Filmes sobre Lampião e o cangaço

bando de lampiao

Coletânea de documentários e filmes biográficos nacionais sobre a vida de Lampião, Maria Bonita, Corisco, Dadá e outros cangaceiros famosos que aterrorizavam o sertão nordestino no início do século 20. Clique nos links abaixo para assistir no YouTube.

O último dia de Lampião (1975)

Lampião, o rei do cangaço (1964)

Lampião e Maria Bonita (1982)

Meu nome é Lampião (1969)

Corisco e Dadá (1996)

O Cangaceiro (1953)

Minha nação nordestina

Os 193 países do mundo possuem juntos uma área total de aproximadamente 136.620.898 km². Dividindo isso igualmente entre eles, temos que 707.880 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país do mundo hoje. Considerando apenas o continente europeu, sua área total é de aproximadamente 10.180.000 km². Dividindo isso igualmente entre os 50 países que compõem a Europa, temos que 203.600 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país europeu. Resumindo, um país europeu médio teria cerca de 200 mil km² de área, enquanto que, em escala mundial, um país médio teria pouco mais de 700 mil km². Isso significa que boa parte da população mundial considera como sua pátria, sua nação, um território com área entre 200 e 700 mil km² (uma área do tamanho do Estado de São Paulo, Minas Gerais ou Bahia).

Com dimensões continentais (8.515.767 km², quase o tamanho da Oceania), o Brasil está muito longe desse padrão; de modo que muitos Estados brasileiros possuem dimensões bem maiores que o tamanho médio de um país. Talvez isso explique o porquê de haver tantos sotaques e culturas diferentes, tanto “bairrismo” e uma certa “rivalidade” (que em alguns casos culmina em preconceito e discriminação) entre regiões do Brasil, como o Nordeste e o Sudeste, por exemplo. É que, conscientemente ou não, percebemos mais facilmente como nossa pátria (ou nação) apenas a região geográfica em que vivemos (em alguns casos apenas o nosso Estado e/ou Estados vizinhos). Muitas vezes sem nos darmos conta disso, pensamos no Brasil da mesma maneira que muitas populações do mundo pensam o seu continente. Por isso, acabamos considerando como nossa nacionalidade e sentimos maior patriotismo apenas pela nossa região ou Estado.

Tomemos como exemplo o meu caso. Sempre vivi na Paraíba e, até hoje, só viajei por terra (moto, carro, ônibus, trem) para o interior paraibano e para os Estados vizinhos de Pernambuco e Rio Grande do Norte. Fora desse território limitado, só fiz viagens aéreas, dada a inviabilidade de percorrer o Brasil por terra. Por esse motivo, considero como minha terra natal, meu lugar de origem, apenas aquele raio que posso facilmente percorrer por terra em apenas um dia. De certa forma, meu “país” (considerando-se a média global) é apenas aquela área para a qual posso ir de moto ou carro quando me der na telha e voltar no mesmo dia. Sendo mais preciso, posso dizer que essa área tem cerca de 406.322 km² e corresponde aos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (em vermelho no mapa). Isso é quase o dobro do tamanho de um país europeu médio e mais de três vezes o tamanho da Inglaterra!

Nordeste

Não quero com isso sugerir ou propagandear uma segregação do Brasil. Meu discurso não é nem um pouco separatista. Pelo contrário, eu até penso que unir estes seis Estados em um só talvez seria uma boa ideia, visto que estamos falando de unidades federativas relativamente pequenas em área se comparadas com os outros Estados, e geograficamente agrupadas, juntinhas. Se isso acontecesse no futuro, seríamos um Estado mais forte, mais representativo e com um tamanho parecido com o da Bahia ou Minas Gerais. Já comentei aqui em outro post que a capital seria Recife. Mas não é bem isso que quero defender aqui. O objetivo deste post é apenas expor uma constatação curiosa: a de que, se os países do mundo tivessem todos mais ou menos o mesmo tamanho, a área em vermelho do mapa acima seria a minha Nação Nordestina.

