Invejo quem vota com entusiasmo

Artigo de opinião de Guy Franco para o Yahoo Notícias,
publicado às vésperas do primeiro turno das eleições municipais.


Melancólico e aborrecido. É como eu me sinto agora. Esta é a semana mais deprimente do ano. Com as eleições municipais logo ali. São 11 enfadonhos candidatos a prefeito mais 1273 candidatos a vereador na minha cidade. E nenhum nome me desperta a vontade de levantar do sofá, pôr uma calça e sair de casa no domingo para votar. Este é o primeiro fim de semana desde o fim da Olimpíada que me sinto tão desanimado.

Confesso que tenho inveja do entusiasmo de quem vota com alegria, de quem vota com orgulho e paixão por um candidato. De quem assiste ao comício de um político – qualquer político – e diz “É isto! Falou tudo! Arrasou!”. Gostaria de ter esse dom. Infelizmente, não tenho a qualidade mais importante para votar com esse entusiasmo todo, que é ignorar o histórico, o partido, as alianças, os escândalos e os ternos horrorosos dos candidatos. Todos eles, todos eles. Simplesmente não dá.

Nesta eleição descobri um número surpreendente de pessoas que votarão orgulhosas e empolgadas. Pois não basta ser um sujeito que se anima para votar: é preciso votar alegre e saltitante, tirar selfie com os candidatos, fazer coraçãozinho com as mãos, essas coisas. Fico impressionado. Chega a parecer estranho que, num país onde a regra é levar bordoadas das autoridades, ainda consigam acreditar no discurso dessa gente encardida.

Como é evidente, fico à margem disso tudo. Infelizmente, sou pobre e periférico, não tenho uma vista privilegiada onde moro, de modo que, quando abro a janela de casa, tudo o que eu vejo é o caos, a destruição e os pênis pichados nos muros. Pelo menos era isso o que eu pensava que via. Os comentários que tenho lido na internet quase me fazem acreditar que nos últimos anos eu não morava em São Paulo mas, sei lá, em Oslo.

Esse é o problema dos fanáticos partidários: parece que eles vivem isolados no mundo deles, bebendo a caipirinha de kiwi deles. Esses rapazinhos magricelas de alpargatas estranham que existam pessoas que não idolatram o candidato deles. Meu Deus, toda pessoa normal abomina os políticos do lugar onde vive. É para isso que pagamos impostos, aliás: para abominar e poder falar mal dessa gente à vontade.

Será que o Brasil é tão pobre assim de referência para insistirem em escolher um político como o salvador? Logo um político? Não um paramédico ou um bombeiro, mas um candidato a prefeito? Os fanáticos partidários ficam felizes com a mera ideia de serem tributários do município. Só pode ser isso. Para mim, é como se estivesse escrito em suas testas “CONTRIBUINTE FELIZ”. Que fetiche é esse por autoridades, burocratas e partidos políticos? Queria me satisfazer com tão pouco.

Como são computados os votos nulo, em branco ou em uma legenda?

A diferença entre votar nulo, em branco ou em alguma legenda (em vez de um candidato específico) é uma dúvida recorrente entre os eleitores brasileiros. Na reportagem abaixo, o advogado Hélio Silveira, especializado em direito eleitoral e membro da Comissão de Direito Eleitoral da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), esclarece ao jornal Nexo o que acontece quando se escolhe uma dessas opções e tira dúvidas sobre as novas regras eleitorais, que passam a vigorar este ano.

urnaQuando o eleitor for à urna no próximo domingo, terá diante de si um teclado para digitar o número de seu candidato a vereador, com cinco dígitos, e de seu candidato a prefeito, com dois dígitos. Logo abaixo terá outras três teclas: branco, corrige e confirma. O voto nulo (quando é digitado e confirmado um número inexistente), o voto em branco (quando essa tecla específica é escolhida) ou o voto de legenda (quando se vota no partido em vez de escolher um candidato específico) sempre geram dúvidas. É bastante comum no período que antecede uma eleição, por exemplo, ouvir pessoas dizendo que votar em branco “ajuda” o primeiro colocado. E, nesta disputa de 2016, outras questões surgiram a partir das novas regras que mudaram a lógica do voto na legenda. Vamos tentar esclarecê-las:

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Qual a diferença entre os votos branco e nulo?

