A obsessão pela bibliografia

Artigo de opinião de Rafael Falcón.

A obsessão pela bibliografia é um dos erros mais cometidos pelos proto-intelectuais – classe mais promissora do país, já que intelectuais totalmente formados inexistem por aqui. Quando digo proto-intelectuais me refiro àqueles estudantes dotados de sincero e esforçado desejo de saber, e não a uma classe de falsários que, para esconder sua mediocridade, procuram ter aparências de sabedoria. É sem dúvida natural que um jovem estudante, almejando a torre do conhecimento, queira alcançá-la por uma escada de livros; isso é razoável e parcialmente verdadeiro.

Não escapa a ninguém, é verdade, a sutil obviedade de que livros são meios e não fins. Aparentemente, porém, essa obviedade não foi suficientemente absorvida por nossa classe estudantil, não se manifesta em suas inclinações e atos com a espontaneidade da natureza. Insistem esses jovens leitores em procurar livros, sem se perguntar para que querem esses livros e se de fato têm as forças e concentração necessárias para levar esse estudo específico a cabo. Preciso saber história, comprem-se livros; literatura, comprem-se livros; religião, comprem-se! O resultado é uma pilha crescente de livros sobre assuntos variados, cuja conexão entre si é, o mais das vezes, o círculo intelectual que os recomendou. Livros sobre mito e religião, literatura e metafísica, comparam entre si suas camadas de poeira, na esperança de que a espessura dessas camadas traga a curiosidade de revisitá-los a seu volúvel comprador. Este é quem mais padece, porque gastou seu dinheiro e parte de suas energias com livros que nunca leu inteiros, e que se leu não sabe bem para que lhe serviram. A sensação de frustração o acompanha.

Um livro é o bastante para um bom estudante. Não pode ser qualquer livro, naturalmente; tem de ser aquele que responde ao seu desespero, à sua esperança de agora. Não deveria ser, no princípio, um livro de René Girard ou Tomás de Aquino. Não deveria ser um livro de teses. Um só livro da alta literatura basta para um ano de padecimento intelectual, para levantar dúzias de perguntas fundamentais e talvez responder alguma. Não estou dizendo isso para soar bonito. É assim que as coisas são. Tentar ler muitos livros de literatura em geral também não levará a lugar algum. A leitura apressada, que já pensa no próximo livro, não se entrega ao que está lendo agora. Não presta atenção, não se pergunta por que nem o quê. Assim não há benefício em ler. Dever-se-ia comprar apenas um livro, sem sequer pensar no próximo, e lê-lo apenas, como uma criança que crê integralmente que sua rua é a totalidade do mundo. Ela explorará cada casa, cada jardim, sem se preocupar com o que há mais adiante.

Alguns se têm concentrado, graças a Olavo de Carvalho principalmente, nos exercícios do Trivium – o plano de educação fundamental da Idade Média. Conheço os exercícios do Trivium, e pretendo falar deles no futuro. Por ora, porém, lanço a pergunta: de que te adiantaria uma bibliografia? Você acabaria sabendo algo sobre a história do Trivium e o que já se disse sobre o assunto. Isso sem dúvida tem valor, pode ser usado para o bem da humanidade, etc. Mas seu objetivo é tornar-se um especialista no Trivium? Seu interesse é em técnicas pedagógicas? Ou você antes está interessado em aprimorar sua leitura e escrita com base nos clássicos da literatura? Se for esse o caso, não valeria mais seu tempo e seu esforço procurar – digamos assim – um clássico da literatura? Sem dúvida é possível amplificar os resultados com técnicas e exercícios específicos, e esse conhecimento pode ser obtido pela pesquisa. Mas o tempo e esforço que você gastaria nessa pesquisa não seriam melhor empregados na essência, que é a literatura, do que em aditivos que não têm nenhuma utilidade sem a literatura?

Imagino objeções: posso ler literatura e estudar outras coisas ao mesmo tempo; essas outras coisas vão ajudar-me com a literatura; não tenho condições de compreender livros tão profundos sem apoio, etc. Responder a todas essas objeções levaria muito tempo e não parece estritamente necessário. De todo modo, parece-me que o problema fundamental é que ler literatura dói. Literatura é difícil, é densa, não te dá respostas repetíveis, apenas fatos. A estrutura da literatura é semelhante à estrutura da vida e, por isso, compreender literatura é um esforço parecido ao de compreender a própria vida. Diante de um tal esforço, é natural que queiramos fugir para adendos, detalhes, interpretações, bibliografias e discursos em geral. É um modo de postergar o trabalho duro e fingir, para nós mesmos, que estamos sim ocupados, cumprindo as etapas necessárias, os requisitos, porque ainda não estamos prontos. Proponho a pergunta: você está inventando obrigações para postergar o que é mais importante? Você precisa realmente desse livro que quer comprar ou dessa bibliografia de apoio que está pesquisando? Sem essa sinceridade consigo mesmo, não me parece que alguém possa obter uma formação efetiva e muito menos descobrir sua vocação intelectual.

