O mundo em que nasci

Veja também: Murilo Gun nos anos 80

Minha primogênita nasceu e eu fiquei refletindo sobre o quanto esse mundo em que ela chegou é diferente daquele que eu conheci na infância. Cheguei à conclusão que, em certo sentido, sou velho. Pra começo de conversa, eu e ela nascemos em milênios diferentes: eu no segundo e ela no terceiro milênio da era cristã. Além disso, nascemos em séculos diferentes: eu no século 20 e ela no 21. Quando eu cheguei aqui, em 1989, haviam menos de 5 bilhões de pessoas no mundo, enquanto ela deve ser a pessoa viva de número 7 bilhões e alguma coisa. Ela talvez nunca entenderá completamente as coisas que vou lembrar agora, mas quem, como eu, nasceu nos lendários “anos 80” e viveu a infância intensa dos “anos 90”, com certeza entenderá a nostalgia.

Nasci na época da Guerra Fria. O capitalismo representado pelos Estados Unidos e o socialismo representado pela União Soviética dividiam o mundo em dois, e essa divisão era simbolizada pelo Muro de Berlim, que só foi derrubado meses depois da minha chegada ao mundo. O Brasil tinha acabado de passar por mais de duas décadas de governos militares e eu já estava aqui nas primeiras eleições presidenciais após a redemocratização do país. Collor foi eleito presidente, mas sofreu o impeachment pelo envolvimento em casos de corrupção. O dinheiro que ele supostamente desviou dos cofres públicos era muito diferente desse que usamos hoje. Até a implantação do Plano Real em 1994 pelo governo FHC, ou seja, até os meus 5 anos de idade, usávamos uma moeda chamada “cruzeiro”, que valia muito pouco. Sou ou não sou velho?

Naquelas eleições de 1989, pouca gente sabe, mas até Silvio Santos se candidatou a presidente! Ele mesmo: o dono do SBT. E por falar em dono de emissora de TV, foi nesse mesmo ano que o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, comprou a rede Record. Já naquela época, porém, era a rede Globo que dominava a preferência nacional. Quando eu ainda era um bebê, meus pais assistiam um Jornal Nacional bem diferente: sem cenário, vinhetas e grafismos. Menos de um ano após o fim do Cassino do Chacrinha, a Globo estreava o Domingão do Faustão, no ar até hoje. Eram comuns comerciais de cigarro, bem como dos carros da moda: Fusca, Chevette, Kombi… Por falar em carros da moda, a modinha das manhãs de domingo era assistir as corridas de Ayrton Senna na Fórmula 1. E já que falamos de esporte, cheguei a ver Zico jogar e comemorei o tetra do Brasil na Copa de 1994. Ainda na primeira infância, convivi com grandes bandas e músicos, como Legião Urbana e Luiz Gonzaga. Além disso, vi surgir os Mamonas Assassinas; e chorei as suas mortes naquele trágico acidente aéreo.

Eu sou da época em que se vendiam discos de vinil. Lembro de colocá-los para tocar na radiola do meu pai e de gravar fitas cassete por cima de outras no rádio, sempre precisando girar para rebobinar com uma caneta Bic. Naquela época analógica, dificilmente ouvíamos música ou TV sem algum chiado. Eu assistia filmes e desenhos no vídeo cassete, sempre cuidando de rebobinar a fita VHS antes de devolvê-la à locadora para não pagar multa. Eu jogava Mario World num Nitendo, e precisava soprar a fita para ela pegar. Eu sou do tempo dos disquetes, dos minigames e dos celulares “tijolão” com toques monofônicos. Eu sou do tempo de “bater um retrato” com câmera analógica e depois levar o filme de “36 poses” para revelar as fotos, torcendo para nenhuma ter queimado. Eu sou do tempo de enviar pelos correios cartas redigidas em máquina de escrever. Sou da época em que curso de datilografia enriquecia o currículo.

Vivi toda a infância e adolescência em uma época analógica, na qual o uso de computadores e o acesso à internet eram atividades restritas a poucos especialistas. Muito pela condição econômica da minha família, até a vida adulta eu não sabia absolutamente nada de informática. Só quando comecei a trabalhar foi que pude fazer um curso básico e perder o medo de mexer em computador. Catarina, ao contrário, chega num mundo onde as crianças praticamente já nascem sabendo mexer em smartphones e tablets de última geração, mas que, no entanto, parecerão as mesmas velharias quando ela for contar a meus netos.

Ler com pressa é pior do que não ler

Artigos de Danilo Venticinque para a revista Época.

Quem acompanha a coluna já sabe minha opinião sobre a leitura dinâmica. Sou um cético. Ler mais rápido é possível, evidentemente, e não faltam manuais na internet para quem estiver disposto a tentar. Mas a velocidade tem seu preço. Mesmo quando não compromete a capacidade de compreender e memorizar, a rapidez nos dá menos tempo para pensar no que lemos. E, afinal, para que tanta pressa? Qualquer livraria de esquina tem muito mais livros do que seremos capazes de ler em toda a nossa vida. Mesmo os mais afobados não conseguirão ler tudo o que querem. Nesse caso, já que o fracasso é inevitável, o melhor a fazer é relaxar e saborear os poucos livros que venceremos.

