nos permite investigar uma coisa de cada vez. Já se vê por que razão a filosofia não é mais importante que as outras áreas de investigação. Para oferecer uma explicação razoável da realidade precisamos dos melhores resultados de cada área de investigação. É como se estivéssemos a montar um quebra-cabeças: cada peça é igualmente importante para o resultado final — se faltar uma peça, ficamos sem conhecer pelo menos aquilo que estava naquela peça e o que ela representava no resultado final. O mesmo acontece no quebra-cabeças da realidade: se uma das áreas de investigação não fornece as peças que lhe cabem, a nossa imagem da realidade será pior do que se as tivéssemos.

A situação poderia ser revertida: há peças dispensáveis no quebra-cabeças da realidade, e tais peças são justamente as fornecidas pela filosofia. Geralmente, ouvimos essa reação com a famosa e irritante “A filosofia não serve para nada!”. Talvez alguns também protestassem que a filosofia só fornece pseudo-peças, pois só as ciências são capazes de fornecer as peças originais. Mas a resposta a isto é fácil; basta olhar para o quebra-cabeças: muitas pessoas acreditam em Deus, acreditam que o aborto ou a eutanásia são errados, e há também aqueles que acreditam que só as ciências empíricas (física, biologia, química, etc.) é que podem oferecer conhecimento genuíno sobre a realidade. É inegável que essas crenças são importantes para a maioria de nós; e defendê-las não deixa de ser menos importante. Ora, ninguém vai ao laboratório para tentar provar sua verdade; ao invés, usa o raciocínio puro para tentar mostrar a verdade dessas crenças. Portanto, as peças que a filosofia fornece ao nosso quebra-cabeças não são menos importantes do que as peças que a física, a biologia ou a história fornecem. E na aplicação, qual é a mais importante? A física oferece conhecimento suficiente para a construção de aviões, transferência de dados via internet, operações de correção da visão, etc. O avanço na biologia possibilitou a cura da pneumonia; e o estudo da história nos ajuda a evitar os erros que humanidade cometeu no passado.

E a filosofia? Bem, a filosofia… pode nos libertar dos grilhões da ignorância. A expressão “libertar dos grilhões da ignorância” é um tanto pomposa; melhor substitui-la por “a filosofia aguça nosso olhar crítico sobre a realidade”. Neste sentido, a aplicação prática da filosofia nada deve à das ciências. Mas a contribuição mais importante da filosofia para nossas vidas comuns é mesmo a avaliação de argumentos. Avaliar argumentos não é uma atividade exclusiva da filosofia, fazemos isso também em outras áreas. No entanto, pelo fato de a filosofia ser uma disciplina de natureza a priori, isto é, feita pelo raciocínio apenas, a avaliação de argumentos é uma de suas tarefas principais; e sendo esta uma tarefa principal, é de se esperar um grande avanço nas técnicas de avaliação de argumentos. Qualquer bom manual de lógica fornecerá uma quantidade razoável dessas técnicas. Ao avaliar argumentos filosóficos, os filósofos dão atenção às ambiguidades da linguagem natural, procuram imprecisões e ideias escondidas, e tentam tornar algumas ideias mais plausíveis, entre outras atividades.

Em suma, a filosofia torna nossa capacidade de pensamento muito mais precisa e eficaz. É de se esperar, portanto, que em situações corriqueiras onde estejam envolvidos argumentos, alguém que pense como um filósofo tenha mais probabilidades de avaliar corretamente tais argumentos e dizer se são bons ou não. O estudo da filosofia, portanto, fornece algo precioso ao ser humano: a capacidade para avaliar cuidadosamente as justificações que alguém tem para determinadas ações ou crenças. Mesmo não sendo a atividade intelectual mais importante — não há a mais importante! — a filosofia compõe, com certeza, uma parte interessante da investigação do quebra-cabeças da realidade. E ao montar essa parte do quebra-cabeças adquirimos certas capacidades extraordinárias para avaliar e oferecer razões a favor ou contra muitos dos nossos pontos de vistas mais comuns. Eis a modesta contribuição da filosofia para o ser humano comum.

38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais, segundo Inaf

Veja também: Sobre as recentes mudanças “drásticas” no sistema educacional brasileiro

38% dos universitários brasileiros não dominam habilidades básicas de leitura e escrita, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa. O indicador reflete o expressivo crescimento de universidades de baixa qualidade. Criado em 2001, o Inaf é realizado por meio de entrevista e teste cognitivo aplicado em uma amostra nacional de 2 mil universitários, que respondem perguntas relacionadas ao cotidiano, como, por exemplo, sobre o itinerário de um ônibus ou o cálculo do desconto de um produto. O indicador classifica os avaliados em quatro níveis de alfabetização: plena, básica, rudimentar e analfabetismo. Aqueles que não atingem o nível pleno são considerados analfabetos funcionais, ou seja, são capazes de ler e escrever, mas não conseguem interpretar e associar informações.

