Da possibilidade de se defender teses radicais com razoabilidade e moderação

Opinião da professora Andrea Faggion, publicada no Facebook.

Tenho impressão de que há uma certa confusão na assimilação de pessoas razoáveis e moderadas com pessoas que defendem posições políticas de centro. Particularmente, penso que moderação de temperamento, até como uma ética do discurso, não tem a ver com a radicalidade das teses que a pessoa defende. Você pode defender teses bem radicais, como o anarquismo, e ser uma pessoa razoável e moderada, que admite a falibilidade subjetiva, ou seja, reconhece que o outro pode estar discordando de você, não por ser um canalha ou um idiota, mas simplesmente porque você pode estar errado e ele pode estar certo, ou então porque a sua posição pode até ser a mais correta, mas não é uma verdade auto-evidente, no sentido de uma tese que seria compreendida imediatamente como verdadeira por qualquer pessoa sã e de boa-fé que tomasse conhecimento dela. Infelizmente, o modus operandi atual consiste na defesa de teses, passando necessariamente pela depreciação de qualquer um que possa defender a tese oposta, apenas por defender a tese oposta. Esses grupos conquistarão o meu respeito no dia em que começarem a respeitar seus adversários intelectuais.


Suspensão do juízo à portuguesa

Crônica do professor de filosofia português Carlos Pires, publicada no portal Crítica.

Recentemente ouvi um diálogo curioso entre duas moças:

– O que pensas do casamento entre homossexuais?
– Sei lá! É uma coisa tão discutível…
– Mas és a favor ou contra?
– Já te disse: é discutível. Cada pessoa tem a sua opinião.
– Mas é isso mesmo que eu quero saber: a tua opinião. Acho que deverias tomar partido.
– Isso é a tua opinião!

O leitor certamente já assistiu conversas desse tipo, em que se diz “isso é discutível” não para iniciar um debate, mas para declarar que o debate é inútil e encerrar a conversa. Não sei o que se passa em outros países, mas em Portugal é comum encontrar pessoas que não percebem que o adjetivo “discutível” significa justamente que algo pode (ou até mesmo deve) ser discutido. Serão essas pessoas filósofos céticos que, perplexos com a diversidade de opiniões suscitada por muitos assuntos, concluem que nada se pode saber e que o mais sensato é suspender o juízo? Apesar das inúmeras objeções em que o ceticismo incorre, essa seria uma explicação lisonjeira, mas é duvidoso que seja o caso. Os céticos não se calam e procuram argumentar, de modo a justificar a ideia de que o melhor é suspender o juízo. Podemos acusá-los de se auto contradizerem, mas não de preguiça intelectual. Pelo contrário, as pessoas que, como resposta à pergunta “Concordas com X?”, se limitam a dizer simplesmente “isso é discutível” em vez de discutirem, calam-se e não argumentam. Não se dão ao trabalho de pensar.

Talvez se consiga explicar melhor o seu comportamento relacionando-o com o relativismo. Tais pessoas (mesmo as que nem conhecem a palavra “relativismo”) parecem acreditar que o fato de existir mais de uma opinião sobre um assunto qualquer significa que todas as opiniões valem o mesmo e que é sintoma de arrogância tentar mostrar que uma é melhor que outra. Por isso, perante uma opinião divergente, acham que faz sentido retorquir apenas dizendo que “esta é a tua opinião” – em vez de perguntar “porquê” e discutir as razões dadas na resposta. Dessa atitude relativista até à ofensa ou aborrecimento quando alguém critica abertamente a sua opinião vai um pequeno passo. Um passo que é dado muitas vezes: em vez de discutirem as ideias envolvidas na crítica e de confrontá-las com a opinião criticada sentem-se pessoalmente postas em causa. É como se toda a argumentação fosse ad hominem. O que torna difícil a discussão livre e imparcial, como se pode verificar em diversas áreas da sociedade portuguesa.

Tolerância e ofensa

Artigo de Desidério Murcho para o jornal Público do dia 22 de janeiro de 2008.