Os defensores da leitura dinâmica parecem não se importar, e continuam criando os métodos mais heterodoxos para acelerar seus olhos. De todos os métodos que já me apresentaram, o mais curioso é também o mais recente. A startup americana Spritz anunciou uma tecnologia capaz de ensinar qualquer um a ler rápido instantaneamente, em qualquer tela de celular. Segundo os fundadores da startup, apenas 20% do nosso tempo de leitura é dedicado a decifrar palavras. Os outros 80% são gastos movendo os olhos em busca de uma boa posição para ler. A solução proposta para o suposto problema é simples: exibir apenas uma palavra por vez na tela, sempre na posição ideal para a leitura. As palavras se sucedem na velocidade escolhida pelo usuário. Os gifs animados abaixo dão uma pequena demonstração de como o programa funciona.

spritz1 (Foto: reprodução)
spritz2 (Foto: reprodução)
spritz3 (Foto: reprodução)

Com esse método, os criadores dizem que é possível ler e entender até mil palavras por minuto. Um romance curto como o primeiro Harry Potter, por exemplo, poderia ser lido em pouco mais de uma hora. Quem for capaz de manter a atenção por 10 horas seguidas conseguirá terminar Guerra e paz numa só sentada. Por enquanto, a tecnologia ainda não está disponível. Mas já há quem diga que o Spritz provocará uma revolução na leitura. Discordo. A tecnologia apenas nos tornará ainda mais apressados. Ler Harry Potter em uma hora e meia é uma péssima maneira de aproveitar o tempo. Nada contra o livro, mas tudo contra a velocidade. Um romance não foi escrito para ser absorvido num período tão curto. Não há tempo para se envolver com os personagens, imaginar cenas e tentar adivinhar o que vai acontecer a seguir. O livro se torna um borrão.

Quanto mais leio sobre o Spritz, mais tenho a impressão de que seus criadores nunca leram um romance – ou ao menos não gostaram do que leram. O tempo que supostamente “desperdiçamos” ao reposicionar nossos olhos é útil para pensar no que lemos, interpretar as palavras do autor e cadenciar o ritmo da leitura. Pobre do leitor que usa apenas os olhos. Para ler um livro é preciso ter imaginação. E a pressa não é o único problema. Retalhar um romance e exibi-lo palavra por palavra já é uma maneira grosseira de ler. As divisões de capítulos deixam de fazer sentido. Perde-se a noção de estrutura e ritmo. Frases magistrais deixam de ter o efeito desejado. Com apenas uma palavra na tela, é impossível distinguir um gênio da literatura de um desmiolado do Facebook.

No universo da cultura, a obsessão com a velocidade parece ser uma característica exclusiva dos leitores. Não existe cinema dinâmico, por exemplo. Cinéfilos sabem que um filme de três horas deve ser visto em três horas: nem um minuto a menos. Um velocista conseguiria atravessar uma exposição de arte em poucos minutos – e dificilmente se lembraria de uma obra sequer. Se acelerássemos a rotação de um toca-discos, conseguiríamos ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven em menos de meia hora. Mas seríamos incapazes de distingui-la do último hit do carnaval de Salvador. O mesmo vale para a leitura. Ler um grande romance exige tempo. Se você não estiver disposto a gastá-lo, melhor fazer outra coisa. Programas como o Spritz só terão valor se os usarmos para ler textos pouco importantes: mensagens no celular, posts nas redes sociais, divagações semanais de colunistas. Será a revolução da leitura superficial. Se é para perder tempo com bobagens, que ao menos seja pouco. A internet está cheia de textos que merecem ser lidos a mil palavras por minuto. Um livro merece um destino melhor.


10 motivos para ler mais devagar

A velocidade da internet nos fez desaprender a arte da leitura. É preciso redescobri-la. Quando abandonamos as distrações digitais e lemos um livro com calma, mesmo que por pouco tempo, cultivamos algumas habilidades fundamentais que corremos o risco de perder. Para quem está destreinado, reacostumar-se à leitura lenta ou praticá-la pela primeira vez pode dar trabalho. Mas não há motivo para preocupação. Os livros – sempre eles – podem ajudar. São incontáveis os autores que pretendem nos ensinar a ler melhor. Entre eles, David Mikics é o que mais chamou minha atenção, com seu livro recém-lançado Slow reading in a hurried age (A leitura lenta numa era apressada). O título explica tudo – perfeito para quem quer capturar a atenção de leitores apressadinhos. Ao longo de 336 páginas, Mikics defende os benefícios da leitura lenta e se propõe a ensiná-la. É a mais apaixonada declaração de amor aos livros que li nos últimos tempos. Na coluna de hoje, divido algumas de suas dicas para quem quer abandonar a pressa.

