Filmes biográficos de Rossellini

Assista abaixo os filmes biográficos do cineasta italiano Roberto Rossellini sobre as vidas dos filósofos Sócrates, Agostinho, René Descartes, Blaise Pascal e Baruch Spinoza.

Sócrates e a invenção da ética

Crônica de Pablo Capistrano, professor de filosofia de Natal-RN, extraída do livro Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal (Rocco, 2009).

The_Death_of_Socrates

A primeira vez que eu ouvi falar de Sócrates foi em 1982. Tinha oito anos e estava começando a formar um discurso mais ou menos articulado sobre o mundo que me cercava. Meu país estava passando por uma grave crise que iria durar mais ou menos quinze anos, com depressão econômica, inflação e conturbações políticas que envolveriam a queda de um regime político, o surgimento de uma nova constituição federal, a morte de um presidente, o impeachment de outro e mais uma sensação aguda de desesperança. Um dia qualquer desses de 1982, antes que eu pudesse corporificar minha ideia de crise, meu pai ficou muito ansioso. A URSS tinha feito um a zero no jogo de estreia da seleção brasileira na Copa da Espanha. Aquele foi o primeiro jogo de futebol a que eu lembro de ter assistido. O Brasil virou: 2 a 1; e começou uma campanha maravilhosa que encantou o mundo e que poderia ter mudado o rumo do futebol contemporâneo, se não fosse aquela famigerada “Tragédia do Sarriá”, quando o time perdeu para uma retrancada e traiçoeira Itália. Foi naquele ano que eu conheci Sócrates. Ele era médico, como meu pai. Jogava bem. Fazia gol de calcanhar. Era alto e elegante e, além de tudo, parecia ser o mentor intelectual da “Democracia Corintiana”.

O primeiro Sócrates que conheci era doutor. O segundo, era parteiro. Sim, havia outro Sócrates ao qual o nome de um dos meus heróis da Copa de 1982 fazia referência. Mas eu não tinha muita ideia sobre o que fazia esse “segundo Sócrates”. Anos depois descobri que o outro Sócrates era filósofo. Se o doutor da Copa de 1982 era mestre na armação de jogadas e no gol de calcanhar, o Sócrates parteiro era mestre em fazer surgir ideias, como as crianças que sua mãe, parteira de profissão, ajudava a vir ao mundo. Sócrates se tornou uma espécie de “santo da filosofia” através da descrição que Platão fez de sua condenação injusta e de sua execução. Nesse sentido, comparações entre Sócrates e Cristo são inevitáveis. São dois personagens trágicos. Ou seja, tanto os evangelhos canônicos quanto os diálogos de Platão que falam sobre a morte de Sócrates utilizam a estrutura das tragédias gregas. A morte de alguém muito superior a todos nós. A via crucis de Jesus e os momentos finais de Sócrates na prisão à espera da cicuta que o irá matar têm grandes semelhanças e grande impacto psicológico.

happy end da ressurreição e o discurso presente no Fédon (diálogo platônico que descreve os momentos finais de Sócrates) aliviam um pouco o peso trágico dessas duas histórias. Sócrates morre sereno. Ele demonstra que todo seu esforço filosófico foi de se preparar para a morte. De construir um trabalho espiritual e mental que o deixasse firme, pleno e tranquilo diante do derradeiro instante. Sua superação da fragilidade desta vida se encontra na investigação sobre a própria vida. Ora, parece muito razoável. Sócrates pensou sobre o homem. Ele inverteu o curso da pergunta dos primeiros filósofos. Se antes a grande questão da filosofia era “o que é isso que constitui a natureza?”, depois de Sócrates a pergunta passou a ser “o que é isso que constitui o homem?”. Sócrates inventou a ética e propôs uma investigação sistemática acerca da Justiça, do Bem, da Linguagem, da Virtude. Antes de saber como a natureza funciona, o homem deve pensar sobre o que realmente é importante nesta vida. Antes de mergulhar nos limites do universo e afundar nas partículas subatômicas, atravessar os planos multidimensionais ou retroceder no tempo em busca do Big Bang, o homem deve conhecer seus próprios limites. “Conhece a ti mesmo”. A frase que está na parede da cozinha do oráculo, no primeiro filme da trilogia Matrix, era a mesma que estava grafada na porta do oráculo da Ilha de Delfos, templo do deus Apolo, centro de peregrinação religiosa do povo grego.

