Sobre o que há: Quine e o problema fundamental da ontologia

Artigo do filósofo americano Willard Van Orman Quine (1908-2000) sobre o problema fundamental da ontologia. Extraído do livro De um ponto de vista lógico: nove ensaios lógico-filosóficos (São Paulo: Editora UNESP, 2011, p. 11-35).


Algo curioso sobre o problema ontológico é sua simplicidade. Ele pode ser formulado com três monossílabos do português: “O que há?”. Ele pode ser resolvido, além disso, com uma palavra — “Tudo” —, e todos aceitarão essa resposta como verdadeira. No entanto, isso é simplesmente dizer que há o que há. Ainda há espaço para desacordo em cada caso; e, desse modo, a questão permaneceu viva ao longo dos séculos.

Suponhamos que dois filósofos, McX e eu, discordemos a respeito da ontologia. Suponhamos que McX sustente haver algo que eu sustente não haver. McX pode, de maneira completamente coerente com seu ponto de vista, caracterizar nossa divergência de opinião dizendo que eu me recuso a reconhecer certas entidades. Eu deveria objetar dizendo que ele está errado na maneira como formula nosso desacordo, pois eu sustento não haver nenhuma entidade do tipo que ele alega para que eu a reconheça; todavia, considerar que ele está errado na maneira como formula nosso desacordo é irrelevante, pois sou obrigado, de qualquer forma, a considerar sua ontologia incorreta.

Quando eu, por outro lado, tento formular nossa divergência de opinião, parece que me coloco em apuros. Não posso admitir haver coisas que McX sustenta e eu não, pois, ao admitir haver tais coisas, eu estaria contradizendo minha própria rejeição a elas. Se esse raciocínio fosse correto, em qualquer disputa ontológica o defensor do lado negativo padeceria da desvantagem de não poder admitir que seu oponente discorda dele.

Esse é o velho enigma platônico do não ser. O não ser deve, em certo sentido, ser; caso contrário, o que é aquilo que não há? Essa doutrina pode ser apelidada de a barba de Platão; historicamente, ela se mostrou resistente, fazendo frequentemente a navalha de Ockham perder o corte. É uma tal linha de pensamento que conduz filósofos como McX a atribuir ser, ali onde, em vez disso, eles deveriam se contentar em reconhecer que não há nada. Considere-se, pois, Pégaso. Se não houvesse Pégaso, argumenta McX, não estaríamos falando de nada quando usamos essa palavra. Seria um contrassenso, portanto, até mesmo dizer que não há Pégaso. Acreditando ter mostrado, com isso, que a negação de Pégaso não pode coerentemente ser mantida, ele conclui que Pégaso é.

McX não pode, na verdade, persuadir-se completamente de que alguma região do espaço-tempo, próxima ou distante, contém um cavalo alado de carne e osso. Pressionado a dar mais detalhes sobre Pégaso, ele diz, então, que Pégaso é uma ideia nas mentes dos homens. Aqui, no entanto, uma confusão começa a ficar evidente. Podemos, para manter o argumento, conceder que há uma entidade, e inclusive que há uma única entidade (embora isso seja bem pouco plausível), que seria a ideia-Pégaso mental; mas não é dessa entidade mental que se está falando quando se nega Pégaso.

McX nunca confunde o Partenon com a ideia-Partenon. O Partenon é físico; a ideia-Partenon é mental (ao menos segundo a versão de McX acerca das ideias, e não tenho nenhuma melhor para oferecer). O Partenon é visível; a ideia-Partenon é invisível. Seria difícil imaginar duas coisas mais diferentes e menos propensas à confusão do que o Partenon e a ideia-Partenon. Mas, quando passamos do Partenon para Pégaso, a confusão se instala — pela simples razão de que McX seria iludido pela falsificação mais grosseira e mais evidente antes de admitir o não ser de Pégaso.

A ideia de que Pégaso deve ser, porque do contrário seria até mesmo um contrassenso dizer que Pégaso não é, levou McX, como vimos, a uma confusão elementar. Mentes mais perspicazes, partindo do mesmo ponto, apresentam teorias sobre Pégaso cujos defeitos são menos patentes que os de McX e, proporcionalmente, mais difíceis de sanar. Uma dessas mentes chama-se, digamos, sr. Y. Pégaso, afirma o sr. Y, tem ser enquanto possível não realizado. Quando dizemos que não há algo que seja Pégaso, estamos dizendo, precisamente, que Pégaso não possui o atributo específico da atualidade. Dizer que Pégaso não é atual equivale logicamente a dizer que o Partenon não é vermelho; em ambos os casos, estamos dizendo algo sobre uma entidade cujo ser não se questiona.

O sr. Y, aliás, é um desses filósofos que se uniram para destruir a boa e velha palavra “existir”. Apesar de sua adesão a possíveis não realizados, ele limita a palavra “existência” à realidade, preservando, assim, uma aparência de acordo ontológico entre ele e nós, que repudiamos o resto de seu universo hipertrofiado. Todos nós sempre tendemos a dizer, em nosso uso de “existir” conforme o senso comum, que Pégaso não existe, querendo dizer que não há, de forma alguma, uma entidade dessa natureza.

Se Pégaso existisse, estaria, de fato, no espaço e no tempo, mas apenas porque a palavra “Pégaso” tem conota­ções espaço-temporais, e não porque “existe” tem conotações espaço-temporais. Se, quando afirmamos a existência da raiz cúbica de 27, falta a referência espaço-temporal, isso se deve simplesmente ao fato de que a raiz cúbica não é um tipo de coisa espaço-temporal, e não porque nosso uso de “existir” seja ambíguo.

