O valor das coisas e das pessoas

Crônica de Alex Castro.

Nos países desenvolvidos as coisas são baratas e as pessoas são caras. No Brasil, é o oposto: as coisas são caríssimas, mas as pessoas (ou seja, os serviços que elas prestam) sempre estiveram a preço de banana. Agora, isso está mudando.

Para um americano de classe média, a vida do seu equivalente brasileiro parece vida de rico. Os EUA são a terra do faça-você-mesmo. As meninas se depilam e fazem as próprias unhas. Os amigos se juntam pra pintar as casas uns dos outros. Nas mudanças, o normal é alugar um caminhão e chamar a galera pra carregar caixa. Todos são acostumados desde criança a realizar serviços domésticos: empregada é luxo de milionário. Mas se você é da classe média no Brasil, o mais provável é que contrate profissionais para fazer esses serviços. Afinal, é tão barato, né? Com esse exército de miseráveis aí fora, com certeza dá pra achar alguém que fique de quatro e lave sua privada por uma mixaria.

Por outro lado, para um brasileiro de classe média, a vida do seu equivalente americano também parece vida de rico, mas por outros motivos. Afinal, o gringo pode até lavar suas próprias meias (cruzes!), mas possui uma quantidade de objetos e gadgets sem igual. A começar por seus carros: nos ônibus, só se veem velhos trêmulos, crianças em idade escolar e mendigos. Qualquer pessoa dita able-bodied (ou seja, com o “corpo apto”) tem um carro. Dá pra comprar e manter um carro novo até com salário de garçom.

Pra não falar dos aparelhos eletrônicos de última geração. Um Kindle sai por 114 dólares: para uma garçonete, é quanto ela ganha de gorjeta atendendo duas ou três mesas. Ou seja, qualquer um pode ter. Enquanto isso, nossa pobre classe média escorchada de impostos paga R$ 56 mil por um Honda City made in Brazil, carro que é vendido no México por menos da metade do preço, cerca de R$ 25 mil. O Kindle, ao alcance de qualquer garçonete americana, no Brasil sai por pouco mais de mil reais. Quantos trabalhadores brasileiros podem se dar ao luxo de comprar uma engenhoca que nunca viram, que não é gênero de primeira necessidade, por esse preço? Muito poucos.

Os americanos olham os brasileiros, servidos por um verdadeiro exército de mortos-de-fome que lhes depilam as pernas, pintam as paredes, lavam as cuecas e passam as camisas, e pensam: ricos são esses brasileiros, não eu que toda semana tenho que ficar de quatro e esfregar minha banheira! Os brasileiros olham os americanos, digitando no iMac e jogando no iPhone, conferindo um endereço no GPS e lendo no Kindle, e pensam: ricos são esses gringos, não eu que ainda uso um desktop de 2004!

No começo da década passada, eu tive duas empregadas domésticas. Uma delas fez curso técnico e hoje trabalha em um laboratório. A outra virou banqueteira, e o seu filho está estudando pra ser oficial da Marinha. As leis da economia são implacáveis. Quanto menor for o número de mulheres semi-analfabetas dispostas a lavar privada e depilar perna por uma mixaria, maiores vão ser os preços desses serviços. Se algumas delas se tornam técnicas de laboratório e banqueteiras, as consequências são duas:

Em primeiro lugar, os shoppings, aeroportos e faculdades particulares ficam lotados de gente que, até poucos anos atrás, simplesmente não tinha renda para frequentar esses lugares. Em segundo lugar, as poucas mulheres ainda dispostas a fazer os piores serviços percebem que seu poder de barganha aumentou. Então, o New York Times noticia que as babás vivem ascensão econômica e se juntam à classe média; e a Veja São Paulo informa que agora são as domésticas que ditam as regras do jogo.

Enquanto isso, outras categorias profissionais começam a sumir e já se fala até em saudades do embalador de supermercado. Quem ontem cortaria nossa grama por uma merreca, hoje estuda para ser oficial da Marinha. Quem ontem viria lá de Jardim Pobreza pra depilar nossas pernas, hoje mora no mesmo bairro, pega o mesmo metrô e ainda compra a última mussarela de búfala bem na nossa frente no supermercado!

