Como cai um avião

O avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Mas algo sempre pode dar errado. Quais são os principais riscos de voar? E o que realmente pode acontecer durante um acidente? É o que mostra a matéria a seguir, publicada na revista Superinteressante.


aviao“Senhores passageiros, sejam bem-vindos. Em nome da SincereAir, a companhia aérea que só fala a verdade, peço sua atenção para algumas instruções de segurança. Primeiramente, gostaríamos de parabenizar os passageiros que estão sentados no fundo da aeronave – em caso de emergência, sua chance de sobreviver será bem maior. Durante a decolagem, o encosto de sua poltrona deverá ser mantido na posição vertical. Isso porque, em nossa nova e moderna frota de aeronaves, as poltronas da classe econômica são tão apertadas que impedem a evacuação da aeronave em caso de emergência. Na verdade, se a segurança fosse nossa maior prioridade, colocaríamos todos os assentos virados para trás.

Metade do ar dentro da cabine é reciclado, o que nos ajuda a economizar combustível. Isso poderá reduzir a taxa de oxigênio no seu sangue, mas não costuma ser perigoso – e geralmente causa uma agradável sonolência. Mantenha o cinto de segurança afivelado durante todo o voo – ou você poderá ser vítima de turbulência, que é inofensiva para a aeronave, mas mata 25 passageiros por ano. Lembramos também que o assento de sua poltrona é flutuante. Não que isso tenha muita importância: a probabilidade de sobreviver a um pouso na água é mínima (geralmente a aeronave explode ao bater na água). Obrigada por terem escolhido a SincereAir, e tenham todos uma ótima viagem!”.

Nenhuma empresa aérea revelaria verdades como essas. Afinal, mesmo que o avião seja o meio de transporte mais seguro que existe, ele não é (nada é) 100% seguro. A partir de uma série de estudos feitos por especialistas, chegamos às principais causas de acidentes – e descobrimos fatos surpreendentes sobre cada uma delas.


Erro humano: Acidentes aéreos geralmente são resultado de uma sequência de erros que se somam. Em 60% dos casos, essa equação inclui falha humana. A pior de todos os tempos aconteceu em 1977, na ilha de Tenerife, um enclave espanhol a oeste da costa africana. Vários fatores se juntaram nessa tragédia. Primeiro: um atentado terrorista fechou o principal aeroporto de lá e fez com que todo o tráfego aéreo fosse desviado para um aeroporto menor, Los Rodeos, que ficou sobrecarregado e cheio de aviões parados no pátio. Entre eles, dois Boeing 747. Um vinha de Amsterdã, o outro de Los Angeles. O avião americano solicitou autorização para decolar. Quem estava no comando era o piloto Victor Grubbs, 57 anos e 21 mil horas de voo. A torre de controle respondeu negando – era preciso esperar a saída do 747 holandês, pilotado pelo comandante Jacob van Zanten, que ficou impaciente porque sua tripulação já estava em serviço há 9 horas. A torre de controle reposicionou as ae­ronaves. O nevoeiro era muito forte e, por um erro de comunicação, o avião americano foi parar no lugar errado. Ignorando instruções, o 747 holandês começou o procedimento de decolagem. Ace­lerou e bateu com tudo no outro avião, que manobrava à frente. Foi o pior acidente da história, com 583 mortos.

Pane nas turbinas: O maior inimigo das turbinas não são as falhas mecânicas; são os pássaros. Entre 1990 e 2007, houve mais de 12 mil colisões entre aves e aviões. As turbinas são projetadas para suportar alguns tipos de pássaro, e isso é testado em laboratório com uma máquina, o “canhão de galinhas”, que dispara frangos mortos contra as turbinas a 400 km/h. Desde 1990, 312 turbinas foram completamente destruídas em voo pelo choque com pássaros. Se o avião perder um dos motores, consegue voar só com o outro. Mas, se isso acontecer durante a decolagem, quando a aeronave está baixa e lenta, ou se os pássaros destruírem ambas as turbinas, as consequências podem ser dramáticas. Como no incrível caso de um Airbus A320 da US Airways que perdeu os dois motores logo após decolar de Nova York, em janeiro de 2009. Mesmo sem nenhuma propulsão, o piloto conseguiu voar mais 6 minutos e levar o avião até o rio Hudson. Num dos raríssimos casos de pouso bem-sucedido na água, ninguém morreu.

