Ator Pedro Cardoso fala sobre pornografia e nudez na televisão, no cinema e no teatro

Trecho da entrevista concedida pelo ator Pedro Cardoso à jornalista Leda Nagle para o programa Sem Censura, da TV Brasil, exibido em 2009.

O homem moderno é um fracote

Veja também: A educação espartana

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Muito aborígenes australianos pré-históricos conseguiriam vencer facilmente o atual campeão de velocidade do mundo atualmente, o jamaicano Usain Bolt. Muitos homens da etnia Tutsi, em Ruanda, conseguiriam superar o atual recorde de salto em altura, de 2,45 metros, durante seus rituais de iniciação. Qualquer mulher neandertal conseguiria vencer o fisiculturista e ator Arnold Schwarzenegger em uma queda de braço. Além disso, romanos da antiguidade completavam aproximadamente uma maratona e meia diariamente, carregando mais do que metade do seu peso corporal. Precisa de algo mais para se convencer que os homens modernos são fracotes?

Essas e outras afirmações impressionantes são analisadas pelo antropólogo australiano Peter McAllister, que acredita que o homem moderno é fisicamente muito inferior a seus antepassados. A sua conclusão sobre a velocidade dos aborígenes australianos de 20 mil anos atrás é baseada em um grupo de pegadas de seis homens perseguindo uma presa, fossilizadas e perfeitamente preservadas até hoje. A análise das pegadas de um dos homens, chamado de T8, mostra que, em uma superfície enlameada, ele chegava a atingir 59,2 quilômetros por hora. Usain Bolt, por sua vez, atingiu a velocidade máxima de 67 km/h nas olimpíadas de Pequim, em 2008.

“Presumimos que, ao perseguir um animal, eles correm ao máximo da sua velocidade”, afirma McAllister. “Mas se eles conseguiam esta velocidade em um terreno com lama, suspeito que superariam Bolt facilmente, levando em conta as vantagens que ele tem”, completa o antropólogo. Além da velocidade impressionante de T8, o especialista também chama a atenção para o fato de que os outros aborígenes desta época também deviam chegar a velocidades semelhantes. “Essas fossilizações são muito raras”, afirma McAllister. “Quais são as chances de que o corredor mais veloz da Austrália tivesse a sua pegada fossilizada naquele momento?”, questiona.

Quanto aos pulos, o pesquisador afirma que fotografias tiradas por um antropólogo alemão no início do século 20 mostram jovens pulando em alturas de até 2,52 metros. De acordo com McAllister, a tarefa era realizada pelos jovens tutsis como um ritual de iniciação à idade adulta. “Eles desenvolviam habilidades fenomenais para os pulos, e pulavam para provar a sua capacidade”, diz. Outra curiosidade é que uma mulher neandertal comum tinha 10% mais massa muscular que um homem europeu moderno. Treinada ao máximo, elas poderiam chegar a 90% da massa de Arnold Schwarzenegger na década de 1970, quando ele atingiu o seu auge.

De acordo com McAllister, a inatividade física adquirida desde a revolução industrial causou essa grande diminuição da força e capacidade física. “O corpo humano responde muito ao stress”, explica o pesquisador. “Perdemos 40% da massa dos maiores ossos do corpo porque temos menos massa muscular sobre eles atualmente”, afirma. “Simplesmente não somos expostos aos mesmos desafios que as pessoas do passado, por isso nossos corpos não se desenvolvem”, diz o antropólogo, que completa: “Mesmo com o nível de treinamento que atletas de elite têm atualmente, não chegamos nem perto do que era exigido antes”.

Fonte: HypeScience.

Resumo da História:
Tempos difíceis criam homens fortes.
Homens fortes criam bons tempos.
Bons tempos criam homens fracos.
Homens fracos criam tempos difíceis.


O que está acontecendo com os homens?