No entanto, o sr. Y, em um esforço mal-intencionado para parecer agradável, concede-nos cordialmente a não existência de Pégaso e, então, contrariamente ao que nós queríamos dizer por não existência de Pégaso, insiste que Pégaso é. Existência é uma coisa, diz ele, e subsistência é outra. A única maneira de lidar com esse emaranhado de problemas é entregar a palavra “existir” ao sr. Y. Tentarei não usá-la novamente; ainda tenho “há” e “é”. Basta de lexicografia; voltemos à ontologia do sr. Y.

O universo superpopuloso do sr. Y é, em muitos sentidos, desagradável. Ele ofende o senso estético dos que, como nós, apreciam paisagens desertas; mas isso não é o pior. O cortiço de possíveis do sr. Y é um local fértil para elementos que causam desordem. Considere, por exemplo, o homem gordo possível diante daquela porta; e agora o homem calvo possível diante daquela porta. São eles o mesmo homem possível ou dois homens possíveis? Como decidimos? Quantos homens possíveis há diante daquela porta? Há mais magros possíveis do que gordos possíveis? Quantos deles são semelhantes? Ou sua semelhança os torna um único? Não há duas coisas possíveis semelhantes? Isso é o mesmo que dizer que é impossível que duas coisas sejam semelhantes? Ou, finalmente, o conceito de identidade é simplesmente inaplicável a possíveis não realizados? Mas que sentido pode haver em falar de entidades que não podem significativamente ser ditas idênticas a si mesmas e distintas umas das outras? Esses elementos são quase incorrigíveis. Por meio de uma terapia fregiana de conceitos, um esforço de reabilitação poderia ser feito; mas pressinto que o melhor seria limpar o cortiço do sr. Y e deixá-lo.

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Breve definição de filosofia

Filosofia é o estudo das questões fundamentais. Em uma frase curta, essa é a melhor definição que encontrei – aquela que considero a mais explicativa empregando a menor quantidade possível de palavras. Estendendo-nos um pouco mais, podemos dizer que filosofia é a dedicação intelectual aos problemas mais conceituais, às perguntas mais profundas, às dúvidas mais inquietantes que afetam nosso pensamento. Mas essa é apenas uma das três maneiras de definir filosofia. Podemos definir filosofia a partir de três perspectivas diferentes: (1) objetivamente, dizendo o que ela estuda – qual é o seu objeto de estudo; (2) etimologicamente, dizendo o que significa o termo “filosofia”; e (3) comparativamente, dizendo que diferença há entre ela e outras expressões do saber humano, como a ciência ou a religião, por exemplo. Vejamos como isso é possível.

A definição dada acima é objetiva, pois diz qual é o objeto de estudo da filosofia – a saber, as questões fundamentais. Tradicionalmente, consideramos questões fundamentais aquelas relacionadas à existência, ao conhecimento, à verdade e aos valores. A partir disso, desenvolveram-se as disciplinas principais da filosofia: ontologia (filosofar sobre a existência); epistemologia (filosofar sobre o conhecimento); lógica (filosofar sobre a verdade); e a chamada filosofia prática (filosofar sobre os valores, sejam eles éticos, estéticos, políticos, etc.). Ontologia (comumente chamada também de metafísica), epistemologia (também chamada de teoria do conhecimento) e lógica constituem a parte teórica da filosofia; enquanto que ética, estética e filosofia política constituem a parte prática. É claro que, além desse tronco principal, a filosofia possui ainda outras disciplinas, como por exemplo a filosofia da mente, da linguagem, da natureza, da ciência, da religião, da educação, entre outras tantas “filosofias”.

Por que existe algo ao invés do nada? Há alguma demonstração ou evidência da existência de Deus? Como tudo começou? Por que razão estamos aqui? Nossas vidas têm algum propósito? Nossa mente é de uma natureza diferente do nosso corpo, ou somos seres meramente físicos? Existe livre-arbítrio? Como a linguagem se relaciona com a realidade? Como o conhecimento é possível? O que podemos conhecer? Quais são os limites da ciência? Quais os critérios da verdade? O que faz com que algumas ações sejam moralmente boas e outras más? Qual é a melhor forma de governo? O que define o que é belo? Você provavelmente já se fez algumas dessas perguntas em algum momento da vida. Estas são as últimas perguntas com as quais finalmente deparamos se continuarmos perguntando indefinidamente pelo porquê das coisas.

Essas perguntas não pertencem a uma ciência em particular, ao domínio exclusivo de alguma área especializada do saber, mas afligem todos aqueles que em algum momento deixam de se contentar com a banalidade e a futilidade das coisas cotidianas, do senso comum, das respostas prontas. Há 25 séculos, surgiu na Grécia uma tradição de pensamento que desde então se dedica racionalmente a estas questões. Filósofos desenvolvem-nas de uma forma disciplinada e sistemática, com o objetivo não apenas de respondê-las, mas também de entender exatamente o que está sendo pedido, em primeiro lugar. Eles descobrem pressupostos ocultos e refletem criticamente sobre as razões de nossas crenças e ações, a fim de compreender o mundo e o nosso lugar nele. A esta intensa atividade intelectual é que chamamos “filosofia”.