Nenhum deles é computado para efeitos de cálculo do vencedor. Eles não interferem na votação. Ambos são manifestações de não participação do eleitor. É o que chamamos de abstenção funcional. O eleitor comparece à sessão, mas prefere não escolher um candidato. Por meio do voto em branco, ele manifesta sua indiferença aos candidatos. É como se ele dissesse: “para mim tanto faz”. Com o voto nulo, ele manifesta o seu repúdio a todos os candidatos. (…) Existe ainda aquele mito de que, se mais da metade dos eleitores votar branco ou nulo, a eleição é cancelada e deve ser convocada uma nova eleição. Isso não existe. Uma eleição pode ser anulada por outros motivos (como a Justiça Eleitoral declarar nulos mais de 50% de votos por causa de denúncias de irregularidades na campanha dos candidatos), mas não por esse.

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O que é o voto de legenda?

A legislação brasileira permite que o eleitor vote na legenda (quando se digita na urna apenas o número do partido) ou que ele escolha um candidato específico. Mas é como se fosse um voto só, porque o voto no candidato específico conta também para o partido. Em suma, todos os votos, nas eleições proporcionais (em que são eleitos vereadores e deputados), são atribuídos a um partido. Se eu voto em um partido, todos os votos que os candidatos desse partido receberem serão somados a uma única “cesta”, ou seja, do partido ou da coligação que ele faz parte. Esse voto vai ser considerado para se calcular o quociente partidário, que vai definir o número de vagas a que um partido terá em uma Câmara Municipal, de modo que, quanto mais votos o partido ou coligação recebe, mais cadeiras ele terá.

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Quais são as novas regras?

Com as novas regras, que entram em vigor nessas eleições de 2016, a lógica continua sendo a mesma: quando você vota em um candidato, você vota também em um partido ou em uma coligação. O que mudou é que agora se exige uma votação mínima para o candidato ser eleito. Caso o partido, na soma total dos votos, alcance o direito de ter mais de uma vaga na Câmara Municipal, o candidato dele precisa ter recebido pelo menos 10% dos votos do quociente eleitoral do partido ou coligação. Partidos que sempre defenderam voto em legenda agora precisam que os candidatos que tenham pouca expressão alcancem um número mínimo de votos para assegurar que eles possam ocupar a vaga. Caso contrário, será feito um novo cálculo e aquelas vagas não preenchidas ficarão para candidatos de outros partidos.

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Qual o peso dos partidos na eleição?

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BÔNUS: Você sabe o que um candidato a vereador pode prometer ao eleitor?

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É possível defender teses radicais com razoabilidade e moderação

Opinião da professora Andrea Faggion, publicada no Facebook.

debate (1)

Tenho impressão que há uma certa confusão na assimilação de pessoas razoáveis e moderadas com pessoas que defendem posições políticas de centro. Particularmente, penso que moderação de temperamento, até como uma ética do discurso, não tem a ver com a radicalidade das teses que a pessoa defende. Você pode defender teses bem radicais, como o anarquismo, e ser uma pessoa razoável e moderada, que admite a falibilidade subjetiva, ou seja, reconhece que o outro pode estar discordando de você, não por ser um canalha ou um idiota, mas simplesmente porque você pode estar errado e ele pode estar certo, ou então porque a sua posição pode até ser a mais correta, mas não é uma verdade auto-evidente, no sentido de uma tese que seria compreendida imediatamente como verdadeira por qualquer pessoa sã e de boa-fé que tomasse conhecimento dela. Infelizmente, o modus operandi atual consiste na defesa de teses, passando necessariamente pela depreciação de qualquer um que possa defender a tese oposta, apenas por defender a tese oposta. Esses grupos conquistarão o meu respeito no dia em que começarem a respeitar seus adversários intelectuais.

A ilusão política das grandes manifestações

Crônica de Fernando Pessoa (1888-1935), consagrado poeta português, extraída de sua obra Ideias Políticas. Embora fosse aplicada diretamente a Portugal no início do século 20, sua opinião continua espantosamente atual.


Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos fatos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos fatos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os fatos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra fatos não há argumentos. Ora, só contra fatos é que há argumentos. Quase sempre os argumentos são mais verdadeiros que os fatos. A lógica é o nosso critério de verdade, de modo que é nos argumentos, e não nos fatos, que pode haver lógica.

Nisto de manifestações — ia eu dizendo —, o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que quem toma parte nela. Com as manifestações de esquerda sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio psíquico dos esquerdistas é, ao contrário, expansivo e associador; suas manifestações englobam, por isso, os próprios indiferentes.

O único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente da opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tampouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado; maior se sente a força que se lhe opõe. É este o ensinamento que toda criatura lúcida tira das manifestações populares.

Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprio a ilusão duma confiança que enfraquece.

Sobre a laicidade do Estado

O escritor e jornalista Percival Puggina faz, em apenas 4 minutos, uma breve exposição sobre a laicidade do Estado e suas implicações.

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