A percepção dessa frase induz Sócrates a uma intuição básica. O papel da filosofia é preparar o homem para a morte, e para que o homem possa se preparar bem para a morte é necessário que ele conheça a si mesmo, que reconheça seus limites, sua própria ignorância e que pratique um tipo particular de esporte: a maiêutica. A arte de conseguir, por meio de perguntas e respostas, fazer surgir a verdade que mora dentro de cada um de nós, mas que, por arrogância e presunção, não conseguimos escutar. Nós nos calamos para essa voz interior. Fechamos os olhos para não enxergar nossa própria condição. Esquecemos nosso ser. Trancamos a janela para a luz de nossa casa não iluminar a rua. Mergulhamos na banalidade do mundo e nos surpreendemos quando a morte chega e diz: “Cartão vermelho! Fim de jogo para você”. A virada metafísica de Sócrates começa quando surge a ideia de que não importa quão grandes forem os mistérios do mundo; mais importante é encarar os mistérios de nossa curta e limitada existência.

A filosofia na época trágica dos gregos

Leia a seguir trechos do livro A Filosofia na Época Trágica dos Gregos, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), nos quais ele fala de Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia, entre outros pensadores pré-socráticos.


Vou fazer a narração de uma versão simplificada da história desses filósofos: de cada sistema quero apenas extrair o fragmento de personalidade que contém e que pertence ao elemento irrefutável e indiscutível que a história deve guardar: é um começo para reencontrar e recriar essas naturezas através de comparações. É também a tentativa de deixar soar de novo a polifonia da alma grega. Esta tentativa de contar a história dos filósofos gregos mais antigos se distingue de outras tentativas semelhantes pela sua concisão. Esta conseguiu-se porque, em cada filósofo, se mencionou apenas um número muito limitado das suas teorias, em virtude, portanto, de não apresentar uma imagem completa. Mas escolheram-se as doutrinas em que ressoa com maior força a personalidade de cada filósofo, ao passo que uma enumeração completa de todas as teses que nos foram transmitidas, como é costume nos manuais, só leva a uma coisa: ao total emudecimento do que é pessoal. É por isso que esses relatos são tão aborrecidos: pois em sistemas que foram refutados só nos pode interessar a personalidade.

Os gregos justificaram a filosofia de uma vez para sempre, pelo simples fato de terem filosofado; e mais do que todos os outros povos. (…) Os gregos souberam começar na altura própria, e ensinam mais claramente do que qualquer outro povo a altura em que se deve começar a filosofar. Não só na desgraça, como pensam aqueles que derivam a filosofia do descontentamento. Mas antes na felicidade, na plena maturidade viril, na alegria ardente de uma idade adulta corajosa e vitoriosa. Que os gregos tenham filosofado nesse momento [da sua história] informa-nos tanto sobre o que é a filosofia e sobre o que ela deve ser como sobre os próprios gregos. Se eles tivessem então sido homens práticos, brincalhões sóbrios e precoces, como os imagina o filisteu erudito dos nossos dias, ou se tivessem vivido apenas num luxurioso transporte, ressoar, respirar e sentir, como supõe o fantasista inculto, a fonte da filosofia nunca teria vindo à luz no meio deles. Quanto muito, teria surgido um regato que rapidamente desapareceria na areia ou se evaporaria em nevoeiro, mas nunca aquele rio largo de ondulação majestosa, que conhecemos como a filosofia grega.