Como se lê um ensaio de filosofia

Artigo do professor James Pryor, da Universidade de Princeton (EUA),
traduzido por Álvaro Nunes para o portal Crítica.

Veja também:
Como ler um texto de filosofia
Como ler um texto filosófico
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Vais ter dificuldade em compreender alguns dos textos que iremos ler. Isto é em parte devido a esses textos discutirem ideias abstratas em que não estás acostumado a pensar. Podem também usar vocabulário técnico que é novo para ti. Algumas vezes não será evidente qual é o argumento geral do texto. A prosa pode ser complicada e podes precisar de separar cada frase do texto. Eis algumas indicações para tornar o processo mais fácil e mais eficaz.

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1. Lê superficialmente o texto para encontrar a sua conclusão e ter uma ideia da sua estrutura

Quando se tenta ler um texto difícil, uma boa maneira de começar é ler primeiro superficialmente o texto para identificar a conclusão principal do autor. Tem em especial atenção os parágrafos de abertura e de fecho, uma vez que frequentemente os autores dir-te-ão aí aquilo a favor de que tencionam argumentar. Quando souberes qual é a conclusão principal do autor, tenta reescrevê-la com as tuas próprias palavras. Isto ajudar-te-á a ter a certeza de que compreendes realmente aquilo que o autor pretende demonstrar. Quando estiveres a ler superficialmente o texto, tenta também ter uma compreensão geral do que trata cada parte da discussão. Qual é a estrutura do texto? Às vezes os autores dizem no início do texto como será a sua argumentação. Isto torna o teu trabalho mais fácil. Os textos que lemos nem sempre têm uma estrutura fácil de compreender. Nem sempre terão a forma: “Esta é a conclusão que quero que aceites. Aqui está o argumento a favor dessa conclusão…”.

Os filósofos frequentemente fornecem argumentos auxiliares, argumentos para premissas importantes a que apelam para suportar a conclusão principal. Por exemplo, a discussão do autor pode ter a forma: “A conclusão que quero que aceites é A. O meu argumento para essa conclusão é o seguinte: B e C são verdadeiros, e se B e C são verdadeiros, então A tem de ser também verdadeiro. É geralmente aceite que B é verdadeiro. Contudo, é controverso se C é verdadeiro. Penso que deves aceitar C pelas razões seguintes…”. Aqui o argumento principal do autor é para suportar a conclusão A. Ao defender A ele avança um argumento auxiliar para suportar C. Tenta identificar estes argumentos auxiliares e as alegações que pretendem suportar, evitando confundir um destes argumentos auxiliares com o argumento principal do autor.

Os textos podem ser igualmente complexos noutros aspectos. Nem tudo o que o autor diz é uma conclusão positiva ou uma premissa para suportar a sua conclusão. Às vezes o autor suportará o seu ponto de vista com uma experiência mental. Outras vezes argumentará a favor de uma distinção em que o seu ponto de vista se apoia. Outras vezes defenderá que o ponto de vista ou os argumentos de outro filósofo devem ser rejeitados. Outras ainda defenderá um ponto de vista contra as objecções de outra pessoa. Estejas atento a palavras como estas enquanto lês: porque, desde, dado este argumento, assim, portanto, por isso, segue-se que, consequentemente, no entanto, contudo, mas, em primeiro lugar, por outro lado… Estes são indicadores que te ajudam a compreender a estrutura da discussão. Por exemplo, um artigo filosófico pode ter este aspecto: “O filósofo X avançou o argumento seguinte contra o dualismo… O dualista tem duas respostas ao argumento de X. Primeiro… Contudo, esta resposta tem problemas, porque… Uma resposta melhor é dizer… X pode ser tentado a contrapor o seguinte… Contudo…”. E assim por diante.