Para a diretora executiva do IPM, Ana Lúcia Lima, os dados da pesquisa reforçam a necessidade de investimentos na qualidade do ensino. “A primeira preocupação foi com a quantidade, com a inclusão de mais alunos nas escolas. Porém, o relatório mostra que já passou da hora de se investir em qualidade”, diz Ana Lúcia. Segundo dados do IBGE, cerca de 30 milhões de estudantes ingressaram nos ensinos médio e superior entre 2000 e 2009. Para a diretora do IPM, o aumento foi bom, pois possibilitou a difusão da educação em vários estratos da sociedade. No entanto, a qualidade do ensino caiu por conta do crescimento acelerado. “Algumas universidades só pegam a nata e as outras se adaptaram ao público menos qualificado por uma questão de sobrevivência”, diz.

Para a coordenadora-geral da Ação Educativa, Vera Masagão, o indicativo reflete a “popularização” do ensino superior sem qualidade. “Num mundo ideal, qualquer pessoa com uma boa 8ª série deveria ser capaz de ler e entender um texto ou fazer problemas com porcentagem, mas no Brasil ainda estamos longe disso”. Segundo Vera, o número de analfabetos funcionais só vai diminuir quando houver programas que estimulem a educação como trampolim para uma maior geração de renda e crescimento profissional. “Existem muitos empregos em que o adulto passa a maior parte da vida sem ler nem escrever, e isso prejudica a procura pela alfabetização”, afirma.

Com informações de: Estadão.


Apenas 8% dos brasileiros adultos
são plenamente alfabetizados

Segundo relatório divulgado recentemente, apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente alfabetizadas, isto é, capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Eles estão no nível “proficiente” em um índice chamado Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional). Um indivíduo considerado “proficiente” é capaz de compreender e elaborar textos, além de conseguir opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor do texto. Também é apto a interpretar tabelas e gráficos simples; e compreende, por exemplo, que tendências aponta ou que projeções podem ser feitas a partir dos dados. Numa situação ideal, todos os estudantes que completam o ensino médio deveriam alcançar esse nível. Segundo o relatório Alfabetismo e o Mundo do Trabalho, há cinco níveis de alfabetismo funcional: analfabeto (4%), rudimentar (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%). O grupo de “analfabeto” mais o de “rudimentar” são considerados analfabetos funcionais. O estudo foi conduzido pelo IPM (Instituto Paulo Montenegro) e pela ONG Ação Educativa. No conjunto, foram entrevistadas 2002 pessoas entre 15 e 64 anos de idade, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país. (Fonte: UOL Educação)

idiota-universidade

 

A comovente saga de uma refugiada síria

O documentário abaixo foi produzido e dirigido pelo norueguês Anders Sømme Hammer. Em apenas 22 minutos de vídeo, você acompanha a comovente jornada de uma garota síria chamada Rania Mustafa Ali, de 20 anos, das ruínas de Kobane, na Síria, para a Áustria. Rania fala árabe, mas as legendas estão em inglês. As filmagens mostram o que muitos refugiados enfrentam em sua perigosa fuga para a Europa.


Carta de Princípios Mackenzie 2016:
uma posição sobre a questão dos refugiados

Leia a seguir trechos da Carta de Princípios 2016 divulgada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, destinada aos seus alunos, professores e funcionários. Nela, a Universidade esclarece o seu posicionamento em relação à crise humanitária envolvendo os refugiados. A carta na íntegra pode ser lida diretamente no portal da Chancelaria.


A palavra de ordem atual é “superar a crise”. No entanto, o que perturba nossa sociedade não é apenas o colapso político e econômico da nação. Há uma crise humanitária mundial. A preservação da vida é o tema central do drama dos refugiados. Há crescentes ondas de refugiados que se espalham por países da Europa e que alarmam o mundo, sobretudo por envolver a morte de famílias inteiras. Diante disso, nosso país tem se mostrado muito solícito para conceder asilo e facilitar a entrada legalizada de refugiados.

Desde as grandes imigrações do século 19, nosso país mantém uma convivência harmoniosa com outras culturas, religiões e etnias. Todavia, o dilema atual é diferente de um processo imigratório. Refugiados não são essencialmente imigrantes. Eles não deixaram seu país, suas casas, seus parentes e amigos para tentar a sorte em outro lugar. Eles saíram de sua terra e deixaram tudo para trás por motivo de força maior, para a preservação da própria vida. Ademais, é provável que um imigrante tenha um caminho de volta, quando as expectativas se frustram. Um refugiado dificilmente tem essa esperança.

Um refugiado é alguém perseguido, oprimido e ferido, seja por questões políticas, étnicas ou religiosas. São pessoas que tiveram direitos básicos usurpados. Ao chegarem a outro país, trazem na bagagem muito mais do que saudade: eles vêm acompanhados do medo, da dor, da frustração, da injustiça, da fome. Por isso, o refugiado é alguém que precisa de alimentação, moradia, emprego, e também de paz, segurança, justiça e direitos humanos. Sobretudo, ele carece de verdadeira solidariedade.

A tradição judaico-cristã dispõe de muitos séculos de registros históricos. A história que tem acompanhado essa tradição narra momentos de crise e, mais importante, revela verdades perenes para que a sociedade civil saiba lidar com as vicissitudes, no caso, como conviver harmoniosamente com pessoas de outras etnias, culturas e religiões. Ainda que muitos séculos separem a história da nação hebraica dos dias atuais, nota-se que foram dadas instruções para gerir relacionamentos, bem como acolher aos que eram “de fora” dessa nação. Os estrangeiros, como eram chamados os que vinham abrigar-se e refugiar-se entre os hebreus, não podiam ser desprezados, oprimidos ou alienados.

Anteriormente, o patriarca Abraão recebera a ordem de estender a destra de amizade e amor aos estrangeiros, fazendo-os participantes da aliança de Deus, o pacto de vida e amor (Gn 17:12). Desse modo, eles se tornavam parte da nação e, mais ainda, acessíveis às promessas divinas. Por semelhante modo, quando os israelitas se preparavam para entrar e possuir a terra prometida, e, concomitantemente, ratificar sua condição como uma nação estabelecida, receberam a seguinte ordem: “Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o maltratem” (Lv 19:33). E a razão apresentada por Deus é bastante simples e ao mesmo tempo convincente: “O estrangeiro residente que viver com vocês será tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Lv 19:34).

Em outras palavras, o Deus revelado nas Escrituras assevera a unidade entre todos os povos, raças, línguas e nações por meio do vínculo da solidariedade, a qual consiste justamente na capacidade humana de se identificar com o sofrimento do outro. Isso implica ação; não é apenas sentir-se consternado com o sofrimento alheio, mas assumir a dor de seu próximo para si mesmo. Assim, a tradição judaico-cristã de fé e prática determina que ações deveriam ser empreendidas para efetivamente socorrer os estrangeiros. Por exemplo, uma parte da colheita de trigo, cevada e azeitonas deveria ser disponibilizada para eles (Lv 23:22). Finalmente, as mesmas leis, com deveres e direitos, eram oferecidas igualmente aos refugiados: “Vocês terão a mesma lei para o estrangeiro e para o natural. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Lv 24:22).

A assistência solidária aos refugiados, que teve início nos dias dos patriarcas e está presente na sedimentação da nação israelita, segue uma série de desdobramentos históricos até encontrar o ápice de seu ensino na pessoa e obra de Jesus Cristo, em quem todas essas coisas encontram seu cumprimento e plenitude. Jesus realizou ações deliberadas de misericórdia para com os estrangeiros (ver Mc 5:1-20 e Mt 15:21-28). Em sua infância, ele mesmo e sua família tornaram-se refugiados: foram perseguidos e oprimidos por um implacável líder político, e, por isso, tiveram de fugir para o Egito e achar asilo naquela nação (Mt 2:13-14). Portanto, existe uma tradição histórica de orientação cristã, alinhavada com verdades absolutas e eternas, sobre o imperativo de ser solícito para com o refugiado em sua dor e sofrimento.

Essa tradição de pensamento e de prática ocupou lugar determinante nas cidades que foram erguidas em torno da confissão de fé reformada. A Reforma Protestante do século 16 foi um movimento de ordem eminentemente religiosa, mas com aplicações sociais, políticas e econômicas. A cosmovisão reformada abarca todos os aspectos da realidade humana. Assim, foi um movimento de retorno à tradição de pensamento e de ação da tradição judaico-cristã. Com efeito, retomou o ímpeto de solidariedade percebido no Antigo Testamento e ratificado plenamente na pessoa e obra de Jesus Cristo. Por isso, as cidades que foram erigidas sob os auspícios do cristianismo reformado demonstraram, com ações, o cuidado para com os estrangeiros.

Tal zelo esteve presente na vida de seus principais líderes. Dentre eles temos a figura de Calvino (1509-1564), que foi um modelo de cidadão cristão e que procedeu em favor do próximo. Ele agiu deliberadamente para que a cidade de Genebra fosse receptiva ao estrangeiro. Interveio constantemente junto às autoridades, tanto para eliminar a ociosidade quanto para combater o desemprego, que se tornava ameaçador quando os refugiados estrangeiros afluíam para a cidade de Genebra. Embora não tenha ocupado nenhum cargo governamental, Calvino exerceu enorme influência sobre a comunidade, não somente no aspecto moral e eclesiástico, mas em outras áreas. Ele ajudou a tornar mais humanas as leis da cidade, contribuiu para a criação de um sistema educacional acessível a todos e incentivou a formação de importantes entidades assistenciais como um hospital para carentes e um fundo de assistência aos estrangeiros pobres.

Calvino também tinha uma preocupação no âmbito educacional, sobretudo em seus esforços como fundador da Universidade de Genebra. No ano da morte de Calvino, a escola tinha 1.500 alunos matriculados, dentre os quais a maioria era de estrangeiros. A história do reformador de Genebra tem o seu ato derradeiro com seu testamento, no qual deixa o pouco que tinha para a Universidade e para os estrangeiros pobres.

A fé cristã reformada é a identidade da Universidade Presbiteriana Mackenzie e, por conseguinte, deve estar entranhada em sua educação confessional. Nosso país multicultural e multirracial não tem o histórico de “fechar as portas” para outros povos. À semelhança do que podemos aprender com a tradição judaico-cristã, muitos de nós aqui no Brasil somos filhos, netos ou bisnetos de imigrantes. Por conseguinte, nossos pais e avós foram peregrinos e estrangeiros nas “terras dos brasis”. O momento atual é de crise humanitária. Não é apenas uma questão abstrata sobre economia ou política, mas um assunto concreto acerca de seres humanos que carecem de direitos, proteção, cuidados e refúgio. Muitos desses refugiados têm escolhido o Brasil como um lugar para recobrar a esperança, ter a oportunidade de um recomeço e, sobretudo, alcançar a justiça e a paz. Como uma Universidade confessional cristã, temos de ser solidários e acolhê-los.

Como é feita a prova do Enem?

Veja também: Dicas de estudo

Muitos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficam tão focados em conhecer o padrão de questões da prova e em como os conteúdos são cobrados, que acabam não pensando em como aquelas perguntas chegam no exame. Se você acha que um grupo de professores se reúne em uma mesa e monta as provas de uma vez, você está muito enganado. Tanto as questões do Enem quanto as de outros concursos públicos são selecionadas através de um acervo, o Banco Nacional de Itens (BNI).

O Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) convocam instituições públicas e federais, tanto da educação básica quanto da superior, para contribuir com o banco. Estas decidem quais professores serão indicados para elaborar as questões, pois os docentes devem estar dentro do perfil definido pelo Inep. Após serem elaboradas, essas questões passam por uma revisão do INEP. Todas elas devem ser objetivas, possuir um texto introdutório e 5 alternativas, sendo que somente uma é a correta. O conteúdo de todas as perguntas da prova deve estar relacionado às disciplinas do Ensino Médio. Cada professor recebe R$ 200 por questão aceita para integrar o Banco Nacional de Itens. Já os professores que ficam responsáveis pela revisão dos itens ganham cada um R$ 100 por questão.

O MEC realiza uma prova semelhante ao Enem com alunos do Ensino Médio da rede pública. O chamado pré-teste é composto por 45 questões, diferentes entre si. Após o teste, as questões entram para o Banco Nacional de Itens, que hoje possui mais de 10 mil questões. Como o processo é extremamente sigiloso, os alunos não sabem que a prova que estão fazendo é parte do processo de montagem do banco de questões que compõem o Enem. De acordo com o resultado do pré-teste, as questões recebem graus de dificuldade. Cada grau é representado por um número que vai de zero até mil. A partir desses números, é montada uma régua. As perguntas são dividias entre fáceis, médias e difíceis. As médias ficam mais ou menos na marca de 500 pontos.