Nada é mais tolo do que atribuir aos gregos uma cultura autóctone: pelo contrário, eles sorveram toda a cultura viva de outros povos e, se foram tão longe, é precisamente porque sabiam retomar a lança onde um outro povo a abandonou, para arremessá-la mais longe. São admiráveis na arte do aprendizado fecundo, e assim como eles devemos aprender de nossos vizinhos, usando o aprendido para a vida, não para o conhecimento erudito, como esteios sobre os quais lançar-se alto, e mais alto do que o vizinho. As perguntas pelos inícios da filosofia são completamente indiferentes, pois por toda parte o início é o tosco, o amorfo, o vazio e o feio, e em todas as coisas somente os níveis superiores merecem consideração. Quem, em lugar da filosofia grega, prefere dedicar-se à egípcia ou persa, porque essas são talvez mais “originais” e, em todo caso, mais antigas, procede com desatenção.

Outros povos têm santos, os gregos têm sábios. Disse-se, com razão, que um povo não é só caracterizado pelos seus grandes homens, mas sobretudo pela maneira de os reconhecer e de os honrar. (..) …gênio helênico… (…) …gênios mais elevados… (…) …velhos mestres gregos, Tales, Anaximandro, Heráclito, Parmênides, Anaxágoras, Empédocles, Demócrito e Sócrates (…) viviam votados ao conhecimento. Todos possuem a energia virtuosa dos antigos, pela qual superam todos os que vêm depois, e que lhes permite encontrar a sua forma própria e dar a esta o seu desenvolvimento pleno. (…) O juízo desses filósofos sobre a vida e sobre a existência em geral é muito mais significativo do que um juízo moderno, porque tinham diante de si a vida numa plenitude exuberante. (…) A tarefa que o filósofo tem de realizar no âmbito de uma civilização autêntica e possuidora de uma grande unidade de estilo não se adivinha a partir da nossa condição e da nossa experiência, porque não temos uma tal civilização. Pelo contrário, só uma civilização como a grega pode responder à pergunta relativa à tarefa do filósofo, só ela pode, como eu dizia, justificar a filosofia em geral.

Propus-me narrar deste elevado diálogo espiritual o que a nossa surdez moderna dele pode ouvir e compreender: isto quer, com certeza, dizer o mínimo. Parece-me que, neste diálogo, os velhos sábios, de Tales a Sócrates, falaram, se bem que da forma mais geral, sobre aquilo que aos nossos olhos constitui a essência do espírito helênico. Manifestam nos seus diálogos, como também já nas suas personalidades, os grandes traços do gênio grego, do qual toda a história grega é uma impressão vaga, uma cópia difusa e que, por isso; nos fala em termos pouco claros.

É uma grande desgraça que tenhamos conservado tão pouco destes primeiros mestres ,da filosofia e que só nos tenham chegado fragmentos. Por causa desta perda, aplicamos-lhes, involuntariamente, medidas erradas e somos injustos para com os antigos, em virtude do fato puramente casual de nunca terem faltado nem admiradores nem copiadores a Platão e a Aristóteles. (…) É provável que tenhamos perdido a parte mais grandiosa do pensamento grego e da sua expressão em palavras. (…) É tão raro que a humanidade produza um bom livro em que se entoe com liberdade audaz o canto de guerra da verdade, o hino do heroísmo filosófico: e, no entanto, é dos acasos mais miseráveis, de obscurecimentos repentinos das cabeças, de convulsões supersticiosas e de antipatias, e, em última análise, também dos dedos de escribas preguiçosos ou até dos insetos e da chuva, que depende se este livro vive mais um século ou se volta à podridão e à terra. (…) …espíritos cultos que se queixam de obras perdidas…

Depois destas considerações, ninguém ficará chocado por eu falar dos filósofos pré-platônicos como se formassem uma sociedade coerente, e por pensar em dedicar só a eles este critério. Com Platão, começa uma coisa completamente nova; ou, como com igual razão se pode dizer, em comparação com aquela República de gênios que vai de Tales a Sócrates, falta aos filósofos, desde Platão, algo de essencial. (…) Todo o filosofar moderno é restringido a uma aparência de erudição, politicamente e policialmente, por governos, por igrejas, por academias, por costumes, por modas e pelas covardias dos homens: fica-se pelo suspiro “se” ou pela constatação “era uma vez”. A filosofia já não tem razão de ser e, por isso, o homem moderno, se fosse corajoso e honesto, deveria rejeitá-la e bani-la. Continue reading “A filosofia na época trágica dos gregos” »

A morte de Sócrates

Extraído do prefácio do livro Apologia de Sócrates (Nova Fronteira, 2011).

Por ocasião da morte de Sócrates, Platão estava doente. Não pôde participar das conversas do mestre com os discípulos aproveitando o atraso da execução da sentença, durante o qual Sócrates fazia versos sobre as fábulas de Esopo ou recusava a Críton a fuga oferecida, possivelmente com a própria complacência das autoridades públicas, que começavam provavelmente a reconhecer a fatal injustiça que haviam cometido, graças às intrigas dos acusadores. Platão não pôde tampouco acompanhar a Críton, Fédon, Apolidoro, Cebes e Símias – os cinco amigos e discípulos fiéis que participaram do memorável encontro do último dia de Sócrates, cujo resultado Fédon, depois da morte do mestre, foi contar a Echécatres e este referiu a Platão, que por sua vez o imortalizou no diálogo a que deu nome de Fédon. Aliás, toda obra de Platão está, de igual modo, penetrada pelos ensinamentos de Sócrates, a tal ponto que nenhum comentador conseguiu distinguir nela o que pertence ao discípulo e o que proveio do mestre.

As duas grandes acusações contra Sócrates, que levaram a maioria do júri a condená-lo à morte, foram atentar contra a religião do Estado ateniense e corromper a juventude: ateísmo e subversão. Foi fácil a ele, na sua defesa, destruir completamente tanto uma como outra acusação, como se percebe nas suas palavras perante o Areópago. Longe de ser um ateu, Sócrates mostra que foi a voz do oráculo de Delfos que sempre o guiou. Ao contrário de se considerar infalível, o que o oráculo lhe ensinara é que “toda a sabedoria humana não valia grande coisa e mesmo não valia nada”. E não foi outra a lição socrática: a voz da humildade e do reconhecimento de que “há mais coisas entre o céu e a terra do supõe nossa vã filosofia”, como Shakespeare exprime 23 séculos mais tarde. Meleto, seu acusador, não teve o que responder quando Sócrates pulverizou sua acusação de ateísmo, porque realmente não era verdadeira. A verdade é que Sócrates condenava o politeísmo oficial, a religião de Estado, que obrigava a um conformismo incompatível com a dignidade humana e com a liberdade de consciência.

De fato, a filosofia socrática estava longe de ser um ateísmo, pois considerava que as raízes do universo sensível estavam acima e fora deste universo – de modo que Platão sistematizou essas doutrinas em sua teoria das ideias e da divindade suprema. No entanto, era, isso sim, uma condenação do estatismo  isto é, da autocracia humana que se servia dos deuses para impor aos homens uma escravidão política e moral, pior do que a escravidão puramente social. Esse estatismo, para Sócrates, tanto podia ser democrático como oligárquico. Contra os 30 Tiranos fora ele a única voz no Pritaneu que ousou erguer-se contra um decreto injusto da ditadura. E foi morrer vítima de um governo democrático e até mesmo da facção “moderada” da democracia. O fanatismo “democrático” ou “ditatorial”, é que é o inimigo da dignidade humana e da liberdade de consciência que Sócrates representa.

Não era, pois, uma questão de regime. Na realidade, Sócrates não morria por um regime político, mas por um princípio mais alto do que todos os regimes – o da dignidade humana. O que ele não tolerava era a opressão do pensamento, fosse pelo Estado, fosse pela multidão, fosse em nome dos deuses ou de qualquer outra coisa. Por esse princípio é que Sócrates enfrentou a morte com a mesma serenidade com que passara a vida discutindo livremente com os cidadãos de Atenas. Se é verdade, como diz Faguet, que “Platão tinha ódio aos atenienses”, como tinha “ódio à democracia”, nesse ponto o platonismo nada tinha de socrático. Sócrates nunca sonhou em organizar uma República que pudesse, pela rigidez de suas leis, como pretendeu Platão, dar felicidade aos cidadãos. Pelo contrário, Sócrates dizia que sempre, desde criança, uma voz interior o aconselhava a não se meter na vida política. Não era esta a sua vocação.