Eis outro exemplo: “O cético diz que não podemos dizer se estamos a ver as coisas como elas realmente são, ou se somos cérebros numa cuba alimentados com experiências falsas, como os habitantes de Matrix. Y fez a seguinte objecção ao cético… Por isso, concluo, que não temos razão para pensar que a nossa situação é tão má quanto o cético diz. É tentador responder desta maneira ao cético, mas não creio que funcione, pela seguinte razão… Y pode responder a este problema de uma de duas maneiras. A primeira é… Contudo, esta resposta não é bem-sucedida porque… A segunda maneira é… Contudo, esta resposta também não é bem-sucedida porque… Pelo que no fim de contas penso que a objecção de Y ao cético não pode ser mantida”. Nesse caso, o autor não precisa ser um cético. Concorda com Y que a conclusão do cético é falsa, mas pensa que temos que refletir mais no assunto para ver qual é realmente o defeito do raciocínio do cético. Neste texto, o autor passa a maior parte do tempo a defender o cético contra as objecções de Y, e a examinar as respostas que Y pode dar. A principal conclusão do autor é que as objecções de Y ao cético não funcionam. Mas note que a conclusão principal não é que o ceticismo é verdadeiro.

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2. Volta atrás e lê o texto cuidadosamente

Quando tiveres percebido qual é a conclusão principal do argumento e qual é a estrutura geral do texto, volta atrás e lê o artigo cuidadosamente. Toma atenção à forma como as várias partes se encaixam umas nas outras. Mais importante: vê quais são os argumentos centrais do autor. Que razões apresenta em suporte das suas conclusões? Em que parte do texto apresenta estas razões? Tem também em atenção o seguinte: Aponta onde o autor diz explicitamente o que entende por um determinado termo. Aponta que distinções o autor introduz ou defende. Tem em conta em particular os pressupostos injustificados em que pensas que o autor se apoia. Considera várias interpretações do que ele diz. Há alguma ambiguidade importante de que a sua argumentação não dê conta? Tudo isto te ajudará a compreender melhor o texto e será crucial quando tentares avaliar o argumento do autor e decidir se deves aceitar ou não a sua conclusão. Nas tuas notas podes esboçar as “peças” argumentativas mais importantes. Desenha esquemas de modo a representar a forma como achas que estas peças se encaixam. Se não o podes fazer, então precisas voltar a ler o texto de modo a compreender melhor o que o autor defende.

Deves estar preparado para ter de ler um texto filosófico mais de uma vez. Eu faço filosofia há mais de 10 anos e ainda tenho que ler os artigos várias vezes antes que consiga compreendê-los completamente. Digerir intelectualmente um texto de filosofia demora tempo e exige esforço e concentração. É mais do que certo que não vais compreender tudo num texto a primeira vez que o lês, e podem existir partes do texto que não compreenderás mesmo depois de o ler várias vezes. Deves fazer perguntas sobre essas partes do texto (nas aulas ou depois das aulas, como queiras). Podes dizer: O que é que se passa na página 13? Descartes diz X, mas não percebo como isto se ajusta com a sua anterior alegação Z. X segue-se supostamente de Z? Ou está a tentar aqui apresentar um argumento a favor de Z? Se é isso, por que pensa ele que X é uma razão a favor de Z?

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3. Avalia os argumentos do autor

Como é óbvio, só estarás em condições de avaliar os argumentos do autor quando tiveres feito o trabalho necessário para compreender o que o autor está realmente a dizer e como os seus argumentos funcionam. Quando o tiveres feito, podes começar a fazer perguntas como estas: Concordas com o autor? Se não, o que pensas que está errado no seu raciocínio? Apela ele a alguma premissa que penses ser falsa? (Por que pensas que é falsa?) Há algum pressuposto que o autor não explicite, mas que pensas ser falso? O argumento é confuso ou mal dirigido? Sentirás com frequência que os debates que examinamos são muito confusos e que não sabes em que argumentos acreditar. Não há forma de escapar a isto. Sinto-me assim constantemente. Tudo o que posso dizer é que se trabalhares muito, serás capaz de te orientares na confusão. Começas a compreender como os diferentes pontos de vista se relacionam mutuamente e quais são os seus prós e contras. Podes até chegar à conclusão de que as coisas são mais confusas do que pensavas, que são frustrantes e que tens de voltar aos esquemas. Isto pode repetir-se várias vezes e podes nunca chegar a uma conclusão definitiva. Mas cada vez que tentas entender o debate, descobres que compreendes as coisas um pouco melhor. É assim que progredimos em filosofia. Esse é o único caminho.

Às vezes uma questão filosófica conduz a três outras, que por sua vez conduzem a outras… e não podes explorar essas ligações imediatamente. De modo que tens que aprender a passar sem respostas definitivas. Podes não ser capaz de chegar a uma conclusão segura acerca de se deves aceitar um argumento filosófico, porque isso depende de outras questões P, Q e R, que ainda não abordaste. Isto é normal. Os teus próprios professores de filosofia sentem-se frequentemente desse modo a propósito de muitos argumentos que leram. Outras vezes, podes estar seguro de que um argumento é defeituoso, mas não tens tempo nem meios para compreender, ou explicar e sustentar tudo o que pensas estar errado no argumento. Nesses casos, podes provisoriamente aceitar uma das premissas do argumento, e avançar para outras que penses serem mais importantes ou mais fáceis de criticar. (É por este motivo que frequentemente ouves os filósofos dizerem que “Mesmo se admitirmos por hipótese tal e tal, continuo a pensar que o argumento de X é malsucedido, porque…”)

Como elaborar uma pergunta científica

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Uma pessoa se torna cientista não para salvar o mundo, enriquecer ou ficar famosa: acima de tudo, a motivação é simplesmente saciar uma curiosidade infinita. Ser cientista é fazer e responder perguntas. Mas como se faz uma pergunta científica? Primeiro, a pergunta deve ser respondível. Por exemplo, ela não pode se basear num raciocínio circular, no qual a resposta já está embutida nas condições. Além disso, a não ser no caso de trabalhos teóricos, a pergunta deve ser respondível com as ferramentas conceituais e operacionais disponíveis no momento. Mesmo que a pergunta central de um trabalho seja ótima, caso a tecnologia para respondê-la ainda não exista, ela será temporariamente tão improdutiva quanto uma má pergunta.

Segundo, a pergunta deve ser original. Boa ciência precisa ser criativa, não pode chover no molhado. Mesmo quando estudamos problemas antigos, já trabalhados por outros, precisamos criar perguntas originais, que levem a novas perspectivas. Você já parou para se perguntar que sentido tem um artigo, cuja discussão só tem “descobertas” acompanhadas de citações? Onde está a novidade? Terceiro, a pergunta precisa ser o mais objetiva e simples quanto possível. Perguntas complicadas ou mesmo indecifráveis costumam gerar má ciência. A grande maioria dos trabalhos inovadores tem uma pergunta simples e elegante como fio condutor.

Para elaborar uma pergunta relevante, estude o assunto do seu interesse exaustivamente, dando prioridade às grandes revisões e artigos seminais na área. Procure pelas lacunas no conhecimento. Dentre essas lacunas, escolha aquelas que te motivam mais a trabalhar. Isto é fundamental, então preste bem atenção: você precisa estar apaixonado pelo seu projeto! Ouvir sua voz interior é a chave da originalidade, na hora de escolher entre perguntas possíveis. Não se limite a seguir a moda, tentando responder apenas as perguntas com as quais todo mundo está trabalhando. Quem segue por estradas conhecidas vai apenas aonde os outros já estiveram.

Por fim, dentre as lacunas de conhecimento que realmente te interessam, escolha uma que pareça possível de ser trabalhada com os recursos que você tem disponíveis. Tendo feito essa escolha, elabore uma pergunta mais específica que ajude a completar essa lacuna de interesse ou ao menos parte dela. Ataque um problema de cada vez; não se perca atirando para todo lado. Pense diferente, sem barreiras; deixe sua criatividade agir. Nos primeiros brainstormings, acolha até mesmo as ideias aparentemente malucas.

Depois de criada a pergunta, você precisará imaginar qual resposta espera encontrar para ela. A isso damos o apelido de hipótese. Pense também em hipóteses alternativas, caso sua pergunta seja relativamente complexa. Depois de criar a hipótese, você precisará imaginar o que espera observar concretamente no seu sistema de estudo, supondo que sua hipótese é realmente a melhor resposta para a pergunta de interesse. A essa versão operacional da hipótese damos o apelido de previsão. Perguntas complexas podem levar  a mais de uma hipótese; hipóteses complexas podem levar a mais de uma previsão.

No começo, provavelmente você vai achar muito difícil elaborar uma boa pergunta científica. Quando somos crianças é muito mais fácil fazer perguntas, mas nosso sistema de ensino baseado na repetição automatizada e na prolixidade mata a criatividade aos poucos. Você pode até achar esse exercício frustrante e desistir, fugindo para o velho e preguiçoso refúgio do “descrever só por descrever” ou “comparar só por comparar”. Mas não adianta vir com a velha desculpa de que os antigos naturalistas não se preocupavam com perguntas. Muito pelo contrário: o trabalho do Darwin, por exemplo, só mudou o mundo porque estava centrado em perguntas geniais. Quem tem talento para a ciência e, além disso, muita persistência, acaba desenvolvendo essa habilidade após algum treinamento. É como qualquer outra habilidade complexa: a maestria vem da prática.

Veja também: Um estudo sem pergunta pode ser relevante?

O que define um bom cientista?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Essa pergunta, no fundo, não é tão difícil de responder: um bom cientista é aquele que produz conhecimento novo, seja investigando novas hipóteses ou destruindo hipóteses antigas que estavam incorretas. E um ótimo cientista é aquele que produz conhecimento tão original, que acaba por mudar substancialmente nossa forma de pensar sobre algum tema, ou que até mesmo inventa um tema inteiramente novo. Contudo, num mundo saturado de cientistas profissionais, tornou-se necessário responder essa pergunta de forma mais fina, criando-se um gradiente de qualidade a ser esmiuçado. Neste artigo conto um pouco sobre as formas de se avaliar cientistas e comento sobre as armadilhas envolvidas na cienciometria individual comparada.

Uma grande precisão cienciométrica nem sempre foi necessária. Até bem pouco tempo atrás, considerando que a ciência é uma cultura milenar, ninguém se preocupava muito em separar com exatidão o joio do trigo, porque o número de pesquisadores não era assim tão grande. Injustiças à parte, quem produzia má ciência era inicialmente ignorado por seus pares, e quem fazia descobertas relevantes era louvado. Isso porque, até meados do século 19, a pesquisa era uma atividade paralela para a maioria, que vivia de outros trabalhos. Poucos eram os profissionais, ou seja, aqueles que se sustentavam através da pesquisa. Dentre esses poucos profissionais, alguns contavam com fortunas de família (era o caso do Darwin, por exemplo) ou recebiam verbas de patrocinadores particulares, como os mecenas das artes. Raros eram os cientistas que contavam com verbas públicas. Contudo, no século 20, o quadro mudou radicalmente. Atualmente, no século 21, a grande maioria dos cientistas básicos se mantém com auxílios governamentais, e quase todos os cientistas aplicados contam com o apoio da indústria e das empresas. Isso fez o número de profissionais crescer exponencialmente nos países desenvolvidos (como a Alemanha) ou em desenvolvimento (como o Brasil), levando à uma produção maciça de conhecimento, mas também à uma saturação do mercado. Com isso criou-se um grande dilema: quem deve ser financiado com o dinheiro que vem dos impostos, ou seja, do meu e do seu bolso?

Essa grande pergunta tem várias facetas; mas ser financiado, na prática, significa duas coisas: (1) receber um salário ou bolsa para se dedicar integralmente à ciência e (2) receber verbas para cobrir os gastos das pesquisas. No caso das pesquisas em si, a situação é relativamente mais simples, mas ainda assim depende de quão caros são o material e a mão de obra necessários. Já em se tratando da subsistência do cientista, a situação fica mais complicada, especialmente para aqueles que fazem pesquisa básica, sem aplicação imediata para o desenvolvimento de tecnologia ou produtos, e portanto raramente financiada pela iniciativa privada. No caso de países em que a maioria dos cientistas básicos vive de salários e bolsas dados pelos governos, hoje em dia a briga por empregos é brutal em universidades e institutos de pesquisa.

Para resolver essa briga e decidir quem ganha qual cargo ou qual auxílio, várias abordagens já foram usadas. Antigamente, quando a competição não era tão forte, muitas vezes as decisões se baseavam em  conhecimento pessoal ou mesmo “herança”: geralmente quem era contratado eram os pupilos ou colaboradores próximos dos colegas já empregados. Os governos simplesmente confiavam no julgamento da comunidade científica e, infelizmente, muitas injustiças eram cometidas. Dos anos 1980 para cá, os órgãos de fomento à ciência começaram a procurar mecanismos de avaliação mais imparciais, mirando-se na ideia da revisão por pares, já usada nas revistas científicas há séculos. Quer dizer, cada candidatura a um cargo ou pedido de verba passou a ser avaliado por colegas, de preferência externos à instituição contratante, que se mantinham no anonimato. Pareceres eram emitidos pelos pares e então analisados por quem tinha o poder de decisão. Isso tornou o sistema mais imparcial, apesar de erros e injustiças continuarem a ser cometidos, mesmo que em menor escala.

