O professor anacrônico

Artigo do blog Ensino e Pesquisa em Direito.

Veja também: O melhor professor que já tive
O computador pode substituir o professor?

O professor anacrônico é uma figura muito presente na educação brasileira, em todos os níveis. Ele é definido por aquilo que considera ser basicamente seu trabalho: “dar aula”, isto é, expor o assunto da ementa à turma, elaborar e corrigir provas, além de eventualmente tirar dúvidas dos alunos. No atual século 21, essa personagem é, sem exagero, uma peça de museu, assim como as pesadas armaduras de guerra, as máquinas de escrever e os telégrafos. Ou pelo menos é isso o que pretendo defender neste texto.

A oralidade foi a forma mais importante de transmitir informação e conservar a cultura, até o advento da invenção de Johannes Gutenberg, em meados do século 15. A prensa de tipos móveis permitiu disponibilizar a informação numa escala muito maior do que até então era possível, através da produção massiva de livros, panfletos e jornais. As primeiras universidades europeias (que ensinavam teologia, medicina, direito e “artes liberais”) surgiram entre o século 11 e 13 e, nesse período, a produção de livros, originais ou cópias, era feita por um demorado processo manual. Nesse contexto, de escassez de meios de informação, as aulas expositivas não eram apenas úteis, mas necessárias para a transmissão do conhecimento acumulado.

Hoje temos meios de comunicação inimagináveis para os professores medievais: uma quantidade enorme de material impresso e virtual, sendo que facilmente e por baixo custo é possível obter cópias de textos; diversos programas de rádio e televisão; sites de todo tipo e qualidade; blogs, redes sociais, canais online de vídeo, etc. Por isso, usar a sala de aula para quase somente expor conhecimentos acumulados é uma atividade que está em descompasso com as mudanças sociais desde pelo menos a época da invenção da prensa de tipos móveis. O professor anacrônico está desatualizado em 500 anos!

Uma aula que é quase somente a exposição de um assunto não é muito diferente da leitura de um livro. Algumas pessoas podem achar mais fácil aprender por uma explicação oral. Isso, porém, confunde a diferença de mídias com a diferença entre exposições de conteúdo: a diferença da explicação feita por um professor para a explicação lida em um livro é praticamente a mesma diferença entre as explicações lidas em livros diferentes, ou entre as explicações dadas por professores diferentes. O detalhe é que algumas pessoas acham mais cômodo ouvir do que ler – mas, para isso, elas não precisam de um professor, precisam apenas de um áudio. Um professor desse tipo, o professor anacrônico, é hoje tão dispensável que a Universidade Jiujiang, na China, já começou a testar uma robô professora, capaz até de repetir alguma lição, se solicitada.

A exposição de um assunto pode ser feita de forma organizada e sistemática através de vídeos, que podem ser vistos fora da sala de aula – o que representa uma economia de tempo em sala importante para o professor. Do ponto de vista didático, um vídeo bem feito geralmente é muito superior a uma aula puramente expositiva, além de ter a vantagem de poder ser assistido no momento mais conveniente, poder ser interrompido, assistido de novo quantas vezes for necessário, e ainda acelerado (prática que tem se tornado comum entre os estudantes, porque força a concentração e poupa tempo). Ademais, repetir sempre a mesma aula é cansativo e desestimulante para um professor.

Seria o professor anacrônico essencial para tirar dúvidas, elaborar e corrigir provas? Em termos. Como suas aulas expositivas vindas direto da Idade Média, a criação e execução dessas atividades passaram por mudanças nos tempos atuais: uma forma de auxílio bastante usada e estimulada em grandes universidades é a discussão entre pares, isto é, alunos, professores e staffs (professores auxiliares, estagiários, monitores, etc.) dialogam entre si para tirar dúvidas e discutir a matéria – plataformas de cursos online de alta qualidade usam fóruns muito organizados para fazer isso. Essa abordagem educativa é contrária à antiga visão de que o conhecimento é transmitido, de forma vertical, da brilhante cabeça do professor para a vazia cabeça dos alunos, e coerente com uma visão contemporânea de que o conhecimento é produzido mediante discussão.

Na mesma linha, a correção de certos tipos de prova pode hoje ser automatizada, como já é no caso da maioria das provas de concurso público e vestibulares no Brasil, e também no caso da maioria das atividades implementadas por plataformas de ensino à distância. Obviamente, por enquanto, é necessário haver alguém para elaborar as questões. Vale observar que a correção usual de provas pelo professor é um processo cansativo, monótono e que toma tempo, além de ser, em muitos casos, desnecessário. Se é tão dispensável, por que a espécie do professor anacrônico ainda existe em número tão elevado no Brasil? Por que não foi substituída por seres mais inteligentes ou máquinas, tanto no setor público quanto no setor privado?

O mundo em que nasci

Minha primogênita nasceu e eu fiquei refletindo sobre o quanto esse mundo em que ela chegou é diferente daquele que eu conheci na infância. Cheguei à conclusão que, em certo sentido, sou velho. Pra começo de conversa, eu e ela nascemos em milênios diferentes: eu no segundo e ela no terceiro milênio da era cristã. Além disso, nascemos em séculos diferentes: eu no século 20 e ela no 21. Quando eu cheguei aqui, em 1989, haviam menos de 5 bilhões de pessoas no mundo, enquanto ela deve ser a pessoa viva de número 7 bilhões e alguma coisa. Ela talvez nunca entenderá completamente as coisas que vou lembrar agora, mas quem, como eu, nasceu nos lendários “anos 80” e viveu a infância intensa dos “anos 90”, com certeza entenderá a nostalgia.

1989

Veja também: Murilo Gun nos anos 80

Nasci na época da Guerra Fria. O capitalismo representado pelos Estados Unidos e o socialismo representado pela União Soviética dividiam o mundo em dois, e essa divisão era simbolizada pelo Muro de Berlim, que só foi derrubado meses depois da minha chegada ao mundo. O Brasil tinha acabado de sair da ditadura militar e eu fui testemunha (sem entender nada, é claro) das primeiras eleições presidenciais após a redemocratização do país. Collor foi eleito presidente, mas sofreu o impeachment pelo envolvimento em casos de corrupção. O dinheiro que ele supostamente desviou dos cofres públicos era muito diferente desse que usamos hoje. Até a implantação do Plano Real em 1994 pelo governo FHC, ou seja, até os meus 5 anos de idade, usávamos uma moeda chamada “cruzeiro”, que valia muito pouco. Sou ou não sou velho?

Naquelas eleições de 1989, pouca gente sabe, mas até Silvio Santos se candidatou a presidente! Ele mesmo: o dono do SBT. E por falar em dono de emissora de TV, foi nesse mesmo ano que o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, comprou a rede Record. Já naquela época, porém, era a rede Globo que dominava a preferência nacional. Quando eu ainda era um bebê, meus pais assistiam um Jornal Nacional bem diferente: sem cenário, vinhetas e grafismos. Menos de um ano após o fim do Cassino do Chacrinha, a Globo estreava o Domingão do Faustão, no ar até hoje. Eram comuns comerciais de cigarro, bem como dos carros da moda: Fusca, Chevette, Kombi… Por falar em carros da moda, a modinha das manhãs de domingo era assistir as corridas de Ayrton Senna na Fórmula 1. E já que falamos de esporte, cheguei a ver Zico jogar e comemorei o tetra do Brasil na Copa de 1994. Ainda na primeira infância, convivi com grandes bandas e músicos, como Legião Urbana e Luiz Gonzaga. Além disso, vi surgir os Mamonas Assassinas; e chorei as suas mortes naquele trágico acidente aéreo.

Eu sou da época em que se vendiam discos de vinil. Lembro de colocá-los para tocar na radiola do meu pai e de gravar fitas cassete por cima de outras no rádio, sempre precisando girar para rebobinar com uma caneta Bic. Naquela época analógica, dificilmente ouvíamos música ou TV sem algum chiado. Eu assistia filmes e desenhos no vídeo cassete, sempre cuidando de rebobinar a fita VHS antes de devolvê-la à locadora para não pagar multa. Eu jogava Mario World num Nitendo, e precisava soprar a fita para ela pegar. Eu sou do tempo dos disquetes, dos minigames e dos celulares “tijolão” com toques monofônicos. Eu sou do tempo de “bater um retrato” com câmera analógica e depois levar o filme de “36 poses” para revelar as fotos, torcendo para nenhuma ter queimado. Eu sou do tempo de enviar pelos correios cartas redigidas em máquina de escrever. Sou da época em que curso de datilografia enriquecia o currículo.