Não era uma lição de escapismo, mas de sabedoria. Cada um no seu quadrado. E o de Sócrates era argumentar com os cidadãos, levá-los a pensar, pensar com eles… E não entrar na esfera política para governá-los ou mesmo para elaborar as leis que os deviam tornar felizes, como Platão queria que os filósofos fizessem e em vão o tentou junto aos tiranos. por aí se vê que nem todo platonismo é socratismo. A morte de Sócrates era pela liberdade e não pela autoridade. Era esta, a autoridade de um regime democrático, que praticava contra ele uma trágica injustiça. Contra isso é que ele se revolta, não por atos, mas por palavras, não por violência, mas por serenidade, não por emoção, mas por razão. Mais do que pela razão, pela sabedoria. E mais do que pela sabedoria humana, pela sabedoria sobre-humana, divina, oracular.

Nesse sentido é que Sócrates foi uma prefiguração de Cristo. Sua morte, como a de Cristo, foi um protesto contra todas as formas de tirania, de César ou da multidão, dos teocratas, dos aristocratas ou dos democratas. Só há uma “cracia” autêntica – a “cracia” divina, do Bem, da Verdade, da Justiça, do Amor, aquela sob a qual Sócrates viveu e agora morria. A importância da morte de Sócrates e da sua apologia, que Platão exprimiu para a posteridade, como poeta e filósofo, tanto na própria Apologia de Sócrates, como no Críton ou no Fédon, transcendem, pois, de muito, o próprio mundo helênico e a própria cultura grega. Nunca a dignidade humana, a liberdade de consciência, a defesa da verdade, da justiça, da virtude, a serenidade perante a morte, a humildade de espírito e a grandeza de alma, a compreensão e a fortaleza de ânimo, a coragem sem jactância, nunca um pensamento tão alto, uma lição tão profunda, foi dada por um homem aos homens em termos tão perfeitamente belos. Só mesmo a divindade de Cristo poderia ultrapassar a humanidade de Sócrates.

Chegado o dia da execução, Sócrates enfim toma a cicuta, esse veneno tão sutil e fatal, com que ele ingressava não na morte, mas na eternidade. Não com lágrimas nos olhos, mas com um sorriso nos lábios. Condenando para sempre, na pessoa dos seus algozes, a arrogância dos fanáticos e a violência dos medíocres. “Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vós para viverdes. Mas quem vai para melhor sorte, isso é segredo, exceto para Deus.” (Sócrates, em suas últimas palavras).

A Apologia de Sócrates se coloca entre as mais belas páginas de eloquência que nos foram legadas pela antiguidade. A autodefesa do filósofo, feita perante seus impenitentes acusadores, evocada por Platão com devoção de discípulo fiel, é, não obstante à brevidade do texto, uma síntese da filosofia socrática, de grandíssimo valor literário e como documento humano. A admirável serenidade do sábio, só preocupado com o destino dos seus acusadores e com a sagrada verdade, manifesta-se em toda a sua grandeza nas páginas imortais deste pequenino e grande livro.

Veja também: O método de Sócrates

O método de Sócrates

Extraído do livro Iniciação à História da Filosofia (Zahar, 1997), de Danilo Marcondes.

Nossa interpretação do pensamento de Sócrates enfrenta por um lado uma dificuldade ainda maior da que temos em relação aos pré-socráticos e aos sofistas, já que Sócrates efetivamente nada escreveu, valorizando sobretudo o debate e o ensinamento oral. Por outro lado, conhecemos extensamente suas ideias através de Platão, seu principal discípulo, que, sob o impacto de sua condenação e morte, resolveu registrar seus ensinamentos, tal como os conhecera, para evitar que se perdessem. Entretanto, trata-se, é claro, da visão de Platão sobre a filosofia de Sócrates e não do pensamento original do próprio filósofo – muito embora supõe-se que os diálogos escritos por Platão refletem bem a prática filosófica de Sócrates de discussão nas praças de Atenas com seus discípulos e concidadãos, bem como com seus adversários teóricos e políticos, os sofistas.