Nesta videoaula, o padre Paulo Ricardo reflete sobre o novo modelo de masculinidade adotado pelo pensamento pós-moderno. Segundo ele, os homens estão ficando cada vez mais afeminados e menos viris.

Mão ao alto: pornografia e masturbação

Pornografia online vicia, altera seu jeito de fazer sexo e pode causar impotência. Antes de apertar aquele play, é melhor ler essa matéria da revista Superinteressante.

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Um cara jovem, bonito, conquistador, que namora a Scarlett Johansson, mas prefere ver pornografia online. Parece filme, e é: Como Não Perder Essa Mulher estreou em dezembro passado. Mas, Scarlett à parte, o enredo não está tão longe da realidade. Com a banda larga e bundas variadas a alguns cliques de distância, todo mundo já deu uma espiadinha. O problema é que muitos não querem fazer outra coisa. Cada vez mais gente abre mão de uma pessoa real para passar horas se masturbando na frente de uma tela. O sexo solitário sempre teve sua graça – um estudo recente da Universidade de Cambridge concluiu que pornografia é tão viciante quanto drogas. Mas por que só agora aparecem os viciados? A resposta está na melhor ferramenta já criada na história da humanidade para estoque, distribuição e consumo de pornografia: a internet. Até o advento da rede mundial de computadores, você precisava ir a uma banca de jornal para comprar uma revista de mulher pelada. Se havia certo constrangimento em tirar um filme pornô na locadora, imagine alugar vários. Hoje você assiste de graça e a qualquer momento no celular tudo que tinha na locadora – e muito, mas muito mais. Tara por animais, anões, amputações, fezes, vômito, palhaços… Na internet, desejos bizarros encontram uma via de expressão. E ninguém precisa ficar sabendo.

A biologia evolutiva explica por que alguns não conseguem trocar sites pornô por nada neste mundo. A masturbação surgiu para que o estoque de sêmen fosse renovado, e assim uma semente mais jovem e competitiva pudesse brigar com a de outros machos. A pornografia simula e acelera esse processo: seu cérebro acredita que, a cada novo vídeo, uma fêmea diferente está sendo fecundada. Essa é a razão pela qual os homens são maioria nesse mundo. É difícil ter uma estatística exata, mas estima-se que 70% do público dos sites adultos é masculino. As mulheres ficariam com os 30% restantes – um número que vem crescendo. O curioso é que a masturbação não vem de um instinto animal, mas da imaginação humana. Sabemos disso graças a pessoas abnegadas como a antropóloga Starin, que passou cinco anos na Gâmbia observando macacos e registrou apenas cinco casos de masturbação com ejaculação. Detalhe: os machos estavam em contato visual com outras fêmeas, algumas delas copulando com outros machos – uma versão selvagem do xvideos. Ou seja, por mais que chimpanzés cocem a virilha no zoológico e constranjam visitas escolares, o homem ainda é o único animal que se masturba de forma consciente, para atingir o orgasmo.

Para Jesse Bering, doutor em psicologia e autor do recém-lançado Devassos por Natureza: Provocações Sobre Sexo e a Condição Humana, contexto é fundamental. “Da próxima vez que você se sentir no clima, deite na cama, apague a luz, não pense em nada e não veja nada. Em seguida tente só com o toque atingir o clímax”. Acredite, não é nada fácil. É a cognição humana que faz com que um adulto se masturbe a cada 72 horas (em média), com ampla e folclórica variação. O problema é quando a cognição vira compulsão. O estudo de Cambridge, citado no começo do texto, mostrou que o pornô vicia da mesma maneira que algumas drogas, desregulando o cérebro. Quando um vídeo proporciona prazer, esse prazer leva você a buscar outro vídeo. Cada novo clique é um estímulo para o centro de recompensa, que se torna dependente dessa anestesia constante. “A pornografia, como o álcool e as drogas, enfraquece nossa capacidade de enfrentar certos tipos de sofrimento. (…) Ela reduz a nossa capacidade de tolerar nossos dois humores ambíguos e oscilantes: a preocupação e o tédio”, diz o filósofo Alain de Botton. Longas maratonas no PornTube podem ser uma fuga de problemas. Outra coisa: chega uma hora em que os vídeos corriqueiros não são mais suficientes. Você não se excita mais vendo o papai-e-mamãe de sempre, nem o mamãe-e-mamãe ou papai-e-papai. Como nas drogas, você vai desenvolvendo uma tolerância e precisa de mais para se satisfazer. Logo, logo, o sujeito está indo atrás de coisas pesadas e ilegais, como cenas reais de estupro e pedofilia. E é aí que muitos decidem procurar ajuda.