Enquanto isso, é bom a gente ir se acostumando. Hoje, no Brasil, existem menos pessoas dispostas a lavar o chão o dia inteiro em troca de um prato de comida. Estamos a caminho de nos tornar uma sociedade mais justa, mais humana, mais digna. E, ao longo desse caminho, vamos ter que aprender a cortar nossa própria grama e fazer nossas próprias unhas. Quem sabe você até perceba que nem precisa tanto assim de grama cortada e unha feita. A solução é querer menos coisas e valorizar mais as pessoas.

Eu trocaria – Hélio Fraga

Escrita pelo jornalista Hélio Fraga em meados da década de 1980, a crônica abaixo revela uma trágica e comovente lição de vida. Se você é pai ou mãe, esse depoimento pode mudar a forma como você se relaciona com os seus filhos.


O pai moderno, muitas vezes perplexo, aflito, angustiado, passa a vida inteira correndo como um louco em busca do futuro e esquecendo-se do agora. Na luta para edificar esse futuro, ele renuncia ao presente. Por isso, é um homem ocupado, sem tempo para os filhos, envolvido em mil atividades – tudo com o objetivo de garantir o amanhã. Com prazer e orgulho, a cada ano, ele preenche a sua declaração de Imposto de Renda. Cada nova linha acrescida foi produto de muito esforço, muito trabalho. Lote, casa, apartamento, sítio, casa de praia, automóvel do ano, tudo isso custou dias, semanas, meses de luta. Mas ele está sedimentando o futuro de sua família: se partir de repente, por qualquer motivo, já cumpriu sua missão e não vai deixá-la desamparada. E para ir escrevendo cada vez mais linhas na sua relação de bens, ele não se contenta com um emprego só – é preciso ter dois ou três; vender parte das férias, em vez de descansar junto à família; levar serviço para casa, em vez de ficar com os filhos. É um tal de viajar, almoçar fora, discutir negócios, marcar reuniões, preencher a agenda – afinal, um executivo dinâmico não pode fraquejar nesse mundo competitivo.

Mas esse homem esquece que a verdadeira declaração de bens, o valor mais alto, aquele que efetivamente conta, está em outra página do formulário do Imposto de Renda – mais precisamente naquelas modestas linhas, quase escondidas, onde se lê: “relação dos dependentes”. São os filhos que ele colocou no mundo, e a quem deve dedicar o melhor do seu tempo. Há filhos órfãos de pais vivos, porque estão “entregues” – o pai para um lado, a mãe para outro, e a família desintegrada, sem amor, sem diálogo, sem convivência. Há irmãos crescendo como verdadeiros estranhos,  correndo de um lado para o outro o dia inteiro – ginástica, natação, judô, ballet, aula de música, curso de inglês, terapia, etc. – e só se encontram de passagem em casa, um chegando, outro saindo. Não vivem juntos, não saem juntos, não conversam. Para ver os pais, é quase preciso marcar hora!

Seus filhos são novos demais e não estão interessados em propriedades e no aumento da renda. Eles só querem um pai para conviver e brincar. Os anos passam, os meninos crescem, e o pai nem percebe, porque se entregou de tal forma ao trabalho que não viveu com eles, não participou de suas pequenas alegrias, não os buscou no colégio, nunca foi a uma festa infantil, não teve tempo para assistir a apresentação da filha – pois um executivo não deve desviar sua atenção para bobagens. São coisas para desocupados.

Depois de uma dramática experiência pessoal e familiar vivida, a única mensagem que tenho para dar é esta: não há tempo melhor aplicado do que aquele destinado aos filhos. Dos 16 anos de casado, passei 15 anos correndo e trabalhando sem parar, absorvido por muitas tarefas, envolvido em várias ocupações, totalmente entregue a um objetivo único e prioritário: construir o futuro para três filhos e minha mulher. Isso me custou longos afastamentos de casa, viagens, estágios, cursos, plantões no jornal, madrugadas no estúdio da televisão, uma vida sempre agitada, atarefada, tormentosa. A apaixonante dedicação à profissão escolhida – que foi mais importante do que minha família.

E agora, aqui estou eu, de mãos cheias e de coração aberto, diante de todos vocês. Aqui está o resultado de tanto esforço: construí o futuro penosamente, e agora não sei o que fazer com ele depois da perda de Luiz Otávio. De que valem casas, carros e tudo o mais que foi possível juntar nesses anos todos de esforço, se ele não está mais aqui para aproveitar isso com a gente? Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido agora por um incêndio e, desses bens todos, não restasse mais do que cinzas, isso não teria a menor importância; não ia provocar o menor abalo em nossa vida, porque a escala de valores mudou e o dinheiro passou a ter peso mínimo e relativo em tudo. Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura e a saúde de um filho amado, para que ele serve? Para que ser escravo dele? Eu trocaria, explodindo de felicidade, todas as linhas de declaração de bens por uma única linha que eu tive de retirar, do outro lado da folha: o nome do meu filho na relação de dependentes. E como doeu retirar essa linha na declaração de 1983!

NOTA: Luiz Otávio morreu aos 12 anos, em novembro de 1982, na cidade de Belo Horizonte, vítima de um tumor cerebral.

Fonte: Revista Raio de Luz (Betel Brasileiro), edição 113.

Quanta beleza temos deixado de apreciar?

Numa fria manhã de inverno, um homem sentou-se em uma estação de metrô em Washington e começou a tocar violino. Durante cerca de 45 minutos, ele tocou seis composições de Bach. Durante esse tempo, considerando que era horário de pico, calcula-se que mais de mil pessoas passaram pela estação, a maioria a caminho do trabalho. Passaram-se 3 minutos até que um homem de meia-idade percebeu que um músico estava tocando. Ele diminuiu o passo, parou por alguns segundos, e então apressou-se a seus compromissos. Um minuto depois, o violinista recebeu sua primeira gorjeta de um dólar: uma mulher arremessou o dinheiro na caixa e continuou a andar. Alguns minutos depois, um homem encostou-se na parede para ouvi-lo, mas olhou para o relógio e voltou a andar. Obviamente ele estava atrasado para o trabalho.

Quem prestou mais atenção foi um garotinho de 3 anos. Sua mãe o apressou, mas o garoto continuou parado olhando o violinista. Então a mãe o puxou com força pela mão e a criança continuou a andar, olhando para trás várias vezes. Isso se repetiu com muitas outras crianças. Todos os pais, sem exceção, os forçaram a seguir andando. Durante os 45 minutos que o músico tocou, apenas 6 pessoas pararam e observaram por um tempo. Aproximadamente 20 pessoas o deram dinheiro, mas continuaram a andar normalmente. Quando ele acabou de tocar, ninguém percebeu. Ninguém aplaudiu, tampouco houve algum reconhecimento. E ele só conseguiu arrecadar 32 dólares.

Ninguém no metrô sabia, mas o violinista era Joshua Bell, um dos maiores músicos do mundo. Ele acabara de tocar seis das peças mais belas e difíceis já compostas, em um violino que valia 3,5 milhões de dólares. Dois dias antes de tocar no metrô de Washington, Joshua bell esgotou os ingressos em um teatro de Boston, onde cada poltrona custava aproximadamente 100 dólares. A apresentação foi organizada pelo jornal Washington Post como parte de um experimento científico sobre percepção, gosto e prioridade das pessoas. O questionamento era: “Num ambiente comum, numa hora inapropriada, nós somos capazes de perceber a beleza? Nós paramos para apreciá-la? Nós reconhecemos talento em um contexto inesperado?”. A mais óbvia conclusão extraída desse experimento resume-se numa pergunta retórica: Se não temos tempo para ouvir um dos melhores músicos do mundo tocando algumas das melhores músicas já compostas, quantas outras coisas belas temos deixado de apreciar todos os dias?

De como aprendi a adquirir bons hábitos e manter uma rotina saudável e eficiente

Há alguns anos criei o hábito de anotar num caderno toda movimentação financeira daqui de casa. Começo registrando todo dinheiro que entrou em determinado mês e, algumas linhas abaixo, anoto todas as despesas. Todas mesmo! Se eu achar ou perder 10 centavos na rua, anoto. Numa mesma linha escrevo o valor em reais, a descrição da despesa, o local e a data. Faço isso todas as noites antes de me deitar. É um ótimo exercício de recapitulação e memória. No último dia de cada mês, fecho para balanço e verifico se as contas batem, para então começar tudo de novo no dia 1º. Há muito que isso virou um hábito na minha vida. E quero mantê-lo sempre, pois é muito útil saber exatamente para onde foi cada centavo do seu suado dinheiro. Só a título de curiosidade, chamo esse caderno de “Controle Financeiro”, e o coloquei sob a administração de um órgão fictício que eu mesmo criei: o TCMC, Tribunal de Contas da Minha Casa.