Para montar a prova, o MEC seleciona 180 questões, sendo 45 de cada uma das quatro áreas do conhecimento (Ciências Humanas; Ciências da Natureza; Linguagem e Códigos; Matemática). As questões começam a ser analisadas e escolhidas cerca de 5 a 6 meses antes do dia do exame. Esse é o tempo necessário para elaborar, imprimir e distribuir a prova. O conjunto de questões de cada área precisa equilibrar o grau de dificuldade das perguntas (25% fáceis, 50% médias e 25% difíceis). Como um dos objetivos do Enem é diferenciar o grau de conhecimento dos candidatos, as questões que apresentaram alto nível de acertos ou erros durante o pré-teste são descartadas.

As notas obtidas pelos candidatos são calculadas com base na Teoria de Resposta ao Item (TRI), que avalia não só o número de questões acertadas, mas também o grau de dificuldade delas e a coerência e consistência dos acertos na prova. Mesmo com números iguais de acertos, duas pessoas podem ter notas diferentes de acordo com o nível de dificuldade das questões acertadas e com a consistência desses acertos (errar muitas fáceis e acertar muitas difíceis não apresenta coerência e pode configurar chute).


Orientações para a elaboração de questões do Enem

  1. As questões devem ser divididas em três partes: texto, enunciado e alternativas;
  2. Cada situação-problema deve ser contextualizada de maneira que permita ao candidato incorporar situações vivenciadas; aproximar os temas escolares da realidade extraescolar. Um item contextualizado pretende transportar o candidato para uma situação normalmente vivenciada por ele no dia a dia;

  3. Os textos-base podem ser verbais e não verbais, como, por exemplo, imagens, figuras, tabelas, gráficos ou infográficos, esquemas, quadros, experimentos, etc.;

  4. Os textos-base poderão ser de dois tipos: formulados pelo próprio elaborador para o contexto do item ou referenciados por publicações de apropriação pública;

  5. O uso de publicações implica a citação da respectiva fonte;

  6. Não poderá ser utilizado livro didático como fonte para o texto-base;

  7. Deve-se suprimir elementos de caráter meramente acessório ou que demandem dispendioso tempo de leitura;

  8. Deve-se evitar a exigência de informações simplesmente decoradas, como fórmulas, datas, termos, nomes, enfim, detalhes que não avaliam a habilidade, mas privilegiam a memorização;

  9. O enunciado constitui-se de uma ou mais orações e não deve apresentar informações adicionais ou complementares ao texto-base;

  10. No enunciado, inclui-se uma instrução clara e objetiva da tarefa a ser realizada pelo participante do teste. Essa instrução poderá ser expressa como pergunta ou frase a ser completada pela alternativa correta;

  11. Não devem ser criadas situações capazes de induzi-lo ao erro;

  12. Utilize textos que abordem temas atuais e sejam adequados ao público-alvo;

  13. Evite a utilização de textos muito extensos;

  14. Evite abordagens de temas que suscitem polêmicas;

  15. Não vale pegadinha;

  16. Utilize termos impessoais como: “considere-se”, “calcula-se”, “argumenta-se” etc;

  17. Não utilize termos como: “falso”, “exceto”, “incorreto”, “não”, “errado”;

  18. Não utilize termos absolutos como: “sempre”, “nunca”, “todo”, “totalmente”, “absolutamente”, “completamente”, “somente” etc;

  19. Não utilize sentenças como: “Pode-se afirmar que”, “É correto afirmar que”, etc.

  20. Evite alternativas demasiadamente longas;

  21. Não use: “todas as anteriores”, “nenhuma das anteriores”;

  22. Considere o tempo médio de três minutos para resolução do item.


Todos os temas que já caíram nas provas de redação

Veja também: Redações com receita de miojo e hino do Palmeiras

1998: Viver e aprender
1999: Cidadania e participação social
2000: Direitos da criança e do adolescente
2001: Desenvolvimento e preservação ambiental
2002: O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais que o Brasil necessita?
2003: A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo
2004: Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos
2005: O trabalho infantil na sociedade brasileira
2006: O poder de transformação da leitura
2007: O desafio de se conviver com as diferenças
2008: Como preservar a floresta Amazônica: suspender imediatamente o desmatamento; dar incentivo financeiros a proprietários que deixarem de desmatar; ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar?
2009: O indivíduo frente à ética nacional
2010: O trabalho na construção da dignidade humana
2011: Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado
2012: Movimento imigratório para o Brasil no século 21
2013: Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil
2014: Publicidade infantil em questão no Brasil
2015: A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
2016: Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil
2016 (segunda aplicação): Caminhos para combater o racismo no Brasil
2017: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

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