O notívago é o novo canhoto

Canhotos sempre sofreram para se encaixar em um mundo feito por e para destros. Na idade média, por exemplo, não era fácil ser canhoto. Naquela época, escrever com a mão esquerda era sinal de insubordinação ou dificuldade de aprendizado, um erro que devia ser consertado o mais rápido possível. Eles sofriam represálias psicológicas e até castigos físicos – levavam chicotadas, cintadas e tapas nessa mão –, e tinham que aprender a se virar com a mão direita. Hoje a tolerância com os canhotos pode ter aumentado, mas eles ainda têm que aprender a lidar com um mundo onde as tesouras e os abridores de latas ainda funcionam para o lado “errado”. Ser canhoto é fazer um esforço a mais para coisas tão banais do cotidiano que, na verdade, não deveriam exigir esforço algum. Saca-rolhas, torneiras, maçanetas – tudo o que gira, gira para a direita na ditadura dos destros. Para os canhotos, de duas, uma: ou vivem um eterno jogo de desmunhecar ou aprendem a lidar com as coisas usando a mão direita.

Situação semelhante vivem os notívagos. Hoje, em nossa sociedade, podemos dizer que eles sofrem até mais do que os canhotos. Essas pessoas geralmente são injustiçadas e incompreendidas, rotuladas como preguiçosas e irresponsáveis, simplesmente porque não se enquadram naquele esquema, que não sei quem inventou, de que pessoas trabalhadoras e responsáveis são aquelas que acordam cedo. Estabeleceram que o melhor horário para o funcionamento do comércio, dos bancos, das pessoas, enfim, do mundo, seria a partir de 7 ou 8 horas da manhã. Horário caótico e completamente ilógico e difícil de ser seguido para os notívagos, ou seja, aquele grupo de pessoas que não consegue, como a maioria dos “normais”, ter sono antes da meia noite e acordar pela manhã esbanjando vitalidade, ânimo e disposição.

Na biologia, notívagos são aqueles animais que dormem durante o dia e ficam mais ativos durante a noite – isso vale também para os humanos. Diferentemente dos matutinos, os notívagos conseguem ser mais produtivos a noite e pela madrugada a dentro, e também conseguem ter mais atenção, energia, disposição e ânimo, justamente naquele horário em que a maioria sente sono. Ao contrário do que pensam os matutinos, que erroneamente costumam classificar os notívagos de preguiçosos, eles conseguem, durante a noite e pela madrugada, ser bastante dinâmicos e produtivos. Inclusive já foi cientificamente comprovado que esta diferença é realmente orgânica e determinada por fatores genéticos. Se você quer saber como é ser um notívago numa sociedade diurna, apenas inverta o horário “normal”: trabalhe à noite por um tempo, dormindo durante o dia. Se você não perder a saúde, a família e a sanidade mental, parabéns. Agora imagine um notívago ligando para alguém, quando está acordado, animado e cheio de ideias, às 2 horas da manhã. Certamente essa atitude seria considerada inconveniente: uma grande falta de etiqueta e respeito. Pois é: o matutino liga para qualquer pessoa às 8 horas da manhã, com a maior naturalidade.

Para finalizar, quero compartilhar com vocês o depoimento da psicóloga e notívaga Maria Aparecida Francisquini, com o qual muito me identifiquei: “Antes, quando me forçava a entrar nesse esquema matinal, e acordar cedinho com o barulho do despertador, me enquadrava como insone, e a única coisa que conseguia era ficar rolando na cama quase a noite toda, e passar a manhã inteira sonolenta e pouco produtiva. Agora, que me permito respeitar meu horário biológico e me assumir como autêntica notívaga que sou, consigo ser altamente produtiva e criativa. E muito mais feliz! Como geralmente não consigo dormir antes das 2 da manhã, aproveito este meu tempo para ler, escrever e pensar em coisas que antes não tinha tempo, pois me obrigava a deitar cedo para inutilmente tentar dormir e conseguir levantar da cama ao amanhecer. Ser notívaga me propicia a capacidade de, por exemplo, estar aqui agora, tranquila e feliz, às duas e quinze da manhã, escrevendo isto, ao invés de estar rolando na cama, impaciente e ansiosa por não conseguir dormir”.