A novidade é que, além do controle financeiro que já expliquei, recentemente resolvi criar um “controle de rotina”. Ele nada mais é do que uma tabela que funciona como um check list diário. Na coluna da esquerda estão todos os bons hábitos que desejo adquirir e/ou manter. Pensei em pelo menos sete hábitos saudáveis e eficientes que me propus cultivar diariamente com o objetivo de manter corpo são e mente sã. Em vistas desse aperfeiçoamento pessoal, a tabela serve para avaliar minha regularidade. Ao lado de cada um desses hábitos, há espaços que correspondem aos dias do mês (ou da semana, depende de como você quiser formatar a tabela), nos quais eu marco se aquele objetivo foi alcançado ou não naquele dia. Ver todos os espaços preenchidos serve como um estímulo para continuar repetindo diariamente os bons hábitos, assim como ver espaços em branco serve de alerta para que eu me esforce mais. Veja a seguir quais são os hábitos que incluí em meu controle de rotina. Espero que isso sirva de inspiração para você criar o seu e começar a viver melhor, com uma rotina saudável e eficiente.


8 HORAS DE SONO ININTERRUPTO

Embora as 8 horas de sono ininterrupto sejam comprovadamente um mito, as exigências da vida moderna, com seu ritmo acelerado e frenético, não me permitem o luxo de dividir meu sono noturno em dois períodos de 4 horas cada, com um intervalo de uma a duas horas entre eles, como seria mais adequado à nossa natureza. Além do mais, 8 horas é a quantidade mínima de sono que funciona para mim. Menos que isso não dá. Não é suficiente. Me deixa sonolento pelo resto do dia. Algumas pessoas podem se satisfazer com 7 ou 6 horas de sono por noite, algumas até menos que isso. Não é o meu caso. Ah, e nada de cochilar durante o dia, pois esse hábito atrapalha a qualidade do sono noturno.


DESPERTADOR SEM FUNÇÃO SONECA

Embora a inclusão de “despertador sem função soneca” pareça um capricho irrelevante, fiz questão de colocá-lo na lista porque eu estava realmente incomodado com o péssimo hábito de voltar a dormir repetidas vezes após aceitar, de maneira quase automática e inconsciente, a opção de dormir mais 10 minutinhos oferecida pelo meu celular. De dez em dez “minutinhos”, eu acabava perdendo até uma hora nesse looping deprimente, o que me causava atrasos e outros inconvenientes. Esse mau hábito foi superado com a ajuda de outros dois mini-hábitos: antes de me deitar, passei a deixar o celular distante da cama, de modo que seja preciso levantar para desativar o alarme; e passei a escolher sempre um toque de alarme que seja agradável em vez de um irritante. Está funcionando.


3 LITROS DE ÁGUA AO LONGO DO DIA

Todos sabemos que beber bastante água traz incontáveis benefícios à saúde. Mas você já se perguntou qual é a quantidade ideal de água que devemos tomar diariamente? A maioria dos nutricionistas recomendam o seguinte cálculo: 35 mililitros de água para cada quilograma de massa corporal. Como peso 77 kg, multiplicando isso por 35 ml chego à conclusão de que devo tomar 2700 ml (isto é, 2,7 litros) de água todos os dias. Como moro numa cidade quente e pratico esportes, resolvi beber um copo a mais do que o necessário e arredondar minha meta para 3 litros (ou seja, 10 copos de 300 ml).


ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E COMPLETA

O que chamo de “alimentação saudável e completa” não é mais do que aquilo que você já está farto de saber e que já faz parte do nosso senso comum há muito tempo, de tanto que é repetido por médicos e nutricionistas. Evitar o excesso de sal, açúcar, alimentos gordurosos, industrializados, embutidos e/ou congelados, frituras, massas, molhos, doces, guloseimas, bebidas alcoólicas, etc. Em vez disso, dar preferência sempre que possível a alimentos naturais (não industrializados), integrais (não refinados) e frescos (não congelados). Aumentar o consumo de frutas, legumes e peixes. Em suma, comer de preferência aquilo que nossos antepassados comeram por milênios: bicho e planta. Uma exceção importante: pode caprichar no azeite de oliva extra-virgem.


ATIVIDADE FÍSICA E BANHO GELADO

Não preciso justificar as vantagens da prática de exercícios, esportes e atividades físicas em geral para o bom funcionamento do corpo. Seja uma musculação na academia, uma corrida no parque ou aquela peladinha animada com os amigos, uma hora por dia é mais que suficiente para aumentar o metabolismo, queimar calorias, melhorar o fôlego, manter o condicionamento físico e, claro, suar para tomar banho. Aí é que entra a parte que precisa de uma justificativa: Por que o banho tem que ser gelado? Por que não uma ducha quentinha? Este vídeo explica isso melhor do que eu poderia fazê-lo. Dentre os 10 benefícios mencionados, não sei quais deles convencerão você (se é que o farão). Mas eu, particularmente, fui convencido pelos benefícios 2, 4 e 7, segundo os quais o banho gelado, respectivamente, aumenta a imunidade, melhora a saúde da pele e do cabelo, e ajuda na recuperação muscular após a atividade física (além de economizar energia).


LEITURA DE UM TEXTO EM INGLÊS

A melhor maneira de aprender um novo idioma ou aumentar o seu nível de fluência e proficiência nele é a imersão completa, que consiste em viajar para um país onde aquele idioma é a língua nativa e se virar para conseguir se comunicar. A segunda melhor é a prática diária. Na falta de dinheiro para executar o plano A, a atitude mais inteligente é recorrer ao plano B. Uma maneira eficiente e objetiva que encontrei de ter contato com o inglês todos os dias foi me propor o desafio de ler diariamente pelo menos um texto em inglês. Para isso, não há maiores exigências: o texto pode ser de qualquer tamanho, sobre qualquer assunto e pertencer a qualquer gênero textual. Esse hábito é flexível e pode ser substituído sem problema por assistir um filme ou uma série sem a legenda em português, por exemplo. Dentre as quatro habilidades básicas de qualquer idioma (ouvir, falar, ler e escrever), escolhi focar na leitura porque, no contexto acadêmico, essa é a parte mais cobrada. Mas você pode ter interesses diferentes.


UMA HORA DE ESTUDO FORMAL

Quando publiquei uma série com dicas de estudo, eu disse que há uma diferença básica entre ser aluno e ser estudante: aluno é quem assiste as aulas, estudante é quem estuda. Assistir aula é uma atividade coletiva e passiva: você está em grupo ouvindo o professor. Estudar é uma atividade individual e ativa: você deve estar sozinho e escrevendo. Logo, se você quer ser um estudante em vez de apenas aluno, deve revisar o conteúdo das aulas sozinho em casa. Outra coisa: não se contente em apenas ler, sublinhar ou passar um marca texto nas partes mais importantes; isso não é estudar. Para estudar você precisa rabiscar e escrever, de preferência à mão. Faça resumos, fichamentos, resenhas e esquemas da matéria. Para saber o que vale a pena escrever, faça de conta que está preparando uma cola para uma prova. Por ter pouco espaço e pouco tempo para consulta, é preciso ser conciso, mas, ao mesmo tempo, abordar os pontos principais.


DEVOCIONAL (ORAÇÃO/MEDITAÇÃO)

Chamo de “devocional” aquele momento dedicado ao crescimento, edificação e amadurecimento espiritual. É a hora de cultivar o espírito e pensar no que há de mais elevado. Influências orientais como a ioga e o zen-budismo, por exemplo, recomendam fortemente a prática diária da meditação, que consiste basicamente em procurar um ambiente confortável, tranquilo e silencioso, ficar de olhos fechados, manter uma postura ereta e confortável, focar no tempo presente (aqui e agora), focar a atenção na respiração, buscar relaxamento, quietude, contemplação e ataraxia (paz interior). Como cristão, porém, troco tudo isso por alguns minutos de oração silenciosa, prática que tem muito em comum com a meditação oriental, exceto pela postura curvada e penitente, e pelo foco em Deus em vez da respiração. Esse momento de oração deve ser acompanhado de estudo bíblico, buscando sempre o equilíbrio entre a piedade e a erudição teológica.

Qual é o seu ikigai?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na cultura de Okinawa, no Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”. No tradutor do Google, a tradução literal é “sal da vida”. No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, ele tem sido estendido a várias outras áreas. Veja uma síntese gráfica do ikigai:

ikigai

Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (1) aquilo que amamos, (2) aquilo que fazemos bem, (3) aquilo do que o mundo precisa, e (4) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobri-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é sua missão. Quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é sua profissão.

A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz. Contudo, para viver uma vida plena, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai. Ou seja: uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer.

Além dessa atividade principal, é saudável dedicar-se também a atividades paralelas, como hobbies e voluntariado. Por exemplo, pode ser que você trabalhe como cientista, mas também goste muito de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby.

Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada. Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas.

E já que estamos falando nele, recomendo que você assista abaixo ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa. Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva outras para o buraco com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.

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