A tolerância é uma das noções mais difíceis de compreender. Confunde-se geralmente com o relativismo epistêmico e esta confusão denuncia incapacidade ou até falta de vontade para aceitar a tolerância. Os pensadores pós-modernistas são responsáveis por contaminar a cultura contemporânea com esta confusão grave, que acaba por tornar impossível a genuína tolerância. Ser tolerante é aceitar o direito de alguém afirmar aquilo que pensamos firmemente ser falso, errado, inaceitável ou ofensivo. Isto é de tal modo difícil de assimilar que os pensadores pós-modernistas se sentem na necessidade de declarar que não há “verdades”, mas apenas “construções sociais da realidade”. Como consequência disso, todas as diferentes “construções” são igualmente aceitáveis. Pensa-se então que essa atitude é tolerante, quando, ironicamente, ela torna impossível a tolerância. Pois se ninguém pode realmente estar errado nem dizer coisas falsas ou inaceitáveis, não podemos realmente ser tolerantes: limitamo-nos a aceitar todas as perspectivas que reconhecemos inicialmente serem tão aceitáveis quanto as nossas.

A falsa tolerância abre as portas ao fanatismo, cada vez mais presente na sociedade contemporânea. O fanatismo consiste em usar sistematicamente a noção de ofensa para silenciar os outros. Assiste-se assim à imposição de um discurso politicamente correto, proibindo seja quem for de dizer seja o que for que possa ser ofensivo seja para quem for. A tolerância, pelo contrário pressupõe a convicção do erro. Só podemos tolerar o que estamos convictos de que é um erro inaceitável, uma falsidade patente, um absurdo ofensivo. E é precisamente porque tais opiniões são claramente falsas, claramente injustificáveis, que podemos ser tolerantes relativamente a quem as defende. Se tais ideias nos ofendem, paciência. Não é possível garantir a liberdade de expressão e ao mesmo tempo garantir que não seremos ofendidos.

Dicionário Houaiss redefine “família”

O conceito de família sempre possuiu um significado suficientemente claro: “Grupo de pessoas vivendo sobre o mesmo teto (especialmente o pai, a mãe e os filhos)”. Durante décadas, foi essa a definição dada pelo Houaiss, o mais importante dicionário de língua portuguesa, para o verbete “família”. É claro que a palavra pode assumir sentidos secundários, mas esse é o sentido imediato e primário. O complemento entre parêntesis na definição é necessário porque um “grupo de pessoas vivendo sobre o mesmo teto” pode ser uma república de estudantes, por exemplo, ou qualquer outra configuração habitacional cujos inquilinos não tenham entre si qualquer ligação afetiva ou sanguínea. De igual modo, parentes de primeiro grau que não vivem mais juntos são família apenas em sentido lato, de modo que não preenchem o significado estrito e primeiro de família.

Os tempos mudaram e os organizadores do dicionário já não estavam mais satisfeitos com essa definição clássica. Resolveram reescrever o verbete; e essa decisão foi tema de uma reportagem do Fantástico, exibida no último domingo (08), dia das mães. Para dar o tom da reportagem, ela começa com uma pergunta aparentemente despretensiosa, mas que carrega consigo o pressuposto do relativismo: “O que é família pra você?”. Note que a pergunta não procura pela definição objetiva de “família”, mas pelas opiniões subjetivas de cada um. A preocupação implícita ali era compreensível: não excluir ou discriminar os tipos menos comuns de família. Depois de apresentar alguns exemplos de famílias, digamos, mais “heterodoxas”, a reportagem dá a entender que a atual definição limita muito o termo. Ora, mas o que é uma definição, se não uma delimitação dos termos?

Além do mais, note que “especialmente”, na definição acima, tem o mesmo sentido de “normalmente”, “geralmente”, “na maioria dos casos”, e não de “exclusivamente”. Sendo assim, a definição continua aplicável a modelos familiares menos ortodoxos. Mesmo assim, fato é que os organizadores do dicionário sentiram que estava na hora de ampliar a definição de “família”. Fizeram então uma parceria com uma agência de publicidade e criaram uma campanha. Após ouvir mais de 3 mil opiniões diferentes, chegaram a um consenso. A partir da próxima edição do Houaiss, “família” será definida assim: “Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”. Leia novamente. Agora compare com a definição original. Percebe como o relativismo é avesso à clareza?

Em nome do politicamente correto, trocaram uma definição clara, sucinta e objetiva, que vai direto ao ponto em poucas palavras, por uma definição obscura, prolixa e vaga. Se me perguntassem o que é um “núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”, eu certamente não saberia responder. Mas se me perguntassem o que é um “grupo de pessoas vivendo sobre o mesmo teto (especialmente o pai, a mãe e os filhos)”, eu teria a resposta na ponta da língua: é uma família!