Contudo, quando o número de profissionais e aspirantes atingiu um valor gigantesco no fim dos anos 1990, a revisão por pares tornou-se insuficiente em muitos casos. Foi preciso começar a buscar mecanismos baseados em indicadores, que pudessem ser avaliados por técnicos sem conhecimento científico ou até mesmo de forma automatizada. Resumidamente, num primeiro momento, definiu-se que mais era melhor: o melhor cientista era aquele que tinha mais publicações ou mais alunos orientados. Não importavam a qualidade dos artigos e nem dos alunos, apenas sua quantidade. Essa mentalidade ainda perdura até hoje, especialmente nos países em desenvolvimento. Porém, felizmente, isso já começou a mudar em alguns países e a qualidade passou a entrar na equação. O problema é que a única forma de se avaliar decentemente a qualidade de um cientista é conhecer bem sua área de pesquisa, ler seus artigos e saber o quanto eles influenciaram o conhecimento na área. Só assim é possível estimar com mais segurança a chance de que novos projetos de um pesquisador avaliado gerem resultados interessantes. Mas fazer isso para cada proponente é inviável num sistema com milhares competindo por verbas. Por isso, foram criados diferentes índices de qualidade, no caso das publicações; infelizmente os lados orientador e professor do cientista continuam negligenciados.

A Thomson Scientific (antigamente conhecida como Institute for Scientific Information), uma empresa americana, criou uma solução usada mundialmente: ela passou a monitorar a produção de uma amostra das principais revistas científicas mundiais, a fim de registrar quantos artigos elas produzem, quais desses artigos são citados por outras revistas e com que frequência. Daí nasceram a base de dados Web of Science (WoS) e o famigerado “fator de impacto” (IF, na sigla em inglês): um índice que mede a relevância de cada revista com base na frequência com que seus artigos são citados. Quanto maior o IF, melhor teoricamente é a revista. Esse índice dá uma medida relativamente boa de qualidade, porém que não é 100% precisa, já que não leva em conta fatores qualitativos, como o prestígio da revista, sua contribuição histórica, seu rigor na seleção de artigos e sua abertura para novidades que se desviem dos paradigmas vigentes (é muito mais fácil ser citado por concordar do que por discordar). Além disso, o IF só é comparável dentro de uma mesma área específica, já que o perfil de citações difere muito de uma ciência para a outra, ou mesmo entre especialidades de uma mesma ciência. Apesar dessas limitações, tornou-se possível assim avaliar a produção de um cientista tanto pelo número dos seus artigos, quanto pelo IF das revistas onde eles foram publicados.

Só que avaliar um cientista pelo IF médio das revistas onde ele publica tem um problema sério: o IF é uma propriedade da revista, não do cientista. Um artigo ter saído numa revista de alto impacto não significa necessariamente que ele mesmo teve um alto impacto. Ele pode até mesmo nunca ter sido citado. Por causa dessa limitação, começou-se a tentar medir o impacto individual de cada cientista. Assim, o próximo passo lógico nessa evolução foi contar quantas citações ao todo cada cientista já recebeu pelo total de suas publicações. Por essa lógica, quanto mais citado é um cientista, melhor ele deve ser. Porém, esse índice também não é completamente satisfatório, porque não leva em conta a distribuição das citações. Pode ser que 90% das citações de um cientista venham de um único artigo que ele publicou, sendo que seus outros artigos todos quase não tiveram impacto algum. Pode ser também que esse cientista hipotético tenha mais citações do que um outro, apesar de esse outro ter um número maior de artigos bem citados. A saída foi pensar num índice que contemplasse também essa heterogeneidade. Então chegou-se ao índice H. Ele é medido ranqueando-se todos os artigos de um cientista em ordem decrescente de acordo com seu número de citações. Estando todos ranqueados, o H é igual ao número em que o ranking do artigo é igual ao seu número de citações. Por exemplo, um cientista com H = 5 tem cinco publicações que receberam 5 ou mais citações. Agora sim, parecia que tínhamos chegado a uma medida mais precisa e fácil de se usar.

Mas nem tudo são flores… A primeira pegadinha na história do índice H é que ele só pode ser medido dentro de uma mesma base de dados, para que os valores sejam comparáveis entre cientistas. Até poucos anos, só tínhamos a base de dados WoS para fazer esse tipo de avaliação cienciométrica. E ela contém só uma amostra das revistas científicas existentes no mundo. Logo, as citações feitas em revistas não monitoradas são simplesmente ignoradas. Como a Thomson Scientific é uma empresa privada, ela define seus próprios critérios de inclusão de revistas e cobra um preço bem alto pelo acesso aos dados. Daí surgem diversos problemas políticos e práticos. Atualmente há concorrentes, tanto privados como públicos, como o Scopus e o Scielo. Mas o WoS continua sendo a principal base de dados usada por cientistas do mundo todo. Independente da acurácia do H no que diz respeito à citabilidade do cientista, a avaliação da qualidade ainda peca por não ser capaz de considerar aspectos qualitativos. Por exemplo, mesmo que 90% das citações se concentrem em um único trabalho do cientista, quem falaria alguma coisa contra ele, caso esse trabalho fosse a Origem das Espécies ou a Teoria Geral da Relatividade, por exemplo? Porém, como já dito, avaliar decentemente a qualidade fica cada vez mais difícil num sistema saturado.