ATUALIZAÇÃO em 05/05/2015:

A União Europeia é formada por 28 países europeus, quase como o Brasil, que tem 27 unidades federativas (os 26 Estados e o Distrito Federal). No entanto (pasmem), sua área total é de apenas 4.324.782 km², quase a metade da área do Brasil, que é de 8.515.767 km². Fazendo com a UE os mesmos cálculos acima, temos que a área média de um país membro da UE é de 154.456 km²; enquanto que a área média de um Estado brasileiro é mais que o dobro disso: 315.399 km².

ATUALIZAÇÃO em 07/04/2017:

A área em vermelho no mapa acima corresponde quase exatamente ao território conquistado pelos holandeses no século 17, que na época era conhecido como Nova Holanda (mapa abaixo).

Nova Holanda

As proezas de João Grilo

proezas-de-joao-grilo-cordelEstes versos são talvez os mais famosos e icônicos da literatura de cordel. Lembro que meu avô lia isso pra mim na infância (boa parte ele apenas recitava, pois sabia de cor). A autoria é do cordelista paraibano João Martins de Athayde (1880-1959). O personagem João Grilo foi quem inspirou o protagonista homônimo de “Auto da Compadecida”, a famosa peça de teatro de Ariano Suassuna que virou filme.

.


João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.

E nasceu de sete meses
chorou no bucho da mãe
quando ela pegou um gato
ele gritou: não me arranhe
não jogue neste animal
que talvez você não ganhe.

Na noite que João nasceu
houve um eclipse na lua
e detonou um vulcão
que ainda continua
naquela noite correu
um lobisomem na rua.

Porém João Grilo criou-se
pequeno, magro e sambudo
as pernas tortas e finas
e boca grande e beiçudo
no sítio onde morava
dava notícia de tudo.

Continue reading “As proezas de João Grilo” »

Por que Recife é a capital do Nordeste?

Recife

“Imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”… É o que propõe a música “Nordeste Independente“, uma composição dos paraibanos Bráulio Tavares (escritor e compositor) e Ivanildo Vilanova (poeta repentista) que foi interpretada e gravada pela primeira vez pela cantora paraibana Elba Ramalho no início dos anos 1980. A canção é um bem-humorado e utópico manifesto contra a discriminação sofrida pelo Nordeste, que gerou muita polêmica na época. “Já que existe no sul esse conceito que o nordeste é ruim, seco e ingrato… Já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito… Quando um dia qualquer isso for feito, todos dois vão lucrar imensamente… Começando uma vida diferente da que a gente até hoje tem vivido… Imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”, sugere a primeira estrofe.

nordeste-independenteSim: a ideia é utópica, improvável, ficcional e conta com muita licença poética, mas o movimento separatista do Nordeste existe há muito tempo e é mais organizado do que você imagina. Já existem trabalhos acadêmicos e livros publicados sobre esse tema e, desde 1992, existe em Pernambuco o GESNI (Grupo de Estudos sobre o Nordeste Independente), que é um movimento pacífico e organizado que examina as possibilidades de independência e melhorias no território nordestino. “O Brasil nunca encontrou uma solução para o problema nordestino, porque não tem interesse nisso, mas nós poderíamos encontrar”, diz Jaques Ribemboim, fundador do grupo. Ribemboim é economista, doutor em economia, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em economia pela University College of London, na Inglaterra, e autor do livro “Nordeste Independente”, publicado em 2002 na cidade do Recife. Além do GESNI, o Nordeste já contou com movimentos de cunho separatista mais antigos como a Conspiração dos Suaçunas, Revolução Pernambucana, Confederação do Equador e Revolução Praieira.