Epistemologia de um vestido polêmico

cor do vestido

Um assunto banal como a cor de um vestido mobilizou milhões de pessoas, gerou muita polêmica e sacudiu a internet esta semana. E o mais interessante: fez muita gente sem nenhuma experiência em filosofia sair do senso comum e discutir epistemologia! A foto do vestido postada numa rede social viralizou de tal modo que foi parar em quase todos os portais de notícias na internet e virou pauta para ser discutida ao vivo em muitos programas de TV. Desde a noite da última quinta-feira, a cor do bendito vestido é o tema mais comum em conversas informais. A polêmica dividiu as pessoas em basicamente dois grupos: as que veem o vestido preto e azul e as que o veem branco e dourado.

Eu, particularmente, já tentei, já fiz de tudo, mas não consigo ver esse vestido branco e dourado de jeito nenhum. Aliás, não consigo ver nenhuma cor além de preto e azul. Mas tem muita gente jurando que só consegue ver branco e dourado; e eu não duvido delas. Minha esposa foi quem primeiro me mostrou a famosa foto do vestido. “Você ainda não tá sabendo dessa foto?! Em que mundo você vive?!”, indagou surpresa. Mas ainda mais surpreso fiquei eu, quando ela disse que só vê o vestido branco e dourado. A princípio fiquei preocupado e pensei que ela fosse daltônica, já que para mim o vestido é claramente preto e azul. Mas depois de dar uma pesquisada na internet e ler bastante sobre o assunto, descobri que não era nada grave e que muita gente enxerga assim.

Discussões, opiniões e polêmicas à parte, eis a pergunta que todos se fazem nesse momento: Será que é possível chegarmos a um consenso sobre a cor do vestido na foto? Ora, o problema com os daltônicos é simples de resolver: se 99,9% da população enxerga de um jeito e os outros 0,1% enxergam diferente, fica fácil definir essa minoria que enxerga diferente como portadores de uma falha cognitiva qualquer, causada por uma mutação genética ou sei lá o quê. Mas o problema com esse vestido é que as pessoas se dividem quase meio a meio: metade vê preto e azul e metade vê branco e dourado. Assim, fica bastante difícil definir qual grupo está certo e qual tem probleminha nos cones e bastonetes – o que tem levado muitos “especialistas” a afirmar que ambos estão certos.

vestido

Antes de responder essa pergunta, é preciso esclarecer uma série de outros problemas bem mais fundamentais: Existe uma opinião certa e outra errada sobre isso, ou ambas as opiniões estão certas visto que o assunto é relativo? Existe uma “cor verdadeira” do vestido, ou as cores que percebemos não existem na realidade, sendo apenas formas diferentes de perceber a luz? Existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para determinar a cor do vestido, ou tudo o que temos são nossos falhos e enganadores sentidos? Podemos nos posicionar objetivamente sobre o assunto, ou não faz sentido toda essa discussão porque as cores são subjetivas? Podemos investigar esse fenômeno cientificamente, ou estamos condenados a conviver para sempre com essa incerteza e contentarmo-nos com uma mera opinião?

Como eu disse, muitos “especialistas”, talvez pela preocupação de serem politicamente corretos, não se posicionam e chegam afirmar que ambas as opiniões estão corretas, que aquele vestido é ao mesmo tempo preto/azul e branco/dourado, que isso é relativo, depende da interpretação de quem vê, etc. Eu, no entanto, acredito e defendo que não é possível ambas as opiniões estarem corretas, de modo que apenas uma delas está com a razão; e que existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para indicar a cor verdadeira do vestido sem a interferência de qualquer interpretação subjetiva que a mente humana possa fazer. Em suma, acredito que é possível sim investigar esse fenômeno cientificamente e tomar uma posição objetiva sobre esse assunto.

Não duvido que muita gente esteja vendo branco e dourado, mas, independente do seu psicologismo e da sua subjetividade, o vestido é objetivamente preto e azul. E não afirmo isso porque eu o vejo dessa cor. Eu bem sei que poderia facilmente estar errado. Sei também que eu não posso de modo algum ser critério de objetividade. Invertendo a lógica do raciocínio, o que quero dizer com isso é que, mesmo enxergando preto e azul, se o vestido fosse branco e dourado e eu tivesse meios mais confiáveis do que os meus sentidos para descobrir isso, não teria motivos para duvidar que ele é branco e dourado. Eu apenas ficaria um pouco decepcionado com os meus sentidos por eles estarem me enganando, mas isso também não é tão incomum quanto parece.

vestido (2)