BÔNUS: Timelapse “Night Vision” (Visão Noturna) retrata em menos de 4 minutos a beleza da noite nos cartões postais mais fascinantes da Europa.

Exigências da vida moderna

Crônica de Luis Fernando Verissimo.

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C. Mais uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes. Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo. Todos os dias deve-se tomar leite fermentado pelos lactobacilos vivos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão). Cada dia uma Aspirina previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja para… não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.

Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver. Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. Uma a cada três horas. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia. E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e, enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com enxaguante bucal. Melhor ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.

Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma). E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando. Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações. Ah! E o sexo! Deve-se fazer todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico. Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são pelo menos 29 horas por dia.

A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama. Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio. Agora tenho que ir. É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal.

A percepção do tempo no passado

Crônica de Carlos Bacellar, historiador e professor, publicada no portal Brasil Post.

Veja também: O tempo parece mais acelerado?

Há quase 20 anos que observo uma norma sagrada em minhas férias: esconder o relógio de pulso na gaveta, já no primeiro dia, e assim fazer questão de não saber as horas. Acordar no momento que acabar o sono, comer quando bater a fome, fazer tudo livremente, sem as amarras opressoras do tempo. Esta operação, simples em sua aparência, é na realidade difícil e quase impossível para muitos. Implementá-la é verdadeiramente uma operação de guerra, de tal modo que estamos pautados pelo controle do tempo. Tempo é dinheiro, já se diz por aí, mas eu penso que o tempo e seu controle é umas das razões para vivermos estressados.

Na realidade, o homem controla o tempo desde sempre. Olhando o sol, tentava estimar o andar das estações do ano, para garantir o melhor usufruto da lavoura. Diversas ruínas do passado demonstram preocupação em identificar os ciclos do ano, buscando capturar o momento exato do solstício solar. Mas, afora isso, temos certa dificuldade em imaginar como nossos antepassados se viravam sem o célebre relógio, seja ele de pulso, de bolso ou de parede. Ou, hoje, na telinha informatizada do celular e dos computadores. “Como nossos antepassados agendavam seus compromissos?”, perguntou-me certa vez um aluno. Bem, antes de tudo, não podemos imaginar que, no passado, as pessoas vivessem no mesmo ritmo alucinado de nossos tempos. Esse tempo corrido, curto, sempre insuficiente é coisa recente na civilização humana.

Se tentarmos imaginar o dia-a-dia de nossos antepassados, podemos chegar à conclusão de que o tempo deles era de outra magnitude. Não tinham compromissos em série, necessidade de controlar as horas do dia. Para eles, os compromissos se davam no âmbito dos dias da semana, e olhe lá. Na rotina repetitiva de pequenos lavradores, os compromissos eram preparar a terra, plantar e colher, tarefas que não ocupavam horas, mas sim dias ou semanas. Essa era a referência básica: saber-se o dia da semana, para se lembrar com precisão quando seria o domingo, dia de se ir para a vila mais próxima, para fazer compras, participar da missa e tratar de assuntos que exigiam a coletividade.

O dia da semana ou do mês era fundamental, também, para identificar os compromissos impostos pela Igreja: Quaresma, Semana Santa, Advento, dentre os mais importantes. Esse controle do tempo era fundamental para se garantir a observância dos ritos católicos. A interdição de se comer carne na Semana Santa, a interdição ao sexo na Quaresma e no Advento, eram obrigações temporais impostas pela Igreja, mas que, nas sociedades do Velho Mundo, estavam intimamente relacionadas ao calendário da lavoura. Evitar o sexo na Quaresma e no Advento estava diretamente relacionado aos tempos do plantio e da colheita, momentos em que todos o esforço da família camponesa deveria se voltar para a garantia da sobrevivência material.