Vivi toda a infância e adolescência em uma época analógica, na qual o uso de computadores e o acesso à internet eram atividades restritas a poucos especialistas. Muito pela condição econômica da minha família, até a vida adulta eu não sabia absolutamente nada de informática. Só quando comecei a trabalhar foi que pude fazer um curso básico e perder o medo de mexer em computador. Catarina, ao contrário, chega num mundo onde as crianças praticamente já nascem sabendo mexer em smartphones e tablets de última geração, mas que, no entanto, parecerão as mesmas velharias quando ela for contar a meus netos.

Pirataria e direitos autorais

Série de três artigos de opinião de Dani Duc sobre este polêmico tema.


A ideia de direitos autorais parece bastante simples: se alguém produziu uma obra de arte, esta lhe pertence. Simples, moralmente justificável, quem seria contra? Mas a ideia de que os direitos autorais servem para proteger o autor já foi, há muito, pervertida. Hoje em dia o que temos são instituições usando a ideia moralmente defensável para proteger seu lucro e não o direito do criador sobre sua criatura. Eu abro o livro “O Guarani” da Martin Claret, e está escrito lá que xerocar o livro é crime e que estou prejudicando o direito do autor. Além disso consta o copyright de 2005 by Martin Claret.

A última vez que verifiquei, José de Alencar morreu em 1877. Como poderia eu prejudicar o seu direito ao xerocar a obra, que está amplamente disponível e pela qual nem a própria Martin Claret pagou nada, porque os direitos de autor expiraram há muito? Não posso, mas a repressão ao xerox está lá. A justificativa moral do direito do autor está a serviço da proteção do interesse da empresa, não do autor! Amigos, o que prejudica o autor é colocar o meu nome no trabalho de alguém, não xerocar ou escanear um livro! Copiar ou digitalizar um livro não prejudica o autor, nem tampouco a empresa que fez o livro.

A noção de que uma edição possa encalhar porque as pessoas estão xerocando loucamente a obra não entra em minha cabeça. O que eu vejo é que as pessoas xerocam livros quando elas não iriam comprá-lo de qualquer maneira, por um motivo ou outro. As vezes elas não tem dinheiro para comprar o livro, então xerocam. Mas o que eu sempre vejo nestes casos é que a pessoa compra o livro e abandona a cópia xerocada assim que consegue o dinheiro. As vezes a obra é rara, e não tem como comprar. Nesse caso a edição já está esgotada, então a xerox não está causando encalhe, e só existe porque a compra não é possível em primeiro lugar. Ela está ajudando a manter viva a obra.

Outras vezes, a pessoa não precisa da obra inteira, mas de apenas algumas páginas ou capítulos para consulta. A noção de que, se fosse impossível o xerox, a pessoa gastaria o preço de uma edição inteira para ter algumas páginas, é no mínimo cínica e no máximo cruel. Se a pessoa não precisa da obra inteira, é lamentável desperdício comprá-la, e ela sabe disso! Então irá até a biblioteca, pedirá emprestado e tirará uma cópia, mas o fato é que ela não iria comprar o livro em primeiro lugar! E eu conheço casos em que a pessoa, se vendo obrigada a xerocar uma parte da obra, gostou tanto que foi e comprou o livro!

Se você publica um livro acredito que seja seu direito vetar que outra editora publique o mesmo texto. Tudo bem você proibir outras edições do livro, mas não faz sentido impedir a cópia xerox para uso privado! Tudo o que as editoras dizem em contrário é simplesmente mentira! Conheço casos de autores que liberaram a sua obra na internet, mesmo tendo lançado a versão em papel. Isto não parece ter prejudicado as vendas, ao contrário. Um destes autores é o Aurélio Marinho. Ele publicou pela Novatec o Expressões Regulares – guia de consulta rápida. Mas não precisa comprar, se não quiser. Está disponível online. Em vez de fracassar, agora saiu uma nova edição, revista e ampliada.

Frases como “A fotocópia de qualquer folha deste livro é ilegal e configura uma apropriação indevida dos direitos intelectuais e patrimoniais do autor” são simplesmente mentirosas! A primeira mentira é de que a reprodução de uma folha do livro é ilegal. Veja a lei de direitos autorais, artigo 46: “Não constitui ofensa aos direitos autorais: (…) II – a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro”. Então eu posso reproduzir uma folha do livro para meu próprio uso sem ferir a lei.

A segunda mentira é que estarei me apropriando dos direitos intelectuais do autor. Isso só ocorreria se eu pegasse o texto dele e colocasse meu nome, como se eu fosse o autor. Reproduzir “qualquer folha” do livro não é me apropriar dos direitos intelectuais do autor! E nem dos materiais, aliás. Seria apropriação dos direitos materiais se eu fosse uma editora que pegasse o texto, fizesse uma edição e lançasse nas livrarias sem sequer consultá-lo ou pagá-lo. Proibir o xerox de “qualquer folha” do livro chega a ser irônico, uma vez que seria impossível a um autor se graduar em qualquer área do saber sem nunca sequer ter lido um xerox.

Na verdade, a editora está tentando se defender do que ela acredita que irá prejudicá-la, e não o autor. E este é o meu principal ponto: quando as editoras alegam estar defendendo os direitos do autor, fazendo você se sentir um monstro porque xerocou uma obra, estão mentindo. Elas não estão interessadas no autor, estão apenas deturpando aquele conceito simples, moral e justificável que eu citei no começo deste post, para seus próprios fins. Elas tem sua parcela de lucro e quando olham aqueles estudantes xerocando pensam que poderiam estar ganhando ainda mais, se apenas eles comprassem em vez de xerocar.

Notem que as editoras não estão perdendo as vendas dos estudantes, porque – convenhamos – estas nunca pertenceram às editoras. O que elas pretendem, na verdade, é expandir as suas vendas, forçando os estudantes a comprar. É bem diferente. Aparentemente, é como se as editoras vendessem 100 livros normalmente, mas, por causa das xerox, estão vendendo apenas 70. Isso não é verdade. O mercado deles sempre foi de 70 livros, como expliquei anteriormente. No entanto eles querem expandi-lo à força para 100 livros, na base da coerção moral e legal. E isso, não uma xerox, é que é injustificável.


Eu fico lendo sobre a Indústria de Entretenimento choramingando sobre a injustiça e a maldade humana, com todas essas pessoas ruins que ficam pirateando, roubando conteúdo de pobres autores que dependem apenas de seu talento para sobreviver, e dou risada. Os estertores de uma indústria em extinção, processando seus antigos clientes, berrando sobre pirataria e autores explorados chama a atenção de ativistas e analistas. Eles enchem jornais e blogs escrevendo – digo, formando nossa opinião – que o problema da indústria é que o modelo de negócios mudou e a Indústria do Entretenimento vai ter que se adaptar, vender mp3 pela internet, fazer que nem a Apple, sempre tão à frente de seu tempo.

Mas o problema de verdade, que essa Indústria já percebeu e por isso berra e late na esperança vã de que as pessoas não percebam, não é a mudança do modelo de negócios. O problema de verdade é que os artistas, com a internet e o mp3, não precisam mais da Indústria! A Indústria do Entretenimento não está só com um modelo de negócios obsoleto, ela própria está obsoleta. Quando se vendia música em objetos físicos, uma Industria era necessária para prensar, encaixotar, distribuir e divulgar o disco… Sem essa Indústria, o artista não tinha como chegar no público.

As peças novas foram se encaixando e derrubando todo o esquema anterior. Com um site cheio de mp3 você distribui sua música para o mundo todo, instantaneamente. E quanto à divulgação, a internet já mostrou que cria seus próprios fenômenos e celebridades sem dar a mínima pro que a Time Warner acha ou quer promover. Muitos memes e virais estouraram e lá foi a velha mídia correr atrás, pensando “como não vimos isso?”. Inventaram uma expressão descoladinha para a coisa, “marketing viral”, mas o grande lance é: o artista não precisa mais da Indústria. Ele pode entrar em contato direto com o público e pensar ele mesmo em um novo modelo de negócio.


Das mentiras que mais me incomodam na atual campanha de copyright é a de que a lei está sendo usada para proteger o trabalho de pessoas criativas. Isso é para o que a lei deveria estar sendo usada. Mas hoje ela está sendo usada é para proteger lucros de uma indústria em obsolência, e como efeito colateral disso, está tendo o efeito exatamente inverso de seu propósito original. A lei de copyright está matando a arte caseira, feita sem a anuência das grandes indústrias. Ou, ao menos, está sufocando.

