Precisamos repensar nosso urbanismo

Proponho uma experiência simples: Abra o Google Maps, escolha uma cidade brasileira qualquer e dê um zoom em um bairro residencial de classe média. Pela imagem de satélite, você provavelmente verá que a paisagem é predominantemente cinza (de cimento, concreto e asfalto) e marrom (dos telhados), com poucos pontos verdes (das árvores). Solte o bonequinho do Street View em uma rua qualquer e constatará que as casas são todas muradas e com grades. As calçadas são irregulares e desniveladas.

Mooca - SP
Mooca, bairro central de São Paulo

Agora escolha uma cidade aleatória dos Estados Unidos (ou de qualquer outro país desenvolvido no mundo) e dê um zoom em um bairro residencial também de classe média. Pela imagem de satélite, você provavelmente verá que a paisagem é predominantemente verde, por causa das muitas árvores e dos quintais gramados. Solte o bonequinho do Street View em uma rua qualquer e constatará que as casas não têm muros nem grades. As calçadas são todas padronizadas e planas.

Bronx - NYC
Bronx, distrito mais pobre de Nova York

Qual ambiente urbano você considera mais agradável para se viver? Certamente não é aquele com o qual estamos acostumados. Isso significa que precisamos repensar nosso urbanismo, nossa forma de organizar as cidades. É claro que, antes de mudar a cultura dos muros nas casas, precisamos garantir o mínimo de segurança pública. Mas há algo que já podemos começar imediatamente: a questão do verde, a arborização, o cultivo de jardins e gramados. Só isso já transforma surpreendentemente a paisagem urbana, deixando-a muito mais agradável.

Cientistas da Universidade de Washington conseguem hackear computador usando DNA

Parece ficção científica, mas não é: cientistas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, descobriram que é possível hackear um computador usando DNA.
O DNA é basicamente uma forma biológica de guardar informações, as quais podem ser lidas por um computador. Os pesquisadores então programaram um malware (um tipo de vírus) em uma sequência de DNA e observaram que ela foi capaz de contaminar um computador. “Queríamos entender quais novos riscos à segurança são possíveis com a interação entre informação biomolecular e sistemas de computadores”, escreveram os pesquisadores. É a primeira vez que algo do tipo é observado.

Segundo os pesquisadores Tadayoshi Kohno e Luis Ceze, eles usaram as quatro bases do DNA (adenina, citosina, guanina e timina) para criar um filamento de DNA sintético que continha um programa malicioso (um malware) em suas bases. Quando foi sequenciado e processado pelo programa vulnerável, o malware foi capaz de invadir e ganhar total controle do computador. Mais detalhes sobre o estudo serão apresentados em um simpósio de segurança da informação que será realizado em Vancouver, no Canadá.

A invasão da máquina só foi possível por causa de uma fragilidade no software do sequenciador de DNA. Apesar de parecer alarmante, os pesquisadores pedem calma com a descoberta e avaliam que a segurança no processo deve ser aumentada antes que surjam ameaças de fato. A equipe, inclusive, chegou a analisar alguns programas de sequenciamento e encontrou diversas falhas. Os pesquisadores ressaltam que o estudo não aponta a possibilidade de o genoma de uma pessoa ser hackeado: ele mostra apenas que a técnica pode ser usada para afetar computadores, não organismos vivos.

Antes dessa descoberta, pesquisadores já haviam mostrado que é possível transferir dados usando DNA. Em abril de 2016, a Microsoft e a mesma Universidade de Washington demonstraram uma técnica para guardar e recuperar imagens digitais usando DNA. A pesquisa buscava tornar o DNA um meio viável para guardar informações digitais, com o auxílio de suas propriedades únicas para armazenar uma quantidade vastíssima de informações em pequenas quantias de líquido. Outra novidade ocorreu em julho deste ano, quando cientistas de Harvard conseguiram armazenar um vídeo dentro de um DNA de uma célula viva, segundo o jornal britânico The Guardian.

Fontes: Washington University, MIT Technology Review e The Guardian.

BÔNUS: Nerdologia sobre a programação e a vida (de como o DNA é um algoritmo)

O que temos a perder

A nossa civilização é mais preciosa e mais frágil do que a maioria das pessoas supõe.
É o que defende o médico britânico Theodore Dalrymple no artigo abaixo, publicado originalmente no City Journal no outono de 2001. O texto foi traduzido na íntegra por Aluízio Couto e publicado no portal Crítica na Rede.


Sempre que nos informamos de acontecimentos que abalam o mundo, de catástrofes ou massacres, tendemos não apenas a sentir vergonha das preocupações rabugentas que temos com nossos problemas secundários, mas também a questionar o valor mais geral de todas as nossas atividades. Não sei se, como se diz, as pessoas que encaram a morte de perto por alguns segundos vêem, diante de si, um flash de suas vidas e sobre elas emitem um juízo final; mas sempre que escuto algo assim reflito sobre a minha própria vida e detenho-me um pouco na insignificância dos meus esforços, no egoísmo dos meus interesses e na estreiteza das minhas simpatias.

Foi o que aconteceu quando soube do atentado ao World Trade Center. Eu me ajeitava para escrever a resenha de um livro: não de um grande trabalho, mas de uma biografia competente, cuidadosa e um pouco aborrecida de uma figura histórica não muito relevante. O que poderia ser menos importante do que essa atividade quando comparada com o terrível destino de milhares de pessoas presas nos prédios em chamas — e que logo implodiriam? Uma resenha de livro, comparada às mortes de mais de trezentos bombeiros que perderam a vida cumprindo seu dever, sem falar nas outras milhares de perdas? Qual era o sentido de terminar uma tarefa tão insignificante quanto a minha?

No meu trabalho como médico de uma prisão, salvo umas poucas vidas por ano. Quando me aposentar, não terei salvo em toda a minha carreira a quantidade de vidas que foram perdidas em Nova York naqueles momentos horríveis, mesmo contando o tempo em que passei na África, onde era ridiculamente fácil, com os recursos médicos mais simples, salvar uma vida humana. Quanto ao que escrevo, talvez não tenha o peso de um grão de poeira numa balança: o que faço agrada a alguns, enraivece outros e é desconhecido da vasta maioria de meus vizinhos mais próximos, para não falar de círculos mais amplos. Impotência e futilidade são as duas palavras que vêm ao espírito.

E mesmo enquanto penso sobre mim, uma imagem é recorrente: a da pianista Myra Hess tocando Mozart na Galeria Nacional de Londres enquanto as bombas caíam sobre a cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Nasci depois do fim da guerra, mas o heroísmo sereno daqueles concertos e recitais, transmitidos para todo o país, era ainda simbolicamente forte durante minha infância. O gesto de Myra Hess se tornava ainda mais forte porque ela era judia e o antissemitismo do inimigo era central na sua depravada visão do mundo; e também porque a música que ela tocava — uma das conquistas mais sublimes dentre as realizações humanas — emanava da mesma terra natal do líder dos inimigos, que representava as profundezas da barbárie.

Ninguém perguntou “Para quê esses concertos?” ou “Por que razão tocar Mozart quando o mundo está em chamas?”. Ninguém pensou “Quantas divisões militares tem Myra Hess?” ou “Qual é o poder de fogo de um rondo de Mozart?”. Todos entenderam que esses concertos eram, não no sentido material ou militar, um gesto desafiador de humanidade e cultura em face da brutalidade sem precedentes. Eram acerca do que estava em causa na guerra. Uma afirmação da crença de que nada poderia ou poderá corromper o valor da civilização; e de que nenhum revisionismo histórico, por mais cínico que seja, jamais subverterá essa nobre mensagem.

Lembro-me também de uma história contada pelo filósofo Karl Popper, um refugiado austríaco que fez da Grã-Bretanha o seu lar. Quatro homens cultos aguardavam, em Berlim, a sua esperada prisão pela Gestapo. Decidiram passar sua última noite juntos — possivelmente a última na Terra — tocando um quarteto de Beethoven. Não foram presos naquela noite, mas também expressaram com essa ação a fé de que a civilização transcende a barbárie, de que não obstante a aparente inabilidade da civilização de, naquela altura, resistir às investidas dos bárbaros, ainda valia a pena defendê-la. De fato, é a única coisa que vale a pena defender, porque é o que dá sentido às nossas vidas. Continue reading “O que temos a perder” »

Você pode não acreditar

Crônica do poeta e escritor mineiro Affonso Romano de Sant’Anna,
publicada no jornal Estado de Minas do dia 5 de maio de 2013.


Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os leiteiros deixavam as garrafinhas de leite do lado de fora das casas, seja ao pé da porta, seja na janela. A gente ia de uniforme azul e branco para o grupo, de manhãzinha, passava pelas casas e não ocorria que alguém pudesse roubar aquilo. Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os padeiros deixavam o pão na soleira da porta ou na janela que dava para a rua. A gente passava e via aquilo como uma coisa normal.

Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que não havia guardas nas portas dos bancos, nem dentro. Não havia casamatas no interior das casas bancárias. Você entrava e saía livremente. Assaltos a bancos eram coisas de filme americano. Você pode não acreditar: não havia carro forte blindado, aqueles seguranças super armados para recolher dinheiro, nem se anunciava aos ladrões que a chave do cofre não estava com o chofer ou que o carro estava sendo seguido por satélite.

Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que você saía à noite para namorar e voltava andando pelas ruas da cidade, caminhando displicentemente, sentindo cheiro de jasmim e de alecrim, sem olhar para trás, sem temer as sombras. Você pode não acreditar: houve um tempo em que as pessoas se visitavam airosamente. Chegavam no meio da tarde ou à noite, contavam casos, tomavam café, falavam da saúde, tricotavam sobre a vida alheia e voltavam de bonde às suas casas.

Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que um homem de bem não assinava promissória, bastava tirar um fio de seu bigode e aquilo valia como promessa de pagamento no prazo ajustado. Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os jovens tinham que estar em casa às dez da noite. Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que o namorado primeiro ficava andando com a moça numa rua perto da casa dela, depois passava a namorar no portão, depois tinha ingresso na sala da família. Era sinal que já estava praticamente noivo e seguro.

Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os filhos chamavam os pais de senhor e senhora, pediam a bênção e até beijavam-lhes a mão. Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que o professor ou professora quando entrava na sala de aula os alunos se levantavam e ficavam ao lado das carteiras para recepcioná-lo(a). Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que, nos colégios mistos, as moças sentavam-se nas carteiras da frente e o recreio feminino era separado do recreio masculino; os adolescentes ficavam se olhando à distância.

Houve um tempo em que havia tempo.
Houve um tempo.

Qual foi o primeiro atentado terrorista de que se tem notícia na história moderna?

Em tempos de terrorismo ocupando as manchetes com cada vez mais frequência pelo mundo, é natural questionarmos como e quando essa barbárie começou. A reportagem exibida no Fantástico deste domingo (03) saciou nossa curiosidade: O primeiro atentado terrorista de que se tem registro na era moderna aconteceu em Paris, no final do século 19, deixando toda a sociedade da época em pânico. Ao contrário do que você deve estar pensando, ele não teve qualquer ligação com extremistas muçulmanos. Mas teve, isto sim, tudo a ver com o ódio ao Ocidente: foi motivado por ideais socialistas. Em 12 de fevereiro de 1984, o espanhol Émile Henry detonou uma bomba caseira de dinamite dentro de um café lotado. Saiba mais sobre esse triste episódio na reportagem de Marcos Uchôa, direto de Paris (clique no link para assistir no site do Fantástico).

interrogatorio_de_emile_henry
Interrogatório de Émile Henry na delegacia após sua prisão.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pág. 1 de 212
%d blogueiros gostam disto: