Como ler os clássicos?

Compilação de vários posts do professor e historiador Leandro Karnal (da Unicamp) na sua página no Facebook sobre a importância das obras clássicas da antiguidade para a formação intelectual. Veja também: Por que ler os clássicosQuem gosta de clássicos.


Muita gente pergunta o que faz diferença para formar um espírito crítico , agudo e com base. O que faz uma alma livre e sábia? Eu penso em algumas questões muito específicas, sendo a primeira delas a seguinte: Ler os clássicos. A maioria fala do que vê rapidamente; emite opinião a partir de um site; bate boca sobre um conceito pela internet, sem ter percorrido o caminho que formou o conceito. Ler os clássicos que formaram nosso pensamento é indispensável! O que são clássicos? Obras que, para o bem e para o mal, estruturaram ideias e formas de análise por séculos ou milênios. Foram testados pelo tempo. Foram idolatrados e combatidos. Formaram muitas gerações e o que se fez depois foi feito sobre este debate. Sem eles a arte, o pensamento, as atitudes e até os sistemas de ideias se esvaziam.

Exemplo inicial: Bíblia. Livro formador do pensamento ocidental. Sem ela quase nada faz muito sentido, da Capela Sistina ao Caim de Saramago. Não é religioso? Aprenda que o seu gosto é irrelevante na formação do mundo ocidental. Tem ojeriza a textos religiosos? Você será pó e a Bíblia continuará a ter muita influência no mundo mil anos depois que seu sobrenome tiver virado fumaça nas brumas do tempo. Formação não é preferir coca zero com gelo ou só limão. Formação é processo de diálogo denso e árduo com as bases do mundo. Sugestão: Comece pelo Gênesis. Escolha um tradução direto do hebraico. Depois leia o Êxodo. Evite os seguintes por enquanto.

Terminou Gênesis e Êxodo? Continue com livros históricos e leia o Livro dos Reis. Depois escolha os Salmos, literatura poética. O 23 é o mais conhecido. Com a literatura poética e sapiencial, você está apto a um dos mais belos e antigos textos: . Por fim, leia um profeta: Isaías ou Daniel, ou ambos. Com estas poucas leituras, sem ser um especialista, você terá acesso a muito da tradição do Antigo Testamento. Hora de encarar um evangelho (Lucas, talvez, pela beleza do texto). Leia Atos dos Apóstolos, sobre as origens da Igreja, e as cartas de Paulo (Romanos, Efésios, Coríntios…). Evite o Apocalipse por enquanto. Gostou? Entendeu? Hora de encarar o resto que ficou para trás. Nada disto tem relação com religião, mas com clássicos e formação.

Viu o básico? Hora de passar para a tradição grega e pular de Jerusalém para Atenas. Simplesmente mandar ler a Ilíada, para alunos em geral, mata a vontade de crescer nos clássicos. Livro fascinante, mas que demanda muitos conhecimentos de mitologia. Por isto, sem querer cansar as pessoas eu recomendaria começar por coisas importantes, mas mais acessíveis: Antígona, de Sófocles. O choque entre a consciência individual e o dever. Texto curto (você lerá em menos de uma hora) e fascinante. Prometeu Acorrentado, de Ésquilo. Peça mais antiga do que a anterior , com menos personagens. Uma consciência livre e rebelde (Prometeu) dialogando com o poder dos deuses e com outra vítima do orgulho de Zeus e Hera.

Agora você pode comparar esta peça mais antiga com a anterior. Veja como mudou o papel do Coro entre uma peça e outra. Medeia, de Eurípedes. Peça linda sobre vingança e amor se transformando em ódio. Inspirou a “Gota d’água” de Chico Buarque e Paulo Pontes. O que pode uma mulher de mais de 50 anos abandonada pelo marido que segue uma mais jovem e mais rica? Amou teatro grego? Estas três peças são curtas. Os gregos assistiam muitas ao longo de um dia. Que tal encerrar esta introdução com Édipo Rei? Aristóteles fez um elogio profundo a esta peça. É uma peça política sobre destino, muito embora seja mais conhecida hoje como uma peça sobre desejo pela mãe, algo pouco relevante na trama original.

