Tolerância e ofensa

Artigo de Desidério Murcho para o jornal Público do dia 22 de janeiro de 2008.

A tolerância é uma das noções mais difíceis de compreender. Confunde-se geralmente com o relativismo epistêmico e esta confusão denuncia incapacidade ou até falta de vontade para aceitar a tolerância. Os pensadores pós-modernistas são responsáveis por contaminar a cultura contemporânea com esta confusão grave, que acaba por tornar impossível a genuína tolerância. Ser tolerante é aceitar o direito de alguém afirmar aquilo que pensamos firmemente ser falso, errado, inaceitável ou ofensivo. Isto é de tal modo difícil de assimilar que os pensadores pós-modernistas se sentem na necessidade de declarar que não há “verdades”, mas apenas “construções sociais da realidade”. Como consequência disso, todas as diferentes “construções” são igualmente aceitáveis. Pensa-se então que essa atitude é tolerante, quando, ironicamente, ela torna impossível a tolerância. Pois se ninguém pode realmente estar errado nem dizer coisas falsas ou inaceitáveis, não podemos realmente ser tolerantes: limitamo-nos a aceitar todas as perspectivas que reconhecemos inicialmente serem tão aceitáveis quanto as nossas.

A falsa tolerância abre as portas ao fanatismo, cada vez mais presente na sociedade contemporânea. O fanatismo consiste em usar sistematicamente a noção de ofensa para silenciar os outros. Assiste-se assim à imposição de um discurso politicamente correto, proibindo seja quem for de dizer seja o que for que possa ser ofensivo seja para quem for. A tolerância, pelo contrário pressupõe a convicção do erro. Só podemos tolerar o que estamos convictos de que é um erro inaceitável, uma falsidade patente, um absurdo ofensivo. E é precisamente porque tais opiniões são claramente falsas, claramente injustificáveis, que podemos ser tolerantes relativamente a quem as defende. Se tais ideias nos ofendem, paciência. Não é possível garantir a liberdade de expressão e ao mesmo tempo garantir que não seremos ofendidos.

Deus fora da Unicamp

unicamp (1)Marcado para a última quinta-feira, o 1° Fórum de Filosofia e Ciência das Origens, que seria realizado no campus da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi cancelado na véspera, sob uma enxurrada de e-mails indignados de professores da própria instituição de ensino, uma das mais respeitadas do País. O motivo da revolta é que os cinco palestrantes convidados a participar do evento eram nomes ligados ao criacionismo científico, que nega a teoria da evolução do biólogo inglês Charles Darwin.

“Que façam isso numa igreja! É embaraçoso dar credibilidade a esse tipo de doutrina não científica”, disse o professor de física Leandro Tessler. Outro que reclamou à reitoria, o professor de matemática Samuel Oliveira, disse que “criacionistas não têm formação para falar de ciência”. A pró-reitoria, que havia dado aval ao evento, recuou. Em nota oficial, a Unicamp justificou o cancelamento dizendo que “faltavam integrantes que pudessem debater o tema sob todos os pontos de vista”. O físico americano Russell Humphreys já tinha passagem comprada para palestrar no evento, mas teve de cancelar a viagem. “Fomos boicotados por um grupo de professores ateus. Hoje, quem discorda de Darwin é queimado na fogueira”, afirma o professor de arqueologia Rodrigo Silva.

Esse tipo de intolerância a opiniões divergentes em uma instituição como a Unicamp, reconhecida pela qualidade da pesquisa científica, chama a atenção. Mas esse tipo de conflito não é novidade no meio acadêmico. Em 2008, depois de uma série de reclamações, a Universidade Federal de São Carlos (UFSC) cancelou uma palestra do físico Adauto Lourenço sobre criacionismo e teoria da evolução. Em 2007, o bioquímico americano Fazale Rana esteve na mesma Unicamp para falar da Teoria do Design Inteligente. Professores ateus conseguiram retirar o logo da universidade dos cartazes da palestra de Rana, mas não conseguiram impedir a conferência.

Com informações de: Isto É.

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