Podemos ainda definir a filosofia etimologicamente. Nesse sentido, o termo “filosofia” é composto por duas palavras gregas e significa literalmente “amor à sabedoria” (philos = amor, amizade; sophia = sabedoria, sapiência). Por fim, podemos definir a filosofia comparativamente, estabelecendo uma relação entre ela e outros tipos de saber e indicando em que ponto ela se distingue deles. Em suma, a filosofia difere da mitologia e da religião por sua ênfase em métodos e argumentos racionais; e difere da ciência moderna pela pouca importância que atribui e pelo pouco uso que faz de experimentos e observações empíricas, isto é, por geralmente não recorrer a procedimentos empiricamente verificáveis em suas investigações.


NOTA:

Escrevi este texto assim, muito claro, direto, conciso, sucinto, porque textos deste tipo, especialmente quando o que se promete é uma definição de filosofia, são muito raros. A grande maioria dos textos introdutórios que se propõem esclarecer ao leitor leigo o que é a filosofia ou não suprem a expectativa, deixando o leitor frustrado, sem uma resposta, ou oferecem uma definição ampla demais, vaga demais, vazia de significado demais. Isso é parcialmente compreensível e acontece por causa da própria natureza da filosofia, de fazer pensar em vez de fornecer respostas prontas; e principalmente por causa do medo que os autores têm de serem taxados de dogmáticos, por estarem sistematizando demais o assunto, quase que encaixotando uma definição padrão.

Eu não temo tal acusação. Considero uma grande virtude o poder de síntese, a habilidade de concisão, o saber indicar de modo sucinto e em poucas palavras a ideia principal, o ir direto ao ponto, sem enrolação, o não tomar desnecessariamente o tempo e a paciência do leitor ou ouvinte. Acredito que só entendeu realmente uma ideia quem é capaz de explicá-la em poucas palavras; e só compreendeu de fato um texto quem pode resumir a ideia principal em uma frase. Penso que essa irritante prolixidade para definir filosofia acontece porque aqui no Brasil somos muito influenciados pela tradição continental de filosofia contemporânea. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a tradição analítica é mais forte e mais presente, o paradigma é outro. Na página inicial do Departamento de Filosofia da Universidade Harvard, por exemplo, dois grandes botões direcionam os visitantes a textos muito curtos: What is Philosophy? (O que é filosofia?) e Why study Philosophy? (Por que estudar filosofia?). Como no artigo que publiquei acima, o Departamento de Filosofia de Harvard, considerado um dos melhores do mundo, explica a definição de filosofia de forma clara, direta e sucinta, de modo que qualquer leigo possa compreender muito rapidamente o que se faz ali naquele departamento.


“(…) De modo que, se os homens filosofaram para libertar-se da ignorância, é evidente que buscavam o conhecimento unicamente em vista do saber e não por alguma utilidade prática. E o modo como as coisas se desenvolveram o demonstra: quando já se possuía praticamente tudo o de que se necessitava para a vida e também para o conforto e para o bem estar, então se começou a buscar essa forma de conhecimento. É evidente, portanto, que não a buscamos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e, mais ainda, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não está submetido aos outros, assim só esta ciência, dentre todas as outras, é chamada livre, pois só ela é fim para si mesma.” (Aristóteles, Metafísica A, 982 b, 19-27)

Parmênides e “Interestelar”

interstellar

Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo me impele,
conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso
da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades.
Por aí me levaram, por aí mesmo me levaram os habilíssimos corcéis,
puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.
O eixo silvava nos cubos como uma siringe,
incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente
o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram
as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite
para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia,
encimado por um dintel e um umbral de pedra;
o portal, etéreo, fechado por enormes batentes,
dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham.
A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras,
persuadindo-a habilmente a erguer para elas
por um instante a barra do portal. E ele abriu-se,
revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar,
um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze,
fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal,
as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.
E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão
direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu:

“Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais,
tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis,
Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar
por este caminho – tão fora do trilho dos homens –,
mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender:
o coração inabalável da verdade fidedigna
e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína.
Mas também isso aprenderás: como as aparências
têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo”.

O poema acima¹ foi escrito há 25 séculos na Grécia Antiga por um filósofo pré-socrático chamado Parmênides, natural de Eleia (sul da Itália). Na continuação do poema (postumamente intitulado “Sobre a Natureza”), Parmênides funda, segundo alguns filólogos e comentaristas, a disciplina filosófica a que chamamos “metafísica” ou “ontologia”. Mas não é isso que nos interessa agora. O que por ora nos encanta é a beleza literária do trecho acima, o proêmio do poema. E o que ele representa: uma fantástica viagem para bem longe do “trilho dos homens”. Com certa licença poética, podemos dizer que este é também o tema de Interestelar, o filme de Christopher Nolan lançado este ano.