Há algum tempo, já existem grupos de apoio para usuários compulsivos de pornografia, mas agora surgem na internet grandes fóruns para discutir o tema e buscar soluções – nem que seja encontrar disposição para ir ao supermercado ou ao banco. O maior portal sobre o tema se chama yourbrainonporn.com e lá você encontra de estudos científicos a depoimentos informais. Gary Wilson, o psiquiatra por trás da ideia, chegou a dar uma palestra no TED sobre os efeitos da pornografia no cérebro – cujo vídeo alcançou uma audiência digna de hit pornô: 2 milhões de acessos. “As pessoas estão começando a questionar se é isso que elas querem para as suas vidas. Muitas chegam à conclusão de que pornografia demais é um atraso”, diz Wilson. O psiquiatra também atribui à pornografia mudanças de etiqueta (“nossas avós não faziam sexo oral e anal como se faz hoje”) e estética: “Depilações radicais, cirurgias íntimas e clareamento dos genitais, antes restritos a atrizes pornô, passaram a fazer parte do cotidiano”. Mas o vício em pornografia pode estar trazendo problemas mais graves: disfunção erétil e dificuldade para ejacular têm complicado a vida de homens cada vez mais jovens. E há casos de quem não consegue ou nem faz mais questão de conhecer uma pessoa real ou sair de casa. Para a filósofa Márcia Tiburi, isso acontece porque é mais fácil se relacionar com um avatar: “Uma pessoa concreta me obriga a tomar posição, a reagir, a interagir. Uma imagem é só um objeto que se submete à manipulação”.

Quer dizer que fizemos a Revolução Sexual para ir para casa fazer sexo com nós mesmos? O futuro é um quarto escuro iluminado pela tela de um tablet trepidante? Calma. Cientificamente, não há nada de errado com a masturbação ou com pornografia, desde que elas não afetem a sua vida. Aliás, tirando quem realmente tem um problema sério, o que mais se observa é uma tentativa do “uso consciente” dos sites adultos. Sabe a tendência que já se espalhou de dar um tempo nas redes sociais? Pois é, muitos jovens têm chegado à conclusão que, assim como o uso exagerado do Facebook e Twitter, a pornografia está tirando um tempo precioso de suas vidas. Passar a noite de vídeo em vídeo pode ser prazeroso no curto prazo, mas vale a exaustão do dia seguinte? “Do modo como é hoje, a pornografia pede que deixemos para trás nossa ética, nosso senso estético e nossa inteligência”, constata Alain de Botton. Vem daí aquela sensação de repugnância e derrota quando a euforia chega ao fim. Mas não precisa jogar o computador fora, abandonar tudo e ir morar numa montanha. Assim como com outras tentações, você precisa estar consciente do risco que corre e simplesmente “apreciar” com moderação. “Acho que essa reflexão acerca do nosso comportamento é mais enriquecedora que o resultado de qualquer estudo”, diz Wilson.

Destino existe?

Matéria publicada na revista Superinteressante.

