Como a reforma ortográfica do português prejudicou Tony Ramos e Cláudia Ohana

Comentário de Murilo Gun sobre as mudanças na língua portuguesa.

Começo a observar aos poucos nos veículos de comunicação a adoção das novas regras pós-reforma ortográfica. Até que eu gostei da extinção do trema, da inclusão das letras k, w e y no alfabeto e da supressão de alguns casos de hífen. Mas não entendi até agora a eliminação do acento diferencial. A diferenciação da preposição “para” e da forma verbal “pára” era essencial para evitar confusões do tipo “Trânsito para a cidade”. O acento diferencial também era fundamental para diferenciar a preposição “pelo” e o substantivo “pêlo”. Depois da reforma, a frase “Desculpe-me pelos pêlos”, frequentemente utilizada por Tony Ramos e Cláudia Ohana com seus respectivos parceiros sexuais, passou para “Desculpe-me pelos pelos”. A reforma deveria ter retirado, por exemplo, o acento da palavra “pá”, pois é totalmente desnecessário, já que não mudaria nada no som ou na compreensão da palavra “pá” se não houvesse acento. A justificativa dada para a reforma é que o objetivo não é necessariamente simplificar, e sim padronizar o idioma nos países de língua portuguesa. Mas até parece que com essas mudanças a gente fosse entender melhor o português de Portugal, por exemplo. Porque num lugar onde camisinha é chamada de durex, calcinha é cueca, grupo de crianças é canalha, pão francês é cacetinho, imposto é propina e injeção é pica… não vai ser a eliminação do trema que vai resolver o problema de comunicação.

Obras Completas de Aristóteles

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A obra do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C) é vastíssima e teria cerca de 150 títulos. Aristóteles escreveu até diálogos, embora os livros que nos chegaram sejam somente os tratados destinados aos seus alunos, os textos acroamáticos. Destacam-se os 6 escritos sobre lógica, que formam o Órganon (onde se encontram as Categorias, o Da Interpretação, os Primeiros Analíticos, os Segundos Analíticos, os Argumentos Sofísticos e os Tópicos); o seu mais importante e conhecido tratado, a Metafísica; os tratados acerca da natureza, isto é, da estrutura do mundo físico, que compreendem a Física, o De Caelo (Sobre o Céu) e o Da Geração e Corrupção; além desses o De Anima (Sobre a Alma), que condensa a psicologia aristotélica; os tratados biológicos, como História dos Animais e Das Plantas; os tratados estéticos, como a Retórica e a Poética; e a chamada filosofia prática, que resiste à ação do tempo com obras clássicas como a Política, os Econômicos, a Ética a Nicômaco, a Ética a Eudemo, a Magna Moralia e a Constituição de Atenas, tratado que inaugura a história das constituições e que foi descoberto apenas no século 19. Em inglês, já existe um volume com a obra completa de Aristóteles, traduzido sob a editoração de W. D. Ross.

Atualmente há grande esforço em traduzir do grego clássico para o português todos os títulos das obras de Aristóteles que nos chegaram. Trata-se do projeto intitulado “Obras Completas de Aristóteles”, conduzido pelo professor Antonio Pedro Mesquita, da Universidade de Lisboa. O objetivo do projeto consiste em tornar acessível ao leitor de língua portuguesa a totalidade da coleção aristotélica, aí incluídos os cerca de 30 tratados completos que subsistiram até aos nossos dias, os textos que, de modo fragmentário, foram transmitidos pela tradição e ainda as 7 obras apócrifas que circularam em época tardia sob o nome de Aristóteles. Ao propor-se levar a cabo a tradução coletiva deste conjunto, o projeto torna-se, a nível mundial, o primeiro e, até ao momento, o único a englobar a integralidade do legado aristotélico.

Este projeto é promovido pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (CFUL), com a colaboração de outros institutos de investigação científica em Portugal, e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). A publicação é assegurada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), tudo isso em Portugal. A coleção das publicações se inicia com a Introdução Geral (2005), onde o professor Mesquita traz o repertório bibliográfico sobre Aristóteles, aborda algumas das questões mais candentes no tratamento da obra do estagirita e particularmente de seu vocabulário filosófico. Na sequência, vão sendo editadas as traduções, das quais diversos títulos já vieram à luz.

Veja também: Artigo sobre o projeto na revista Archai

O galo e a pérola

Fábula em poema do poeta português Curvo Semedo (1766-1838).

galoNum monturo esgravatando
Formoso galo aguerrido
Acha uma pérola fina
Que havia um nobre perdido.

Por três vezes a escoucinha
Sem nela querer pegar
À quarta, erguendo-a no bico,
Põe-se a cacarejar.

Vêm logo algumas galinhas
Cuidando que era algum grão
Mas vendo a pérola, tristes,
Vão-se deixando-a no chão.

Acaso passa um ourives
E apanhando-a, alegre diz:
“É uma pérola fina!”
“Que belo achado que fiz!”

“Homem”, lhe pergunta o galo,
“Tanto essa joia merece?”
“Pois eu por um grão de milho”
“Te dera mil, se as tivesse.”

Pérola em poder de galo
Que não lhe sabe o valor
É como entre as mãos de um néscio
As obras de um sábio autor.

Uma lição parecida aparece no Sermão da Montanha, proferido por Jesus Cristo e registrado no Evangelho de Mateus: “Não deem aos cães o que é sagrado, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão.” (7:6)

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