Um artista é, na verdade, um transformador mais do que um criador. Arte não sai do zero, do nada. A cultura humana, incluindo a arte, é um fenômeno social. Não existe “originalidade” em seu estado puro e destilado. Um artista sempre estará sob influência de outros. Aliás, originalidade, tal como a conhecemos hoje, é conceito novo, datado do romantismo. Até o século 18, ser “original” era uma característica ruim em arte. Existiam modelos a serem seguidos, e artista bom era quem seguia com maestria estes modelos. Não é apenas natural, mas é vital que trabalhos de arte, junto com toda uma outra gama de coisas, claro, sejam usados e transformados em novos trabalhos de arte.

A ideia de copyright é boa:  se você faz uma obra de arte, ela é sua. E é mesmo! Arte é trabalho (apesar do que muitas sogras acham), e o fruto de seu trabalho é, por direito incontestável, seu. Portanto, se você faz algo, eu não posso pegar esse algo e dizer que fui eu que fiz, ou publicar esse algo em algum lugar e ganhar dinheiro sem te falar nada, ou mudar esse algo em uma coisa nova e dizer que foi você que fez. A baderna se complica quando corporações entram na jogada. Corporações têm, legalmente, direitos e responsabilidades como pessoas.

O problema é que uma corporação não é uma pessoa. Ela é composta de várias pessoas, e na maioria dos casos, um monte de pessoas tem muito, mas muito mais poder do que uma só. E quando ela usa esse poder contra indivíduos é como um cara entrar no ringue contra 15 comandos da SWAT bem treinados que “são uma pessoa só”. A corporação posa como vítima de abusos de copyright que são questionáveis em primeiro lugar, age como se fosse um artista prejudicado em seu trabalho e usa o poder de milhares de indivíduos combinados contra um só.

Claro que as corporações não esperam que você as veja como, literalmente, uma pessoa que compôs a obra de arte, então ela antropomorfiza – diz estar agindo em nome das pessoas que o fizeram, quando não está. Ela, ou melhor, os indivíduos que a compõem, agem em seus próprios nomes. Ao usar o poder de milhares de pessoas agindo coordenadamente contra apenas uma de modo a sufocar algo que não apenas é natural, mas necessário para a evolução da arte, as corporações estão sufocando a arte.

Eu não acredito que corporações devam ser tratadas como indivíduos. Corporações são o resultado da soma do trabalho de muitos indivíduos, e devem ser tratadas como tal. As relações legais indivíduo-corporação, indivíduo-indivíduo e corporação-corporação são diferentes e devem ser tratadas como diferentes. Se alguém quiser transformar, usar, adaptar, mudar, ilustrar ou musicar um trabalho meu, vá em frente. Não precisa me pedir permissão, me avisar, ou pagar nada – apenas me dê o crédito quando eu merecer.

Se alguém quiser compartilhar algo que leu meu, reproduzir no seu blog, repostar nas redes sociais, imprimir em panfletos, citar em livros, usar para ilustrar um conto seu, vá em frente. Não precisa me avisar, pedir permissão nem me pagar nada (a não ser que queira, dinheiro é bem-vindo). Basta me dar o crédito quando eu merecer o crédito. Se você tem uma empresa, ou está agindo em nome de uma, fale comigo primeiro. Vamos conversar. Seu caso é diferente.

 

Epistemologia de um vestido polêmico

cor do vestido

Um assunto banal como a cor de um vestido mobilizou milhões de pessoas, gerou muita polêmica e sacudiu a internet esta semana. E o mais interessante: fez muita gente sem nenhuma experiência em filosofia sair do senso comum e discutir epistemologia! A foto do vestido postada numa rede social viralizou de tal modo que foi parar em quase todos os portais de notícias na internet e virou pauta para ser discutida ao vivo em muitos programas de televisão. Desde a noite da última quinta-feira, a cor do bendito vestido é o tema mais comum em conversas informais. Só se fala nisso agora! A polêmica dividiu as pessoas em basicamente dois grupos: as que veem o vestido preto e azul e as que o veem branco e dourado.

Eu, particularmente, já tentei, já fiz de tudo, mas não consigo ver esse vestido branco e dourado de jeito nenhum. Aliás, não consigo ver nenhuma cor além de preto e azul. Mas tem muita gente jurando que só consegue ver branco e dourado; e eu não duvido delas. Minha esposa foi quem primeiro me mostrou a famosa foto do vestido. “Você ainda não tá sabendo dessa foto?! Em que mundo você vive?!”, indagou surpresa. Mas ainda mais surpreso fiquei eu, quando ela disse que só vê o vestido branco e dourado. A princípio fiquei preocupado e pensei que ela fosse daltônica, já que para mim o vestido é claramente preto e azul. Mas depois de dar uma pesquisada na internet e ler bastante sobre o assunto, descobri que não era nada grave e que muita gente enxerga assim.

Discussões, opiniões e polêmicas à parte, eis a pergunta que todos se fazem nesse momento: Será que é possível chegarmos a um consenso sobre a cor do vestido na foto? Ora, o problema com os daltônicos é simples de resolver: se 99,9% da população enxerga de um jeito e os outros 0,1% enxergam diferente, fica fácil definir essa minoria que enxerga diferente como portadores de uma falha cognitiva qualquer, causada por uma mutação genética ou sei lá o quê. Mas o problema com esse vestido é que as pessoas se dividem quase meio a meio: metade vê preto e azul e metade vê branco e dourado. Assim, fica bastante difícil definir qual grupo está certo e qual tem probleminha nos cones e bastonetes – o que tem levado muitos “especialistas” a afirmar que ambos estão certos.

vestido

Antes de responder essa pergunta, é preciso esclarecer uma série de outros problemas bem mais fundamentais: Existe uma opinião certa e outra errada sobre isso, ou ambas as opiniões estão certas visto que o assunto é relativo? Existe uma “cor verdadeira” do vestido, ou as cores que percebemos não existem na realidade, sendo apenas formas diferentes de perceber a luz? Existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para determinar a cor do vestido, ou tudo o que temos são nossos falhos e enganadores sentidos? Podemos nos posicionar objetivamente sobre o assunto, ou não faz sentido toda essa discussão porque as cores são subjetivas? Podemos investigar esse fenômeno cientificamente, ou estamos condenados a conviver para sempre com essa incerteza e contentarmo-nos com uma mera opinião?

Como eu disse, muitos “especialistas”, talvez pela preocupação de serem politicamente corretos, não se posicionam e chegam afirmar que ambas as opiniões estão corretas, que aquele vestido é ao mesmo tempo preto/azul e branco/dourado, que isso é relativo, depende da interpretação de quem vê, etc. Eu, no entanto, acredito e defendo que não é possível ambas as opiniões estarem corretas, de modo que apenas uma delas está com a razão; e que existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para indicar a cor verdadeira do vestido sem a interferência de qualquer interpretação subjetiva que a mente humana possa fazer. Em suma, acredito que é possível sim investigar esse fenômeno cientificamente e tomar uma posição objetiva sobre esse assunto.

Não duvido que muita gente esteja vendo branco e dourado, mas, independente do seu psicologismo e da sua subjetividade, o vestido é objetivamente preto e azul. E não afirmo isso porque eu o vejo dessa cor. Eu bem sei que poderia facilmente estar errado. Sei também que eu não posso de modo algum ser critério de objetividade. Invertendo a lógica do raciocínio, o que quero dizer com isso é que, mesmo enxergando preto e azul, se o vestido fosse branco e dourado e eu tivesse meios mais confiáveis do que os meus sentidos para descobrir isso, não teria motivos para duvidar que ele é branco e dourado. Eu apenas ficaria um pouco decepcionado com os meus sentidos por eles estarem me enganando, mas isso também não é tão incomum quanto parece (basta ver algumas ilusões de ótica).

vestido (2)

Mas como eu sei que o vestido na foto é preto e azul? Bom, primeiro porque tanto a dona do vestido quanto a loja que vende esse modelo já publicaram outras fotos do mesmo vestido e nelas não resta dúvidas de que ele é preto e azul. Mas isso ainda não quer dizer muita coisa, já que o fenômeno que causou toda essa polêmica não é o vestido físico, mas uma certa fotografia do vestido. Ou seja, nada impediria que o vestido fosse de fato preto e azul, mas que, devido à iluminação precária do ambiente no momento da foto ou à baixa qualidade da câmera (provavelmente de um celular), ele tivesse saído branco e dourado na foto. Mas não é esse o caso; e nós temos meios objetivos para comprovar que, mesmo na foto, o vestido é preto e azul.

As ferramentas mais confiáveis que temos hoje para determinar a cor exata do vestido na foto são os softwares de edição de imagem. Isso porque os computadores não têm olhos, nervos óticos, cérebro, emoções, opinião e tudo o mais que nós temos que influencia na senso-percepção. Como máquinas que são, os computadores são exatos e objetivos, não fazem interpretação subjetiva de nada (precisamente porque não são sujeitos, mas objetos). Enquanto nós vemos cores na foto do vestido, um computador “vê” apenas códigos de programação, símbolos lógico-formais, códigos binários, alternância de cargas elétricas em circuitos eletrônicos, elétrons pulando de um átomo para outro em determinada ordem. Tudo o que eles fazem com esses dados é calcular.

No Photoshop ou em qualquer outro programa de edição de imagens de sua preferência, esse teste pode ser feito de pelo menos duas maneiras, ambas muito simples (talvez um designer gráfico saiba de outras). Primeiro, com a ferramenta de selecionar cor, se você clicar em qualquer parte do vestido, o computador interpretará aquele pixel como algum tom de cinza (preto) ou azul. Mas há uma maneira ainda mais fácil de tirar essa dúvida: basta aumentar a saturação da foto. Conforme as cores presentes na imagem ficam mais vivas e mais fortes, você notará com maior clareza que o vestido é preto e azul (e não branco e dourado, como talvez pensasse). Como as coisas devem funcionar na ciência, você pode reproduzir esse experimento na sua casa e repeti-lo quantas vezes quiser, que sempre obterá o mesmo resultado.

vestido

O Facebook e a máquina de escrever

Crônica de Marcelo Tas para a Folha.

Minha primeira vez na Redação da Folha coincidiu com a chegada dos computadores. Até então, o ambiente era dominado pelas máquinas de escrever e pela fumaça dos cigarros. Fui testemunha ocular da rejeição instantânea de alguns colegas à novidade tecnológica. Uns profetizavam que a chegada das “máquinas silenciosas com monitores parecidos com os de TV” era um sinal do fim do jornalismo. Outros se agarravam nostálgicos às suas Olivettis como náufragos diante de uma boia no convés do Titanic. Temo que o atual debate “jornalismo convencional x redes sociais”, da forma como tem sido conduzido nesta Folha, repete o falso dilema “computador x máquina de escrever”. A comparação entre ferramentas diferentes, somada à confusão entre ferramenta e usuário, conduz a conclusões distorcidas.

A mudança central que computadores trouxeram ao jornalismo foi conectar os profissionais na Redação e, depois, fora delas. As informações passaram a ser compartilhadas em tempo real, flexibilizando as decisões editoriais e os prazos de fechamento. Era o início tímido da aceleração espantosa que experimentamos hoje na publicação das notícias na era das redes sociais. Já as redes sociais não representam uma mudança de hardware, mas de software. Na história da comunicação, a transmissão da informação sempre foi unidirecional. Na revolução digital, as redes sociais subverteram esse fluxo. Leitores não querem mais ser só leitores. Querem também publicar, criticar, influenciar. Substitua leitores por telespectadores, ouvintes, empresas, consumidores, alunos, professores, chefes, funcionários, pais, filhos, torcedores, clubes de futebol e sinta o tamanho da encrenca.

Depois das manifestações de junho, a Folha passou a ser enfática em criticar as redes sociais. Em um editorial, chegou a alertar: “É honesto reconhecer um aspecto corporativo nessas críticas”. Não questiono a legitimidade das críticas, mesmo corporativas, e até concordo com algumas delas. O equívoco é como se fundamentam: na tentativa inglória de separação asséptica entre “jornalismo convencional” e redes sociais. Sérgio Dávila, em “Cidadão Face”, coloca de um lado a “imprensa profissional” e do outro, a geração Movimento Passe Livre, que ele condena pelo uso do Facebook. Na mesma coluna em que critica a Folha por “comer poeira” por não levar a sério denúncias surgidas na rede, a ombudsman pisa no mesmo tomate. Suzana Singer decreta que “no momento, blogs e redes sociais não têm capacidade para tomar o lugar da mídia convencional”.

Ora, blogs e redes sociais são apenas ferramentas, sem vida própria. Podem ser usadas bem ou mal, por profissionais ou amadores. Ao que me consta, esta Folha tem blogs e está nas redes sociais. Resta a pergunta: qual o significado, em 2013, da expressão “mídia convencional”? Não é mera questão semântica. Quem pensa fazer parte da “mídia convencional” parece ainda acreditar na existência de um “leitor convencional”. Mesmo contra a vontade, a mídia antiga já foi empurrada para a revolução digital pelos seus próprios usuários. É hora de nos desapegar dos falsos dilemas e reinventar o jornalismo.

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