Só podia ser destino. Eu, um dos autores desta reportagem, tinha 17 anos e estava apaixonado. Platônico total: tinha conhecido a menina 8 meses antes, numa viagem. A gente ficou junto e no dia seguinte foi cada um para o seu canto. A menina, para a cidade dela, e eu, para a minha. Não teve troca de telefone nem nada. Fim. Mas a moça não saía da minha cabeça. Seis, sete, oito meses e a coisa só aumentava. Ir atrás dela? Esquece. A mulher morava numa metrópole de mais de 1 milhão de habitantes – e nem o sobrenome dela eu tinha. O certo mesmo era pôr a cabeça no lugar e partir pra outra. Então pensei bem e tomei a decisão mais sensata: ir atrás dela. Desci na rodoviária do lugar, fiquei umas horas andando por lá sem eira nem beira… Mas aí, minha nossa! Ela, a própria, me passa andando bem ali, do outro lado da calçada. Atravesso a rua com o batimento acelerado. Tinha dado certo. Só podia ser destino.

Encontrar um amor, ganhar na loteria, escapar de uma batida de carro, bater o carro… Vários capítulos da vida acontecem de um jeito tão inesperado que não dá para não pensar: é tudo acaso mesmo? Ou existe algo misterioso regendo a existência? A ideia de um futuro predeterminado move filosofias e religiões. E serve de combustível para um dos conceitos mais antigos da humanidade: o de que alguma coisa rege nossa vida. A crença de que nosso futuro já está determinado é parte do que somos. O problema é que nosso cérebro tem um defeito congênito: ele é programado para encontrar sentido em qualquer coisa, inclusive para a existência. Quer ver como isso funciona, Rafael? Bom, quem se chama Rafael acabou de ver. Poderíamos ter escrito qualquer nome aqui. Mas se for o seu, Juliana, isso vai parecer especial. Claro que ver o seu nome impresso do nada já é algo especial. Mas sua mente tende a achar mais especial. Até as mentes mais céticas imaginam naturalmente que uma força superior determinou isso. O destino, talvez. Mas a realidade é que escolhemos Rafael e Juliana porque são nomes comuns. A chance de acertarmos o nome de vários leitores não era desprezível.

Um exemplo mais claro: imagine que o próximo sorteio da Mega-Sena dê 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Seria destaque do Jornal Nacional, conversa de almoço de domingo… Mas a chance de dar uma sequência dessas é estatisticamente a mesma de sair uma que o cérebro entende como mais comum, tipo 06, 13, 17, 27, 45 e 54. A diferença é que a nossa mente adora padrões. E a ideia de que todos os acontecimentos da nossa vida orquestram-se rumo a um destino predefinido é a quintessência dessa coisa de ver padrão em tudo. E basta uma coincidência qualquer, como seu nome impresso aqui ou a menina encontrada no meio de uma cidade grande, para engatilhar essa impressão. Por isso mesmo todas as culturas desenvolveram métodos de prever o futuro. Ele podia estar desenhado em tripas de carneiro, nuvens, restos de placenta… Mas nenhuma forma de tentar prever o futuro chegou com tanta força ao presente quanto a astrologia.

Ligar o movimento dos astros aos trancos e barrancos da vida aqui embaixo é algo que começou na pré-história. Esse hábito deriva de uma observação simples: a de que a posição do Sol não varia apenas de acordo com as horas do dia, mas também com a passagem do ano. Observando os pontos em que o Sol nascia no horizonte, nossos ancestrais notaram que ele ia mudando de direção com o passar dos meses. E logo identificaram um grupo de constelações posicionadas perto dessa rota aparente do Sol. Ao contrário das outras estrelas, que se movem visivelmente ao longo do ano, aquele anel de constelações, que os gregos batizaram de “círculo de animais” (ou “zodíaco”), parecia fixo. Também notaram que a posição do Sol em relação ao zodíaco tinha ligação com o clima e as estações. O nascimento do Sol próximo à constelação de Áries marcava o equinócio de primavera – o momento em que o dia e a noite têm duração idêntica.

Essa data sempre teve importância simbólica: marcava a entrada da primavera no hemisfério norte e era centro de celebrações religiosas relacionadas à fertilidade. A conclusão era que aquelas constelações influenciavam a duração dos dias e o clima – parecia lógico, então, que também tivessem poder sobre a vida humana. Daí vieram os primeiros horóscopos, que já eram produzidos na Mesopotâmia de mil anos antes de Cristo de maneira idêntica à de hoje. Se uma criança vinha ao mundo no período em que o Sol nasce na parte do céu ocupada por Libra, a vida dela era “regida” pela constelação – na prática, o conjunto de estrelas era entendido como uma divindade. O costume passou para os gregos, romanos, e daí para o mundo. A astrologia já teve prestígio de ciência – até o século 17 quase todo astrônomo também era astrólogo, incluindo aí gênios científicos como Johanes Kepler. Isso acabou. Mas o poder da astrologia não. Estima-se que 70% das pessoas no Ocidente leiam o horóscopo.

O conceito de destino sofisticou-se com o tempo. Ele se tornou fundamental para a filosofia e a religião. E continua até hoje. Tanto que uma das doutrinas mais antigas sobre o assunto ainda está em voga: a do carma, elaborada há pelo menos 3 mil anos na Índia. De acordo com ela, nada acontece por acaso: todos os fatos na vida de um indivíduo são consequência de suas ações em existências passadas. “Nosso caráter é resultante total de nosso passado, e o nosso futuro será determinado por nosso presente. Quando dizemos que algo ocorreu por acaso ou por acidente, isso se deve ao nosso conhecimento limitado dos fatos”, diz Swami Nirmalaiatmananda, líder do movimento religioso vedanta no Brasil. Embora o plano geral de nossa vida já esteja traçado antes do nascimento, a teoria do carma deixa espaço à liberdade humana: cada pessoa pode tentar agir com virtude e ir “descontando” a carga das vidas passadas. Quem acertar as contas cármicas será recompensado na próxima reencarnação; mas quem ficar no vermelho terá de pagar com acidentes e desgraças.

Alguns pensadores da Grécia Antiga tinham uma visão parecida, mas menos liberal: defendiam que não dá para escapar do que estiver reservado para você. Eram os adeptos do estoicismo, uma das correntes filosóficas mais influentes da Antiguidade. De acordo com os estoicos, o futuro é tão inalterável quanto o passado. Zero de livre-arbítrio. Na mesma época em que o estoicismo ganhava força, por volta do século 4 a.C., surgiu uma corrente com ideias opostas: o epicurismo. Se os estoicos achavam que o Universo era uma ordem perfeita, Epicuro afirmava que a essência de tudo o que existe é o caos. O nosso mundo e a nossa vida seriam fruto do acaso. E pronto. Essa ideia seria retomada no século 20 por filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre. Para ele, acreditar em um futuro com cartas marcadas equivalia a escapar da responsabilidade de tomar decisões. Os existencialistas afirmaram, com isso, a total liberdade humana – mas também legaram o receio de viver num mundo sem sentido. Afinal, isso vai contra aquele instinto básico do cérebro de tentar ver sentido e ordem em tudo.

Na história do cristianismo – e das outras religiões monoteístas -, o problema do destino assumiu vestimentas teológicas. A história da traição de Judas a Jesus ilustra bem isso. Os Evangelhos deixam bem claro que a crucificação de Cristo fazia parte dos planos divinos – mas a cruz só foi possível graças ao maligno feito de Judas. Nesse caso, Judas estaria predestinado a ser mau? A resposta mais radical foi dada pelo protestante francês João Calvino no século 16. Na obra Instituição da Religião Cristã, ele formulou a teoria da predestinação. Segundo ela, Deus escolheu de antemão um (pequeno) número de pessoas para a salvação eterna – e condenou previamente a maioria das pessoas ao inferno. Assim como Judas, a maior parte da humanidade estaria simplesmente destinada ao mal e à punição. “Se a negação do destino traz angústia pela responsabilidade das escolhas humanas, a doutrina da predestinação angustia porque, no fundo, não temos como saber qual a escolha divina”, explica Franklin Leopoldo, da USP.

