Escritor e dramaturgo Ariano Suassuna fala sobre as raízes populares da cultura brasileira

Selecionei abaixo as melhores palestras ministradas pelo falecido escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna que estão disponíveis no YouTube. Apesar de longas, as chamadas “aulas-espetáculo” passam longe de ser cansativas e maçantes. Vale a pena cada minuto. Que saudade desse velho da voz rouca e prosa cativante!

A filosofia nos cânticos de Cecília Meireles

Palestra ministrada pela professora Lúcia Helena Galvão, diretora da Nova Acrópole de Brasília, sobre a filosofia presente na obra literária de Cecília Meireles (1901-1964).

Veja também:
A filosofia na poesia de Fernando Pessoa
A filosofia nos contos de Machado de Assis

Catar feijão

O poema Catar Feijão faz parte do livro A Educação pela pedra, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999).


Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

O retrato de Eurídice – Mário Quintana

Não sei por que há de a gente desenhar objetivamente as coisas: o galho daquela árvore exatamente na sua inclinação de 47 graus, o casaco daquele homem justamente com as ruguinhas que no momento apresenta, o próprio retratado com todos os seus pés-de-galinha minuciosamente contadinhos… Para isso já existe a fotografia, com a qual jamais poderemos competir em matéria de objetividade. Se tivesse o dom da pintura, eu seria um pintor lírico. Quero dizer, o modelo serviria tão-só de ponto de partida. E só me dispusesse a pintar Eurídice, talvez viesse a surgir na tela um hastil, o arco tendido da lua, um antílope, uma flâmula ao vento, ou uma forma abstrata qualquer, injustificável a não ser pelo seu harmonioso ímpeto em câmara lenta, pela graça da linha curva em movimento, porque Eurídice afinal é tudo isso… É tudo isso e outras coisas que só os anjos e os demônios saberão.

QUINTANA, Mário. Da preguiça como método de trabalho.
Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 93.

Parmênides e “Interestelar”

interstellar

Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo me impele,
conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso
da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades.
Por aí me levaram, por aí mesmo me levaram os habilíssimos corcéis,
puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.
O eixo silvava nos cubos como uma siringe,
incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente
o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram
as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite
para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia,
encimado por um dintel e um umbral de pedra;
o portal, etéreo, fechado por enormes batentes,
dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham.
A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras,
persuadindo-a habilmente a erguer para elas
por um instante a barra do portal. E ele abriu-se,
revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar,
um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze,
fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal,
as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.
E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão
direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu:

“Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais,
tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis,
Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar
por este caminho – tão fora do trilho dos homens –,
mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender:
o coração inabalável da verdade fidedigna
e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína.
Mas também isso aprenderás: como as aparências
têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo”.

O poema acima¹ foi escrito há 25 séculos na Grécia Antiga por um filósofo pré-socrático chamado Parmênides, natural de Eleia (sul da Itália). Na continuação do poema (postumamente intitulado “Sobre a Natureza”), Parmênides funda, segundo alguns filólogos e comentaristas, a disciplina filosófica a que chamamos “metafísica” ou “ontologia”. Mas não é isso que nos interessa agora. O que por ora nos encanta é a beleza literária do trecho acima, o proêmio do poema. E o que ele representa: uma fantástica viagem para bem longe do “trilho dos homens”. Com certa licença poética, podemos dizer que este é também o tema de Interestelar, o filme de Christopher Nolan lançado este ano.

Pablo Capistrano sugeriu certa vez que todas as grandes histórias já contadas, em verso ou em prosa, se reduzem a apenas três tipos: as que falam sobre um amor; as que falam sobre um Deus que morre; e as que falam sobre uma viagem. Esta última temática engloba desde as grandes epopeias homéricas (Ilíada e Odisseia) até o recente O Senhor dos Anéis, de Tolkien. É também nessa categoria que se enquadram o poema de Parmênides e o filme de Nolan. Diferente das demais histórias, tanto o poema quanto o longa-metragem têm algo em comum: a grandeza da viagem. Sobre o poema de Parmênides, Capistrano diz o seguinte:

“Do ponto de vista de Parmênides e de seus seguidores, o movimento é uma ilusão. A geração de todas as coisas, o crescimento e a corrupção; o tempo, com seus ciclos de apogeu, decadência e morte, são apenas erros dos sentidos falhos, que não alcançam a verdade bem redonda do Ser. Se qualquer um de nós, amigo leitor, ao invés de um táxi para Ponta Negra, numa sexta feira à noite, entrasse no carro de Parmênides, seríamos alçados a um ponto de vista privilegiado. Poderíamos ver o mundo em sua totalidade, de fora dele, como se tivéssemos sido pegos na carona de um objeto não identificado e pudéssemos contemplar não apenas a terra, não apenas o sistema solar ou a via láctea, mas todo o universo, bem de longe, em sua totalidade. Se pudéssemos ter essa experiência, se pudéssemos ver o mundo como a poesia de Parmênides nos induz, teríamos a sensação de que ele seria inteiro, esférico, inabalável e sem fim; tudo junto, uno, contínuo. Seríamos tomados pela deliciosa sensação de que o tempo, a morte e a decomposição são reflexões, projeções, sombras de nossa mente que tomam o caminho errado do entendimento e pensam que as coisas são como aparecem.”²

É também a este extremo distanciamento do mundo cotidiano, a essa magnífica aventura do pensamento, a essa grandiosa ousadia da imaginação humana que nos guia, como cavalos selvagens, o filme Interestelar. Christopher Nolan nos faz pensar grande, para além da superficialidade da vida com a qual estamos acostumados. “Ao adentrar o Universo”, diz um trecho do filme, “devemos encarar a realidade de uma viagem interestelar. Devemos alcançar além da nossa expectativa de vida. Temos que pensar não como indivíduos, mas como uma espécie”. Em outra cena, o protagonista reconhece: “Este mundo é precioso, mas nos diz parar partirmos já faz algum tempo. A humanidade nasceu na Terra, mas não morrerá aqui”.

Em outra cena impactante (e neste ponto eu recomendo que você pare de ler se ainda não assistiu o filme, porque vem spoiler) fica claro que o cientista da NASA responsável pela viagem interestelar, Dr. Brand, precisava encontrar uma forma de salvar a humanidade da extinção, já que o planeta Terra tornara-se um ambiente hostil e impróprio para a vida. Como o custo para levar pessoas ao espaço era alto demais e não havia recursos disponíveis para salvar muita gente da hecatombe, a única solução viável era declarar como perdido o caso das pessoas na Terra e tentar salvar ao menos a espécie, enviando ao espaço uma “bomba populacional” com 5 mil óvulos humanos fertilizados e congelados, que serviria para criar colônias e povoar outro mundo (caso houvesse ao menos um com condições favoráveis à vida, o que ainda era incerto).

Dr. Brand conseguiu convencer alguns astronautas a partirem em missões suicidas em busca de pistas de um mundo habitável em outra galáxia, com potencialidade de se tornar o novo lar dos seres humanos. Atravessando “buracos de minhoca”, sendo atraídos por um gigantesco “buraco negro”, viajando em velocidades próximas à da luz e experimentando a dilatação do tempo, esses heróis altruístas sentiram na pele o que Albert Eisntein queria dizer com a sua famosa teoria da relatividade geral. Um grave problema ético surge quando o Dr. Brand precisa mentir para alguns desses astronautas para convencê-los a aceitarem a missão. Ao descobrir a farsa, Cooper, o protagonista, sente-se enganado e traído por Brand, e com razão. Nesse momento, entra em cena a defesa de Dr. Mann, outro astronauta que tripulava a nave:

“Dr. Brand sabia o quão difícil seria unir as pessoas para salvar a espécie em vez de a si mesmos ou a seus filhos. Você nunca teria vindo se não achasse que os salvaria. A evolução ainda não superou essa barreira. Podemos nos importar muito, de forma altruísta, com quem conhecemos; mas a empatia raramente vai além do que podemos ver. A mentira foi imperdoável e ele sabia disso. Ele abriu mão da própria humanidade para salvar a espécie. Foi um sacrifício incrível. O caso das pessoas na Terra é um caso perdido. Nós somos o futuro.”

Pensar na espécie em detrimento dos indivíduos, na humanidade em vez da própria família, contemplar séculos (ou milênios) à frente de seu tempo, enxergar a vida, o Universo e tudo o mais de um ponto de vista mais alto, mais distante, se afastar para conseguir ver o todo… Tudo isso o filme tem em comum com o poema de Parmênides. Embora lide a todo momento com dilemas científicos, com problemas de física quântica e da cosmologia contemporânea, quando chega nos limites da razão humana, a temática do filme deixa de ser meramente científica para se tornar filosófica. É por esse motivo que Interestelar é um dos melhores filmes que já assisti (e reassisti, pelo menos três vezes).

Não vás tão docilmente nessa noite linda
Que a velhice arda e brade ao término do dia
Clama, clama contra o apagar da luz que finda!
Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.³

  1. PARMÊNIDES. Da Natureza. Tradução: José Gabriel Trindade Santos. São Paulo: Loyola, 2002.
  2. CAPISTRANO, Pablo. Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
  3. THOMAS, Dylan. Do not go gentle into that good night. In: CAMPOS, Augusto de (trad. e org.). Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.
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