Dicas de estudo #1 – A atitude correta

Na semana passada o G1 publicou uma matéria contando como eu fiz o Enem só para testar meus conhecimentos e acabei passando em medicina na UFPB, um dos cursos mais concorridos do Brasil. Muitas pessoas acharam essa história inspiradora, especialmente porque, em dado momento da matéria, eu digo o seguinte:

“Alguns amigos e familiares dizem que eu passei em medicina sem estudar. Isso não é verdade. Eu estudei o conteúdo do Enem, só que isso faz uns 7 anos. A grande questão é que eu estudei do jeito certo, e não como a maioria das pessoas estudam. As pessoas costumam estudar para o vestibular, para o concurso, para a prova de amanhã. Passado o dia da prova, simplesmente ‘deletam’ toda a informação, porque ela não foi sedimentada, ficou ali apenas provisoriamente, na memória de curto prazo. Esse é o problema de estudar para uma prova e não para a vida. Quando se estuda para a vida, do jeito certo, sem atalhos, sem ‘decoreba’, sem fórmulas mágicas, o aprendizado é para sempre e os bons resultados em provas são apenas uma agradável consequência.”

Veja também:
Aprovado em medicina fez prova só para testar conhecimentos (G1)
Aprovado em 7 vestibulares e 4 concursos dá dicas de estudo (G1)


medicina G1

Logo depois que a matéria foi publicada no G1, perdi o controle do meu perfil no Facebook e não consegui acompanhá-lo mais. Foram literalmente centenas de chamadas no bate papo, centenas de solicitações de amizade, centenas de compartilhamentos, milhares de comentários e incontáveis curtidas. As pessoas começaram a me procurar principalmente porque queriam saber o que eu quis dizer com “estudar do jeito certo”, o que significa “estudar para a vida”, como é a minha rotina de estudos, quais dicas e macetes eu tenho para dar, enfim, como passar em concursos e vestibulares. Então eu resolvi começar aqui no blog uma série com dicas de estudo. Quando anunciei isso no Facebook, as pessoas demonstraram bastante interesse em acompanhar a série, e o G1 novamente me procurou dizendo que estavam interessados em publicar outra matéria. Eles me convidaram a gravar nos estúdios da TV Cabo Branco, afiliada da rede Globo na Paraíba. Ganhei muito mais visibilidade depois que fui parar na página inicial do G1.

dicas de estudo (G1)

No vídeo, dou algumas dicas que considero valiosas não apenas para vestibulandos e concurseiros, mas para qualquer pessoa sinceramente interessada em melhorar seu rendimento nos estudos. São pequenas mudanças de hábitos que funcionaram muito bem comigo e que também podem funcionar com você:


Eu vejo esse pessoal nos cursinhos, quase sem vida social, passando horas trancado num quarto com a cara nas apostilas, com a mente fechada no programa das disciplinas, preocupados apenas com aquilo que eles acham que pode “cair” na prova, decorando dezenas de fórmulas e achando que isso vai lhes garantir um bom desempenho no Enem.

Na minha opinião, é muito improvável que isso aconteça; e o motivo é bem simples. O Enem, diferentemente dos antigos vestibulares, não mede conhecimento acumulado, mede competências. Ou seja, ele avalia se o estudante é capaz de interpretar textos, ler gráficos, resolver problemas de raciocínio lógico, se tem pensamento crítico… Mais do que possuir conhecimento, é importante saber o que fazer com ele.

Portanto, não estude só o que você acha que pode cair na prova; não fique com a mente fechada, preocupado em estudar só aquilo que está previsto no programa do Enem. Seja uma pessoa curiosa. Queira saber um pouco sobre tudo. Estude também aquilo que você acha que não tem a menor chance de cair na prova, mas que você simplesmente gosta de estudar, aquele assunto sobre o qual você tem um interesse pessoal, aquele assunto aparentemente inútil, mas que você consegue estudar apenas por prazer.

Além disso, seja uma pessoa antenada. Não fique tanto tempo trancado no quarto. Tire um pouco a cara das apostilas do cursinho. Leia bons livros, especialmente os clássicos. Leia jornais e revistas, assista aos telejornais, saiba o que acontece no mundo. Viaje para lugares diferentes, faça coisas diferentes, fuja da rotina, aprenda coisas novas todo dia, exercite o seu cérebro com novos desafios e, sempre que possível, não use calculadora. Tenho certeza que, vivendo assim, você estará muito mais preparado para o Enem e para a vida do que passando o dia todo do quarto pro cursinho, do cursinho pro quarto.

Você deve estudar não para passar no vestibular ou num concurso: você deve estudar para aprender; e a consequência agradável de estudar para aprender é passar nessas provas. Quando o sujeito estuda para passar em um exame, ele geralmente não passa. Mas quando ele estuda para aprender, passar é consequência. Todo aluno que, durante uma aula, pergunta ao professor se determinado assunto “vai cair”, dificilmente vai passar, porque ele está interessado em passar no exame e não em aprender.


REPERCUSSÃO NA IMPRENSA:

Aprovado em medicina fez prova só para testar conhecimentos (G1)

Aprovado em 7 vestibulares e 4 concursos dá dicas de estudo (G1)

Je suis Charles (Jornal A Tarde, de Salvador-BA)

Estudante conta como conseguiu passar em sete vestibulares
e quatro concursos públicos
 (Portal Stoodi)

Aprovado em Medicina no Sisu dá dicas de estudo (Blog do Enem)

Aprovado em medicina na UFPB fez prova só para
testar conhecimentos
 
(Portal Alagoas 24 horas)

Aprovado em sete vestibulares e quatro concursos públicos
dá dicas de estudo
 
(Circuito Mato Grosso)


Outros posts da série dicas de estudo:

1 – A atitude correta
2 – O ciclo do aprendizado
3 – Individual e ativo
4 – Educação egoísta
5 – Concentração e foco
6 – As quatro etapas
7 – Pierluigi Piazzi
8 – Lúcia Helena Galvão
9 – Como estudar sozinho em casa
10 – Como estudar para uma prova

O método de Sócrates

Extraído do livro Iniciação à História da Filosofia (Zahar, 1997), de Danilo Marcondes.

Nossa interpretação do pensamento de Sócrates enfrenta por um lado uma dificuldade ainda maior da que temos em relação aos pré-socráticos e aos sofistas, já que Sócrates efetivamente nada escreveu, valorizando sobretudo o debate e o ensinamento oral. Por outro lado, conhecemos extensamente suas ideias através de Platão, seu principal discípulo, que, sob o impacto de sua condenação e morte, resolveu registrar seus ensinamentos, tal como os conhecera, para evitar que se perdessem. Entretanto, trata-se, é claro, da visão de Platão sobre a filosofia de Sócrates e não do pensamento original do próprio filósofo – muito embora supõe-se que os diálogos escritos por Platão refletem bem a prática filosófica de Sócrates de discussão nas praças de Atenas com seus discípulos e concidadãos, bem como com seus adversários teóricos e políticos, os sofistas.

A filosofia de Sócrates pode ser caracterizada como um método de análise conceitual, ilustrado pela célebre questão socrática “o que é…?”, através da qual se busca a definição de uma determinada coisa, geralmente uma virtude ou qualidade moral. A discussão parte da necessidade de se entender melhor alguma coisa, através da tentativa de se encontrar uma definição satisfatória. Nos diálogos, a definição inicial dada pelos companheiros reflete sempre a visão corrente, o entendimento comum que temos sobre o tema em questão, nossa opinião (doxa), o que é considerado insatisfatório por Sócrates. O método socrático envolve, portanto, um questionamento do senso comum, das crenças e opiniões que temos, consideradas vagas, imprecisas, derivadas da nossa experiência, e portanto parciais, incompletas. É exatamente neste sentido que a reflexão filosófica vai mostrar que, com frequência, não sabemos de fato aquilo que, a princípio, pensamos saber. Temos, quando muito, um entendimento prático, intuitivo, imediato, que contudo se revela inadequado no momento em que deve ser tornado explícito. O método socrático revela a fragilidade desse entendimento e aponta para a necessidade e a possibilidade de aperfeiçoá-lo através da reflexão. Ou seja, partindo de um entendimento já existente, ir além dele em busca de algo mais perfeito, mais completo.

É importante notar que, na concepção socrática, essa melhor compreensão só pode ser resultado de um processo de reflexão do próprio indivíduo, que descobrirá, a partir de sua experiência pessoal, o sentido daquilo que busca. Não há substituto para esse processo de reflexão individual. Portanto, Sócrates jamais responde às questões que formula, apenas indica quando as respostas de seu interlocutor são insatisfatórias e por que o são. Procura apenas indicar o caminho a ser percorrido pelo próprio indivíduo: é este o sentido originário da palavra “método” (“através de um caminho”). A definição correta nunca é dada pelo próprio Sócrates, mas é através do diálogo e da discussão que Sócrates fará com que seu interlocutor – ao cair em contradição, ao hesitar quando parecia seguro – passe por todo um processo de revisão de suas crenças e opiniões, transformando sua maneira de ver as coisas e chegando, por si mesmo, ao verdadeiro e autêntico conhecimento. É por esse motivo que os diálogos socráticos são conhecidos como “aporéticos” (de “aporia“, nó, dificuldade, impasse) ou inconclusivos.

Sócrates caracterizou seu método como “maiêutica”, que significa literalmente a arte de fazer o parto – uma analogia com o ofício de sua mãe, que era parteira. Ele também se considerava um parteiro, mas de ideias. O papel do filósofo não seria, portanto, transmitir um saber pronto e acabado, mas fazer com que o outro indivíduo, seu interlocutor, através da dialética, da discussão no diálogo, dê à luz as suas próprias ideias (Teeteto, 149a – 150c). A dialética socrática opera inicialmente através de um questionamento das crenças habituais de um interlocutor, interrogando-o, provocando-o a dar respostas e a explicar o conteúdo e o sentido dessas crenças. Em seguida, frequentemente utilizando-se de ironia, problematiza essas crenças, fazendo com que o interlocutor caia em contradição, perceba a insuficiência delas, sinta-se perplexo e reconheça sua ignorância.

É este o sentido da célebre fórmula socrática: “Só sei que nada sei” – a ideia de que o reconhecimento da ignorância é o princípio da sabedoria. Só então o indivíduo tem o caminho aberto para encontrar o verdadeiro conhecimento (episteme), afastando-se de domínio da opinião (doxa). As palavras de Sócrates na conclusão do diálogo Teeteto (210c) podem ser citadas a esse respeito: “Mas, Teeteto, se você voltar a conceber, estará mais preparado após esta investigação, ou ao menos terá uma atitude mais sóbria, humilde e tolerante em relação aos outros homens, e será suficientemente modesto para não supor que sabe aquilo que não sabe”.

Veja também: A morte de Sócrates.

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