A Igreja Católica sempre frisou o livre-arbítrio como uma peça necessária à responsabilidade moral. Afinal, se as pessoas fossem boas ou más por decreto divino, qual o sentido de recompensá-las ou puni-las? A teologia muçulmana procurou um meio-termo entre o livre-arbítrio e a providência divina: o homem é livre para agir, mas Deus já sabe de antemão o que cada um de nós vai fazer ou deixar de fazer. “Deus tem o pré-conhecimento de todas as escolhas que tomaremos, mas não nos obriga a tomá-las; sabe tudo o que vai acontecer, mas não provoca os acontecimentos”, explica Sami Arrmed Isbelle, diretor da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro. O surreal é que a ideia de um futuro predeterminado e ao mesmo tempo inescrutável tem uma colaboradora inusitada: a ciência. Ela indica que, sim, seu futuro está escrito. Como disse Einstein: “A distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão”.
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50 tons de sexo

Antes era fácil. Só havia homens e mulheres. Agora, quem preenche um perfil no Facebook tem de escolher entre 52 – isso mesmo: cinquenta e duas – opções. É o que mostra a matéria a seguir, publicada na Época.


sexo-facebookPara quem escreveu o Gênesis era fácil. Deus fez Adão e Eva – e pronto. A humanidade toda se restringia a dois sexos – ou dois “gêneros”, como preferem os puristas. Pois o mundo mudou, mudou, mudou, veio a libertação sexual, o feminismo, o casamento gay – até que apareceu o Facebook. E nem as mentes mais liberais e abertas para a diversidade da sexualidade humana estavam preparadas para isso. Ao criar uma conta na rede social, o usuário informa dados como data de nascimento, idioma, cidade natal e um que para muitos passa despercebido: “gênero”.  Responder a isso era tão simples quanto para os escribas bíblicos: “feminino” ou “masculino”. Era. No começo de 2014, o Facebook anunciou para seu site em inglês mais 50 novas opções de gêneros, além das duas. Somando tudo, o usuário agora tem de escolher quem ele é entre 52 tons de sexo.

“Estamos orgulhosos de oferecer uma nova opção de customização de gênero para ajudar você a expressar melhor sua própria identidade”, escreveram os representantes do Facebook no comunicado oficial. Na longa lista de 50 novas opções de gênero, há algumas conhecidas, como “transgênero” (alguém que não se identifica com seu gênero biológico) e termos totalmente misteriosos, como “dois espíritos” (definição usada por tribos indígenas da América Norte para quem se sente, ao mesmo tempo, homem e mulher). A seleção dos termos durou um ano e foi feita em parceria com líderes de organizações LGBT dos Estados Unidos. O Facebook Brasil diz que não há previsão para que as 50 novas opções de gênero estejam disponíveis na versão em português do site – assumindo que, no Brasil, também seríamos igualmente criativos nessa área.

Os psicólogos e psiquiatras ouvidos por ÉPOCA dizem que é importante que as pessoas possam se definir sexual­mente de acordo com sua própria percepção. O psicólogo mineiro Klecius Borges diz que os termos são “diferentes tentativas” de definição da própria identidade. “A escolha de um desses termos ajuda a quebrar a forma binária como nossa cultura e sociedade tratam a questão do sexo”, afirma. Mesmo ele, porém, acha 52 opções um pouco demais. “Quando se especifica demais, perde-se o foco e passa-se a concentrar em detalhes que não importam”, diz Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Identidade de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Ao mesmo tempo, Saadeh afirma que a decisão do Facebook gera discussão e pode servir para expor os preconceitos. Mas será que alguém se tornará mais tolerante ao ser informado das 50 novas opções de sexo do Facebook?

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