 Não quero aqui entrar no mérito dessa questão e discutir se ela é factível, se traria mais vantagens ou desvantagens para ambas as “partes”, nem nada disso. Mas essa semana, conversando com alguns amigos, nos permitimos imaginar essa possibilidade e, supondo sua deflagração, ficamos a debater sobre qual seria a capital desse novo país. Qual cidade receberia o nobre título de capital do Nordeste? Qual é a cidade mais importante para a região, seja política, econômica, geográfica, histórica ou culturalmente? As candidatas logo emergiram, destacando-se das demais: Salvador (Bahia), Fortaleza (Ceará) ou Recife (Pernambuco). E agora? Como decidiríamos? Quais seriam os critérios da escolha? Após muita conversa, chegamos a um consenso: Recife seria a capital do Nordeste; pelos seguintes motivos:

.

GEOGRAFIA

Observe o mapa do Nordeste. Dentre as três cidades candidatas, Salvador fica bem ao sul, Fortaleza fica bem ao norte, e Recife fica bem no centro da região. Recife tem ao norte as capitais estaduais João Pessoa e Natal separando-a de Fortaleza; e tem ao sul as capitais estaduais Maceió e Aracaju separando-a de Salvador. Se Brasília foi construída no meio de um deserto (praticamente) para ser a capital federal, apenas por aquela ser uma região geograficamente mais central, isso significa que, para nós, esse quesito é importante. E nele, em se tratando de Nordeste, Recife sai na frente.

.

HISTÓRIA

A cidade do Recife é a capital mais antiga do Brasil e está prestes a completar 500 anos de fundação (em 2037). Muitos dos mais importantes eventos da História do Brasil aconteceram lá, como a guerra dos mascates (1710-1711), a revolução pernambucana (1817), a confederação do Equador (1824), a revolta praieira (1848-1850), etc. No início do século 20, antes da ascensão de São Paulo, Recife só perdia em importância política e econômica para o Rio de Janeiro, que era na ocasião a capital do Brasil (Brasília só foi fundada em 1960). Na década de 1970, Recife era ainda a terceira maior metrópole do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo. Uma das regiões mais antigas das Américas e principal centro financeiro do Brasil Colônia até meados do século 18, a metrópole pernambucana abriga importantes cidades históricas, como é o caso de Olinda, cujo centro histórico é Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

.

POLÍTICA

A região metropolitana do Recife é o maior aglomerado urbano do Norte-Nordeste, o 5ª maior do Brasil e um dos 120 maiores do mundo, com uma população de 4,5 milhões de habitantes. Ela é a terceira área metropolitana mais densamente habitada do país, superada apenas por São Paulo e Rio de Janeiro. A capital pernambucana está atrás somente de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo na hierarquia da gestão federal. Recife tem ainda o maior número de consulados estrangeiros fora do eixo Rio-São Paulo, sendo inclusive a única cidade, com exceção daquelas duas, que tem Consulados-Gerais de países como Estados Unidos, China, França e Reino Unido.

.

ECONOMIA

Recife é a metrópole mais rica do Norte-Nordeste em PIB, além de ser o maior pólo industrial e econômico do Nordeste. Destaca-se por possuir a melhor universidade do Norte-Nordeste, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); o 2º maior polo médico do Brasil; o 9º maior número de arranha-céus das Américas; o melhor aeroporto do Brasil, o Aeroporto Internacional do Recife (Guararapes); e o Complexo Industrial e Portuário de Suape, que abriga o Porto de Suape (melhor porto do Brasil), o Estaleiro Atlântico Sul (maior estaleiro do hemisfério sul), entre outros empreendimentos. O metrô do Recife é composto atualmente de 28 estações, com linhas que somam 39,5 quilômetros de extensão, transportando cerca de 225 mil usuários por dia. O Shopping RioMar, localizado na Zona Sul, é o maior centro de compras do Norte-Nordeste e o 3º maior do Brasil.