Pablo Capistrano sugeriu certa vez que todas as grandes histórias já contadas, em verso ou em prosa, se reduzem a apenas três tipos: as que falam sobre um amor; as que falam sobre um Deus que morre; e as que falam sobre uma viagem. Esta última temática engloba desde as grandes epopeias homéricas (Ilíada e Odisseia) até o recente O Senhor dos Anéis, de Tolkien. É também nessa categoria que se enquadram o poema de Parmênides e o filme de Nolan. Diferente das demais histórias, tanto o poema quanto o longa-metragem têm algo em comum: a grandeza da viagem. Sobre o poema de Parmênides, Capistrano diz o seguinte:

“Do ponto de vista de Parmênides e de seus seguidores, o movimento é uma ilusão. A geração de todas as coisas, o crescimento e a corrupção; o tempo, com seus ciclos de apogeu, decadência e morte, são apenas erros dos sentidos falhos, que não alcançam a verdade bem redonda do Ser. Se qualquer um de nós, amigo leitor, ao invés de um táxi para Ponta Negra, numa sexta feira à noite, entrasse no carro de Parmênides, seríamos alçados a um ponto de vista privilegiado. Poderíamos ver o mundo em sua totalidade, de fora dele, como se tivéssemos sido pegos na carona de um objeto não identificado e pudéssemos contemplar não apenas a terra, não apenas o sistema solar ou a via láctea, mas todo o universo, bem de longe, em sua totalidade. Se pudéssemos ter essa experiência, se pudéssemos ver o mundo como a poesia de Parmênides nos induz, teríamos a sensação de que ele seria inteiro, esférico, inabalável e sem fim; tudo junto, uno, contínuo. Seríamos tomados pela deliciosa sensação de que o tempo, a morte e a decomposição são reflexões, projeções, sombras de nossa mente que tomam o caminho errado do entendimento e pensam que as coisas são como aparecem.”²

É também a este extremo distanciamento do mundo cotidiano, a essa magnífica aventura do pensamento, a essa grandiosa ousadia da imaginação humana que nos guia, como cavalos selvagens, o filme Interestelar. Christopher Nolan nos faz pensar grande, para além da superficialidade da vida com a qual estamos acostumados. “Ao adentrar o Universo”, diz um trecho do filme, “devemos encarar a realidade de uma viagem interestelar. Devemos alcançar além da nossa expectativa de vida. Temos que pensar não como indivíduos, mas como uma espécie”. Em outra cena, o protagonista reconhece: “Este mundo é precioso, mas nos diz parar partirmos já faz algum tempo. A humanidade nasceu na Terra, mas não morrerá aqui”.

Em outra cena impactante (e neste ponto eu recomendo que você pare de ler se ainda não assistiu o filme, porque vem spoiler) fica claro que o cientista da NASA responsável pela viagem interestelar, Dr. Brand, precisava encontrar uma forma de salvar a humanidade da extinção, já que o planeta Terra tornara-se um ambiente hostil e impróprio para a vida. Como o custo para levar pessoas ao espaço era alto demais e não havia recursos disponíveis para salvar muita gente da hecatombe, a única solução viável era declarar como perdido o caso das pessoas na Terra e tentar salvar ao menos a espécie, enviando ao espaço uma “bomba populacional” com 5 mil óvulos humanos fertilizados e congelados, que serviria para criar colônias e povoar outro mundo (caso houvesse ao menos um com condições favoráveis à vida, o que ainda era incerto).

Dr. Brand conseguiu convencer alguns astronautas a partirem em missões suicidas em busca de pistas de um mundo habitável em outra galáxia, com potencialidade de se tornar o novo lar dos seres humanos. Atravessando “buracos de minhoca”, sendo atraídos por um gigantesco “buraco negro”, viajando em velocidades próximas à da luz e experimentando a dilatação do tempo, esses heróis altruístas sentiram na pele o que Albert Eisntein queria dizer com a sua famosa teoria da relatividade geral. Um grave problema ético surge quando o Dr. Brand precisa mentir para alguns desses astronautas para convencê-los a aceitarem a missão. Ao descobrir a farsa, Cooper, o protagonista, sente-se enganado e traído por Brand, e com razão. Nesse momento, entra em cena a defesa de Dr. Mann, outro astronauta que tripulava a nave:

“Dr. Brand sabia o quão difícil seria unir as pessoas para salvar a espécie em vez de a si mesmos ou a seus filhos. Você nunca teria vindo se não achasse que os salvaria. A evolução ainda não superou essa barreira. Podemos nos importar muito, de forma altruísta, com quem conhecemos; mas a empatia raramente vai além do que podemos ver. A mentira foi imperdoável e ele sabia disso. Ele abriu mão da própria humanidade para salvar a espécie. Foi um sacrifício incrível. O caso das pessoas na Terra é um caso perdido. Nós somos o futuro.”

Pensar na espécie em detrimento dos indivíduos, na humanidade em vez da própria família, contemplar séculos (ou milênios) à frente de seu tempo, enxergar a vida, o Universo e tudo o mais de um ponto de vista mais alto, mais distante, se afastar para conseguir ver o todo… Tudo isso o filme tem em comum com o poema de Parmênides. Embora lide a todo momento com dilemas científicos, com problemas de física quântica e da cosmologia contemporânea, quando chega nos limites da razão humana, a temática do filme deixa de ser meramente científica para se tornar filosófica. É por esse motivo que Interestelar é um dos melhores filmes que já assisti (e reassisti, pelo menos três vezes).

Não vás tão docilmente nessa noite linda
Que a velhice arda e brade ao término do dia
Clama, clama contra o apagar da luz que finda!
Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.
Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.³

  1. PARMÊNIDES. Da Natureza. Tradução: José Gabriel Trindade Santos. São Paulo: Loyola, 2002.
  2. CAPISTRANO, Pablo. Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
  3. THOMAS, Dylan. Do not go gentle into that good night. In: CAMPOS, Augusto de (trad. e org.). Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

Nietzsche sobre Parmênides de Eleia

Trechos extraídos do livro A Filosofia na Época Trágica dos Gregos (§ 9-13), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sobre Parmênides de Eleia, o maior dos filósofos pré-socráticos; em quem Nietzsche destaca a “intransigência lógica”, o “esquematismo abstrato” e a “aspiração à certeza”.


Enquanto em todas as palavras de Heráclito exprime-se a imponência e a majestade da verdade, mas da verdade apreendida na intuição, não da verdade galgada pela escada de corda da lógica; enquanto ele em um êxtase sibilino vê, mas não espia, conhece mas não calcula, aparece ao lado seu contemporâneo Parmênides, como um par; igualmente com o tipo de um profeta da verdade, mas como que formado de gelo, não de fogo, vertendo em torno de si uma luz fria e penetrante.

No fim da sua vida, provavelmente, Parmênides teve um momento da mais pura abstração, purificada de toda efetividade e completamente exangue; este momento, cujo produto é a teoria do ser, foi para sua própria vida um ponto de demarcação que a dividiu em dois períodos; este mesmo momento separa igualmente o pensamento pré-socrático em duas metades, sendo que a primeira pode ser chamada anaximândrica e a segunda parmenídica. O primeiro e mais antigo período do próprio filosofar de Parmênides ainda carrega igualmente a rubrica de Anaximandro; este período produziu um sistema físico-filosófico efetivo como resposta às perguntas de Anaximandro. Quando mais tarde ele foi acometido daquele calafrio de abstrações glaciais e formulou a mais simples proposição referente ao ser e ao não-ser, lá estava o seu próprio sistema, entre as muitas teorias antigas que sua proposição reduzia a nada.

Parmênides, cujas relações pessoais com Anaximandro não me parecem inverossímeis, que não apenas verossimilmente mas evidentemente teve na teoria de Anaximandro seu ponto de partida, tinha as mesmas suspeitas em relação à perfeita separação entre um mundo que apenas é e um mundo que apenas vem a ser, suspeita que também Heráclito apreendera e que o conduzira à negação do ser. Ambos procuravam uma saída, fora daquela oposição e separação de uma dupla ordem do mundo. Aquele salto no Indeterminado, no indeterminável, através do qual Anaximandro escapara de uma vez por todas ao reino do vir-a-ser e de suas qualidades empíricas dadas, não era fácil para duas cabeças tão independentes e diferentes como as de Heráclito e Parmênides; eles procuraram andar tão longe quanto podiam e reservaram o salto para aquele lugar onde o pé não encontra mais apoio, onde se precisa saltar para não cair.

(…)

Parmênides teve uma visão completamente diferente: ele comparava as qualidades umas com as outras e acreditava descobrir que elas não seriam todas idênticas, mas precisavam ser ordenadas em duas classes. Por exemplo: ele comparou a luz e a obscuridade e, assim, a segunda qualidade era manifestamente apenas a negação da primeira; e assim ele diferenciava qualidades positivas e negativas, esforçando-se seriamente por reencontrar e assinalar esta oposição fundamental em todo o reino da natureza. Seu método era o seguinte: ele tomava alguns opostos, por exemplo, leve e pesado, sutil e denso, ativo e passivo, e os remetia àquela oposição modelo entre luz e obscuridade; o que correspondia à luz era a qualidade positiva e o que correspondia à obscuridade, a qualidade negativa. (…) …cada um apenas como negação do outro; de tal maneira que, segundo sua visão, nosso mundo empírico cindia-se em duas esferas separadas: naquela das qualidades positivas e naquela das qualidades negativas. As últimas exprimem propriamente apenas a falta, a ausência das outras, das positivas. (…) Neste método já se revela uma aptidão ao procedimento lógico abstrato, resistente e fechado às insinuações dos sentidos. (…) Ao invés das expressões “positivo” e “negativo”, ele tomava os rígidos termos “ser” e “não-ser” e chegava com isso à tese, em contradição a Anaximandro, que este nosso mundo contém algo de ser e sem dúvida também algo de não-ser. Não se deve procurar o ser fora do mundo e como que acima do nosso horizonte; deve-se buscá-lo diante de nós, em todo vir-a-ser está contido algo de ser e em atividade.

Entretanto, restava para ele a tarefa de dar a resposta correta à pergunta: “O que é o vir-a-ser?”. (…) Parmênides vê, como Heráclito, o vir-a-ser e o não-permanecer universais, mas apenas pode interpretar um perecer de tal maneira que nele o não-ser precise ter uma culpa. Pois como podia o ser ter a culpa do perecer! Entretanto, o nascer precisa igualmente realizar-se pelo auxílio do não-ser: pois o ser está sempre presente e não poderia, por si mesmo, nascer nem explicar nenhum nascer. Assim, tanto o nascer como o perecer são produzidos pelas qualidades negativas. O fato de ter um conteúdo o que nasce e perder um conteúdo o que perece, pressupõe que as qualidades positivas – isto é, aquele – participem igualmente de ambos os processos: “Ao vir-a-ser é necessário tanto o ser quanto o não ser; se eles agem conjuntamente, então resulta um vir-a-ser”. (…) Mas como colaboram o positivo e o negativo? Eles não deviam ao contrário repelir-se constantemente como contraditórios, fazendo assim todo vir-a-ser impossível? Aqui, Parmênides lança mão de uma qualitas occulta, de uma mística tendência dos contraditórios a aproximarem-se e atraírem-se, simbolizando aquela oposição pelo nome de Afrodite, através da conhecida relação mútua e empírica entre masculino e feminino. O poder de Afrodite é ligar os contraditórios, o ser e o não-ser. Um desejo une os elementos que conflituam e se odeiam: o resultado é um vir-a-ser. Quando o desejo está satisfeito, o ódio e o conflito interno impulsionam novamente o ser e o não-ser à separação – e então o homem fala: “A coisa perece”.