A filosofia de Sócrates pode ser caracterizada como um método de análise conceitual, ilustrado pela célebre questão socrática “o que é…?”, através da qual se busca a definição de uma determinada coisa, geralmente uma virtude ou qualidade moral. A discussão parte da necessidade de se entender melhor alguma coisa, através da tentativa de se encontrar uma definição satisfatória. Nos diálogos, a definição inicial dada pelos companheiros reflete sempre a visão corrente, o entendimento comum que temos sobre o tema em questão, nossa opinião (doxa), o que é considerado insatisfatório por Sócrates. O método socrático envolve, portanto, um questionamento do senso comum, das crenças e opiniões que temos, consideradas vagas, imprecisas, derivadas da nossa experiência, e portanto parciais, incompletas. É exatamente neste sentido que a reflexão filosófica vai mostrar que, com frequência, não sabemos de fato aquilo que, a princípio, pensamos saber. Temos, quando muito, um entendimento prático, intuitivo, imediato, que contudo se revela inadequado no momento em que deve ser tornado explícito. O método socrático revela a fragilidade desse entendimento e aponta para a necessidade e a possibilidade de aperfeiçoá-lo através da reflexão. Ou seja, partindo de um entendimento já existente, ir além dele em busca de algo mais perfeito, mais completo.

É importante notar que, na concepção socrática, essa melhor compreensão só pode ser resultado de um processo de reflexão do próprio indivíduo, que descobrirá, a partir de sua experiência pessoal, o sentido daquilo que busca. Não há substituto para esse processo de reflexão individual. Portanto, Sócrates jamais responde às questões que formula, apenas indica quando as respostas de seu interlocutor são insatisfatórias e por que o são. Procura apenas indicar o caminho a ser percorrido pelo próprio indivíduo: é este o sentido originário da palavra “método” (“através de um caminho”). A definição correta nunca é dada pelo próprio Sócrates, mas é através do diálogo e da discussão que Sócrates fará com que seu interlocutor – ao cair em contradição, ao hesitar quando parecia seguro – passe por todo um processo de revisão de suas crenças e opiniões, transformando sua maneira de ver as coisas e chegando, por si mesmo, ao verdadeiro e autêntico conhecimento. É por esse motivo que os diálogos socráticos são conhecidos como “aporéticos” (de “aporia“, nó, dificuldade, impasse) ou inconclusivos.

Sócrates caracterizou seu método como “maiêutica”, que significa literalmente a arte de fazer o parto – uma analogia com o ofício de sua mãe, que era parteira. Ele também se considerava um parteiro, mas de ideias. O papel do filósofo não seria, portanto, transmitir um saber pronto e acabado, mas fazer com que o outro indivíduo, seu interlocutor, através da dialética, da discussão no diálogo, dê à luz as suas próprias ideias (Teeteto, 149a – 150c). A dialética socrática opera inicialmente através de um questionamento das crenças habituais de um interlocutor, interrogando-o, provocando-o a dar respostas e a explicar o conteúdo e o sentido dessas crenças. Em seguida, frequentemente utilizando-se de ironia, problematiza essas crenças, fazendo com que o interlocutor caia em contradição, perceba a insuficiência delas, sinta-se perplexo e reconheça sua ignorância.

É este o sentido da célebre fórmula socrática: “Só sei que nada sei” – a ideia de que o reconhecimento da ignorância é o princípio da sabedoria. Só então o indivíduo tem o caminho aberto para encontrar o verdadeiro conhecimento (episteme), afastando-se de domínio da opinião (doxa). As palavras de Sócrates na conclusão do diálogo Teeteto (210c) podem ser citadas a esse respeito: “Mas, Teeteto, se você voltar a conceber, estará mais preparado após esta investigação, ou ao menos terá uma atitude mais sóbria, humilde e tolerante em relação aos outros homens, e será suficientemente modesto para não supor que sabe aquilo que não sabe”.

Veja também: A morte de Sócrates.

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