A cidade é considerada um dos mais importantes polos de tecnologia da informação do país. O Porto Digital, que abriga mais de 200 empresas, entre elas multinacionais como Motorola, Nokia, IBM e Microsoft, é reconhecido internacionalmente como o maior parque tecnológico do Brasil em faturamento e número de empresas. O Centro de Informática da UFPE fornece mão de obra para o polo, que gera 7 mil empregos e tem participação de 3,5% no PIB do Estado de Pernambuco. Por isso alguns especialistas chamam a capital pernambucana de Vale do Silício brasileira.

A cidade foi eleita por pesquisa encomendada pela MasterCard Worldwide como uma das 65 cidades com economia mais desenvolvida dos mercados emergentes no mundo. Apenas 5 cidades brasileiras entraram nessa lista, e Recife ficou em 4º lugar, após São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Segundo a consultoria britânica PwC, Recife será uma das 100 cidades mais ricas do mundo até 2020, à frente de cidades como Munique (Alemanha), Nápoles (Itália) e Amsterdã (Holanda). Recife destaca-se ainda por ser a capital nordestina com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo dados da ONU de 2010, figurando como a capital mais alfabetizada, com a menor incidência de pobreza e a com a maior renda média domiciliar mensal do Nordeste.

.

CULTURA

A cidade do Recife deu origem a grandes nomes de todas as áreas do conhecimento, como, Cristovam Buarque, Paulo Freire, Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Joaquim Nabuco, entre diversos outros, como Ariano Suassuna, que nasceu na Paraíba, mas vivia no Recife e se considerava pernambucano de coração. Na música, Recife deu ao Brasil e ao mundo nomes como Luiz GonzagaLenineAlceu Valença, Reginaldo RossiBezerra da Silva, Michael Sullivan, Clarice FalcãoChico Science e Nação Zumbi, dentre outros tantos. Com atletas e esportistas consagrados, o Recife tem, no cenário brasileiro, a maior representação esportiva do Nordeste. Isso é especialmente verdade no futebol, esporte mais popular do país, já que este ano o Sport é o único clube do Norte-Nordeste na série A do campeonato brasileiro.

Recife também é a casa do Galo da Madrugada, reconhecido pelo Guinness Book (o livro dos recordes) como o maior bloco carnavalesco do mundo, que todos os anos arrasta cerca de 2,5 milhões de foliões pelas ruas do Recife Antigo. O frevo, um dos principais gêneros musicais nascidos no Recife, foi declarado pela UNESCO, em cerimônia realizada em 2012 em Paris, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Não podemos esquecer ainda do maracatu, ritmo regional responsável pelo surgimento, nos anos 1990, do movimento manguebeat, uma das maiores provas de que momentos de efervescência cultural elevam a auto estima de uma cidade e influenciam no crescimento da economia. Por isso e muito mais, pode-se dizer que Recife é a cidade do Nordeste (e quiçá do Brasil) mais rica culturalmente. Ela possui uma cultura própria e independente, além de um sotaque próprio, diferente dos estados à sua volta e que não é falado em nenhum outro lugar. Poetas já chamaram Recife de “Veneza Brasileira”, “Florença dos Trópicos”, “Cidade Maurícia” e “Manguetown“.

O que vi no TEDx Recife 2014

TEDx Recife 2014Na última terça (16), estive na capital pernambucana participando do TEDx Recife e vou contar o que vi por lá. Este foi o primeiro TEDx que participei e a experiência valeu muito a pena. De certo modo, o TEDx é como o Charlezine: conteúdo inteligente para amantes do conhecimento. Saí de lá com ideias fervilhando na cabeça, muita inspiração e aprendizados que pretendo levar para toda a vida.

Veja também: O que vi no Campus Festival 2014

.

SOBRE AS CONFERÊNCIAS TED

Resumindo bastante, as conferências TED e TEDx são organizadas em várias cidades ao redor do mundo e reúnem grandes mentes com grandes ideias. O objetivo é comunicar essas grandes ideias ao público em uma apresentação curta, clara, direta e objetiva. São apenas 18 minutos para cada palestrante, de modo que não há tempo para enrolação e “encheção de linguiça”: o papo tem que ser reto e ir direto ao ponto. Eu diria que essa é a essência e a filosofa do TED. Nessas conferências, quase não há espaço para o tédio, como é comum em apresentações mais longas. É como se o público colocasse o palestrante na parede e dissesse: “Vamos lá, nós não temos o dia todo! Qual é a sua grande ideia? O que você tem de interessante, original, genial ou impactante para nos contar? Queremos ser informados, persuadidos, fascinados, inspirados pelo que você tem a dizer! Você tem 18 minutos para isso. Acha que dá conta?”.

Essa exigência pode parecer, à primeira vista, uma arbitrariedade, um capricho dessa geração acelerada e apressada, para a qual “tempo é dinheiro”. Mas não é bem isso o que ocorre (pelo menos não de todo). Há muita ciência (neurociência, mais precisamente) por trás dos 18 minutos das apresentações do TED. Pretendo escrever um post inteiro sobre isso no futuro (me cobrem), mas por ora posso dizer que, em suma, já foi devidamente comprovado que pessoas normais não conseguem manter o nível máximo de atenção por mais de 18 minutos. Elas até conseguem prestar atenção num discurso de uma hora ou mais (desde que o orador tenha talento e conteúdo suficiente); mas aquele nível máximo de atenção, que permite a chamada “comunicação de alto impacto”, só dura no máximo 18 minutos. Depois disso, a plateia até pode continuar ouvindo atentamente, mas não com o mesmo rendimento.

.

CREDENCIAMENTO E ABERTURA

As palestras aconteceram no moderno e belíssimo teatro Luiz Mendonça, que fica no Parque Dona Lindu, praia de Boa Viagem, zona sul de Recife. Gente de vários estados se reuniram no mesmo lugar e formaram filas enormes no credenciamento. Cada participante recebia um kit que continha uma camiseta personalizada, um crachá com seu nome, uma pasta, alguns adesivos e folders dos patrocinadores, uma caneta e uma espécie de caderno para ser usado durante o evento; tudo da melhor qualidade. Nesse “caderno” havia, além de um editorial de Alfredo Júnior (coordenador geral) apresentando o evento e dando as boas vindas aos participantes, informações sobre cada palestra do dia (ou “talks“, como eles chamam). Para cada palestrante, duas páginas do caderno eram reservadas à informações e rascunho. Numa página, o nome, a foto e uma breve apresentação do palestrante eram informados junto ao tema de seu talk. Na outra, o público podia fazer anotações sobre cada palestra e avaliar a performance de cada palestrante marcando opções como “Fiquei de boca aberta”, “Persuasivo”, “Corajoso”, “Engenhoso”, “Fascinante”, “Inspirador”, “Lindo”, “Engraçado”, “Informativo”, “Ok”, “Nada convincente”, “Confuso”, “Prolixo” ou “Desagradável”. Logo na abertura, fomos informados de que o TEDx Recife 2014 bateu o recorde de público de todas as conferências TEDx já realizadas no Brasil! Éramos mais de 500 pessoas naquele teatro!

.

REVOLUÇÕES SILENCIOSAS

O TEDx Recife deste ano teve como tema as “Revoluções Silenciosas”. Ao todo, 11 palestrantes subiram ao palco para contar suas histórias e comunicar suas ideias inovadoras. São em geral pessoas que transformaram uma inquietação pessoal em uma verdadeira revolução. Mas não uma macro revolução, daquelas que vão parar nos livros de História. São revoluções no âmbito do micro, do indivíduo, silenciosas, que começam por transformar o modo de ver o mundo e de agir sobre ele em uma pessoa apenas, depois de espalha “infectando” outras e, quando menos se espera, já está transformando toda a sociedade. Essas pequenas revoluções, como noticiou o G1, “começaram de forma silenciosa e hoje chamam a atenção por realizarem transformações em diversos campos, da saúde ao urbanismo, da literatura à reciclagem”. Seguindo essa visão, os temas de todos os talks começavam com “um novo olhar sobre…” e aí seguia-se o assunto a ser tratado. Alfredo Júnior (coordenador geral), descreveu isso dessa forma:

“Com o tema Revoluções Silenciosas, o TEDx Recife 2014 objetiva identificar as atitudes e mudanças que tem sua gênese no indivíduo, muitas vezes pequenas ações silenciosas e pessoais que quando percebidas por outros ao redor têm potência para transformar a cidade e a sociedade. A revolução é a luta pela mudança. É rever, revolver, remexer, remoer mas nunca retroceder. É sair de uma determinação, de um conceito, de um vício, de uma forma de viver anterior, para algo novo e quase sempre turvo já que não é possível saber o exato rumo e impacto dessas mudanças. É preciso uma adesão profunda de corpo e alma do indivíduo para que haja uma revolução consciente e uma mudança real e efetiva. O foco não pode ser o convencimento da massa, mas da pessoa. A massa é consequência das mudanças pessoais profundas. Queremos tirar do foco as macro transformações causadas pelas novas tecnologias, pelas grandes ideias ou por grandes projetos. Colocaremos em pauta o poder do micro, do convencimento real do indivíduo por uma causa, estimulando cada vez mais as revoluções pessoais que primeiro mudam o indivíduo para depois influenciar a sociedade à sua volta. Aquelas revoluções que começam com pequenas atitudes no dia a dia, tímidas e discretas, mas vão ganhando força e acabam por inspirar e mudar muito além do seu âmbito inicial. Essas são as Revoluções Silenciosas. Esse é o TEDxRecife 2014!”

“Se você perceber, todas as palestras têm algo em comum: todas são movimentos que começaram dentro de uma pessoa que acabaram influenciando as pessoas ao redor. Os palestrantes são de várias áreas diferentes, tem política, educação, religião, reciclagem, reutilização de água, mas têm a mesma inquietude: querem transformar o que sentem dentro deles em uma revolução”, explicou a expert em comunicação verbal e integrante da curadoria do evento, Daniella Marcusso.

DSC01676

.

THIANA SANTOS

Um novo olhar sobre a arte:

O descarte que vira arte

Artista plástica e artesã, Thiana graduou-se em Belas Artes na UFBA (Universidade Federal da Bahia) em 1986 na cidade de Salvador. Desenvolve seu trabalho com foco no design sustentável. Trabalha de forma independente, com projetos de consultoria em comunidades, da pesquisa ao desenvolvimento de produtos artesanais. Há alguns anos, vem desenvolvendo novas técnicas de trabalho para o reuso de garrafas PET e outros materiais reutilizáveis, como latinhas de alumínio, aplicando os conceitos de ecodesign. Em apenas 10 anos, Thiana estima já ter reaproveitado em suas obras de arte cerca de 200 mil garrafas PET e cerca de 50 mil latinhas de alumínio.

Thiana já é uma referência bastante reconhecida pelo seu trabalho. Ela costuma ser convidada para fazer a decoração de grandes eventos. Durante sua fala, ela mostrou alguns de seus incríveis trabalhos: são belos lustres, luminárias, abajures, bancos, bolsas e acessórios, tudo feito de garrafa PET ou latinha de alumínio. Não tem quem diga! Ela já fez, pasmem, a escultura de um galo gigante de 15 metros de altura e que pesa 12 toneladas para desfilar no bloco Galo da Madrugada, o maior e mais tradicional bloco carnavalesco do Recife. Ficou lindo. E o mais incrível: ela usou apenas latinhas de alumínio recicladas! A própria decoração do palco do TEDx Recife 2014 foi feita por ela! É, de fato, um exemplo a ser seguido pelo bem do planeta.

.

EDILSON TAVARES

Um novo olhar sobre a sustentabilidade:

Dando nó em pingo d’água

Edilson nasceu e cresceu em Toritama, uma cidadezinha muito pequena no interior de Pernambuco. Naquela época, Toritama era um lugar pobre, esquecido e que sofria com a seca. Hoje, Toritama é um importante pólo da indústria têxtil e é conhecida por exportar tecidos, roupas, jeans e confecções para todo o Nordeste. Toritama hoje é responsável por boa parte do PIB do Estado de Pernambuco, com uma economia ativa que trouxe muitas melhorias na qualidade de vida para a população. Edilson participou ativamente e é um dos responsáveis por essa “revolução silenciosa” de Toritama. Em sua fala, ele conta como isso foi possível graças ao empreendedorismo criativo e sustentável.

Como se sabe, a indústria têxtil usa muita água para a lavagem dos tecidos. Mas Toritama é um município que sempre sofreu com a escassez de água. A seca era tão grave que nem mesmo poços artesianos podiam ser cavados. Por mais fundo que se escavasse, não se encontrava água. As escavações sempre “davam na pedra”, como popularmente se dizia. Como fazer essa indústria crescer sem um grande volume de água disponível? É aí que entra em cena a criatividade desse grande espírito empreendedor. Dono de uma pequena lavanderia (pequena na época), Edilson implantou um inovador sistema de reciclagem de água em Toritama. A mesma água usada na lavagem dos tecidos ia para uma estação de tratamento e voltava para ser reutilizada. Com isso, a lavanderia de Edilson economizou muita água e dinheiro, puxando para cima a economia da cidade. Atualmente, Edilson é presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções em Pernambuco. Ele foi o fundador e 1° Presidente da ACIT (Associação Comercial e Industrial de Toritama).

.

PIQUENIQUE AO PÔR DO SOL

Pontualmente às 17 horas, as palestras foram interrompidas para um intervalo de uma hora. Todos já estavam famintos quando soubemos da grata surpresa: O G1 (portal de notícias da Globo) havia patrocinado um piquenique. Na saída do teatro, cada participante do evento recebeu uma sacolinha cheia de comidas deliciosas. Mais à frente, cada um recebeu uma latinha de refrigerante e nos dirigimos ao gramado do parque Dona Lindú, onde já haviam centenas de toalhas espalhadas no chão à nossa espera. Foi um momento muito agradável poder comer, conversar e curtir o pôr do sol do Recife cercado de gente interessante.

DSC01658 DSC01667

.

FRANCISCO CUNHA

Um novo olhar sobre a mobilidade:

Ei, devolve a minha calçada!

O arquiteto Francisco Cunha nunca gostou de carro. Ele prefere andar a pé. Afinal de contas, “andar é o exercício físico mais natural que existe”. Mais do que isso: para ele, “andar sobre as duas pernas é o que nos torna humanos”, diferenciando-nos dos outros animais. Convicto desse fato, ele recomenda: “Nunca pare pra pensar: pense andando mesmo”. Francisco lamenta que muitos de nós têm, talvez por falta de segurança, abandonado o hábito de andar pela cidade. Acordamos, vamos até a garagem, entramos no carro e saímos com os vidros fechados e o ar ligado até o trabalho. Chegando lá, pegamos um elevador até o escritório para trabalhar o dia todo e depois voltar pra casa pelo mesmo “túnel refrigerado” que nos isola das ruas, da cidade. Francisco acredita que esse é o motivo de darmos tão pouca importância aos pedestres, calçadas e ciclovias.

Com o intuito de conscientizar os motoristas, Francisco Cunha criou a Multa Cidadã, uma notificação simbólica que todos os pedestres de Recife podem aplicar aos carros que estacionarem nas calçadas. É claro que a tal multa não tem valor oficial e que os motoristas não ficam obrigados a pagar nada nem perdem pontos na carteira se receberem uma dessas, mas agora os recifenses têm uma maneira muito mais organizada de protestar contra os abusos de motoristas infratores. O projeto Multa Cidadã deu certo: foi aprovada e muito bem recebida pela população do Recife, é amplamente divulgada nas redes sociais e já estampou as manchetes dos principais jornais e portais de notícias locais. A “revolução silenciosa” iniciada por um cidadão inconformado se espalhou e está transformando a cidade. Isso é lindo de se ver!

.

WILSON DE OLIVEIRA JÚNIOR

Um novo olhar sobre a medicina:

Você pode me ouvir, doutor?

Wilson de Oliveira Júnior é médico, professor de cardiologia da Universidade de Pernambuco (UPE) e foi presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. Sua missão no TEDx Recife 2014 foi alertar a todos nós (pacientes em potencial) acerca dos nossos direitos quando procuramos atendimento médico. Segundo ele, todo médico têm o dever moral e a obrigação legal de, antes de qualquer exame ou diagnóstico, ouvir o paciente, prestando muita atenção às suas queixas. Wilson lamenta que muitos médicos hoje em dia, devido ao grande número de atendimentos a realizar por plantão, nem sequer ouvem mais os seus pacientes.

Isso é reflexo, segundo ele, da sociedade moderna, que parece estar acometida de “obesidade tecnológica e desnutrição humana”. Temos as mais precisas e avançadas tecnologias nos hospitais para tratar o corpo, mas está em falta o lado humano, do médico disposto a ouvir e tratar também a alma do paciente. Diante disso, Wilson propõe, tanto a pacientes como a colegas médicos, que a medicina seja praticada de maneira menos mecânica e mais humanitária e holística. Ele defende uma medicina de inspiração grega, como fazia Hipócrates (460-377 a.C.). Afinal, o ser humano não é apenas uma máquina, para ser “consertado” na oficina quando dá defeito; ele também tem alma, e esta é inclonável.

.

DEBORAH ZANFORLIN

Um novo olhar sobre a esperança:

Biossensores, o sonho de uma vida longa e saudável

Biomédica por formação, Deborah atualmente está cursando doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na área biotecnologia e nanotecnologia. O seu projeto é a criação de um sistema de diagnóstico rápido, portátil, seguro e indolor para uma das doenças que ainda perturbam nossa sociedade, o câncer de mama. Este biossensor se parece muito com aquele usado por diabéticos para medir instantaneamente a concentração de glicose no sangue. A boa notícia é que, graças ao trabalho de Deborah e sua equipe, esse aparelho já existe e está em fase de testes. Além do aparelho de diagnosticar câncer de mama, ela revelou que pretende dedicar a sua vida às pesquisas e ao desenvolvimento de outros tipos de biossensores, que no futuro serão capazes de detectar de forma rápida e com muita antecedência outros tipos de doenças. Em suma, Deborah se dedica a realizar o sonho de uma vida longa e saudável através da cura de doenças por meio de biossensores.

.

OUTROS PALESTRANTES

Além desses, outros seis palestrantes subiram ao palco do TEDx Recife 2014 para contar suas histórias inspiradoras: A publicitária e blogueira Clarice Freire, criadora do blog Pó de Lua, apresentou “um novo olhar sobre a literatura”. O professor e jornalista Gabriel Marquim, fundador da Comunidade dos Viventes (associação católica aberta ao ecumenismo) e do Projeto Vincular (que faz um belo trabalho social), falou do seu “encontro revolucionário com a fé”. O consultor Fernando Félix falou sobre superação, contando sua história e fazendo uma analogia com os quatro cavaleiros do Apocalipse. O professor, publicitário e administrador Fernando de Holanda trouxe “um novo olhar sobre a política”. Ruy Belfort propôs “um novo olhar sobre a educação”. E a empresária e consultora Verena Petitinga se dirigiu em especial às mulheres e deu dicas de “empreendedorismo feminino”.

DSC01681

tedx recife

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pág. 1 de 212
%d blogueiros gostam disto: