Uma questão de nacionalidade: Americano, norte-americano ou estadunidense?

USA

Qual a maneira correta de indicar a nacionalidade de quem nasce nos Estados Unidos da América? Como devo me referir a algo que tem origem, características ou ligação com esse país? Americano, norte-americano ou estadunidense? Eu mesmo convivi com essa dúvida por um bom tempo. Somente agora tive a disposição de pesquisar, ler, comparar opiniões e finalmente me posicionar. As três formas são muito comuns no Brasil, muito embora no resto do mundo a primeira seja bem mais usada. Vejamos as principais críticas e objeções suscitadas por brasileiros acerca de cada um dos termos, bem como os melhores argumentos em favor de cada um deles:

Veja também: Diferença entre Inglaterra, Reino Unido e Grã-Bretanha


ESTADUNIDENSE

Quem defende o uso da expressão “estadunidense” geralmente está motivado politicamente e influenciado pela ideologia anti-americana. Dizem que “americano” é quem nasce na América; e “norte-americano” é quem nasce na América do Norte. De acordo com esse ponto de vista, qualquer imposição cultural que use outro termo mais abrangente, que não seja “estadunidense”, para referir-se àquele país é de caráter imperialista e deriva do egocentrismo característico desse povo. Segundo essa posição, os próprios “estadunidenses” usurparam o termo e se autodenominaram “americanos” por se considerarem a parte mais importante da América. Por que só eles teriam o direito de usar como emblema a sonoridade de América, se nós também somos América?


NORTE-AMERICANO

Numa tentativa de estreitar o uso do termo “americano”, muito por conta das críticas citadas acima, surgiu a expressão “norte-americano”. Obviamente ela não resolve muita coisa, já que norte-americano claramente se refere à América do Norte. Não há um argumento forte que sustente tal uso: ele cristalizou-se no Brasil aparentemente apenas por conta do uso frequente. Esta é, portanto, uma maneira pouco precisa de se referir a esse povo. Algo como chamar brasileiros de sul-americanos ou latino-americanos.


AMERICANO

O termo mais comum e mais usado em documentos oficiais ao redor do mundo é “americano”. Esta discussão sobre qual dos três termos usar é uma peculiaridade brasileira – que, certamente, surgiu após as objeções anti-imperialistas explicadas acima. Essa discussão é também muito recente, haja vista que “americano” é a forma mais enraizada na história de nossa língua. De Machado de Assis a Caetano Veloso, existe uma tradição cultural séria a legitimar “americano” como termo preferencial para designar o que se refere aos EUA no português brasileiro. Isso sem mencionar que, no passaporte ou no documento de identidade de uma pessoa que pertence aos EUA, está sempre escrito “americana” no campo “nacionalidade”, e não “estadunidense”.

No entanto, sempre houve quem se incomodasse com isso, por acreditar que essa escolha aparentemente inocente traz embutida uma concordância com o sequestro que os ianques supostamente fizeram do termo que deveria ser propriedade de todo o Novo Mundo. O problema é que o principal argumento contra o uso de “americano” – o de que o termo está errado porque se refere ao continente todo – é ingênuo. De acordo com a grande maioria dos dicionários de língua portuguesa, a palavra “americano” é usada para se referir à pessoas do continente americano e/ou pessoas que são dos EUA. Ou seja, tem os dois usos – assim como “mineiro” pode designar tanto um trabalhador de minas, seja ele búlgaro, indonésio ou cearense, quanto uma pessoa natural do estado de Minas Gerais, e o contexto resolve qualquer possível ambiguidade.

Existem críticas muito consistentes aos termos alternativos. A expressão “estadunidense” é a que menos faz sentido. Quem está um pouco familiarizado com a História do Brasil deve se lembrar que nosso país, antes de se chamar oficialmente “República Federativa do Brasil”, chamava-se “Estados Unidos do Brasil”. Mas nem por isso nosso povo foi, naquela época, chamado de “estadunidense”: éramos, ainda assim, “brasileiros”. Isso porque o termo “Estados Unidos” diz respeito à forma de organização política, e não ao nome do país propriamente dito. “Estados Unidos”, nesse caso, equivale a “República Federativa”. Chamar um americano de “estadunidense” seria o equivalente a chamar um brasileiro de “republicano-federativo”. O mesmo vale para as pessoas que nascem no Reino Unido da Grã-Bretanha. Seguindo a mesma lógica que querem os defensores do termo “estadunidense”, os súditos da rainha deveriam ser chamados de “reinunidenses” em vez de “britânicos”. Ora, se o povo dos Estados Unidos do Brasil sempre foi chamado de “brasileiro”, o povo da República Federativa do Brasil continua sendo chamado de “brasileiro” e o povo do Reino Unido da Grã-Bretanha é chamado de “britânico”, devemos, por coerência, chamar o povo dos Estados Unidos da América de “americano”.

Direitistas querem liberdade, esquerdistas querem igualdade: essa é a diferença

liberdade igualdade fraternidade

Toda a nossa filosofia política ocidental, pelo menos após o iluminismo, é baseada em três grandes princípios, os quais compõem o famoso lema da Revolução Francesa: LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE. Historicamente, a bandeira da fraternidade sempre foi promovida pelas religiões, pelo esoterismo ou pelo humanismo secular. Desde que Igreja e Estado se separaram, isto é, desde que a sociedade se tornou laica, porém, promover a fraternidade entre os homens deixou de ser uma atribuição da política. Na civilização ocidental contemporânea, portanto, liberdade e igualdade reinam absolutos como os dois valores mais fundamentais de toda a nossa filosofia política.

O problema que alimenta praticamente todas as nossas diferenças políticas, partidárias e ideológicas é que esses dois princípios são mutuamente excludentes, ou seja, formam uma proporcionalidade inversa. Isto significa que, em qualquer sociedade politicamente organizada, quanto mais liberdade, menos igualdade temos; de igual modo, quanto mais igualdade, menos liberdade. Não é difícil entender essa lógica: deixadas livres para agir social e economicamente, as pessoas tendem a potencializar as suas diferenças naturais, gerando desigualdade social. Por outro lado, quando o Estado intervém na sociedade para reduzir a desigualdade, as liberdades individuais são reduzidas em nome daquilo que se convencionou chamar “justiça social”. Imperativo torna-se, então, escolher aquilo que deve ser priorizado em determinada sociedade: liberdade ou igualdade. Nisso consiste, no fim das contas, toda a disputa política, partidária e ideológica entre direita e esquerda: direitistas querem liberdade, esquerdistas querem igualdade.

Nesta acirrada disputa política, há ainda os que se posicionam como “centro”, seja porque defendem um suposto equilíbrio entre esses dois princípios, seja por pura indecisão, ou – mais frequentemente – simplesmente para não abrir mão da situação confortável e conveniente de não se posicionar, angariando simpatia e votos de ambos os lados, em nome de uma suposta isenção. Deixemos esses indecisos de lado – ou melhor, no centro mesmo – e vejamos o que pensam a esquerda e a direita em política. Tentei ser imparcial o máximo possível. Talvez isso ajude a tirar muita gente de cima do muro.

Veja também: Teste de perfil ideológico


O QUE PENSA A ESQUERDA

socialismoO discurso político de quem prefere se posicionar à esquerda é todo baseado na noção de “justiça social”. Teoricamente, todas as suas ações políticas têm como objetivo principal reduzir a desigualdade social entre ricos e pobres, que para eles é o maior problema que a sociedade enfrenta. Os esquerdistas entendem que uma das principais funções do governo é arrecadar dinheiro dos mais ricos por meio de impostos e redistribuir essa riqueza para a população mais pobre através de programas sociais. Com vistas a esse fim, defendem políticas públicas que promovam a redistribuição de renda, tais como a reforma agrária e o assistencialismo.

Seu pensamento encontra suporte teórico nas doutrinas econômicas e sociais do marxismo, socialismo e comunismo – ideologias revolucionárias baseadas na noção de “luta de classes”. Segundo essa ideologia, todas as nossas interações sociais refletem um conflito de interesses entre ricos e pobres, burguesia e proletariado. Para defender os interesses dos mais pobres frente ao poder econômico das chamadas “elites”, os esquerdistas costumam apoiar governos populistas, altas cargas tributárias, intervenção estatal no comportamento das pessoas, movimentos sociais em defesa das minorias, políticas de ações afirmativas (cotas), greves e sindicalismo. Alguns mais extremistas defendem ainda uma ditadura do proletariado, que seria alcançada depois de uma revolução socialista. Os principais exemplos contemporâneos de regimes de esquerda no mundo são Venezuela, Cuba, Coreia do Norte e China, além da extinta União Soviética.


O QUE PENSA A DIREITA

americaO discurso político de quem prefere se posicionar à direita baseia-se nas noções de liberdade e meritocracia. Pelo menos em teoria, suas ações políticas têm como objetivo principal reduzir a presença estatal nos assuntos privados e promover o capitalismo de livre marcado, assegurando as liberdades individuais dos cidadãos. Os direitistas entendem que uma das principais funções do governo é garantir serviços básicos como educação, saúde e segurança pública, mantendo sua atuação discreta, restrita ao que é essencial, sem maiores intervenções nas demais esferas da sociedade. Com vistas a esse fim, defendem políticas públicas e atitudes que promovam o Estado mínimo, tais como privatizações e empreendedorismo.

Seu pensamento encontra suporte teórico nas doutrinas do liberalismo econômico e do conservadorismo clássico – visão de mundo baseada em valores que perduram por séculos e sustentam os três grandes pilares da civilização ocidental, a saber: moral judaico-cristã, filosofia grega e direito romano. Para defender o direito à propriedade privada frente ao poder político do Estado, os direitistas costumam apoiar a redução dos impostos e da burocracia, o controle da inflação, a iniciativa privada, e a valorização da família tradicional. No Brasil, alguns extremistas, temendo a ascensão do comunismo, defendem ainda uma intervenção militar, culminando com a volta da ditadura – solução claramente contrária ao princípio da liberdade. Os principais exemplos contemporâneos de regimes capitalistas no mundo são EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Japão.