Há ainda outro problema. A citabilidade, mesmo que medida acuradamente, também tem seu lado mau: trabalhos que realmente inovam, indo radicalmente contra a maré, dificilmente são aceitos para publicação nas melhores revistas e, muito menos, são citados nos primeiros anos. É bom lembrar que esses índices cienciométricos costumam ser medidos apenas para os últimos 3 ou 5 anos. Sujeitos como o Darwin, o Mendel e o Hennig mudaram a Biologia, porém nunca se sairiam bem nas avaliações cienciométricas modernas (não eram cientistas com H maiúsculo, de acordo com esse índice). No caso de muitos países em desenvolvimento, como o Brasil, a arte da cienciometria comparada tem ainda outro problema mais grave. A grande maioria dos cientistas básicos trabalha como professor universitário nesses países. E suas atribuições, obviamente, não envolvem só pesquisa, mas também formação de novos cientistas (orientação), ensino (graduação e pós), administração (cargos de chefia e coordenação de projetos) e extensão (divulgação científica, treinamento e consultoria educacional). Isso, desde o início da carreira. Desta maneira, como podemos ranquear os professores universitários por sua qualidade, tomando como critério apenas índices relacionados ao seu lado cientista, como IF médio, H ou similares?

Na minha opinião, isso é injusto, pois deveríamos considerar, ao menos, duas ou mais de suas facetas profissionais. É comum observarmos que alguns professores fazem ótimas pesquisas, mas dão péssimas aulas. Ou vice-versa. Outros são ótimos para captar recursos para o departamento, mas não produzem boa ciência, nem dão boas aulas. E há aqueles que são bons cientistas e bons professores, mas que não se comunicam bem com o público leigo, contribuindo para o estereótipo da “torre de marfim”. Cada profissional tem essas habilidades combinadas em diferentes medidas. Creio que, para sermos justos e darmos a cada um o que ele realmente merece, poderíamos seguir duas alternativas: (1) criar índices específicos para cada faceta ou (2) criar cargos específicos para cada uma. Eu prefiro a segunda, pois acho que seria ótimo acabarmos com a figura do professor faz-tudo, criando cargos distintos dentro da universidade para professores, pesquisadores, divulgadores e administradores realmente competentes no seu ramo. E, especialmente, cargos intermediários e não-vitalícios, para estágios iniciais da carreira após o doutoramento (tenure track, etc.). Isso é comum nos EUA e na Europa, por exemplo, onde os resultados são ótimos. Nesses países, há apenas um ou dois professores faz-tudo (catedráticos) por departamento, que só chegam ao cargo após terem muita experiência profissional.

Para terminar este artigo curto que acabou ficando longo, gostaria de enfatizar mais uma coisa importante: o respeito aos mais velhos. Por causa da atual atmosfera de competição acirrada e da pressão social dela resultante, tem aumentado também a tensão entre jovens e velhos cientistas. Vejo muitos colegas da minha geração ou mais novos criticando acaloradamente os colegas mais velhos e já estabelecidos. Criticam-se principalmente sua maneira de fazer ciência e sua velocidade de produção, ignorando-se o todo de sua contribuição e a bases que ela criou. Besteira. Cada geração tem seus valores e seu modus operandi. E cada uma contribui para a ciência à sua maneira. Quem hoje chama os mais velhos de cientistas antiquados, deve se lembrar de que provavelmente também será chamado assim daqui a uma ou duas gerações, pois a principal característica da ciência é a constante mudança, inclusive nos costumes.

O que faz um trabalho científico ser original?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

A originalidade é a principal diferença entre uma monografia de bacharelado (também conhecida como TCC), uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado. Enquanto nos dois primeiros níveis não é necessário apresentar um trabalho original, no terceiro a originalidade é uma condição obrigatória. No geral, isso significa dizer que, em uma monografia ou dissertação, não é necessário gerar conhecimento novo; basta o aluno resumir o conhecimento acumulado sobre um assunto de sua escolha, muitas vezes sem nem ao menos incluir uma opinião própria. Já no doutorado, o aluno é obrigado a apresentar uma novidade, senão seu trabalho de conclusão não pode ser chamado de tese. Mas o que garante a originalidade de um trabalho? Como diferenciar entre novidades e “mais do mesmo”? Essas perguntas não são tão fáceis de responder quanto parecem. A definição da originalidade de um trabalho científico depende basicamente do nível de rigor do curso de pós-graduação, da postura do orientador e da ambição do próprio aluno. Na média, o rigor varia muito entre culturas, atingindo seu nível máximo nos países anglo-saxões.

Em muitos cursos de pós-graduação de países latinos, como o Brasil e a Argentina, para uma tese ser considerada original é preciso muito pouco. Por exemplo, o doutorando pode simplesmente tomar como base um trabalho que ache interessante e aí mudar o táxon modelo ou a área de estudo, repetindo todo o resto da fórmula, e mesmo assim sua tese poderá ser aprovada. Obviamente, quem faz isso não está incorrendo em plágio. Mas por outro lado também não está sendo treinado corretamente no método científico e nem aprendendo a fazer boa ciência. Está apenas aprendendo um trabalho técnico, uma repetição de fórmulas. Já em países como EUA e Alemanha, um aluno de doutorado precisa ter uma nova ideia e testá-la para que seu trabalho possa ser chamado de tese. Não basta brincar de fazer um pouco diferente. É preciso pensar diferente, identificar os limites do conhecimento dentro do assunto escolhido e, a partir daí, criar e testar perguntas, hipóteses e previsões. Por exemplo, o aluno pode tomar como base diferentes fatos, hipóteses e teorias relacionadas ao táxon ou fenômeno de interesse, que já foram estudadas por colegas, e a partir delas fazer um raciocínio dedutivo que o leve a criar uma nova hipótese a ser testada.

É claro que essas diferenças não são uma questão de preto-e-branco. Há muitos trabalhos originais e relevantes que são desenvolvidos em outras culturas que não a anglo-saxã, assim como trabalhos repetitivos e monótonos desenvolvidos no Primeiro Mundo. Aliás, nos países desenvolvidos, às vezes vemos teses brilhantes que, na verdade, não saíram da cabeça do aluno, mas sim da cabeça do orientador. O orientador pensa de forma integrada em vários projetos, em diferentes níveis e numa escala de tempo grande, e apenas contrata doutorandos que trabalham como testadores das suas ideias. Nesses casos, qual é a relevância de uma tese dessas para a formação do jovem cientista? Por outro lado, há orientadores em países subdesenvolvidos que não ficam nada a dever aos seus colegas do Primeiro Mundo em termos de criatividade e originalidade e, além disso, treinam seus alunos corretamente.

Mas não dá para ignorar que, nos países subdesenvolvidos, o problema mais comum é a falta de treinamento no método hipotético-dedutivo. Considerando que a formação de um jovem cientista deveria ser focada principalmente no aprendizado desse método (além das outras habilidades básicas, como a comunicação escrita e oral), chega-se à conclusão lógica de que mesmo uma monografia de bacharelado deveria ser baseada em uma pergunta original. Senão, como o aluno vai aprender a usar o conhecimento acumulado para gerar conhecimento novo? Faz sentido obrigar o aluno a simplesmente mastigar e mastigar conhecimento na monografia e na dissertação, só cobrando dele criatividade no doutorado? Eu acho que não. Aliás, eu tenho certeza que não. Afinal de contas, em uma pós-graduação stricto sensu, queremos formar cientistas e não meros pesquisadores. A diferença entre os trabalhos de conclusão exigidos nos diferentes níveis acadêmicos deveria ser o grau de complexidade e aprofundamento, e não a originalidade. Desde a iniciação científica, os alunos precisam aprender a encontrar e processar conhecimento com o objetivo de produzir novidades.

Para concluir, sugiro aos cientistas aspirantes que procurem orientadores que valorizem a criatividade e a originalidade. Muitos alunos com bom potencial acabam mudando de carreira simplesmente por terem uma péssima primeira impressão da ciência no bacharelado, causada por professores que tratam seus laboratórios acadêmicos como se fossem linhas de produção de montadoras de carros. Você, que anda desapontado com a Academia: saiba que tem muita ciência interessante sendo desenvolvida por aí! Acorde, pois o seu laboratório não é o mundo! Não deixe que uma experiência ruim defina o conceito que você tem da ciência como um todo. Acredite: elaborar um projeto original dá um trabalhão, mas é infinitamente mais divertido e dá muito mais satisfação!

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