Mas como eu sei que o vestido na foto é preto e azul? Bom, primeiro porque tanto a dona do vestido quanto a loja que vende esse modelo já publicaram outras fotos do mesmo vestido e nelas não resta dúvidas de que ele é preto e azul. Mas isso ainda não quer dizer muita coisa, já que o fenômeno que causou toda essa polêmica não é o vestido físico, mas uma certa fotografia do vestido. Ou seja, nada impediria que o vestido fosse de fato preto e azul, mas que, devido à iluminação precária do ambiente no momento da foto ou à baixa qualidade da câmera (provavelmente de um celular), ele tivesse saído branco e dourado na foto. Mas não é esse o caso; e nós temos meios objetivos para comprovar que, mesmo na foto, o vestido é preto e azul.

As ferramentas mais confiáveis que temos hoje para determinar a cor exata do vestido na foto são os softwares de edição de imagem. Isso porque os computadores não têm olhos, nervos óticos, cérebro, emoções, opinião e tudo o mais que nós temos que influencia na senso-percepção. Como máquinas que são, os computadores são exatos e objetivos, não fazem interpretação subjetiva de nada (precisamente porque não são sujeitos, mas objetos). Enquanto nós vemos cores na foto do vestido, um computador “vê” apenas códigos de programação, símbolos lógico-formais, códigos binários, alternância de cargas elétricas em circuitos eletrônicos, elétrons pulando de um átomo para outro em determinada ordem. Tudo o que eles fazem com esses dados é calcular.

No Photoshop ou em qualquer outro programa de edição de imagens de sua preferência, esse teste pode ser feito de pelo menos duas maneiras, ambas muito simples (talvez um designer gráfico saiba de outras). Primeiro, com a ferramenta de selecionar cor, se você clicar em qualquer parte do vestido, o computador interpretará aquele pixel como algum tom de cinza (preto) ou azul. Mas há uma maneira ainda mais fácil de tirar essa dúvida: basta aumentar a saturação da foto. Conforme as cores presentes na imagem ficam mais vivas e mais fortes, você notará com maior clareza que o vestido é preto e azul (e não branco e dourado, como talvez pensasse). Como as coisas devem funcionar na ciência, você pode reproduzir esse experimento na sua casa e repeti-lo quantas vezes quiser, que sempre obterá o mesmo resultado.

vestido

Universidade faz mal para a fé?

universidade-religiao-exatas-e-biologicas

Artigo de Marcio Campos no blog Tubo de Ensaio.

Josemaría Escrivá falava das pessoas que, ao ingressar no ensino superior, abandonavam sua religiosidade “como quem deixa o chapéu à porta”. Mas afinal, a universidade faz mal para a fé dos estudantes? Ateus militantes dizem que, quanto mais conhecimento científico, menos superstição (a palavra preferida deles para designar a religião). Será verdade?

Quatro pesquisadores da Universidade de Michigan resolveram verificar qual o impacto do ensino superior sobre a religiosidade dos estudantes e chegaram a conclusões interessantes. Para muitos jovens, a universidade é a primeira ocasião em que eles se separam da influência dos pais, tendo contato com novas ideias e grupos. Entre essas ideias estão o cientificismo e o o pós-modernismo, que têm impacto sobre as crenças religiosas e serão descritas detalhadamente pelos autores antes da apresentação dos resultados. A pesquisa revela que optar pela formação em ciências Biológicas ou Exatas tem pouco efeito sobre a religiosidade dos universitários, tanto do ponto de vista da importância que cada um atribui à religião em suas vidas quanto em relação à frequência aos cultos religiosos. Por outro lado, quem realmente faz estrago na cabeça dos universitários são as ciências Humanas e Sociais.

universidade-religiao-humanas-e-sociais

O que isso indica? Que o pós-modernismo é mais daninho à religiosidade que o cientificismo. E posso ver o motivo. O cerne da pós-modernidade é o relativismo, a noção de que as verdades absolutas não existem (curiosamente ninguém comenta que a inexistência de verdades absolutas é ironicamente propagandeada como… verdade absoluta). Como a maioria das religiões alega justamente o contrário, deixar-se convencer pelos teóricos pós-modernos leva ao enfraquecimento da fé.

Os pesquisadores também verificaram como a religiosidade influencia na escolha da carreira a seguir. Curiosamente, quanto maior a religiosidade dos estudantes, maior a chance de eles acabarem escolhendo um curso de Humanas ou Sociais – justamente aquelas que mais danificam o senso religioso dos universitários.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pág. 1 de 212
%d blogueiros gostam disto: