A arte de envelhecer

idosos velhiceO tema da velhice foi o objeto de brilhantes filósofos ao longo dos tempos. Um dos melhores livros sobre o assunto foi escrito pelo pensador e orador romano Cícero (106-43 a.C.): A arte do envelhecimento. Cícero nota, primeiramente, que todas as idades têm seus encantos e suas dificuldades. E depois aponta para um paradoxo da humanidade. Todos sonhamos ter uma vida longa, o que significa viver muitos anos. Quando realizamos a meta, em vez de celebrar o feito, nos atiramos em um estado de melancolia e amargura. “Todos os homens desejam alcançar a velhice, mas ao ficarem velhos se lamentam”, escreve. Para Cícero, “os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a idade, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade”.

Um  ótimo exemplo disso foi a francesa Jeanne L. Calment, que morreu aos 122 anos em 1997. Jeanne foi a pessoa que mais viveu no mundo desde os lendários personagens do Gênesis – como Matusalém (969 anos). “Deus deve ter se esquecido de mim”, brincava sempre a anciã. Em seu 110º aniversário, a francesa disse bem humorada: “Eu só tenho uma ruga, e estou sentada em cima dela neste momento”.

Permanecer intelectualmente ativo é uma forte recomendação de Cícero. “A memória declina se não a cultivamos ou se carecemos de vivacidade de espírito”, disse. Cícero lembra que Sófocles em idade avançada ainda escrevia suas tragédias. No fim da vida, Sócrates aprendeu a tocar lira. Catão, na velhice, descobriu a literatura grega. Machado de Assis, para citar um brasileiro, aprendeu alemão também na velhice, língua na qual escreveu seus melhores romances. “A vida segue um curso preciso e a natureza dota cada idade de suas qualidades próprias”, escreveu Cícero. “Por isso, a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos e a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.” Sem dúvida, ler as palavras de Cícero sobre o envelhecimento pode ajudar a aceitar melhor a passagem do tempo. Em outras palavras: ler Cícero dá mais resultado do que Botox!

Com informações de: Revista Época.

“Não sejas demasiado justo”

A crônica a seguir é de Rubem Alves e foi publicada no caderno de cultura da Folha de S.Paulo em abril de 2008. Para mim, em particular, este texto é especial porque, no mesmo ano, ele serviu de base para a prova de Língua Portuguesa do Concurso Público da UFPB – através do qual fui selecionado para o meu emprego atual. Não só por isso, mas também pela questão polêmica e relevante que aborda, trata-se de um texto belíssimo que merece ser lido e refletido.


Era um debate sobre o aborto na TV. A questão não era “ser a favor” ou “contra o aborto”. O que se buscava eram diretrizes éticas para se pensar sobre o assunto. Será que existe um princípio ético absoluto que proíba todos os tipos de aborto? Ou será que o aborto não pode ser pensado “em geral”, tendo de ser pensado “caso a caso”? Por exemplo: um feto sem cérebro. É certo que morrerá ao nascer. Esse não seria um caso para se permitir o aborto e poupar a mulher do sofrimento de gerar uma coisa morta por nove meses?

Um dos debatedores era um teólogo católico. Como se sabe, a ética católica é a ética dos absolutos. Ela não discrimina abortos. Todos os abortos são iguais. Todos os abortos são assassinatos. Terminando o debate, o teólogo concluiu com a seguinte afirmação: “Nós ficamos com a vida!” O mais contundente nessa afirmação está, não naquilo que ela diz claramente, mas naquilo que ela diz sem dizer: “Nós ficamos com a vida. Os outros, que não concordam conosco, ficam com a morte”. Mas eu não concordo com a posição teológica da igreja. Sou favorável, por razões de amor, ao aborto de um feto sem cérebro; e sustento que o princípio ético supremo é a reverência pela vida.

Lembrei-me do filme “A Escolha de Sofia”. Sofia, mãe de dois filhos, numa estação ferroviária da Alemanha nazista. Um trem aguardava aqueles que iriam morrer nas câmaras de gás. O guarda que fazia a separação olha para Sofia e lhe diz: “Apenas um filho irá com você. O outro embarcará nesse trem”. E apontou para o trem da morte. Já me imaginei vivendo essa situação: meus dois filhos (como os amo!), eu os seguro pelas mãos, seus olhos nos meus. A alternativa à minha frente é: ou morre um ou morrem os dois. Tenho de tomar a decisão. Se eu me recusasse a decidir pela morte de um, alegando que eu fico com a vida, os dois seriam embarcados no trem da morte. Qual deles escolherei para morrer? A ética do teólogo católico não ajudaria Sofia.

Você é médico, diretor de uma UTI que, naquele momento, está lotada, todos os leitos tomados, todos os recursos esgotados. Chega um acidentado grave que deve ser socorrido imediatamente para não morrer. Para aceitá-lo, um paciente deverá ser desligado das máquinas que o mantém vivo. Qual seria a sua decisão? Qual princípio ético o ajudaria na sua decisão? Qualquer que fosse a sua decisão, por causa dela uma pessoa morreria. Lembro-me do incêndio do edifício Joelma. Na janela de um andar alto, via-se uma pessoa presa entre as chamas que se aproximavam e o vazio à sua frente. Em poucos minutos as chamas a transformariam numa fogueira. Para ela, o que significa dizer “eu fico com a vida”? Ela ficou com a vida: lançou-se para a morte.

Ah! Como seria simples se as situações da vida pudessem ser assim colocadas com tanta simplicidade: de um lado a vida e do outro a morte. Se assim fosse, seria fácil optar pela vida. Mas essa encruzilhada simples entre o certo e o errado só acontece nos textos de lógica. O escritor sagrado tinha consciência das armadilhas da justiça em excesso e escreveu: “Não sejas demasiado justo porque te destruirás a ti mesmo” (Eclesiastes 7:16).

Sobre a prática de infanticídio em algumas tribos indígenas da Amazônia

Hoje é Dia das crianças. Quero aproveitar a data para alertar sobre um triste fato do nosso Brasil: Enquanto a maioria das crianças brasileiras ganha presentes hoje, uma minoria indefesa está sendo cruelmente assassinada nas aldeias indígenas.

Fiquei pasmo quando li numa matéria da Folha que o terrível costume indígena de enterrar crianças vivas – ou abandoná-las na floresta para morrer – persiste em pleno século 21 em cerca de 20 etnias brasileiras. Segundo a reportagem, os bebês são escolhidos para morrer por diversos motivos, desde nascer com deficiência física ou mental a ser gêmeo ou filho de mãe solteira. ONGs acusam o governo de cruzar os braços diante da morte de crianças e defendem que o Estado seja obrigado por lei a protegê-las. A polêmica chegou ao Congresso em 2007, quando o deputado Henrique Afonso (PV-AC) apresentou um projeto de lei que previa punir agentes de saúde e da Funai (Fundação Nacional do Índio) que não tomarem “medidas cabíveis” para impedir o ritual. Eles responderiam por crime de omissão de socorro, cuja pena varia de multa a prisão por até um ano. “As tradições dos povos indígenas devem ser respeitadas, mas o direito à vida é um valor universal e garantido pela Constituição”, afirma o deputado. Nada mais justo, na minha opinião. Enquanto lia, pensei no quanto esse projeto é necessário e deveria ser aprovado e transformado em lei o quanto antes.

Do outro lado da discussão, políticos, antropólogos e assessores da Funai pressionaram a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que adiou a votação da proposta por 4 anos. A deputada Janete Pietá (PT-SP) se diz uma atuante em defesa da autonomia dos povos indígenas e afirma: “A tradição de sacrificar crianças é mantida por poucas comunidades. O Brasil tem mais de 200 povos indígenas. Se isso ainda ocorrer em 20, são apenas 10%”. Nos bastidores, a Funai fez de tudo para enfraquecer o texto com o argumento de que ele criaria uma interferência cultural indevida e reforçaria o preconceito contra os índios. Em 2010, a Funai ainda processou a entidade evangélica Jocum pela exibição de um documentário sobre o infanticídio. A Justiça Federal determinou a retirada do vídeo do YouTube por entender que ele incitava o preconceito e causava dano à imagem dos índios.

Conselhos póstumos de um bom pai

Quando soube que tinha poucos meses de vida por causa de um câncer, o professor de gramática inglês Paul Flanagan só pensou em seus filhos, Thomas e Lucy. Em vez de sentir piedade de si mesmo ou entregar-se à tristeza, ele usou seus últimos dias para tentar ser um bom pai – mesmo à distância. Paul escreveu cartas, deixou mensagens gravadas em DVD e até comprou presentes para ser entregues às crianças em seus aniversários futuros. Separou também seus livros preferidos e, dentro deles, deixou bilhetes dizendo por que havia gostado de lê-los. Em novembro de 2009, aos 45 anos, Paul morreu por causa do melanoma, deixando sua mulher Mandy, seu filho Thomas, então com 5 anos, e sua filha Lucy, de 1 ano e meio.

Quase dois anos depois, ele continua presente com suas mensagens e fotos espalhadas por toda a casa. No mês passado, a família ganhou mais uma lembrança de Paul. É que Mandy encontrou, por acaso, um documento de texto em seu antigo computador intitulado “Sobre encontrar a realização”. Era uma carta de Paul destinada aos seus dois filhos. “Abri e, com lágrimas nos olhos, descobri que eram conselhos para viver uma vida boa e feliz”, disse Mandy ao jornal britânico Daily Mail. Ela ainda afirmou que a carta é uma reprodução fiel dos valores e do bom humor de Paul. “Quando alguém recebe a notícia de que tem poucos meses de vida, decide que sua vida não vai ser completa se não pular de paraquedas ou não tiver visitado o Grand Canyon. Esse não era Paul. Tudo que importava para ele estava bem aqui. Ele viveu e morreu de acordo com suas próprias regras, e sei que encontrou sua própria realização”, completa. O professor resumiu as reflexões que nortearam seu modo de viver em 28 itens. Letícia Sorg, repórter especial da revista ÉPOCA em São Paulo, traduziu a carta de Paul e as publicou. Agora, a carta serve de inspiração não só para os filhos de Paul, mas para todos os que a lerem. Leia a carta:


Nessas últimas semanas, depois de saber de meu diagnóstico terminal, procurei encontrar em minha alma e em meu coração maneiras de estar em contato com vocês enquanto vocês crescem. Estive pensando sobre o que realmente importa na vida, os valores e aspirações que fazem as pessoas felizes e bem-sucedidas. Na minha opinião, e vocês provavelmente têm suas próprias ideias agora, a fórmula é bem simples.

As três virtudes mais importantes são: lealdade, integridade e coragem moral. Se aspirarem a elas, seus amigos os respeitarão, seus empregadores o manterão no emprego, e seu pai será muito orgulhoso de vocês. Estou dando conselhos a vocês. Esses são os princípios sobre o quais tentei construir a minha vida e são exatamente os que eu encorajaria vocês a abraçar, se eu pudesse. Amo muito vocês. Não se esqueçam disso. Mostre coragem moral. Faça o que é certo, mesmo que isso o torne impopular. Sempre achei importante ser capaz de me olhar no espelho toda manhã, ao fazer a barba, e não sentir nenhuma culpa ou remorso. Parto deste mundo com a consciência limpa. Mostre humildade. Tenha a sua opinião, mas pare para refletir no que o outro lado está dizendo, e volte atrás quando descobrir estar errado. Nunca se preocupe em perder a personalidade. Isso só acontece quando se é cabeça-dura. Aprenda com seus erros. Você vai cometer muitos, então os use como uma ferramenta de aprendizado. Se você continuar cometendo o mesmo erro ou se meter em problema, está fazendo algo errado.

Seja gentil: você conseguirá mais do que você quer se der ao outro o que ele deseja. Comprometer-se pode ser bom.  Seja cortês, pontual, sempre diga “por favor” e “obrigado”, e tenha certeza de usar o garfo e a faca de maneira correta. Os outros decidem como tratá-los de acordo com as suas maneiras. Seja generoso, atencioso e tenha compaixão quando os outros enfrentarem dificuldades, mesmo que você tenha seus próprios problemas. Os outros vão admirar sua abnegação e vão ajudá-lo. Doe para a caridade e ajude os menos afortunados que você: é fácil e muito recompensador. Evite rebaixar alguém para outra pessoa; isso só vai fazer você ser visto como mau. Se você tiver um problema com alguém, diga a ela pessoalmente. Suspenda fogo! Se alguém importuná-lo, não reaja imediatamente. Uma vez que você disse alguma coisa, não pode mais retirá-la.

Divirta-se. Se isso envolve assumir riscos, assuma-os. Se for pego, coloque suas mãos para cima. Sempre olhe para o lado bom! O copo está meio cheio, nunca meio vazio. Toda adversidade tem um lado bom, se você procurar. Faça seu instinto pensar sempre sempre em dizer “sim”. Procure razões para fazer algo, não as razões para dizer “não”. Seus amigos vão gostar de você por isso. Sempre aceite convites para festas. Você pode não querer ir, mas eles querem que você vá. Mostre a eles cortesia e respeito. Nunca abandone um amigo. Eu enterraria cadáveres por meus amigos, se eles me pedissem. por isso eu os escolhi tão cuidadosamente. Sempre trate aqueles que conhecer como seu igual, estejam eles acima ou abaixo de seu estágio na vida. Para aqueles acima de você, mostre deferência, mas não seja um puxa-saco. Sempre dê gorjeta por um bom serviço. Isso mostra respeito. Mas nunca recompense um mau serviço. Um serviço ruim é um insulto. Sempre respeite a idade, porque idade é igual a sabedoria. Esteja preparado para colocar os interesses de seu irmão à frente dos seus.

Orgulhe-se de quem você é e de onde você veio, mas abra a sua mente para outras culturas e línguas. Quando começar a viajar (como espero que faça), você aprenderá que seu lugar no mundo é, ao mesmo tempo, vital e insignificante. Não cresça mais que os seus calções. Seja ambicioso, mas não apenas ambicioso. Prepare-se para amparar suas ambições em treinamento e trabalho duro. Viva o dia ao máximo: faça algo que o faça sorrir ou gargalhar, e evite a procrastinação. Dê o seu melhor na escola. Alguns professores se esquecem de que os alunos precisam de incentivos. Então, se o seu professor não o incentivar, incentive a si mesmo. Sempre compre aquilo que você pode pagar. Nunca poupe em hotéis, roupas, sapatos, maquiagem ou joias. Mas sempre procurem um bom negócio. Você recebe por aquilo que paga.

Nunca desista! Meus dois pequenos soldados não têm pai, mas não corajosos, têm um coração grande, estão em forma e são fortes. Vocês também são amados por uma família e amigos generosos. Vocês fazem o seu próprio destino, meus filhos, então lutem por ele. Nunca sinta pena de si mesmo, ou pelo menos não sinta por muito tempo. Chorar não melhora as coisas. Cuide de seu corpo que ele vai cuidar de você. Aprenda outro idioma, ou pelo menos tente. Nunca comece uma conversa com um estrangeiro sem primeiro cumprimentá-lo em sua língua materna; mas depois pergunte se ela fala inglês. E, por fim, tenha carinho por sua mãe, e cuide muito bem dela. Amo vocês com todo meu coração.

Papai

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