ESPECTRO POLÍTICO HEXAGONAL

Deu muito trabalho, levou muito tempo e passou por muitas versões, mas finalmente consegui desenhar um espectro político decente, que representa bem a realidade política brasileira na atualidade. Ele é autoexplicativo. Você vai facilmente perceber que, na vertical, o espectro vai desde a liberdade absoluta (na parte de cima) até as ditaduras totalitárias (na parte de baixo). Dividindo-o ao meio em duas metades, todo o lado esquerdo representa ideologias de esquerda, assim como todo o lado direito, ideologias de direita. Sem mais explicações óbvias, eis abaixo, para vossa apreciação, a minha mais nova criação. Dei-lhe o nome de “espectro político hexagonal” ou, se me permitem ser menos modesto, “espectro político Andrade”. O que acharam?

espectro-politico-hexagonal-charlezine

Minha nação nordestina

Os 193 países do mundo (reconhecidos pela ONU) possuem juntos uma área total de aproximadamente 136.620.898 km². Dividindo isso igualmente entre eles, temos que 707.880 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país hoje. Considerando apenas o continente europeu, sua área total é de aproximadamente 10.180.000 km². Dividindo isso igualmente entre os 50 países que compõem a Europa, temos que 203.600 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país europeu. Ou seja, um país europeu médio teria cerca de 200 mil km² de área, enquanto que, em escala mundial, um país médio teria pouco mais de 700 mil km². Isso significa que boa parte da população mundial considera como sua pátria, sua nação, um território com área entre 200 e 700 mil km² (uma área do tamanho do estado de São Paulo, Minas Gerais ou Bahia).

Com dimensões continentais (8.515.767 km², quase o tamanho da Oceania), o Brasil está muito longe desse padrão; de modo que muitos Estados brasileiros possuem dimensões bem maiores que o tamanho médio de um país. Dizer que o Brasil é um país de proporções continentais já é um clichê. Em área, muitos de nossos Estados são maiores do que grandes potências europeias. Um professor universitário da Nova Zelândia, Roberto Rocco (que pelo nome desconfio que seja brasileiro), criou o mapa abaixo, que compara a área dos Estados brasileiros ao de vários países de todos os continentes:

brasil-estados-paises

Talvez isso explique tantos sotaques e culturas diferentes em cada estado brasileiro. É que, conscientemente ou não, percebemos mais facilmente como nossa pátria ou nação apenas a região geográfica em que vivemos (em alguns casos apenas o nosso estado e/ou estados vizinhos). Muitas vezes sem nos darmos conta disso, pensamos no Brasil da mesma maneira que muitas populações do mundo pensam o seu continente; e acabamos sentindo um certo patriotismo apenas pela nossa região ou estado.

Tomemos como exemplo o meu caso. Sempre vivi na Paraíba e, até hoje, só viajei por terra (moto, carro, ônibus, trem) para o interior paraibano e para os Estados vizinhos de Pernambuco e Rio Grande do Norte. Fora desse território limitado, só fiz viagens aéreas, dada a inviabilidade de percorrer o Brasil por terra. Por esse motivo, considero como minha terra natal, meu lugar de origem, apenas aquele raio que posso facilmente percorrer por terra em apenas um dia. De certa forma, meu “país” (considerando-se a média global) é apenas aquela área para a qual posso ir de moto ou carro quando me der na telha e voltar no mesmo dia. Sendo mais preciso, posso dizer que essa área tem cerca de 406.322 km² e corresponde aos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (em vermelho no mapa). Isso é quase o dobro do tamanho de um país europeu médio e mais de três vezes o tamanho da Inglaterra!

Nordeste

Não quero com isso sugerir uma segregação do Brasil. Meu discurso não é separatista. Pelo contrário, até penso que unir esses 6 estados em um só talvez seria uma boa ideia, visto que estamos falando de unidades federativas relativamente pequenas em área se comparadas com os outros estados, e geograficamente agrupadas, juntinhas. Se isso acontecesse no futuro, seríamos um estado mais forte e representativo, com tamanho parecido com o da Bahia ou Minas Gerais. Já comentei em outro post que a capital seria Recife. Mas não é bem isso que quero defender aqui. O objetivo deste post é apenas expor uma constatação curiosa: a de que, se os países do mundo tivessem todos mais ou menos o mesmo tamanho, a área em vermelho do mapa acima seria a minha nação.

Curiosidade 1: A União Europeia é formada por 28 países, quase como o Brasil, que tem 27 unidades federativas. No entanto, sua área total é de apenas 4.324.782 km², quase a metade do Brasil (8.515.767 km²). Fazendo com a UE os mesmos cálculos acima, temos que a área média de um país membro da UE é de 154.456 km²; enquanto que a área média de um estado brasileiro é mais que o dobro disso: 315.399 km².

Curiosidade 2: A área em vermelho destacada no mapa acima corresponde quase exatamente ao território conquistado pelos holandeses no século 17, que na época era conhecido como Nova Holanda (mapa abaixo), incluindo o litoral do Piauí e Maranhão.

Nova Holanda

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pág. 1 de 11
%d blogueiros gostam disto: