Minha nação nordestina

Os 193 países do mundo (reconhecidos pela ONU) possuem juntos uma área total de aproximadamente 136.620.898 km². Dividindo isso igualmente entre eles, temos que 707.880 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país hoje. Considerando apenas o continente europeu, sua área total é de aproximadamente 10.180.000 km². Dividindo isso igualmente entre os 50 países que compõem a Europa, temos que 203.600 km² é aproximadamente o tamanho médio de um país europeu. Ou seja, um país europeu médio teria cerca de 200 mil km² de área, enquanto que, em escala mundial, um país médio teria pouco mais de 700 mil km². Isso significa que boa parte da população mundial considera como sua pátria, sua nação, um território com área entre 200 e 700 mil km² (uma área do tamanho do estado de São Paulo, Minas Gerais ou Bahia).

Com dimensões continentais (8.515.767 km², quase o tamanho da Oceania), o Brasil está muito longe desse padrão; de modo que muitos Estados brasileiros possuem dimensões bem maiores que o tamanho médio de um país. Dizer que o Brasil é um país de proporções continentais já é um clichê. Em área, muitos de nossos Estados são maiores do que grandes potências europeias. Um professor universitário da Nova Zelândia, Roberto Rocco (que pelo nome desconfio que seja brasileiro), criou o mapa abaixo, que compara a área dos Estados brasileiros ao de vários países de todos os continentes:

brasil-estados-paises

Talvez isso explique tantos sotaques e culturas diferentes em cada estado brasileiro. É que, conscientemente ou não, percebemos mais facilmente como nossa pátria ou nação apenas a região geográfica em que vivemos (em alguns casos apenas o nosso estado e/ou estados vizinhos). Muitas vezes sem nos darmos conta disso, pensamos no Brasil da mesma maneira que muitas populações do mundo pensam o seu continente; e acabamos sentindo um certo patriotismo apenas pela nossa região ou estado.

Tomemos como exemplo o meu caso. Sempre vivi na Paraíba e, até hoje, só viajei por terra (moto, carro, ônibus, trem) para o interior paraibano e para os Estados vizinhos de Pernambuco e Rio Grande do Norte. Fora desse território limitado, só fiz viagens aéreas, dada a inviabilidade de percorrer o Brasil por terra. Por esse motivo, considero como minha terra natal, meu lugar de origem, apenas aquele raio que posso facilmente percorrer por terra em apenas um dia. De certa forma, meu “país” (considerando-se a média global) é apenas aquela área para a qual posso ir de moto ou carro quando me der na telha e voltar no mesmo dia. Sendo mais preciso, posso dizer que essa área tem cerca de 406.322 km² e corresponde aos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (em vermelho no mapa). Isso é quase o dobro do tamanho de um país europeu médio e mais de três vezes o tamanho da Inglaterra!

Nordeste

Não quero com isso sugerir uma segregação do Brasil. Meu discurso não é separatista. Pelo contrário, até penso que unir esses 6 estados em um só talvez seria uma boa ideia, visto que estamos falando de unidades federativas relativamente pequenas em área se comparadas com os outros estados, e geograficamente agrupadas, juntinhas. Se isso acontecesse no futuro, seríamos um estado mais forte e representativo, com tamanho parecido com o da Bahia ou Minas Gerais. Já comentei em outro post que a capital seria Recife. Mas não é bem isso que quero defender aqui. O objetivo deste post é apenas expor uma constatação curiosa: a de que, se os países do mundo tivessem todos mais ou menos o mesmo tamanho, a área em vermelho do mapa acima seria a minha nação.

Curiosidade 1: A União Europeia é formada por 28 países, quase como o Brasil, que tem 27 unidades federativas. No entanto, sua área total é de apenas 4.324.782 km², quase a metade do Brasil (8.515.767 km²). Fazendo com a UE os mesmos cálculos acima, temos que a área média de um país membro da UE é de 154.456 km²; enquanto que a área média de um estado brasileiro é mais que o dobro disso: 315.399 km².