Falha estrutural: O avião pode perder uma asa, leme ou outra parte vital quando está no ar. Quase sempre, o motivo é manutenção malfeita – a estrutura acumula desgaste até quebrar. Mas isso também pode acontecer com aeronaves em perfeito estado. Se o piloto fizer certas manobras que geram forças gravitacionais muito fortes, a fuselagem pode arrebentar. Foi o que aconteceu em 2001, com um Airbus A300 da American Airlines que decolou de Nova York. O piloto pegou turbulência, se assustou e tentou estabilizar a aeronave com movimentos normais, porém bruscos. O rabo do avião quebrou e o A300 caiu, matando 260 pessoas. Pode parecer um caso extremo, mas a resistência dos aviões à força gravitacional é uma preocupação central da indústria aeronáutica. Os jatos modernos têm sistemas que avisam quando estão voando com ângulo, velocidade ou trajetórias que possam colocar em risco a integridade da fuselagem.

Falha nos computadores: Os computadores de bordo são vitais, mas também podem falhar. Como no caso do Airbus A330 – o mais computadorizado dos jatos atuais. Nos últimos 12 meses, 7 deles enfrentaram uma situação crítica: partes do computador de bordo desligaram ou apresentaram comportamento inesperado. Num desses casos, o desfecho foi dramático (o voo da Air France que ia de São Paulo a Paris e caiu no oceano Atlântico, matando 232 pessoas). Mas o problema não é exclusividade da Airbus. Em agosto de 2005, um Boeing 777 da Malaysia Airlines que decolou da Austrália teve de retornar às pressas depois que, aos 18 minutos de voo, o piloto automático começou a inclinar o avião de forma perigosa. Era um problema de software.

Turbulência: Turbulência não derruba avião. Os jatos modernos são projetados para resistir a ela. Você já ouviu esse discurso? É uma meia-verdade. Um levantamento feito pela Federal Aviation Administration (FAA), agência do governo americano que estuda a segurança no ar, revela que entre 1992 e 2001 houve 115 acidentes fatais em que a turbulência esteve envolvida, deixando 251 mortos. Na maior parte dos casos, eram aviões pequenos, mas também houve mortes em aeronaves comerciais – as vítimas eram passageiros que estavam sem cinto de segurança, e por isso foram arremessados contra o teto a até 100 km/h (velocidade suficiente para causar fratura no pescoço). Ou seja: em caso de turbulência, o maior perigo não é o avião cair. É você se machucar porque está sem cinto. Os aviões têm instrumentos que permitem detectar com antecedência as zonas turbulentas, dando tempo para desviar, mas isso nem sempre é possível: existe um tipo de turbulência, a “de ar limpo”, que não é captada pelos instrumentos da aeronave. Felizmente, é rara: só causou 2,88% dos acidentes fatais.

Pane hidráulica: Um avião grande carrega 600 litros de fluido hidráulico, uma espécie de óleo que se distribui por uma rede de canos espalhada por toda a fuselagem, ligando o cockpit às partes móveis do avião. Os controles do avião dependem desse sistema hidráulico. Se ele furar, as consequências podem ser terríveis. Quando o piloto dá um comando, um sistema de bombas comprime esse óleo e o deslocamento do líquido movimenta as chamadas superfícies de controle. São as peças que controlam a trajetória do avião, como o leme e os flaps. O sistema hidráulico é tão importante que os aviões modernos possuem três: um principal e dois de reserva. Por isso mesmo, a pane total é muito rara. Mas ela é o pior pesadelo dos pilotos. “O treinamento para situações de pane hidráulica é muito frequente e exige bastante dos pilotos”, explica o comandante Leopoldo Lázaro. Se os três sistemas hidráulicos falharem, a aeronave perde totalmente o controle. E isso já aconteceu. Em julho de 1989, um McDonnell Douglas DC-10 decolou de Denver com destino a Chicago. Tudo corria bem até que a turbina superior, próxima à cauda do avião, explodiu. Estilhaços do motor penetraram na fuselagem e cortaram os canos de todos os sistemas hidráulicos. O avião não tinha como subir, descer, virar nem frear. O comandante Alfred Haynes, 58 anos e 37 mil horas de voo, realizou uma das maiores proezas da história da aviação. Usando o único controle de potência das turbinas, o único que ainda funcionava no avião, conseguiu fazer um pouso de emergência. A aeronave explodiu, mas 185 dos 296 passageiros sobreviveram.

Despressurização: Quanto mais alto você está, mais rarefeito é o ar. Com menos resistência do ar, o avião consegue voar muito mais depressa – e gasta bem menos combustível. É por isso que os aviões comerciais voam bem alto, a 11 km de altura. O problema é que, nessa altitude, a pressão atmosférica é muito baixa. Não existe ar suficiente para respirar. Por isso, os aviões têm um sistema que comprime o ar atmosférico e joga dentro da cabine: a pressurização. É uma tecnologia consagrada, que estreou na aviação comercial em 1938. Mas, como tudo na vida, pode falhar. Sabe quando a aeromoça diz que “em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente”? Não assusta muito; parece bem menos grave do que uma pane na turbina do avião, por exemplo. Ledo engano. A despressurização pode matar, e rápido. Ao contrário do afogamento ou de outros tipos de sufocação, aos quais é possível resistir por alguns minutos, uma despressurização aguda faria você apagar em menos de 15 segundos. Em agosto de 2008, um Boeing 737 da companhia Ryanair, que ia para Barcelona, sofreu despressurização parcial da cabine. “Veio uma lufada de vento gelado e ficou incrivelmente frio. Parecia que alguém tinha aberto a porta do avião”, contou um dos passageiros ao jornal inglês Daily Telegraph. Para piorar as coisas, nem todas as máscaras de oxigênio caíram automaticamente. E, das que caíram, várias não liberavam oxigênio. O que salvou os 168 passageiros é que o avião estava voando a 6,7 km de altura, mais baixo do que o normal, e isso permitiu que o piloto reduzisse rapidamente a altitude para 2,2 km, onde é possível respirar sem máscara.


Pousos e decolagens difíceis

Quem já esteve do lado de dentro sabe o frio na barriga que isso dá. Veja no vídeo abaixo uma compilação de manobras corriqueiras em voos comerciais, mas que, pela força do vento ou outros fatores, tornaram-se extremamente arriscadas e perigosas.

Cinco falhas psicológicas comuns e cinco estranhos sintomas de doenças mentais

Cinco falhas psicológicas comuns

1. Pareidolia: Sabe quando alguém cisma que está vendo a imagem de um santo em uma mancha na janela ou quando você distingue o formato de animais em nuvens? Esse fenômeno se chama pareidolia e acontece quando interpretamos um estímulo totalmente vago (uma imagem, som ou outros tipos de sinais) como algo cheio de significado. Tudo por causa da mania do cérebro em procurar padrões em tudo. O teste de Rorschach – aquele das pranchas com manchas de tinta em que você tem de dizer o que está vendo – foi criado para explorar a pareidolia e sua possibilidade de revelar o que há na mente.

2. Falácia do jogador: A “falácia do jogador” ou “falácia de Gambler” é a tendência a achar que eventos relacionados a probabilidades podem ser influenciados por eventos aleatórios anteriores. Para entender: você joga uma moeda 3 vezes e em todas elas dá coroa. Em que apostaria na quarta vez? A tendência é acharmos que, se já saiu coroa 3 vezes, a próxima deverá ser cara. Mas a probabilidade, é claro, continua sendo a mesma: há 50% de chance de sair cara e 50% de sair coroa, não importa quantas vezes tenha saído cada um dos lados. Pode parecer óbvio, mas esse erro de pensamento é responsável por fazer com que muita gente perca dinheiro em jogos de azar.

3. Ilusão do controle: Você sabe por que as pessoas que estão jogando dados em um cassino costumam soprá-los ou agitá-los bem antes de lançá-los à mesa? Tudo culpa da chamada ilusão do controle. Trata-se da tendência de acreditar que podemos controlar ou, pelo menos, influenciar acontecimentos sobre os quais não temos nenhum controle. Quando acertam o resultado do lançamento de um dado, por exemplo, a pessoa interpreta isso como a confirmação de que tem algum controle sobre o evento, sem considerar que havia, de fato, 1/6 de chance de acertar. Essa falha cognitiva está ligada à superstição e é responsável por fazer as pessoas repetirem certos rituais, como soprar os dados, usar um “anel da sorte” ou coisa do tipo, achando que poderá influenciar o futuro.

4. Desconto hiperbólico ou gratificação instantânea: O que você prefere: ganhar R$ 500 hoje ou R$ 1.000 daqui a seis meses? A maioria das pessoas age como uma criança nessa hora e preferiria garantir os R$ 500 na hora a esperar seis meses, mesmo que seja para receber uma quantia duas vezes maior. O viés do desconto hiperbólico ou gratificação instantânea faz com que sempre prefiramos benefícios imediatos a gratificações posteriores, mesmo que isso envolva perdas. É o que ocorre com quem prefere comprar algo a prazo em vez de poupar e esperar um pouco para pagar à vista, ainda que os juros a serem pagos quase dobrem o valor da mercadoria.

5. Efeito placebo: Esse é famoso. Ocorre quando uma substância sem nenhuma propriedade medicinal é dada a um doente com a promessa de que irá curá-lo e acaba realmente melhorando os seus sintomas. Esse fenômeno é tão forte que chegam a ocorrer alterações fisiológicas na pessoa – mas, diferente de um tratamento de verdade, os efeitos são passageiros. Por isso, o efeito placebo é usado em testes para determinar se determinados medicamentos funcionam ou não. Saiba mais nos vídeos abaixo:


Cinco estranhos sintomas de doenças mentais

1. Vontade de comer o que não é comestível: Tecnicamente, alotriofagia. O nome é difícil, mas a denominação popular da alotriofagia é ainda mais estranha: síndrome de pica. Trata-se de uma referência a um pássaro comum na Europa, o pica pica, que tem por hábito encher a pança com quase tudo que encontra pela frente. O bicho come não apenas insetos mas também pedrinhas, galhos e qualquer outra coisa que lhe passe goela abaixo. E é exatamente isso o que acontece com uma pessoa acometida por essa síndrome. Quem sofre desse mal desenvolve apetite compulsivo por alguma coisa específica que, além de não comestível, pode fazer um belo estrago no organismo.

As mais comuns são terra, giz, carvão e gelo. Mas há relatos de pacientes que preferem piolas de cigarro, cola, objetos metálicos ou de madeira, tinta, sabão e até fezes. Sabe-se que a alotriofagia pode atingir pessoas de todas as idades e sexos, embora seja mais comum em crianças e mulheres grávidas – principalmente se estiverem subnutridas. Essa constatação leva alguns pesquisadores a acreditar que uma das causas da síndrome possa ser a carência de determinados nutrientes. Não há, porém, qualquer comprovação científica dessa tese. No meio acadêmico, inexiste uma explicação consensual sobre a causa do transtorno. Muitos pacientes de alotriofagia têm histórico de outros problemas neurológicos – o que é preocupante, porque essa condição pode levá-los a comer objetos cortantes ou perfurantes, como pregos e agulhas. Ainda que certas substâncias ingeridas não representem risco imediato de morte, outros riscos estão associados, como obstrução intestinal, intoxicação e contaminação parasitária.

2. Sotaque estrangeiro: Acredite: tem gente que, de uma hora para outra, começa a falar com sotaque estrangeiro. Não pense que é brincadeira, nem que seja o efeito de uma longa viagem ao exterior. Do nada, o sujeito sai falando como se fosse espanhol, alemão, francês, americano, japonês… Mesmo que jamais tenha pisado em nenhum desses países. O fenômeno é raríssimo. Um dos casos mais famosos foi registrado na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1941, uma jovem norueguesa sobreviveu a um ataque desferido pela Luftwaffe, a temida força aérea de Hitler. Ao recobrar a consciência, no entanto, ela estava pronunciando as palavras de uma maneira estranha. E adivinhe: seu sotaque era justamente alemão. A pobre moça acabaria hostilizada por seus conterrâneos – além de ferida no bombardeio, ficaria com fama de vira-casaca.

Não há estudos conclusivos sobre a origem da síndrome. Mas os casos identificados desde 1907, quando o distúrbio foi descrito pela primeira vez, demonstram que ele costuma se manifestar em vítimas de derrames cerebrais. Estariam no grupo de risco também aqueles que sofrem acidentes – como nossa amiga norueguesa – e têm afetadas pequenas partes do cérebro responsáveis pela percepção e pela articulação da fala. O aparente sotaque (na verdade, uma dificuldade para pronunciar certos fonemas) é incontrolável. E pior: alguns nem percebem que estão falando diferente. Só notam quando ouvem a própria voz numa gravação. Segundo Jack Ryalls, especialista em desordens da comunicação e professor da University of Central Florida, nos EUA, o sintoma desaparece sozinho em um terço dos casos. “Mas ainda não sabemos por que apenas alguns portadores da síndrome se recuperam espontaneamente”, conclui.

3. Síndrome da mão alienígena: Dá para imaginar quantas situações constrangedoras – ou até perigosas – alguém encararia se, de repente, perdesse o controle sobre uma das mãos. Já pensou se ela resolvesse desrespeitar a namorada de um lutador de jiu-jítsu? Parece piada de mau gosto, mas pode acontecer de verdade com pessoas que sofrem de um distúrbio neurológico conhecido como “síndrome da mão alienígena”. O problema é conhecido desde 1908. Não se trata de loucura, apenas do resultado de uma falha do cérebro que, aparentemente, pode ser provocada por derrames, tumores cerebrais ou pancadas muito fortes na cabeça. “Os pacientes frequentemente relatam que uma das mãos (o mais comum é que seja a esquerda) começa a se comportar como se tivesse vontade própria, agindo de maneira surpreendente e muitas vezes indesejada”, afirma o neurologista italiano Sergio della Salla, professor de neurociência da Universidade de Edimburgo, na Escócia. “São movimentos complexos, dirigidos a um determinado objetivo e executados com precisão, ainda que claramente não intencionados”. Em casos graves, diz Della Salla, o paciente pode até tentar se autoestrangular enquanto dorme.

Embora identificada há mais de um século, pouca coisa se descobriu sobre a síndrome até agora. Uma das explicações para o distúrbio pode estar relacionada à independência dos hemisférios cerebrais (o esquerdo controla o lado direito do corpo, e vice-versa). Os defensores dessa tese costumam citar testes feitos na década de 1990 na Universidade da Califórnia, nos quais portadores do distúrbio tiveram os olhos vendados e seguraram objetos facilmente identificáveis pelo tato em cada mão. Com a direita, não encontraram dificuldade para reconhecê-los. Já com a esquerda, o resultado foi oposto – presumivelmente porque o hemisfério direito não conseguiu transmitir a informação para o esquerdo. Essa falha de comunicação estaria na origem da síndrome. A mão alienígena não tem cura. Mas alguns dos poucos pacientes conhecidos apresentam melhora espontânea – como se o cérebro, subitamente, aprendesse a compensar a disfunção.

4. Acreditar que está morto: Gente supostamente capaz de conversar com os mortos é algo relativamente comum. Difícil é encontrar alguém que, vivinho da silva e olhando nos seus olhos, jure que está morto. Essa situação absolutamente surreal pode acontecer. Basta que você se depare com uma pessoa que sofra do chamado delírio de Cotard. Vítimas desse distúrbio nem sempre acreditam apenas que já morreram. Algumas afirmam que não têm mais sangue correndo nas veias. Outras, que perderam algum órgão. E há também as que pensam estar em decomposição. Nos casos extremos, o paciente passa a dizer que virou imortal – pois tem certeza de que morreu, mas continua circulando por aí. Os delírios seriam cômicos se não fossem trágicos. Entre os que sofrem dos graus mais severos da síndrome, não são raros casos de suicídio.

Um dos registros mais curiosos de que se tem notícia ocorreu com um paciente que, após ter alta de um hospital na Escócia, foi levado para a África do Sul. Chegando lá, convenceu-se de que acabara de desembarcar no inferno. A síndrome de Cotard – assim batizada por ter sido descrita, em 1880, pelo neurologista francês Jules Cotard – é um mistério que já dura 130 anos. Suas causas continuam obscuras, apesar do grande avanço conquistado pela neurociência nas últimas décadas. Para alguns cientistas, a origem dos delírios pode estar relacionada a um corte na conexão entre as regiões cerebrais responsáveis pelo reconhecimento facial e aquelas que associam emoções ao semblante humano. Outros acreditam que exista uma ligação entre a doença e outra síndrome de natureza neurológica: a de Capgras, que veremos mais adiante. De fato, existe na literatura médica um caso de paciente que sofreu das duas disfunções simultaneamente. Mas um só registro não pode ser usado como prova científica – até porque vários pacientes trazem consigo um histórico de esquizofrenia e distúrbio bipolar.

5. Síndrome de Capgras: Tão estranha quanto o delírio de Cotard é a síndrome de Capgras. Seu sintoma mais típico renderia um bom filme de ficção científica: o paciente acredita que alguém bem próximo a ele – pais, cônjuge, filho – foi substituído por um clone. Isso quer dizer que o doente reconhece as características físicas da pessoa, mas não tem dúvida de que se trata de um impostor. A origem do distúrbio parece ser a mesma da que se especula para Cotard: perda de conexão entre a área do cérebro responsável pelo reconhecimento facial e aquela que armazena informações emocionais sobre a pessoa que o paciente julga ter sido clonada. Em 1984, um estudo publicado pelo psicólogo Russell Bauer reforçou essa hipótese ao mostrar que, quando viam o suposto clone, portadores da síndrome apresentavam respostas galvânicas (sinais elétricos mensuráveis na pele), indicando um reconhecimento emocional, mas não consciente.

Em compensação, outro estudo, feito em 1990 pelo psicólogo Hadyn Ellis, demonstrou o oposto: pacientes reconheciam conscientemente o alegado impostor, mas não apresentavam reação emocional. Para complicar ainda mais a situação dos cientistas, algumas vítimas de Capgras reconhecem o suposto clone quando conversam com ele sem estabelecer contato visual – por telefone, por exemplo -, o que demonstra que o problema, aparentemente, é com a imagem. Mas como explicar os casos de indivíduos cegos que também sofrem do distúrbio? Ninguém tem a resposta. Descrita em 1923 pelo psiquiatra francês Joseph Capgras, a síndrome – assim como o delírio de Cotard – é mais comum em pacientes com diagnóstico de esquizofrenia ou dano cerebral. A literatura médica aponta para um número maior de casos entre os que já passaram dos 40 anos, principalmente mulheres. O “impostor” mais frequente é o marido – e, como se pode facilmente imaginar, a convivência do casal fica muito complicada.

Fonte: Superinteressante.

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