O mundo grego se abriu para você? É um desafio de anos e fascinante. Ler a cultura clássica transforma nossa visão de mundo. Parece incoerência, mas peço que as pessoas leiam primeiro a Odisseia e depois a Ilíada. A Odisseia trata de Ulisses (Odisseus), o herói astuto, da busca que seu filho faz pelo paradeiro do pai, da perfeição na ilha de Calíope, da inteligência contra a força com Polifemo, da construção da memória da Guerra de Troia e do jogo pessoal e político no retorno a Ítaca. Aqui um conselho importante: ler poesia épica é entrar no caminho do desafio intelectual. Ler com régua, concentrado, sem celular, com um bom dicionário de mitologia ao lado. Leitura lenta, degustada linha a linha, não o rema-rema de um best-seller. A obra clássica lança este desafio quando a abrimos: será que você consegue entender o que lhe trago? O livro comum quer seduzi-lo; a poesia épica diz que o caminho é seu e a escolha é sua.

Qual edição ler? Isto daria muitos posts. Comprei e gostei da edição recente de Christian Werner, fluida e bela. Uso em sala de aula duas edições anteriores: a tradução do professor Donald Schüler e a clássica de Odorico Mendes. Há muitas outras. Ulisses levou 20 anos para fazer a guerra que não queria e retornar para casa. A leitura da Odisseia consumirá menos tempo. Como o rei de Ítaca, amarre-se no mastro do navio e ouça tudo. Desafio final: o primeiro capítulo do livro Mimesis, de Auerbach. Ele compara o estilo bíblico com o grego de narrar. Li ao entrar na pós e lembro do capítulo como uma luz perene na minha vida.

O legado da filosofia clássica greco-romana nunca pode ser esgotado. Mas quero falar do elo entre este legado e o mundo cristão que se inicia: Agostinho. Ele é o último romano ou o primeiro medieval. Sua conversão mudou o pensamento ocidental. Para alguns, suas Confissões são a primeira autobiografia, algo que deveria esperar até Rousseau para se repetir. Mas é um texto bonito, com frases impactantes e reflexões sobre o tempo e a história. Sim, A Cidade de Deus é mais elaborada teologicamente. Mas, o prazer de ler as Confissões é único. O êxtase místico em Óstia, com sua mãe Mônica, é uma chave para entender como a alegoria da caverna platônica pode ser cristianizada.

A noção agostiniana de graça marca a própria justiça ocidental. Nas férias, reli a edição da Editora Vozes. Texto clássico: sempre rico e sempre pronto a tentar melhorar meu mundo. Leu e gostou? Tente um passo além: o livro de Peter Brown: Santo Agostinho, uma biografia. No ano passado, na igreja de Santo Agostinho, em San Gimignano (Toscana), eu mostrava a alguns alunos os afrescos de Benozzo Gozzoli com a vida de Santo Agostinho. Um perguntou: como você sabe estas coisas? Respondi: eu li as Confissões. Clássicos significam isto: o mundo passa a fazer sentido e os links se multiplicam. Não ler é enfrentar o vazio, a falta de elos e a escuridão.

Escritor e dramaturgo Ariano Suassuna fala sobre as raízes populares da cultura brasileira

Selecionei abaixo as melhores palestras ministradas pelo falecido escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna que estão disponíveis no YouTube. Apesar de longas, as chamadas “aulas-espetáculo” passam longe de ser cansativas e maçantes. Vale a pena cada minuto. Que saudade desse velho da voz rouca e prosa cativante!

A filosofia nos cânticos de Cecília Meireles

Palestra ministrada pela professora Lúcia Helena Galvão, diretora da Nova Acrópole de Brasília, sobre a filosofia presente na obra literária de Cecília Meireles (1901-1964).

Veja também:
A filosofia na poesia de Fernando Pessoa
A filosofia nos contos de Machado de Assis

Catar feijão

O poema Catar Feijão faz parte do livro A Educação pela pedra, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999).


Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

O retrato de Eurídice – Mário Quintana

Não sei por que há de a gente desenhar objetivamente as coisas: o galho daquela árvore exatamente na sua inclinação de 47 graus, o casaco daquele homem justamente com as ruguinhas que no momento apresenta, o próprio retratado com todos os seus pés-de-galinha minuciosamente contadinhos… Para isso já existe a fotografia, com a qual jamais poderemos competir em matéria de objetividade. Se tivesse o dom da pintura, eu seria um pintor lírico. Quero dizer, o modelo serviria tão-só de ponto de partida. E só me dispusesse a pintar Eurídice, talvez viesse a surgir na tela um hastil, o arco tendido da lua, um antílope, uma flâmula ao vento, ou uma forma abstrata qualquer, injustificável a não ser pelo seu harmonioso ímpeto em câmara lenta, pela graça da linha curva em movimento, porque Eurídice afinal é tudo isso… É tudo isso e outras coisas que só os anjos e os demônios saberão.

QUINTANA, Mário. Da preguiça como método de trabalho.
Rio de Janeiro: Globo, 1987. p. 93.

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