Curiosidade 2: A área em vermelho destacada no mapa acima corresponde quase exatamente ao território conquistado pelos holandeses no século 17, que na época era conhecido como Nova Holanda (mapa abaixo), incluindo o litoral do Piauí e Maranhão.

Nova Holanda

Reportagem de 1994 relata um Brasil sem televisão e sem energia elétrica

Desisti de estudar jornalismo por um motivo muito simples: os textos jornalísticos não resistem ao tempo. Uma notícia incrivelmente bem escrita hoje, na qual o jornalista investiu tanto tempo, esforço e talento, estará velha amanhã. Os textos jornalísticos relatam fatos, e estes estão sempre presos ao tempo em que aconteceram. Passam-se os dias e aquela reportagem magnífica já ficou ultrapassada por novos fatos, novas notícias, novos tempos. Em vez de jornalismo, resolvi estudar filosofia porque os bons textos filosóficos, ao contrário dos jornalísticos, pretendem-se atemporais, almejam a imortalidade, resistem aos séculos. Platão e Aristóteles continuam atuais; enquanto que ninguém mais lembra o que William Bonner disse semana passada no Jornal Nacional.

Como eu disse, textos jornalísticos não resistem ao tempo. Mas não podemos generalizar. Alguns, de tão bem escritos, sobrevivem por décadas. Se não servem mais para relatar fatos atuais, permanecem vivos como importantes registros históricos de outras épocas. Um dos mais felizes exemplos disso é a reportagem a seguir, publicada em janeiro de 1994 na revista Veja. Apesar de estar mais de 20 anos “atrasada”, de relatar uma realidade social que ficou no passado e de ainda contar dinheiro em cruzados, ela continua viva como relato histórico ao deixar registrado como era a vida nos pequenos municípios do interior do Brasil antes da chegada definitiva da energia elétrica e, principalmente, da popularização da televisão. Leia a reportagem na íntegra:


A vida em Estouros, povoado a 290 km de Belo Horizonte, segue um ritmo que parece eterno. Não é necessário relógio. Acorda-se com o raiar do Sol e dorme-se quando as estrelas começam a surgir. Os homens trabalham a terra e as mulheres cuidam da casa e dos filhos. Nas refeições, as famílias se alimentam daquilo que a terra lhes devolve. Feijão, arroz, couve, abóbora. De vez em quando, carne de porco ou de galinha, criados no quintal. Ali não se conhece hambúrguer, pizza nem maionese. Tem gente que no mês passado tomou Coca-Cola pela primeira vez na vida. Os jornais só aparecem para embrulhar encomenda. Estouros é um lugar sem aquele eletrodoméstico que ocupa o lugar central na residência da maioria dos brasileiros — um aparelho de TV.

O que é a TV? O menino Ivanei Carlos Martins, 10 anos, 7 irmãos criados por um lavrador de Estouros, que todos os dias caminha 12 km para ir à escola e voltar, explica: “É uma caixa de som com um espelho na frente”. O irmão mais velho, Wilson, já viu TV nas redondezas. Mas, se pudesse, Wilson não compraria um aparelho. Uma égua de 3 anos teria maior utilidade: “Eu descansaria das pernas. A gente anda sempre a pé ou no caminhão do leite”. Wilson assistiu a uma exibição do programa Aqui Agora, do SBT, e ficou de olhos esbugalhados. Não se conforma até hoje: “A gente vê batida de carro, roubo”, espanta-se. “Tem bandido que mata a pessoa à toa. Aqui não tem nada disso. Aqui a gente mata porco. E para comer”. Outro habitante de Estouros, Luciano Felisberto Filho, tem outra lembrança do único programa de TV a que já assistiu. “Não dá para assistir tanta coisa junta. Não entendo o que vejo. O povo fala muito”.

É mesmo estranha a vida sem o espelho falante do pequeno Ivanei. O povoado de Serra Velha, em Santa Catarina, que tem 300 habitantes e 60 casas, fica encravado numa montanha e o acesso é restrito a uma única estrada. Ali nunca se ouviu falar do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Tampouco de Roberto Carlos ou Pelé. O ídolo naquelas paragens é o professor Santanor Petersen, único na região, proprietário de uma caminhonete que faz 30 quilômetros por hora como velocidade máxima. Bem diferente dos veículos saídos de uma linha de montagem, a caminhonete do professor Petersen tem a carroceria de madeira, que sobrou de um corte de árvores, e o motor de um barco. Pessoa mais bem informada da cidade, o professor não sabe que o atual presidente da República se chama Itamar Franco.

Esse país indiferente à passagem do tempo, com muito menos dinheiro, conforto e violência, integra uma das mais bem-sucedidas utopias nacionais. A do Brasil rural, de pessoas simples e valores estabelecidos, de pequenos heróis e pequenos vilões naturais em qualquer parte. É um país delicioso de ver e explorar, como descobriram as novelas rurais que a Globo produz e eles não vêem. Mas é uma utopia urbana achar que o povo desses lugares quer ficar assim. TV é eletricidade, eletricidade é progresso, e não há como preferir um lampião de querosene a uma lâmpada, nem é possível achar que o cidadão que não sabe o nome do presidente é mais feliz do que aquele capaz de recitar a lista de todos os ocupantes do Planalto de 1964 para cá. É só mais ignorante.

Há 6 meses, em Lagoa do Oscar, lugarejo do interior de Minas, correu o boato de que, enfim, os postes de luz chegariam ao local. Foi um alvoroço. O roceiro Domingos Ferreira Conceição, um senhor já de meia-idade, percorreu 110 km apenas para fazer uma troca. Entregou uma espingarda nova para um muambeiro, que lhe deu uma TV portátil trazida do Paraguai. O roceiro aguardou 4 meses pela luz. Como ela não veio, vendeu a TV para um caminhoneiro, que pagou 20 mil cruzeiros reais por ela. Mas não desistiu. “As crianças só falam do dia em que terão uma TV em casa”, diz.

Com 3 mil moradores, a 700 km de Salvador, Muquém do São Francisco é outro exemplo. Ali não existe luz elétrica, água encanada nem rede de esgoto. Mas tem TV. Um aparelho, de propriedade da prefeitura, ligado a um gerador a óleo diesel. Todos os dias, o funcionário Francisco Raimundo Cardoso pega o televisor de 20 polegadas em um barraco onde ele fica trancado e o transporta até a praça da cidade. Ali, cercada com arames farpados, a TV fica ligada das 6 da tarde até às 11 da noite.

Muquém é um município paupérrimo, com orçamento de 10 milhões de cruzeiros reais por mês. Com esse dinheiro, o prefeito Carlos Moreno Pereira paga o salário de 130 funcionários públicos e investe 2 milhões de cruzeiros reais na área de saúde. As escolas da cidade lhe custam o mesmo que a conta do gerador da TV: 4 milhões por mês. Até o prefeito acha um absurdo. “É um luxo gastar dinheiro com o gerador”, reconhece. Mas não há alternativa. Desde que a TV foi instalada, no final de 1991, é sucesso absoluto. Nos dias normais, reúne 30 pessoas na praça. Em grandes momentos, passa de 80. Quando se transmite futebol, a plateia se divide. As mulheres querem ver as novelas; e os homens, futebol. A última palavra é da primeira-dama, Vera Lúcia Pereira, que sempre acaba dando preferência à plateia feminina.

Captava por antena parabólica diretamente do Rio de Janeiro e de São Paulo, a TV de Muquém tem uma peculiaridade: não apresenta comerciais. Enquanto os telespectadores do país inteiro assistem a um carrocel de anúncios publicitários, ali a tela fica escura. O impacto sobre os hábitos de consumo é menor. A plateia só é atingida pelo merchandising inserido dentro dos programas. Por essa razão, as donas de casa começam a trocar os temperos caseiros por industrializados e ficam satisfeitas quando descobrem que a TV mostra a mesma pasta de dentes que guardam na despensa.

“A TV é vista em muitas comunidades como símbolo de status“, afirma a socióloga Sara Chicid da Via, da Universidade de São Paulo (USP). “As pessoas mudam de comportamento em função do que passam a ver”. Um dos mais antigos hábitos dos adolescentes de Muquém era o “papo do comitê”. Eles se encontravam todas as noites nas escadarias de um prédio utilizado como comitê de um partido político para conversar e fazer brincadeiras. “Eram mais de 20 pessoas”, lembra Carla Rejane Almeida, 18 anos. Nesses papos se falava , por exemplo, de Noemi, a garota mais bonita da cidade, e de Reivaldeo e Gildásio, os “gatos” mais paquerados. Agora não se fala mais disso. Estão todos assistindo à televisão na praça.

32 livros com “qualquer coisa e a filosofia”

Luís Gustavo Guadalupe Silveira, professor de filosofia no IFTM e doutorando em filosofia pela USP, publicou no Facebook uma lista que fez durante visita a uma livraria de Uberlândia, interior de Minas Gerais. Vasculhando a sessão “Filosofia” nas prateleiras, ele encontrou 15 títulos de livros sobre a cultura pop terminando com a expressão “e a Filosofia”. Bandas, filmes, séries de TV… É incrível a quantidade de coisa que consegue vender fazendo associações com a filosofia. Com uma pesquisa rápida no Google, confirmei que todos os livros estão realmente à venda no Brasil e ainda aumentei a lista para 32 títulos! A ideia não é de todo desonesta, explica Luís Silveira. Para ele, parece haver um lado bom nessa exploração mercadológica da filosofia. Ele garante que, dentre os livros citados na lista, todos os que ele conhece possuem “ensaios bem interessantes” e usam os temas “como pretexto ou objeto de reflexão filosófica”. Confesso que não li nenhum desses livros, mas confio na palavra do colega. Certamente esse pode ser um bom começo para leigos e alunos iniciantes tomarem gosto pela filosofia e se interessarem pelos clássicos. “Quem sabe essas ‘drogas’ mas leves não venham a ser a porta de entrada para as mais pesadas?”, sugere o professor. Veja abaixo as capas e, logo em seguida, a lista dos títulos:


BANDAS

U2 e a Filosofia

Metallica e a Filosofia

Os Beatles e a Filosofia

Pink Floyd e a Filosofia

Black Sabbath e a Filosofia


SÉRIES

Lost e a Filosofia

House e a Filosofia

Seinfeld e a Filosofia

24 Horas e a Filosofia

South Park e a Filosofia

Os Simpsons e a Filosofia

Jogos Vorazes e a Filosofia

The Walking Dead e a Filosofia

A Família Soprano e a Filosofia

The Big Bang Theory e a Filosofia


FILMES

X-man e a Filosofia

Batman e a Filosofia

O Hobbit e a Filosofia

Star Trek e a Filosofia

Star Wars e a Filosofia

Watchmen e a Filosofia

Crepúsculo e a Filosofia

Harry Potter e a Filosofia

A Paixão de Cristo e a Filosofia

A Guerra dos Tronos e a Filosofia

As Crônicas de Nárnia e a Filosofia

Buffy, a caça vampiros e a Filosofia

Alice no País das Maravilhas e a Filosofia

Garota com Tatuagem de Dragão e a Filosofia


OUTROS

Jesus e a Filosofia

Hip Hop e a Filosofia

Super-Heróis e a Filosofia


NOTA: É claro que não espero que minha pesquisa tenha sido exaustiva. Certamente deve haver outros livros lançados no Brasil que seguem o mesmo estilo e que não entraram na lista. Sem falar que a cada semana outros títulos são publicados. Se você se lembra de algum título que essa lista deixou escapar, por favor, avise-me nos comentários.

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