Histórico de protestos no Brasil desde 2015

Os infográficos a seguir foram produzidos pelo G1 e fazem um levantamento estatístico do histórico de protestos e manifestações públicas de cunho político ocorridos no Brasil nos últimos dois anos (de março de 2015 até abril de 2017). Eles mostram estimativa de público nos protestos segundo a contagem da polícia, segundo a contagem dos organizadores, e o número de cidades nas quais houve registros de protestos.

Veja também: A ilusão política das grandes manifestações


Estimativa de público segundo contagem da polícia

protestos policia


Estimativa de público segundo os organizadores

protestos organizadores


Número de cidades onde houve protestos

protestos cidades

A ilusão política das grandes manifestações

Crônica de Fernando Pessoa (1888-1935), consagrado poeta português, extraída de sua obra Ideias Políticas. Embora fosse aplicada diretamente a Portugal no início do século 20, sua opinião continua espantosamente atual.

Veja também: Histórico de protestos no Brasil desde 2015


Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos fatos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos fatos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os fatos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra fatos não há argumentos. Ora, só contra fatos é que há argumentos. Quase sempre os argumentos são mais verdadeiros que os fatos. A lógica é o nosso critério de verdade, de modo que é nos argumentos, e não nos fatos, que pode haver lógica.

Nisto de manifestações — ia eu dizendo —, o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que quem toma parte nela. Com as manifestações de esquerda sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio psíquico dos esquerdistas é, ao contrário, expansivo e associador; suas manifestações englobam, por isso, os próprios indiferentes.

O único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente da opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tampouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado; maior se sente a força que se lhe opõe. É este o ensinamento que toda criatura lúcida tira das manifestações populares.

Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprio a ilusão duma confiança que enfraquece.

A Revolta do Vintém e e os protestos de 2013

Trechos deste artigo constituíram o enunciado de uma das questões do Enem 2014. O artigo completo foi publicado na Revista de História, sob o título “A guerra do vintém”, escrito por José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências. Qualquer semelhança com fatos atuais não é mera coincidência.


Em 1879, no Rio de Janeiro, cerca de 5 mil pessoas reuniram-se para solicitar a Dom Pedro II a revogação de uma taxa de 20 réis, um vintém, sobre o transporte urbano, ou seja, bondes puxados a burro. O vintém era a moeda de menor valor da época. A polícia não permitiu que a multidão se aproximasse do palácio. O imperador mandou dizer que receberia uma comissão para negociar. Panfletos distribuídos pela cidade desafiavam o imperador a negociar diretamente com o povo, pregavam o boicote da taxa e incitavam a população a reagir com violência, arrancando os trilhos dos bondes. No dia combinado, ao meio dia, a multidão se reuniu no local previsto. A massa moveu-se, então, pelas ruas do centro e se dirigiu ao Largo de São Francisco, ponto final de várias linhas de bonde. Percebendo a enrascada em que se meteram, os próprios líderes do movimento fizeram um apelo aos manifestantes para que se dispersassem. Mas àquela altura eles já haviam perdido o controle dos acontecimentos.

Ao grito de “Fora o vintém!”, os manifestantes começaram a espancar condutores, esfaquear mulas, virar bondes e arrancar trilhos. O delegado que comandava as tropas da polícia pediu reforços ao Exército, mas, antes que a ajuda chegasse, ordenou à polícia que dispersasse a multidão a cacetadas. Dois pelotões do Exército ocuparam o Largo de São Francisco. Alguns manifestantes mais exaltados passaram a arrancar paralelepípedos e atirá-los contra os soldados. Por infelicidade, um deles atingiu justo o comandante da tropa, o tenente-coronel Antônio Galvão, primo de Deodoro da Fonseca, militar que uma década depois se tornaria o primeiro presidente do Brasil. Atingido pelo paralelepípedo, o oficial descontrolou-se e ordenou que a tropa abrisse fogo contra a multidão. As estatísticas de mortos e feridos são imprecisas. Muitos interesses se fundiram nessa revolta, de grandes e de políticos, de gente miúda e de simples cidadãos. Uma grande explosão social, detonada por um pobre vintém.

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