1. Saiba por que você está lendo: Ninguém lê um livro apenas para passar o tempo. Na internet, no celular ou na tela da televisão, não faltam outras opções mais atraentes e acessíveis para quem quer relaxar nas horas vagas enquanto o sono não vem. Ler um livro é uma atividade diferente de todas elas. Lemos porque estamos procurando respostas para algo – talvez uma pergunta que ainda não tenhamos feito. Pense nisso. Ler sem motivo é uma receita infalível para ler mal. Antes de começar um novo livro, tente responder a essa questão simples: o que você espera tirar dessa leitura? É uma maneira de escolher melhor os livros que lemos – e de garantir que a pergunta será respondida.

2. Fuja da microleitura: Engana-se quem diz que a televisão é a principal inimiga dos livros. A maior distração dos leitores, hoje em dia, é a própria leitura. Dedicamos a maior parte de nosso tempo na internet a uma leitura fragmentada, superficial, com péssimos índices de compreensão e retenção. Você pode passar o dia inteiro lendo posts no Facebook e notícias curtas em portais. Daqui a um mês, não se lembrará de nada. Viver só com isso é matar a mente de inanição. “Não dá para viver dessa dieta. Até para ler apenas uma página de literatura de verdade é preciso ter tempo para refletir”, diz Mikics.

3. Aprenda a perder: Um dos erros mais comuns entre apaixonados por livros é não respeitar seus próprios limites. A lista de leituras pendentes é interminável e não há tempo a perder. Mal viramos a primeira página e já pensamos em acabar a história, e no próximo livro que leremos em seguida. Com isso, a leitura passa a ser uma fonte de estresse. A vontade de terminar o livro é tão grande que não somos capazes aproveitá-lo. Reconhecer que não conseguiremos ler tudo o que queremos é fundamental para aproveitar a leitura. “Como você lê importa muito mais do que quanto você lê”, diz Mikics. Ler 5 livros com prazer é muito melhor do que ler 50 sem refletir sobre eles.

4. Respeite o autor: Você pode até não perceber, mas a internet se molda às suas vontades. Seus amigos nas redes sociais provavelmente pensam como você. Algoritmos do Google e do Facebook selecionam e exibem o conteúdo que tem mais chances de agradar alguém com o seu perfil. Você pode passar um dia inteiro na internet sem encontrar alguém que tenha bons argumentos para discordar de suas opiniões. Ler um livro, pelo contrário, é um exercício permanente de questionar convicções. É deixar de ser protagonista para ser ouvinte. Na leitura, a opinião do autor é muito mais importante do que a do leitor. É preciso deixar as preferências pessoais de lado para entender um livro por completo, mesmo que discordemos dele. Só quem aprende a ouvir e aceitar opiniões diferentes conseguirá aproveitar a leitura.

5. Desconfie do autor: Endeusar um autor pode ser ainda mais perigoso do que rechaçá-lo logo de cara. Qualquer livro, mesmo os grandes clássicos, é cheio de idiossincrasias típicas de qualquer obra humana. Analisar as escolhas do autor e fazer perguntas sobre elas é uma maneira de dar ainda mais profundidade à leitura. O que cada personagem representa? Por que o livro termina da maneira como termina? O que mudaria se a história se passasse nos dias de hoje? Alguma das opiniões do autor seria considerada polêmica ou inaceitável atualmente? Condenar o autor é injusto e inútil, mas fazer perguntas desse tipo é um passo importante para tirar o melhor de cada livro.

6. Imagine novas histórias: Para terminar um livro, o autor é obrigado a tomar decisões. Das inúmeras de histórias diferentes e contraditórias imaginadas por ele, apenas uma chega ao leitor na história publicada. Por que ela foi escolhida? Por que a trama não se desenrolou de outra forma? As perguntas parecem infantis, mas são um passo essencial para quem quer entender melhor o autor. Pense nas maneiras diferentes como o livro poderia ser escrito. Imagine histórias paralelas e tente se colocar na cabeça do escritor que decidiu descartá-las. Ralph Waldo Emerson escreveu uma bela frase sobre o assunto: “Assim como existe a escrita criativa, existe a leitura criativa”. O que não está no livro pode ser tão estimulante quanto o que chegou às páginas da versão final.

7. Viva com o livro: “Olhar para um tweet demora alguns segundos; entender um romance demora dias, às vezes semanas”, diz Mikics. Pela sua natureza, o livro é algo que nos acompanha no dia a dia, mesmo quando não estamos diante de suas páginas. Pensar num livro quando estamos longe dele é uma parte indispensável da leitura lenta. Leve seu livro para passear, ainda que mentalmente. Lembre-se dele nas situações mais inusitadas do cotidiano. Se você tiver sorte, isso mudará algo na sua forma de ver o livro (ou a vida).

8. Repita até aprender: Com tantos livros para ler em tão pouco tempo, a releitura poderia ser vista como um pecado a ser evitado a todo custo. Na prática, ela é essencial. Mikics recomenda que todos os leitores tenham uma prateleira de livros favoritos e releiam ao menos partes deles com frequência. Cada leitura é uma redescoberta. Uma das mais verdadeiras frases sobre esse hábito foi escrita pelo romancista Robertson Davies: “Um livro verdadeiramente grandioso deve ser lido na juventude, na maturidade e na velhice, da mesma forma que um prédio bonito deve ser visto de manhã, de tarde e de noite”.

9. Encontre sua próxima leitura: Uma boa leitura pode ser definida como uma conversa franca entre leitor e escritor. Quando embarcamos nela, é comum entreouvirmos, à distância, diálogos entre o autor do livro e outros autores. Um leitor curioso não deve perder a chance de acompanhar essas conversas. Um bom livro serve como porta de entrada para uma infinidade de outros, igualmente valiosos.

10. Reavalie sua vida: A experiência da leitura, segundo Mikics, é como visitar um país estrangeiro. Podemos nos comportar como turistas impacientes, que estranham quaisquer novidades e não veem a hora de chegar em casa. Mas é muito mais recompensador aprender com as diferenças culturais, aceitá-las, descobrir um novo universo e reavaliar sua vida com base nessas descobertas. Cada livro é um país desconhecido. “Aproveitar ao máximo a viagem significa se render às paisagens do lugar, mantendo-se alerta a todas as suas surpresas. Só depois você pode julgar o que viu”, afirma o autor. Cada nova leitura é uma chance de escolher se seremos viajantes curiosos ou turistas apressados. Nunca é tarde para aproveitar a viagem.


7 dicas para ler mais rápido
(e 7 motivos para não segui-las)

Com tantos livros para ler e tão pouco tempo para eles, é natural que cedo ou tarde entremos em pânico. Todo leitor enfrenta essa dura revelação em algum momento de sua vida. A lista de obras que queremos ler é imensa, nossa estadia nesta adorável biblioteca é finita e, infelizmente, jamais conseguiremos ler tudo. Alguns encaram a descoberta com resignação e começam a escolher melhor os livros que leem. Outros passam a dedicar ainda mais tempo à literatura, na tentativa de reduzir suas perdas. E há os que se negam a aceitar seu destino. Decidem trapacear e entregam-se à leitura dinâmica. Já sucumbi várias vezes a essa tentação. Depois de cada uma delas, me arrependi e voltei à minha velocidade normal de leitura. Numa das tentativas, comprei um livro intitulado Leitura dinâmica e memorização. Não terminei de lê-lo e não lembro de nenhuma das dicas. Já tentei assistir a aulas de leitura dinâmica no YouTube, mas percebi que seria mais produtivo sair do computador e usar esse tempo para ler. Num ato de desespero, peguei emprestado um CD com um curso de leitura dinâmica baseado em técnicas nebulosas de programação neurolinguística. Desisti quando o locutor disse “feche os olhos e visualize seus objetivos sendo alcançados”. Mantive os olhos abertos, fui até a estante e busquei um livro para “visualizar”. Continuo lendo com a mesma velocidade desde então.

A melhor frase que li sobre o assunto é de Woody Allen: “Fiz curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em 20 minutos. É sobre a Rússia”. Poucas vezes uma hipérbole foi tão verdadeira. É, sim, possível aprender a ler mais rápido. Mas há limites. Os resultados positivos costumam ser frutos de uma escolha entre velocidade e perda de compreensão. Alguns leitores podem achar que a troca vale a pena. Outros podem preferir ler menos, mas melhor. Para ajudar nessa decisão, fiz uma lista com minhas sete dicas favoritas (e infalíveis) para ler mais rápido – e seus sete desagradáveis efeitos colaterais.

1. Leia um livro por vez: Quanto mais caóticos forem nossos hábitos de leitura, mais custosa será nossa tarefa de lembrar dos detalhes de um livro e retomá-lo do ponto em que paramos. Não é raro que tenhamos de ler duas ou três vezes a mesma página até reencontrarmos o fio da história. Quando intercalamos dois ou mais livros diferentes, perdemos vários minutos de leitura que poderiam ter um destino mais nobre. Estabelecer uma rotina de leitura disciplinada e mergulhar em apenas um livro por vez é uma boa maneira de evitar esses lapsos e acelerar a leitura. Se você sentir uma vontade incontrolável de abrir outro livro antes de terminar o que está lendo, contenha-se. Force-se a ler apenas um livro por vez. Afinal, você quer ser rápido ou quer se divertir?

2. Nunca releia: A memória de um leitor é traiçoeira. Incontáveis vezes, entre uma página e outra, somos acometidos por dúvidas sobre trechos que acabamos de ler. A única solução é retroceder na leitura e buscar as respostas em capítulos já vencidos. Quem sucumbe a essas tentações, porém, jamais será um verdadeiro praticante da leitura dinâmica. A ordem é avançar a qualquer preço. A mão que vira as páginas deve se movimentar sempre da direita para a esquerda, sem nunca percorrer o caminho contrário. Talvez o autor esclareça sua dúvida num capítulo seguinte. Talvez você tenha de buscar a resposta na Wikipédia. Talvez você nunca obtenha a resposta. Não importa. É melhor ganhar uma dúvida para a vida inteira do que perder alguns minutos de leitura.

3. Pesquise antes de ler: Quanto menos surpreendente for a leitura, menos tempo você terá de gastar com ela. Os segundos que desperdiçamos quando uma frase nos emociona ou quando ficamos chocados com uma virada no enredo são preciosos. Evite surpresas. Leia o índice, leia resenhas, consulte resumos, convença um amigo a estragar o final. Quando souber tudo sobre o livro, a leitura se tornará uma formalidade rápida e quase indolor. Livre-se dela como uma enfermeira arranca um esparadrapo. Você perderá a alegria de ser surpreendido, mas lerá muito mais do que seus amigos.

4. Segure sua língua: A maioria dos leitores tem o hábito de pronunciar, sem emitir sons, cada palavra que lê. Para os defensores da leitura dinâmica, poucos barulhos são tão incômodos quanto esse monólogo mental silencioso. A fala é muito mais lenta do que a visão. Se nos acostumarmos a ler sem subvocalizar cada palavra, leremos muito mais rápido. Há técnicas para conseguir isso. A mais eficiente é ocupar as cordas vocais durante a leitura. Há quem aconselhe o leitor a repetir a mesma palavra inúmeras vezes, recitar o alfabeto ou até zunir para si mesmo – tudo isso enquanto lê. O aumento na velocidade é instantâneo. O desconforto também. Fica muito mais difícil apreciar a sonoridade das frases. E pense na cara de desapontamento que o autor do livro faria se soubesse que sua grande obra seria lida em meio a zumbidos e mantras desconexos.

5. Leia grupos de palavras: Depois de domar suas cordas vocais, você estará pronto para o Santo Graal da leitura dinâmica. Em vez de ler uma palavra por vez, leia grupos de palavras, frases e até linhas inteiras. Aprendendo a criar, processar e digerir esses blocos de informação, sua velocidade de leitura chegará ao ápice. Como nas outras dicas, a rapidez tem seu preço. Sem tempo para se dedicar a cada palavra individualmente, é impossível dar a atenção merecida às escolhas vocabulares do autor. Palavras desconhecidas permanecerão desconhecidas para sempre: retroceder para lê-las seria violar a regra do item 2 (Nunca releia). E nem pense em pegar um dicionário: além de ser uma enorme perda de tempo, é uma evidente violação da primeira regra (Leia um livro por vez). Um neologismo curioso ou um vocábulo exótico não são justificativas para interromper o fluxo da leitura. Siga em frente, em velocidade máxima.

6. Exercite a leitura seletiva: Às vezes a velocidade máxima não é o bastante. A saída, então, é procurar um atalho. Ou seja: atravessar trechos inteiros do livro sem lê-los. Está aborrecido com um trecho descritivo de um romance? Comece o próximo parágrafo. Não quer encarar um diálogo entre dois personagens que você odeia? Vire a página. Já entendeu o que um autor de não-ficção queria dizer, mas ele insiste em dar novos exemplos? Pule para o próximo capítulo. Se o tempo de leitura for muito curto, pode ser necessário recorrer a métodos ainda mais radicais. Leia as páginas ímpares e pule as pares. Leia só o índice, o começo e o final. Leia apenas a primeira frase de cada parágrafo e a última de cada capítulo. Essa última técnica é minha favorita. Recorri a ela com uma frequência vergonhosa. Quantos trabalhos de faculdade não nasceram desse tipo de leitura? E quantos deles não receberam boas notas, talvez porque o professor aplicava neles um método de leitura dinâmica semelhante ao meu? Só o resultado imediato importa. Pouco tempo depois, você se sentirá como se nunca tivesse lido o livro.

7. Finja que leu: Se a leitura seletiva é comparável a uma conversão proibida na estrada, fingir que já lemos um livro equivale ao teletransporte. Essa é a forma mais eficiente de leitura dinâmica. Para praticá-la de forma satisfatória, basta seguir pela metade a dica 3 (Pesquise antes de ler). Pesquise, mas não leia. Fale do livro com desenvoltura sem nunca ter folheado suas páginas. A maioria dos devotos desse tipo de leitura prefere preservar seus segredos, mas já fui apresentado a praticantes orgulhosos dessa técnica sobrenatural. Para eles, ler um clássico é uma perda de tempo. Basta se informar sobre o livro e, quando muito, ler as primeiras páginas para ter uma vaga ideia de qual é o estilo do autor. Seguindo essas dicas, qualquer um pode ler Guerra e Paz em poucos minutos – e descobrir que o livro é sobre a Rússia. Pouco importa. A velocidade da leitura é fundamental. O livro é só um detalhe.

Da pedra à internet

internetA humanidade demorou para evoluir suas formas de comunicação. Antes de inventar a escrita, passamos milhares de anos usando basicamente gestos e grunhidos. Até a fala custou a aparecer; quando começou a ser desenvolvida, as pinturas rupestres já existiam. Em compensação, depois disso, tudo se acelerou. Na base da conversa, começamos a trocar conhecimentos, principalmente de caráter mitológico e religioso. A escrita não demorou a surgir, como uma forma de registro do sonoro. No século 8 a.C., os poemas gregos Ilíada e Odisseia foram escritos a partir de relatos orais. Da linguagem escrita em diante, começamos a aplicar a tecnologia à comunicação. Nas últimas décadas, chegamos ao ponto em que um único emissor transmite sua mensagem para milhões de pessoas – é o caso do rádio e da televisão. Temos à disposição telefones fixos, celulares e internet. E o futuro promete.


3800 a.C. – desenhos livres

Enquanto o homem não sabia falar, do jeito como fazemos hoje, valia fazer desenhos em cavernas a partir de pigmentos de argila, hematita e carvão vegetal. A motivação das pinturas não era clara, mas certamente elas transmitiam conhecimento.

3200 a.C. – Primeiras letras

Os sumérios criaram alfabetos formados por figuras que representam objetos do cotidiano. Com a sistematização desse tipo de desenhos, os fenícios também desenvolveram um modelo de escrita. Acabava a Pré-História, e a comunicação começava a evoluir bem mais rápido.

3000 a.C. – Telégrafo de fogo

Surgia o sinal de fumaça, uma maneira de informar à distância. Indígenas americanos foram os primeiros a usar os sinais, que seguiam um princípio depois adotado nos telégrafos: um cobertor abafava o fogo e soltava a fumaça em intervalos regulares.

2900 a.C. – Voe depressa!

Começava a ser usada uma das formas de se enviar dados mais resistentes ao tempo: o transporte de mensagens com pombos-correios. Os registros mais antigos datavam do Egito de Ramsés II, mas até 2002 as aves ainda eram usadas pela polícia indiana.

550 a.C. – Cartas a galope

O tataravô do correio atual nasceu com Ciro II, rei da Pérsia, que desenvolveu um sistema de postos de parada para os homens que levavam cartas a cavalo. Essa estrutura permitia que uma correspondência viajasse 2500 quilômetros com segurança.

1455 – Livros em série

Para a mídia surgir e facilitar o acesso à informação, foi necessário que Johannes Gutenberg melhorasse a impressão, que existia havia 14 séculos na China. Sua sacada foi criar uma forma com letras independentes.

1837 – Contatos imediatos

O americano Samuel Morse (1791-1872) criava o telégrafo. Ele queria um jeito de trocar mensagens que o governo americano não entendesse. Em 1835, ele tinha inventado o Código Morse, que seria fundamental para a navegação e a aviação.

1876 – Fala que eu te escuto

O inventor escocês Alexander Graham Bell (1847-1922) patenteava nos Estados Unidos seu aparelho de telefone. Há quem diga que o italiano Antonio Meucci (1808-1889) teria desenvolvido seu protótipo antes, mas foi Bell que o popularizou.

1893 – Ondas sonoras

Aparecia o rádio, atribuído ao italiano Guglielmo Marconi (1874-1937). No futuro, o croata Nikola Tesla (1856-1943) ganharia o crédito, porque a invenção de Marconi usava 19 patentes suas. Os primeiros aparelhos transmitiam apenas Código Morse. A emissão de áudio só começaria a partir de 1918.

1929 – Imagens na sala

O cientista russo Vladimir Zworykin (1889-1982) apresentava o kinoscópio, o precursor da televisão. Vários desenvolvimentos posteriores do aparelho de Zworykin levariamà industrialização e disseminação da TV, acelerada a partir de 1945.

1960 – Balão espacial

Lançado pelos Estados Unidos, o primeiro satélite refletia sinais enviados a partir da Terra. Batizado de Echo 1, o aparelho consistia em um balão de náilon de 30 metros de diâmetro, visível a olho nu em vários pontos do globo.

1994 – Todo mundo online

O governo americano liberava a circulação da World Wide Web, uma versão civil do sistema de troca de informações entre as redes de computadores militares.

Fonte: Guia do Estudante.

Alberto Manguel sobre livros e literatura

Alberto ManguelTrechos da entrevista de Alberto Manguel para a revista Veja em 1999. Manguel nasceu em 1948, em Buenos Aires, e hoje é cidadão canadense. Passou a infância em Israel, estudou na Argentina e vive atualmente no interior da França. É ensaísta, organizador de antologias, tradutor, editor e romancista.


A atual cultura de imagens é superficialíssima, ao contrário do que acontecia na Idade Média e na Renascença, épocas também marcadas por uma forte imagética. Pense, por exemplo, nas imagens veiculadas pela publicidade. Elas captam a nossa atenção por apenas poucos segundos, sem nos dar chance para pensar. Essa é a tendência geral em todos os meios visivos. Assim, a palavra escrita é, mais do que nunca, a nossa principal ferramenta para compreender o mundo. A grandeza do texto consiste em nos dar a possibilidade de refletir e interpretar. Prova disso é que as pessoas estão lendo cada vez mais, assim como mais livros estão sendo publicados a cada ano. Bill Gates, fundador da Microsoft, por exemplo, propõe uma sociedade sem papel. Mas, para desenvolver essa ideia, ele publicou um livro impresso. Isso diz alguma coisa.


Os livros de hoje derivam dos pergaminhos e estes, das tábuas. Ou seja, são resultado de um processo que visou facilitar a vida do leitor. O formato atual do livro permite carregá-lo para qualquer lugar, folheá-lo sem esforço e anotar em suas margens. Também possibilita que saibamos exatamente seu tamanho, o que era difícil no caso do pergaminho. As palavras impressas no papel são tangíveis, você quase pode tocar a tinta, e têm uma durabilidade incrível. No museu de arqueologia de Nápoles, vi papiros queimados na erupção do Vesúvio que destruiu Pompeia, e ainda é possível ler o que está escrito nesses fragmentos! Por outro lado, se um HD cair na água, o texto nele contido desaparecerá para sempre. No computador, o texto não tem uma realidade sólida, além de ser extremamente frágil – se você apertar um comando errado, adeus texto.


Quando falamos em ler um livro, nosso vocabulário é gastronômico: “devoramos um livro” ou “saboreamos um texto”. Já em relação ao computador usamos palavras que têm a ver com superfície, como “navegar” ou “surfar” na internet. É impossível interiorizar o texto que aparece na tela luminosa. Isso me faz pensar que não lidamos com a informática da maneira correta. A história mostra que esse tipo de problema ocorre sempre que adotamos uma nova tecnologia. No final do século passado, dizia-se que, com o nascimento da fotografia, a pintura morreria. Da mesma forma, acredita-se hoje que a mídia eletrônica substituirá a imprensa. Bobagem. Assim como a fotografia encontrou uma linguagem própria, a informática também achará a sua.


Shakespeare escreve numa linguagem antiga. Uma criança pode entender algo desde que seus textos sejam vertidos para uma linguagem mais simples. Ainda assim, as crianças só compreenderão Shakespeare até certo ponto, dada sua parca experiência de vida e limitada formação intelectual. (…) Por que uma criança deve ser obrigada a ler obras clássicas? Ela pode começar lendo livros próprios para sua idade e, depois de crescida, chegar a Shakespeare. (…) Mais do que uma simplificação, a adaptação de uma obra implica uma intervenção inadmissível em seu conteúdo. No limite, ela pode tirar o desejo de ler um clássico na versão integral. Não há por que tratar a leitura de grandes livros como obrigação. Não há prazer na obrigação e devemos ler apenas por prazer.


Da mesma maneira que não podemos fazer com que uma criança goste de alguém, não temos a capacidade de transformá-la num leitor. O que devemos fazer, como adultos responsáveis, é colocar a literatura à disposição da garotada. Uma das razões pelas quais às vezes não apreciamos um determinado livro é por termos sido forçados a lê-lo na escola ou por nossos pais terem lido e nos obrigado a fazer o mesmo. Parte da maravilha e da riqueza da leitura vem da liberdade que ela sugere e da possibilidade de vagar por florestas de prateleiras, escolhendo o livro certo para aquele momento, como se nós fôssemos seu primeiro leitor ou estivéssemos chegando a um país desconhecido. Essa é uma experiência que não devemos tirar de nossas crianças. Devemos deixá-las escolher.

Parmênides e “Interestelar”

Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo me impele, conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades. Por aí me levaram os habilíssimos corcéis, puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho. O eixo silvava nos cubos como uma siringe, incandescendo ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente o impeliam de um e de outro lado, quando se apressaram as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia, encimado por um dintel e um umbral de pedra; o portal, etéreo, fechado por enormes batentes, dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham. A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras, persuadindo-a habilmente a erguer para elas por um instante a barra do portal. E ele abriu-se, revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar, um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze, fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal, as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis. E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu:

“Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da verdade fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo.”


O poema acima¹ foi escrito há 25 séculos na Grécia Antiga por um filósofo pré-socrático chamado Parmênides, natural de Eleia (no sul da Itália). Na continuação do poema (postumamente intitulado “Sobre a Natureza”), Parmênides funda, segundo alguns filólogos e comentaristas, a disciplina filosófica a que chamamos “metafísica” ou “ontologia”. Mas não é isso que nos interessa agora. O que por ora nos encanta é a beleza literária do trecho acima, o proêmio do poema. E o que ele representa: uma fantástica viagem para bem longe do “trilho dos homens”. Com certa licença poética, podemos dizer que este é também o tema do filme Interestelar, de Christopher Nolan.

Pablo Capistrano sugeriu certa vez que todas as grandes histórias já contadas, em verso ou em prosa, se reduzem a apenas três tipos: as que falam sobre um amor; as que falam sobre um Deus que morre; e as que falam sobre uma viagem. Esta última temática engloba desde as grandes epopeias homéricas (Ilíada e Odisseia) até o recente O Senhor dos Anéis, de Tolkien. É também nessa categoria que se enquadram o poema de Parmênides e o filme de Nolan. Diferente das demais histórias, tanto o poema quanto o longa-metragem têm algo em comum: a grandeza da viagem. Sobre o poema de Parmênides, Capistrano diz o seguinte:²

“Do ponto de vista de Parmênides e de seus seguidores, o movimento é uma ilusão. A geração de todas as coisas, o crescimento e a corrupção; o tempo, com seus ciclos de apogeu, decadência e morte, são apenas erros dos sentidos falhos, que não alcançam a verdade bem redonda do Ser. Se qualquer um de nós, amigo leitor, entrasse no carro de Parmênides, seríamos alçados a um ponto de vista privilegiado. Poderíamos ver o mundo em sua totalidade, de fora dele, como se tivéssemos sido pegos na carona de um objeto voador não identificado e pudéssemos contemplar não apenas a terra, não apenas o sistema solar ou a via láctea, mas todo o universo, bem de longe, em sua totalidade. Se pudéssemos ter essa experiência, se pudéssemos ver o mundo como a poesia de Parmênides nos induz, teríamos a sensação de que ele seria inteiro, esférico, inabalável e sem fim; tudo junto, uno, contínuo. Seríamos tomados pela deliciosa sensação de que o tempo, a morte e a decomposição são reflexões, projeções, sombras de nossa mente que tomam o caminho errado do entendimento e pensam que as coisas são como aparecem.”

É também a este extremo distanciamento do mundo cotidiano, a essa magnífica aventura do pensamento, a essa grandiosa ousadia da imaginação humana que nos guia, como cavalos selvagens, o filme Interestelar. Christopher Nolan nos faz pensar grande, para além da superficialidade da vida com a qual estamos acostumados. “Ao adentrar o Universo”, diz um trecho do filme, “devemos encarar a realidade de uma viagem interestelar. Devemos alcançar além da nossa expectativa de vida. Temos que pensar não como indivíduos, mas como uma espécie”. Em outra cena, o protagonista reconhece: “Este mundo é precioso, mas nos diz parar partirmos já faz algum tempo. A humanidade nasceu na Terra, mas não morrerá aqui”.

Em outra cena impactante (e neste ponto eu recomendo que você pare de ler se ainda não assistiu o filme, porque vem spoiler) fica claro que o cientista da NASA responsável pela viagem interestelar, Dr. Brand, precisava encontrar uma forma de salvar a humanidade da extinção, já que o planeta Terra tornara-se um ambiente hostil e impróprio para a vida. Como o custo para levar pessoas ao espaço era alto demais e não havia recursos disponíveis para salvar muita gente da hecatombe, a única solução viável era declarar como perdido o caso das pessoas na Terra e tentar salvar ao menos a espécie, enviando ao espaço uma “bomba populacional” com 5 mil óvulos humanos fertilizados e congelados, que serviria para criar colônias e povoar outro mundo caso houvesse ao menos um com condições favoráveis à vida, o que ainda era incerto.

Dr. Brand conseguiu convencer alguns astronautas a partirem em missões suicidas em busca de pistas de um mundo habitável em outra galáxia, com potencialidade de se tornar o novo lar dos seres humanos. Atravessando buracos de minhoca, sendo atraídos por um gigantesco buraco negro, viajando em velocidades próximas à da luz e experimentando a dilatação do tempo, esses heróis altruístas sentiram na pele o que Albert Eisntein queria dizer com a sua famosa teoria da relatividade geral. Um grave problema ético surge quando o Dr. Brand precisa mentir para alguns desses astronautas para convencê-los a aceitarem a missão. Ao descobrir a farsa, Cooper, o protagonista, sente-se enganado e traído por Brand, e com razão. Nesse momento, entra em cena a defesa de Dr. Mann, outro astronauta que tripulava a nave:

“Dr. Brand sabia o quão difícil seria unir as pessoas para salvar a espécie em vez de a si mesmos ou a seus filhos. Você nunca teria vindo se não achasse que os salvaria. A evolução ainda não superou essa barreira. Podemos nos importar muito, de forma altruísta, com quem conhecemos; mas a empatia raramente vai além do que podemos ver. A mentira foi imperdoável e ele sabia disso. Ele abriu mão da própria humanidade para salvar a espécie. Foi um sacrifício incrível. O caso das pessoas na Terra é um caso perdido. Nós somos o futuro.”

Pensar na espécie em detrimento dos indivíduos, na humanidade em vez da própria família, contemplar séculos (ou milênios) à frente de seu tempo, enxergar a vida, o Universo e tudo o mais de um ponto de vista mais alto, mais distante, se afastar para conseguir ver o todo… Tudo isso o filme tem em comum com o poema de Parmênides. Embora lide a todo momento com dilemas científicos, com problemas de física quântica e da cosmologia contemporânea, quando chega nos limites da razão humana, a temática do filme deixa de ser meramente científica para se tornar filosófica. É por esse motivo que Interestelar é um dos melhores filmes que já assisti (e reassisti outras quatro vezes).


Não vás tão docilmente nessa noite linda
Que a velhice arda e brade ao término do dia
Clama, clama contra o apagar da luz que finda!
Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.³


  1. PARMÊNIDES. Da Natureza. Tradução: José Gabriel Trindade Santos. São Paulo: Loyola, 2002.
  2. CAPISTRANO, Pablo. Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
  3. THOMAS, Dylan. Do not go gentle into that good night. In: CAMPOS, Augusto de (trad. e org.). Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.
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