No entanto, ao se mudarem para o Novo Mundo, os colonos europeus depararam com um calendário agrícola invertido, por se estar, agora, no hemisfério Sul. Como bons católicos, mantiveram a estrita observância do calendário religioso, a despeito de seu conflito com as datas do campo. A Igreja venceu este desafio. Mantinha, assim, o controle do tempo, manifestado claramente pelos sinos das igrejas, que, ao soarem, indicavam aos fiéis os horários das missas e, por tabela, referenciavam o tempo da vida cotidiana. Mas, como se sabe, o Brasil era um país eminentemente rural há até poucas décadas e, portanto, poucos podiam ouvir, de seus sítios, os badalares marcadores do tempo.

De qualquer maneira, estas populações do passado não tinham relógios, que somente foram se tornar usuais no século 20. Com o início do processo de modernização capitalista, essa realidade era um problema óbvio. Como implementar, por exemplo, a ferrovia, com seus trens devendo sair a horários firmemente pré-estabelecidos? Ainda hoje, os ingleses, inventores da ferrovia, têm verdadeira obsessão pelo tempo, obrigando-nos a acreditar que aquele trem marcado para as 18h03 efetivamente sairá, sem atrasos, nesse horário quebrado. Mas a grande solução para garantir os passageiros na estação na hora certa foi construir grandes torres com um formoso e grande relógio no topo. Hoje, com nossas cidades tomadas de edifícios altos, fica um tanto difícil imaginar tal preocupação. Mas se imaginarmos a São Paulo de casario baixo de finais do século 19, é fácil entendermos que o relógio da Estação da Luz poderia ser visível de muito longe!

Mas talvez a mais impressionante faceta da despreocupação com o tempo que caracterizava nossos antepassados era a idade. Número fatídico e cambiante, a nós atrelado ao nascermos, que aumenta de maneira perversa e irreversível ao longo dos anos e que leva muitas mulheres a ocultá-lo em verdadeira operação de guerra. Quem não sabe sua idade, afinal de contas? Esta óbvia constatação é recente em termos históricos: a maioria das pessoas efetivamente não sabia, ou sabia muito mal, quantos anos tinha. Mas afinal, para que necessitamos saber nossa idade? O mundo contemporâneo exige o controle de nossa idade para que nossos direitos e obrigações sejam observados. São as idades que regulamentam o acesso à escola, bem como à série de vacinas que nos são dolorosamente reservadas. Precisamos alcançar certa idade para sermos legalmente aptos para casar. E é a idade que nos define a maioridade e o momento em que podemos alcançar a sempre sonhada carteira de habilitação. Para os rapazes, completar 18 anos representa, também, o sempre temido risco de servir às Forças Armadas.

Ainda no século 19, e mesmo no 20 em diversos rincões desse Brasil, a idade pessoal era algo desconsiderado. Proliferava a velha fórmula do contar com “20 anos mais ou menos”, o máximo de aproximação possível nos tempos de outrora. Ter “para mais de 80” era indicativo de velhice extrema, mesmo que a idade efetiva fosse inferior aos 80: na verdade, perdia-se a noção do tempo de vida à medida que as décadas passavam. Aos 50 anos de idade, qualquer indivíduo já era tratado como “velho”. Em recenseamentos coloniais da população paulista era usual um indivíduo declarar, em anos sucessivos, idades díspares como 26, 29, 25 e 29, impedindo que saibamos ao certo sua real idade. Outros tempos, em que condições de vida, de saúde e de saneamento cobravam seu custo físico muito precocemente: a vida era curta, rápida e perigosa em tempos sem uma medicina efetiva.

Os tempos do passado eram, portanto, muito distintos de nosso tempo afoito e estressante atual. Mas vale a pena tentar cumprir o desafio a que me proponho anualmente. Tente, em suas próximas férias, viver sem seu relógio. Abra mão mesmo que ele seja aquela fortuna que você coloca no pulso mais para exibir do que para marcar o tempo. Proponha-se este desafio: liberte-se do controle do tempo por alguns dias: o temor e a insegurança dos primeiros dias será substituído por uma sensação de libertação única! Vale o esforço!

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