(…)

Mas ninguém se engana impunemente com abstrações tão terríveis como são o ser e o não-ser. (…) Parmênides chegava à unidade do ser puramente através de uma suposta conseqüência lógica, retirando-a dos conceitos de ser e não-ser. (…) [Parmênides] examinava aquelas oposições cooperantes cujo desejo e ódio constituíam o mundo e o vir-a-ser, o ser e o não-ser, as qualidades positivas e negativas; e então ele se prendeu repentinamente, desconfiado, ao conceito de qualidade negativa, do não-ser. Algo que não é pode ser uma qualidade? Ou, interrogado no plano dos princípios: algo que não é, pode ser? Mas a única forma do conhecimento que nos oferece imediatamente uma segurança incondicional e cuja negação iguala a loucura é a tautologia A = A. Este mesmo conhecimento tautológico lhe dizia implacavelmente: “O que não é, não é! O que é, é!” Repentinamente ele sentiu pesar sobre sua vida um monstruoso pecado lógico; ele sempre havia suposto sem escrúpulo que existiam qualidades negativas, não-seres em geral, havia suposto que, formalmente expresso, A = não A: o que somente a mais completa perversidade do pensamento poderia formar. Mas, vendo as coisas de perto, como ele mesmo percebeu, toda a grande maioria dos homens julgava com a mesma perversidade; ele mesmo tinha apenas tomado parte do crime geral contra a lógica.

Mas o mesmo momento que o acusa deste crime ilumina-o com a glória de uma descoberta: ele encontrou um princípio, a chave para o mistério universal, separado de toda ilusão humana; na firme e terrível mão da verdade tautológica sobre o ser, ele desce agora ao abismo das coisas. No caminho ele encontra Heráclito: um encontro infeliz! Para ele, que tinha colocado tudo na mais rigorosa separação entre o ser e o não-ser, os jogos de antinomias de Heráclito tinham que ser profundamente odiosos; proposições como: “Nós simultaneamente somos e não somos”… “Ser e não-ser são e não são os mesmos”, proposições através das quais tudo o que ele tinha destrinchado e esclarecido se tornaria novamente opaca e inexplicável, levaram-no ao furor. “Fora com os homens que nada sabem e parecem ter duas cabeças”, gritava ele. “Junto deles está tudo, também seu pensamento, em fluxo. Eles admiram as coisas perenemente mas precisam ser tão surdos quanto cegos para misturarem assim os contrários!”

Ele mergulhava então no banho frio de suas terríveis abstrações. O que é verdadeiro precisa estar no presente eterno, dele não pode ser dito “ele era”, “ele será”. O ser não pode vir-a-ser: pois de que ele teria vindo? Do não-ser? Mas o não-ser não é e não pode produzir nada. Do ser? Isto não seria senão produzir-se a si mesmo. O mesmo acontece com o perecer; ele é igualmente impossível, como o vir-a-ser, como toda mutação, como todo aumento, como toda diminuição. É válida em geral a proposição: tudo do que pode ser dito “foi” ou “será”, não é; do ser, entretanto, nunca pode ser dito “não é”. O ser é indivisível, pois onde está a segunda potência que devia dividi-lo? Ele é imóvel, pois para onde ele devia movimentar-se? Ele não pode ser nem infinitamente grande nem infinitamente pequeno, pois ele é acabado e um infinito dado por acabado é uma contradição. Assim limitado, acabado, imóvel, em equilíbrio, em todos os pontos igualmente perfeito como uma esfera, ele paira, mas não em um espaço, pois caso contrário este espaço seria um segundo ser. Mas não podem existir vários seres, pois para separá-los precisaria haver algo que não fosse um ser: o que é uma suposição que se suprime a si mesma. Assim, existe apenas a Unidade eterna.

Mas, se agora Parmênides voltava seu olhar ao mundo do vir-a-ser, cuja existência ele antes tinha procurado compreender através de combinações tão engenhosas, ele zangava-se com os seus olhos por verem o vir-a-ser e com seus ouvidos, por ouvi-lo. Seu imperativo agora era: “Não siga os olhos estúpidos, não siga o ouvido ruidoso ou a língua, mas examine tudo somente com a força do pensamento”. Com isto ele operava a primeira crítica do aparelho do conhecimento. (…) [Parmênides] separou os sentidos e a capacidade de pensar abstrações, a razão, como se fossem duas faculdades inteiramente distintas, desintegrou o próprio intelecto e animou aquela divisão completamente errônea entre corpo e espírito que, especialmente desde Platão, pesa sobre a filosofia como uma maldição. Todas as percepções dos sentidos, pensa Parmênides, dão apenas ilusões; e sua ilusão fundamental é simular que o não-ser é, que o vir-a-ser tem um ser.

Toda aquela multiplicidade e variedade do mundo conhecido pela experiência, a troca de suas qualidades, a ordenação de seus altos e baixos, foram postas de lado impiedosamente como uma ilusão e pura aparência; não há nada para aprender dela, está perdido todo trabalho que se tem com este mundo mentiroso, nulo e alcançado através dos sentidos. Quem pensa desta maneira, como o fez Parmênides, suprime a possibilidade de ser um investigador da natureza; seu interesse pelo fenômeno cai, forma-se um ódio em não poder livrar-se desta eterna fraude dos sentidos. Agora a verdade apenas pode habitar nas mais desbotadas e pálidas generalidades, nas caixas vazias das mais indeterminadas palavras, como num castelo de teias de aranha; e ao lado de uma tal “verdade” senta-se o filósofo, igualmente exangue como uma abstração, e luta enclausurado em fórmulas.

(…)

Na filosofia de Parmênides preludia-se o tema da ontologia. A experiência não lhe apresentava em nenhuma parte um ser tal como ele o pensava, mas, do fato que podia pensá-lo, ele concluía que ele precisava existir: uma conclusão que repousa sobre o pressuposto de que nós temos um órgão de conhecimento que vai à essência das coisas e é independente da experiência. Segundo Parmênides, o elemento de nosso pensamento não está presente na intuição mas é trazido de outra parte, de um mundo extra-sensível ao qual nós temos um acesso direto através do pensamento. Aristóteles já fizera valer, contra, todas as deduções análogas, que a existência nunca pertence à essência, que o ser-aí nunca pertence à essência das coisas. Exatamente por isso não se pode, a partir do conceito “ser” – cuja essência é apenas o ser -, concluir uma existência do ser. A verdade lógica daquela oposição entre o ser e não-ser é completamente vazia, se não pode ser dado o objeto subjacente, se não pode ser dada a intuição através da qual esta oposição é deduzida por abstração; sem este retorno à intuição, ela é apenas um jogo com abstrações através do qual nada é conhecido de fato.

(…)

A lógica não pode ir mais longe nem descobrir, através de nenhum procedimento, o erro que se refere não à forma mas ao conteúdo. Assim, quando se procura o conteúdo para a verdade lógica da oposição: “O que é, é; o que não é, não é”, não se encontra, de fato, nem uma única efetividade que lhe seja rigorosamente conforme. (…) As palavras são apenas símbolos das relações das coisas entre si e conosco, elas não fundam em parte alguma a verdade absoluta; e a palavra “ser” indica apenas a relação mais geral que liga todas as coisas, igualmente como a palavra “não-ser”. Mas, se a própria existência das coisas não é demonstrável, então a relação das coisas entre si, o chamado “ser” e “não-ser”, não pode ajudar a aproximarmo-nos nem um passo do país da verdade. Através de palavras e conceitos nós não chegamos jamais a penetrar a muralha das relações, nem mesmo a algum fabuloso fundamento originário das coisas; e mesmo nas puras formas da sensibilidade e do entendimento, no espaço, no tempo e na causalidade, nós não ganhamos nada que se assemelhe a uma veritas aeterna.

É incondicionalmente impossível, para o sujeito, querer conhecer e ver algo acima de si mesmo; tão impossível que conhecimento e ser são, de todas as esferas, as mais contraditórias. Se Parmênides, na ingenuidade ignorante da crítica do intelecto de então, podia presumir chegar a um ser-em-si a partir de um conceito eternamente subjetivo, hoje, depois de Kant, é uma ignorância atrevida colocar aqui e ali, como tarefa da filosofia, particularmente junto aos teólogos mal instruídos que querem brincar de filósofos, “apreender o absoluto com a consciência”, aproximadamente na forma: “O absoluto já está presente, senão como ele poderia ser procurado?” – como se exprimiu Hegel. Ou na direção de Beneke: “O ser precisa estar dado de alguma maneira, ele precisa de alguma maneira estar acessível, sem o que nem mesmo o conceito do ser poderíamos ter”.

(…)

Deveria ficar claro o quão pouco nós, com tais conceitos, tocamos o coração das coisas ou desatamos os nós da realidade; e entretanto, ao invés disto, Parmênides e Zenão fixam-se na verdade e validade universal dos conceitos, repudiam o mundo intuitivo como o contrário dos conceitos verdadeiros e universalmente válidos, como uma objetivação do que é ilógico e completamente contraditório. Em todas as suas demonstrações eles partem do pressuposto completamente indemonstrável, mesmo inverossímil, segundo o qual nós temos naquela faculdade de conceitos o mais alto e decisivo critério sobre o ser e o não-ser, isto é, sobre a realidade objetiva; não se deve confirmar ou corrigir aqueles conceitos junto à efetividade, como indubitavelmente derivados dela, mas, ao contrário, eles é que devem dirigir e medir a efetividade e, em caso de uma contradição com o que é lógico, condená-la.

Para poder conceder-lhes esta competência diretora, Parmênides precisava lhes conferir o mesmo ser do que ele em geral admitia como o ser. Agora não era mais para serem tomados como dois modos diferentes do ser, o pensamento e aquela esfera do ser perfeita e fora do vir-a-ser, pois não podia existir nenhuma duplicidade. Assim, tornou-se necessária a idéia ousadíssima de explicar o pensamento e o ser como idênticos; aqui não podia vir em auxílio nenhuma forma de visibilidade, nenhum símbolo, nenhuma metáfora; a ideia era completamente irrepresentável mas era necessária; e ele até mesmo festejava, nesta falta de toda possibilidade de representação, o maior triunfo sobre o mundo e as exigências dos sentidos. O pensamento e aquele ser nodular e esférico, completamente morto e maciço, imóvel e imutável, precisavam, segundo o imperativo de Parmênides e para o terror da imaginação, coincidir e ser totalmente um e o mesmo. Esta identidade pode contradizer os sentidos. Exatamente isto é a garantia de que ela não toma deles nada emprestado!

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Veja também:

Heidegger e os bastidores da filosofia

heideggerEnquanto procurava por uma informação bem específica sobre a ontologia de Heidegger na internet, achei esse texto por acaso e não consegui parar de lê-lo. Decidi compartilhá-lo com vocês porque ele revela aspectos curiosos dos bastidores da vida intelectual no campo da filosofia – pelo menos no século passado. O texto a seguir está disponível no site Hottopos, cujos editores procuraram manter o estilo oral da conferência do filósofo espanhol Julián Marías (1914-2005), proferida durante o curso “Los estilos de la Filosofía”, que foi ministrado no semestre de verão 1999/2000, na Universidade de Madrid, na Espanha. Na conferência, Marías, que era considerado o principal discípulo de José Ortega y Gasset (1883-1955), fala sobre Martin Heidegger (1889-1976), seu contato com a obra do filósofo alemão e da ocasião em que o encontrou certa vez. Faz-se menção também a outro filósofo espanhol: Miguel de Unamuno (1864-1936). O texto é útil porque revela, nesse caso específico, o modo como um filósofo lê, interpreta e se apropria da obra de outro filósofo.

NOTA: O autor da conferência, Julián Marías, não se vale de texto escrito. O texto que você lê abaixo é uma transcrição de sua fala.

Edição: Jean Lauand. Tradução: Sylvio Horta.


Boa tarde!

Já estamos terminando este curso; só nos restam esta conferência e a próxima. Hoje vamos falar de uma personalidade particularmente importante: Heidegger. Heidegger é, evidentemente, um dos maiores filósofos de nosso tempo. Tive a oportunidade de conviver com ele em certa ocasião como recordarei mais adiante. Heidegger passou a ser conhecido no ano de 1927: publicou o livro Sein und Zeit, Ser e Tempo, que teve imediata repercussão. Ortega leu o livro imediatamente e, na edição de fevereiro de 1928 da Revista do Ocidente, ao final de um artigo que escreveu, dizia em nota de pé de página: “Sobre estes temas, finas verdades e finos erros no recente livro de Martin Heidegger: Sein und Zeit“. Quer dizer: ele tinha lido o livro com grande interesse, logo após a sua publicação.

Outro fato curioso é que não se encontra nenhuma referência a esse livro na obra de Unamuno. As conexões entre Unamuno e Heidegger são bastante claras: há muitas semelhanças entre os dois pensadores. Surpreendeu-me muito que em Unamuno não houvesse nenhuma só alusão à obra de Heidegger. Isto me pareceu bastante estranho e demorei muitos anos para atinar com a razão deste fato: Unamuno não cita Heidegger e parece não conhecê-lo – nem pouco nem muito – simplesmente porque estava na França. Se estivesse em Salamanca, como lhe era habitual, teria sabido da publicação de Sein und Zeit, tê-lo-ia pedido imediatamente, tê-lo-ia devorado e com certeza, tê-lo-ia comentado. Mas na França este livro não despertou eco algum: ninguém – ou quase ninguém – sabia que existia esse livro nem que significado poderia ter. E isso explica a ausência total de referências a Heidegger em Unamuno.

Isto nos remete a outra experiência curiosa, ocorrida também naqueles 10 dias de convivência que tive com Heidegger em 1955. Numa daquelas longas conversas que tivemos, ocorreu-me falar-lhe de Unamuno e perguntar sobre ele. Parecia-me muito plausível que o houvesse conhecido: tinha sido muito traduzido ao alemão nos anos 1920. Contudo, Heidegger disse-me que não o conhecia, que não havia lido nada dele, mas que lera García Lorca [poeta e dramaturgo espanhol]. Isso me surpreendeu bastante, porque a distância entre Lorca e Heidegger é imensa! Isso me leva a pensar em como funciona o mundo atual, em como afinal se conhecem as coisas de que se fala. É evidente que por razões políticas, que deram grande fama a Lorca desde 1936 com a guerra civil espanhola, sua obra chegou ao conhecimento de Heidegger, que o leu com interesse. Mas é claro que enquanto parece quase obrigatório o conhecimento de Unamuno por Heidegger, não parece necessário o conhecimento de Lorca: e assim caminha o mundo de hoje… A ausência de um e a presença do outro. A ausência mútua de Heidegger e Unamuno é um fenômeno que requer explicação e que evidentemente revela uma faceta da vida intelectual do nosso tempo.

Eu li Heidegger já em 1934 – e isto parece tão incrível que se não fosse evidente eu mesmo o colocaria em dúvida. Eu me reunia com umas quantas colegas, companheiras de curso, para lhes dar aulas sobre certos temas bastante gerais de filosofia já que eu estava um pouco mais avançado nos estudos filosóficos e elas tinham que se preparar para um exame chamado intermediário e não havia cursos gerais de filosofia, mas somente cursos puramente monográficos. E isso durou 2 anos, com 2 grupos, e elas prestaram o exame com surpreendente sucesso, porque tinham encontrado naqueles meus cursos improvisados o que necessitavam para passar no exame. Continue reading “Heidegger e os bastidores da filosofia” »

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