Coisas que até um ateu pode ver

Comentários sobre o livro Mind & Cosmos, do filósofo americano Thomas Nagel, escrita pelo Rev. Augustus Nicodemus e publicada originalmente no blog Tempora-Mores.


Um número razoável de cientistas e filósofos ateus ou agnósticos vem em anos recentes engrossando as fileiras daqueles que expressam dúvidas sérias sobre a capacidade da teoria da evolução darwinista para explicar a origem da vida e sua complexidade por meio da seleção natural e da natureza randômica ou aleatória das mutações genéticas necessárias para tal. Poderíamos citar Anthony Flew, o mais notável intelectual ateísta que, no início do século 21, anunciou sua desconversão do ateísmo darwinista e adesão ao teísmo, por causa das evidências de propósito inteligente na natureza. Mais recentemente o biólogo ateu James Shapiro, da Universidade de Chicago, publicou o livro Evolution: A View from 21st Century, que desconstrói impiedosamente o darwinismo.

E agora é a vez de Thomas Nagel, professor de filosofia e direito da Universidade de Nova York, membro da Academia Americana de Artes e Ciências, ganhador de vários prêmios com seus livros sobre filosofia, e um ateu declarado. Ele acaba de publicar o livro Mind & Cosmos (“Mente e Cosmos”), com o provocante subtítulo Why the materialist neo-darwinian conception of nature is almost certainly false” (“Por que a concepção neo-darwinista materialista da natureza é quase que certamente falsa”), onde aponta as fragilidades do materialismo naturalista que serve de fundamento para as pretensões neo-darwinistas de construir uma teoria de tudo. (Não pretendo fazer uma resenha do livro. Para quem lê em inglês, indico a excelente resenha feita por William Dembski e o comentário breve de Alvin Plantinga). Estou mencionando estes intelectuais e cientistas ateus por que quando intelectuais e cientistas cristãos declaram sua desconfiança quanto à evolução darwinista são descartados por serem “religiosos”. Então, tá. Mas, e quando os próprios ateus engrossam o coro dos dissidentes?

Neste post, eu gostaria apenas de destacar algumas declarações de Nagel, no livro, que revelam a consciência clara que ele tem de que uma concepção puramente materialista da vida e de seu desenvolvimento, como a evolução darwinista, é incapaz de explicar a realidade como um todo. Embora ele mesmo rejeite a possibilidade de que a realidade exista pelo poder criador de Deus, ele é capaz de enxergar que a vida é mais do que reações químicas baseadas nas leis da física. A solução que ele oferece – que a mente sempre existiu ao lado da matéria – não tem qualquer comprovação, como ele mesmo admite, mas certamente está mais perto da concepção teísta do que do ateísmo materialista. Ele deixa claro que sua crítica procede de sua própria análise científica e que, mesmo assim, não será bem vinda nos círculos acadêmicos:

“O meu ceticismo [quanto ao evolucionismo darwinista] não é baseado numa crença religiosa ou numa alternativa definitiva. É somente a crença de que a evidência científica disponível, apesar do consenso da opinião científica, não exige racionalmente de nós que sujeitemos este ceticismo [a este consenso] neste assunto. (…) Eu tenho consciência de que dúvidas desta natureza vão parecer um ultraje a muita gente, mas isto é porque quase todo mundo em nossa cultura secular tem sido intimidado a considerar o programa de pesquisa reducionista [do darwinismo] como sacrossanto, sob o argumento de que qualquer outra coisa não pode ser considerada como ciência.” (p.7)

Ele profetiza o fim do naturalismo materialista, o fundamento do evolucionismo darwinista: “Mesmo que o domínio do naturalismo materialista está se aproximando do fim, precisamos ter alguma noção do que pode substitui-lo” (p. 15). Para ele, quanto mais descobrimos acerca da complexidade da vida, menos plausível se torna a explicação naturalista materialista do darwinismo para sua origem e desenvolvimento:

“Durante muito tempo eu tenho achado difícil acreditar na explicação materialista de como nós e os demais organismos viemos a existir, inclusive a versão padrão de como o processo evolutivo funciona. Quanto mais detalhes aprendemos acerca da base química da vida e como é intrincado o código genético, mais e mais inacreditável se torna a explicação histórica padrão [do darwinismo]. (…) É altamente implausível, de cara, que a vida como a conhecemos seja o resultado da sequência de acidentes físicos junto com o mecanismo da seleção natural. (…) “Com relação à evolução, o processo de seleção natural não pode explicar a realidade sem um suprimento adequado de mutações viáveis, e eu acredito que ainda é uma questão aberta se isto poderia ter acontecido no tempo geológico como mero resultado de acidentes químicos, sem a operação de outros fatores determinando e restringindo as formas das variações genéticas.” (pp. 5, 6, 9)

Nagel surpreendentemente sai em defesa dos proponentes mais conhecidos da teoria do design inteligente na atualidade, Michael Behe e Stephen Meyer:

“Apesar de que escritores como Michael Behe e Stephen Meyer sejam motivados parcialmente por suas convicções religiosas, os argumentos empíricos que eles oferecem contra a possibilidade da vida e sua história evolutiva serem explicados plenamente somente com base na física e na química são de grande interesse em si mesmos. (…) Os problemas que estes iconoclastas levantam contra o consenso cientifico ortodoxo deveriam ser levados a sério. Eles não merecem a zombaria que têm recebido. É claramente injusta.” (p.11)

Num parágrafo quase confessional, Nagel reconhece que lhe falta o sentimento do divino que ele percebe em muitos outros: “Confesso (…) que não considero a alternativa do design inteligente como uma opção real – me falta aquele sensus divinitatis [senso do divino] que capacita – na verdade, impele – tantas pessoas a ver no mundo a expressão do propósito divina da mesma maneira que percebem num rosto sorridente a expressão do sentimento humano” (p.12). Para Nagel, porém, o evolucionismo darwinista, com sua visão materialista e naturalista da realidade, não consegue explicar o que transcende o mundo material, como a mente e tudo que a acompanha:

“Nós e outras criaturas com vida mental somos organismos, e nossa capacidade mental depende aparentemente de nossa constituição física. Portanto, aquilo que explica a existência de organismos como nós deve explicar também a existência da mente. Mas, se o mental não é em si mesmo somente físico, não pode, então, ser plenamente explicado pela ciência física. E então, como vou argumentar mais adiante, é difícil evitar a conclusão que aqueles aspectos de nossa constituição física que trazem o mental consigo também não podem ser explicados pela ciência física. Se a biologia evolutiva é uma teoria física – como geralmente é considerada – então não pode explicar o aparecimento da consciência e de outros fenômenos que não podem ser reduzidos ao aspecto meramente físico. (…) Uma alternativa genuína ao programa reducionista [do darwinismo] irá requerer uma explicação de como a mente e tudo o que a acompanha é inerente ao universo. (…) Os elementos fundamentais e as leis da física e da química têm sido assumidos para se explicar o comportamento do mundo inanimado. Algo mais é necessário para explicar como podem existir criaturas conscientes e pensantes, cujos corpos e cérebros são feitos destes elementos. (pp. 15, 20)

Menciono por último a perspicaz observação de Nagel: se a mente existe porque sobreviveu através da seleção natural, isto é, por ter se tornado mais esperta para sobreviver, como poderemos confiar nela? E aqui ele cita e concorda com Alvin Plantinga, um renomado filósofo de fé reformada:

“Eu concordo com Plantinga que, ao contrário da benevolência divina, a aplicação da teoria da evolução à compreensão de nossas capacidades cognitivas acaba por minar nossa confiança nelas, embora não a destrua por completo. Mecanismos formadores de crenças e que têm uma vantagem seletiva no conflito diário pela sobrevivência não merecem a nossa confiança na construção de explicações teóricas sobre o mundo como um todo. (…) A teoria da evolução deixa a autoridade da razão numa posição muito mais fraca. Especialmente no que se refere à nossa capacidade moral e outras capacidades normativas – nas quais confiamos com frequência para corrigir nossos instintos. Eu concordo com Sharon Street [professora de filosofia da Universidade de Nova York] que uma auto-compreensão evolucionista quase que certamente haveria de requerer que desistíssemos do realismo moral, que é a convicção natural de que nossos juízos morais são verdadeiros ou falsos independentemente de nossas crenças.” (p.28)

Não consegui ler Nagel sem lembrar do que a Bíblia diz: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Eclesiastes 3:11). “De um só Deus fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós” (Atos 17:26-27). Nagel tem o sensus divinitatis, sim, pois o mesmo é o reflexo da imagem de Deus em cada ser humano, ainda que decaídos como somos. Infelizmente o seu ateísmo o impede de ver aquilo que sua razão e consciência, tateando, já tocaram.


Entendendo o evolucionismo darwinista

Palestra do Rev. Augustus Nicodemus.

Cinco falhas psicológicas comuns e cinco estranhos sintomas de doenças mentais

Cinco falhas psicológicas comuns

1. Pareidolia: Sabe quando alguém cisma que está vendo a imagem de um santo em uma mancha na janela ou quando você distingue o formato de animais em nuvens? Esse fenômeno se chama pareidolia e acontece quando interpretamos um estímulo totalmente vago (uma imagem, som ou outros tipos de sinais) como algo cheio de significado. Tudo por causa da mania do cérebro em procurar padrões em tudo. O teste de Rorschach – aquele das pranchas com manchas de tinta em que você tem de dizer o que está vendo – foi criado para explorar a pareidolia e sua possibilidade de revelar o que há na mente.

2. Falácia do jogador: A “falácia do jogador” ou “falácia de Gambler” é a tendência a achar que eventos relacionados a probabilidades podem ser influenciados por eventos aleatórios anteriores. Para entender: você joga uma moeda 3 vezes e em todas elas dá coroa. Em que apostaria na quarta vez? A tendência é acharmos que, se já saiu coroa 3 vezes, a próxima deverá ser cara. Mas a probabilidade, é claro, continua sendo a mesma: há 50% de chance de sair cara e 50% de sair coroa, não importa quantas vezes tenha saído cada um dos lados. Pode parecer óbvio, mas esse erro de pensamento é responsável por fazer com que muita gente perca dinheiro em jogos de azar.

3. Ilusão do controle: Você sabe por que as pessoas que estão jogando dados em um cassino costumam soprá-los ou agitá-los bem antes de lançá-los à mesa? Tudo culpa da chamada ilusão do controle. Trata-se da tendência de acreditar que podemos controlar ou, pelo menos, influenciar acontecimentos sobre os quais não temos nenhum controle. Quando acertam o resultado do lançamento de um dado, por exemplo, a pessoa interpreta isso como a confirmação de que tem algum controle sobre o evento, sem considerar que havia, de fato, 1/6 de chance de acertar. Essa falha cognitiva está ligada à superstição e é responsável por fazer as pessoas repetirem certos rituais, como soprar os dados, usar um “anel da sorte” ou coisa do tipo, achando que poderá influenciar o futuro.

4. Desconto hiperbólico ou gratificação instantânea: O que você prefere: ganhar R$ 500 hoje ou R$ 1.000 daqui a seis meses? A maioria das pessoas age como uma criança nessa hora e preferiria garantir os R$ 500 na hora a esperar seis meses, mesmo que seja para receber uma quantia duas vezes maior. O viés do desconto hiperbólico ou gratificação instantânea faz com que sempre prefiramos benefícios imediatos a gratificações posteriores, mesmo que isso envolva perdas. É o que ocorre com quem prefere comprar algo a prazo em vez de poupar e esperar um pouco para pagar à vista, ainda que os juros a serem pagos quase dobrem o valor da mercadoria.

5. Efeito placebo: Esse é famoso. Ocorre quando uma substância sem nenhuma propriedade medicinal é dada a um doente com a promessa de que irá curá-lo e acaba realmente melhorando os seus sintomas. Esse fenômeno é tão forte que chegam a ocorrer alterações fisiológicas na pessoa – mas, diferente de um tratamento de verdade, os efeitos são passageiros. Por isso, o efeito placebo é usado em testes para determinar se determinados medicamentos funcionam ou não. Saiba mais nos vídeos abaixo:


Cinco estranhos sintomas de doenças mentais

1. Vontade de comer o que não é comestível: Tecnicamente, alotriofagia. O nome é difícil, mas a denominação popular da alotriofagia é ainda mais estranha: síndrome de pica. Trata-se de uma referência a um pássaro comum na Europa, o pica pica, que tem por hábito encher a pança com quase tudo que encontra pela frente. O bicho come não apenas insetos mas também pedrinhas, galhos e qualquer outra coisa que lhe passe goela abaixo. E é exatamente isso o que acontece com uma pessoa acometida por essa síndrome. Quem sofre desse mal desenvolve apetite compulsivo por alguma coisa específica que, além de não comestível, pode fazer um belo estrago no organismo.

As mais comuns são terra, giz, carvão e gelo. Mas há relatos de pacientes que preferem piolas de cigarro, cola, objetos metálicos ou de madeira, tinta, sabão e até fezes. Sabe-se que a alotriofagia pode atingir pessoas de todas as idades e sexos, embora seja mais comum em crianças e mulheres grávidas – principalmente se estiverem subnutridas. Essa constatação leva alguns pesquisadores a acreditar que uma das causas da síndrome possa ser a carência de determinados nutrientes. Não há, porém, qualquer comprovação científica dessa tese. No meio acadêmico, inexiste uma explicação consensual sobre a causa do transtorno. Muitos pacientes de alotriofagia têm histórico de outros problemas neurológicos – o que é preocupante, porque essa condição pode levá-los a comer objetos cortantes ou perfurantes, como pregos e agulhas. Ainda que certas substâncias ingeridas não representem risco imediato de morte, outros riscos estão associados, como obstrução intestinal, intoxicação e contaminação parasitária.

2. Sotaque estrangeiro: Acredite: tem gente que, de uma hora para outra, começa a falar com sotaque estrangeiro. Não pense que é brincadeira, nem que seja o efeito de uma longa viagem ao exterior. Do nada, o sujeito sai falando como se fosse espanhol, alemão, francês, americano, japonês… Mesmo que jamais tenha pisado em nenhum desses países. O fenômeno é raríssimo. Um dos casos mais famosos foi registrado na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1941, uma jovem norueguesa sobreviveu a um ataque desferido pela Luftwaffe, a temida força aérea de Hitler. Ao recobrar a consciência, no entanto, ela estava pronunciando as palavras de uma maneira estranha. E adivinhe: seu sotaque era justamente alemão. A pobre moça acabaria hostilizada por seus conterrâneos – além de ferida no bombardeio, ficaria com fama de vira-casaca.

Não há estudos conclusivos sobre a origem da síndrome. Mas os casos identificados desde 1907, quando o distúrbio foi descrito pela primeira vez, demonstram que ele costuma se manifestar em vítimas de derrames cerebrais. Estariam no grupo de risco também aqueles que sofrem acidentes – como nossa amiga norueguesa – e têm afetadas pequenas partes do cérebro responsáveis pela percepção e pela articulação da fala. O aparente sotaque (na verdade, uma dificuldade para pronunciar certos fonemas) é incontrolável. E pior: alguns nem percebem que estão falando diferente. Só notam quando ouvem a própria voz numa gravação. Segundo Jack Ryalls, especialista em desordens da comunicação e professor da University of Central Florida, nos EUA, o sintoma desaparece sozinho em um terço dos casos. “Mas ainda não sabemos por que apenas alguns portadores da síndrome se recuperam espontaneamente”, conclui.

3. Síndrome da mão alienígena: Dá para imaginar quantas situações constrangedoras – ou até perigosas – alguém encararia se, de repente, perdesse o controle sobre uma das mãos. Já pensou se ela resolvesse desrespeitar a namorada de um lutador de jiu-jítsu? Parece piada de mau gosto, mas pode acontecer de verdade com pessoas que sofrem de um distúrbio neurológico conhecido como “síndrome da mão alienígena”. O problema é conhecido desde 1908. Não se trata de loucura, apenas do resultado de uma falha do cérebro que, aparentemente, pode ser provocada por derrames, tumores cerebrais ou pancadas muito fortes na cabeça. “Os pacientes frequentemente relatam que uma das mãos (o mais comum é que seja a esquerda) começa a se comportar como se tivesse vontade própria, agindo de maneira surpreendente e muitas vezes indesejada”, afirma o neurologista italiano Sergio della Salla, professor de neurociência da Universidade de Edimburgo, na Escócia. “São movimentos complexos, dirigidos a um determinado objetivo e executados com precisão, ainda que claramente não intencionados”. Em casos graves, diz Della Salla, o paciente pode até tentar se autoestrangular enquanto dorme.

Embora identificada há mais de um século, pouca coisa se descobriu sobre a síndrome até agora. Uma das explicações para o distúrbio pode estar relacionada à independência dos hemisférios cerebrais (o esquerdo controla o lado direito do corpo, e vice-versa). Os defensores dessa tese costumam citar testes feitos na década de 1990 na Universidade da Califórnia, nos quais portadores do distúrbio tiveram os olhos vendados e seguraram objetos facilmente identificáveis pelo tato em cada mão. Com a direita, não encontraram dificuldade para reconhecê-los. Já com a esquerda, o resultado foi oposto – presumivelmente porque o hemisfério direito não conseguiu transmitir a informação para o esquerdo. Essa falha de comunicação estaria na origem da síndrome. A mão alienígena não tem cura. Mas alguns dos poucos pacientes conhecidos apresentam melhora espontânea – como se o cérebro, subitamente, aprendesse a compensar a disfunção.

4. Acreditar que está morto: Gente supostamente capaz de conversar com os mortos é algo relativamente comum. Difícil é encontrar alguém que, vivinho da silva e olhando nos seus olhos, jure que está morto. Essa situação absolutamente surreal pode acontecer. Basta que você se depare com uma pessoa que sofra do chamado delírio de Cotard. Vítimas desse distúrbio nem sempre acreditam apenas que já morreram. Algumas afirmam que não têm mais sangue correndo nas veias. Outras, que perderam algum órgão. E há também as que pensam estar em decomposição. Nos casos extremos, o paciente passa a dizer que virou imortal – pois tem certeza de que morreu, mas continua circulando por aí. Os delírios seriam cômicos se não fossem trágicos. Entre os que sofrem dos graus mais severos da síndrome, não são raros casos de suicídio.

Um dos registros mais curiosos de que se tem notícia ocorreu com um paciente que, após ter alta de um hospital na Escócia, foi levado para a África do Sul. Chegando lá, convenceu-se de que acabara de desembarcar no inferno. A síndrome de Cotard – assim batizada por ter sido descrita, em 1880, pelo neurologista francês Jules Cotard – é um mistério que já dura 130 anos. Suas causas continuam obscuras, apesar do grande avanço conquistado pela neurociência nas últimas décadas. Para alguns cientistas, a origem dos delírios pode estar relacionada a um corte na conexão entre as regiões cerebrais responsáveis pelo reconhecimento facial e aquelas que associam emoções ao semblante humano. Outros acreditam que exista uma ligação entre a doença e outra síndrome de natureza neurológica: a de Capgras, que veremos mais adiante. De fato, existe na literatura médica um caso de paciente que sofreu das duas disfunções simultaneamente. Mas um só registro não pode ser usado como prova científica – até porque vários pacientes trazem consigo um histórico de esquizofrenia e distúrbio bipolar.

5. Síndrome de Capgras: Tão estranha quanto o delírio de Cotard é a síndrome de Capgras. Seu sintoma mais típico renderia um bom filme de ficção científica: o paciente acredita que alguém bem próximo a ele – pais, cônjuge, filho – foi substituído por um clone. Isso quer dizer que o doente reconhece as características físicas da pessoa, mas não tem dúvida de que se trata de um impostor. A origem do distúrbio parece ser a mesma da que se especula para Cotard: perda de conexão entre a área do cérebro responsável pelo reconhecimento facial e aquela que armazena informações emocionais sobre a pessoa que o paciente julga ter sido clonada. Em 1984, um estudo publicado pelo psicólogo Russell Bauer reforçou essa hipótese ao mostrar que, quando viam o suposto clone, portadores da síndrome apresentavam respostas galvânicas (sinais elétricos mensuráveis na pele), indicando um reconhecimento emocional, mas não consciente.

Em compensação, outro estudo, feito em 1990 pelo psicólogo Hadyn Ellis, demonstrou o oposto: pacientes reconheciam conscientemente o alegado impostor, mas não apresentavam reação emocional. Para complicar ainda mais a situação dos cientistas, algumas vítimas de Capgras reconhecem o suposto clone quando conversam com ele sem estabelecer contato visual – por telefone, por exemplo -, o que demonstra que o problema, aparentemente, é com a imagem. Mas como explicar os casos de indivíduos cegos que também sofrem do distúrbio? Ninguém tem a resposta. Descrita em 1923 pelo psiquiatra francês Joseph Capgras, a síndrome – assim como o delírio de Cotard – é mais comum em pacientes com diagnóstico de esquizofrenia ou dano cerebral. A literatura médica aponta para um número maior de casos entre os que já passaram dos 40 anos, principalmente mulheres. O “impostor” mais frequente é o marido – e, como se pode facilmente imaginar, a convivência do casal fica muito complicada.

Fonte: Superinteressante.

Viagra para o cérebro

viagra-cerebroÉ assim que usuários se referem às pílulas que prometem turbinar o raciocínio, a memória e o aprendizado. Saiba mais na reportagem abaixo, publicada na revista Época.


Imagine tomar uma pílula e ser capaz de estudar a noite inteira sem sentir sono nem se distrair. Ou, com outra pílula, tornar-se mais criativo e destacar- se entre os colegas de trabalho. Pois é exatamente isso que uma nova geração de suplementos promete: um atalho para o sucesso ao turbinar a memória, afiar o raciocínio e aprimorar a capacidade de atenção. Entre quem usou e resolveu contar a experiência na internet, as pílulas ganharam o apelido de “viagra cerebral”, uma referência ao medicamento que revolucionou o mercado ao tratar a impotência sexual masculina. Os ingredientes que prometem prodígios cerebrais são velhos conhecidos da indústria farmacêutica: vitaminas e estimulantes naturais, como a cafeína. Agora, combinações dessas substâncias foram agrupadas em cápsulas, produzidas por pequenas empresas, interessadas no apetite de estudantes e jovens profissionais por soluções miraculosas. Faltam estudos sobre a eficácia dessas combinações e seus possíveis efeitos colaterais. Vale a pena assumir o risco e apostar nas pílulas?

Nos Estados Unidos, esse tipo de suplemento virou uma febre. Em vídeos na internet, centenas de usuários relatam suas experiências. Discutem as vantagens de cada uma das combinações com o mesmo entusiasmo e dedicação com que halterofilistas falam de novos produtos para aumentar os músculos. “São fisiculturistas do cérebro”, diz o pesquisador Sean Duke, da Universidade Trinity, na Irlanda. “Eles querem aumentar as capacidades mentais como os halterofilistas desejam melhorar o corpo”, compara.

A mais nova sensação desse universo anabolizado é um suplemento chamado OptiMind, lançado em junho. Ele foi criado pelos americanos Lucas Siegel, de 23 anos, e Timothy West, de 21, depois da morte de um colega de faculdade que usara uma quantidade excessiva de medicamentos tarja preta para afastar o cansaço e aumentar a concentração. “Essa experiência trágica nos inspirou a criar um produto seguro, que ajudasse os estudantes a manter a concentração sem se preocupar com riscos para a saúde”, diz West, que trabalha como chefe de vendas da empresa AlternaScript, que produz o OptiMind. O produto mistura estimulantes, vitaminas e moléculas de proteína; e promete aumentar a disposição física e aprimorar a memória e a concentração. West diz tomar dois comprimidos por dia e jura que não há perigo para a saúde.

O OptiMind não é o único suplemento desse tipo no mercado. Nos EUA, há pelo menos 20 produtos à venda pela internet. O AlphaBrain, produzido pela empresa Onnit, é popular entre jogadores de pôquer, para aprimorar o foco e diminuir o estresse. Cada pílula contém 11 substâncias. Os fabricantes estão de olho num público que já buscava esses efeitos, mas tinha de recorrer ao uso ilegal de remédios controlados. Algumas das substâncias favoritas desse público eram drogas para o Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Pessoas com esse diagnóstico costumam ser desatentas, inquietas e impulsivas. Os remédios, prescritos por médicos, são usados para manter esses sintomas sob controle. Sem receita, eles são usados por pessoas saudáveis que querem melhorar sua capacidade de concentração – ainda que não haja nenhum consenso médico atestando que são eficazes nessa situação.

As drogas costumam ser vendidas clandestinamente, pela internet, por pessoas que conseguiram uma receita ou o remédio com amigos. Há quem tente enganar o médico. “Precisamos ficar atentos com pessoas que simulam os sintomas para conseguir uma receita”, diz o psiquiatra paulistano Mario Louzã. É exatamente nesse nicho que os novos suplementos fazem sucesso. Os entusiastas não precisam recorrer a estratégias ilegais para ter acesso às drogas que procuram. Nos EUA, os novos coquetéis podem ser comprados livremente na internet, sem receita, porque foram considerados como “suplementos alimentares” pela agência que regula medicamentos, a FDA.

A venda sem receita não significa que as novas fórmulas sejam isentas de riscos. Faltam estudos para provar sua segurança. “É possível que, no futuro, pesquisas sugiram que esses suplementos podem causar algum grau de dependência, como já aconteceu com a nicotina e a cafeína”, afirma o pesquisador Mitul Mehta, do King’s College, em Londres. Outra possibilidade é que as fórmulas prejudiquem áreas do cérebro ligadas a outras funções. Pode ser um risco muito grande, considerando que os efeitos desejados pelos consumidores também não foram comprovados cientificamente. “Há a possibilidade de que a melhora do rendimento seja apenas placebo e autossugestão”, afirma a psicóloga Denise Barros, que estudou essas substâncias em seu doutorado na UERJ.

Os brasileiros entusiasmados com os novos suplementos devem conter a empolgação. Eles podem até ser importados de outros países, mas apenas para uso pessoal. Não podem ser distribuídos comercialmente no Brasil. Para isso, precisam ser aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por ora, não há nenhum pedido de fabricantes ou importadores para regulamentar os produtos no país. O jeito é confiar na velha fórmula da inteligência: alimentação equilibrada, sono em dia e muita dedicação para estudar. Costuma dar trabalho, mas é infalível.

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Como manter seu cérebro jovem

Dicas de Cristiane Segatto publicadas na revista Época.

A capacidade de armazenar informações pode ser comparada ao desempenho de um atleta. É na juventude – entre os 20 e os 30 anos – que a memória costuma estar em sua melhor forma. Depois dos 50, a maioria das pessoas começa a notar falhas aqui e ali. Trata-se de um processo normal, lento e gradativo, que começa décadas antes. Não é, necessariamente, sinal de doença grave. Com o passar dos anos, fica mais difícil lembrar algumas informações ou reter novas memórias. Outras continuam acessíveis como sempre estiveram. É por isso que um idoso é capaz de contar histórias da infância, em mínimos detalhes, mesmo quando não lembra onde colocou as chaves de casa.

Quando as falhas se tornam frequentes, muitos idosos e familiares procuram exercícios, suplementos alimentares ou fórmulas mágicas para estimular a memória. Existirá alguma? Ler, talvez? Tocar piano? Resolver exercícios mentais pelo computador? Sozinha, nenhuma dessas atividades basta. O importante é diversificá-las. Desde 2000, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) acompanham mais de 2 mil moradores paulistanos. Todos têm mais de 60 anos. Alguns já passaram dos 100. “Os que envelhecem bem fazem de 5 a 7 atividades diferentes por dia”, diz Yeda Duarte.

Sem estímulos novos, diminui a capacidade natural que o cérebro tem de criar conexões alternativas entre os neurônios – algo que compensa, ao menos em parte, a perda dessas células nervosas na velhice. Com pequenas adaptações,  atividades cotidianas podem trazer benefícios. Quem é destro submeterá o cérebro a um belo treino se começar o dia escovando os dentes com a mão esquerda (ou vice-versa). Outra boa providência é desligar o GPS do carro e se aventurar por um caminho diferente. Desde, é claro, que isso seja feito em segurança. Vale considerar também as vantagens da terapia do dinheiro curto. “Ir às compras com o orçamento apertado é um excelente exercício”, diz o médico Edson Amaro Jr., coordenador científico do Instituto do Cérebro do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. É preciso andar de loja em loja (atividade motora), comparar preços (raciocínio), registrar mentalmente as ofertas (memória), prever os gastos (planejamento), interagir com os vendedores (comunicação) e ler nos olhos deles a intenção de cada um (empatia) para conseguir negociar.

Mexer o corpo é fundamental. “Atividade física é muito mais importante para o cérebro do que fazer palavras cruzadas”,  diz Amaro. Os músculos dos sedentários perdem volume. Essa condição, comum na velhice, aumenta o risco de quedas. O prejuízo vai além das fraturas. Uma alteração na capacidade de interagir com o meio pode provocar a perda das funções cognitivas. A consequência pode ser dramática: mudança na conexão entre os neurônios, perda de volume de algumas regiões cerebrais e uma degeneração irreversível, como o Alzheimer. Por enquanto, os medicamentos disponíveis apenas retardam a progressão da doença. A maioria das pessoas que apresentam  sintomas depois dos 65 anos não tem histórico familiar. A genética pode ser responsável por um pequeno número de casos. Alguns genes aumentam o risco de desenvolvimento do Alzheimer. Mas seu peso é relativo. “A alteração genética não é determinante”, diz o pesquisador Michel Naslavsky, do Centro de Estudos do Genoma Humano, da USP. “Outros componentes favorecem o aparecimento da doença, como o AVC e até outros fatores genéticos ainda desconhecidos”, afirma. Em menos de 5% dos casos, os genes não apenas aumentam o risco, mas causam a doença. Nessas famílias, o Alzheimer acomete gerações. Em geral, precocemente. Com exceção dessas pessoas, diminuir o risco de declínio cerebral é algo que está ao alcance da maioria. O que protege contra o Alzheimer não é ter mais neurônios – e sim ter mais conexões entre eles. Nunca é tarde para criá-las.


Como aumentar a sua inteligência

Artigo de Adonai Santanna, professor de matemática da UFPR.

Esta postagem se refere àquilo que psicólogos cognitivos chamam de inteligência fluida, a capacidade de aprender novas informações, mantê-las em nossos cérebros e usar este novo conhecimento para resolver problemas e desenvolver novas habilidades. O texto abaixo é baseado em uma palestra ministrada por Andrea Kuszewski na Universidade Harvard em 2010. Veja uma versão escrita e detalhada desta palestra aqui. As técnicas relatadas na palestra permitiram, entre outros resultados, aumentar o QI de uma criança autista de 80 para 100 pontos, em três anos. Por conta de uma propriedade cerebral chamada de neuroplasticidade, é possível aumentar significativamente a inteligência fluida de qualquer pessoa. Aqui estão as atividades que Kuszewski aponta como fundamentais para o desenvolvimento da inteligência fluida:

1. Buscar novidades: Os grandes gênios sempre tiveram múltiplos interesses intelectuais. Estagnar o cérebro em uma única área do conhecimento ou atividade intelectual é uma péssima ideia. É fundamental a abertura para novas experiências. Aquilo que é novo para o seu cérebro desencadeia novas conexões sinápticas, aumentando a atividade neuronal. Além disso, novidades ativam a dopamina, um neurotransmissor que, entre outras coisas, aumenta a motivação. Ou seja, a busca por novidades estimula a própria busca.

2. Enfrentar desafios: Existe vasta literatura sobre o papel de jogos para melhorar a inteligência, mas ela geralmente carece de fundamentação científica. Jogar tetris pode melhorar temporariamente certas habilidades cognitivas. Mas uma vez que o jogador domine o jogo, persistir com tetris inevitavelmente resultará em queda de atividade cerebral. Desafios precisam ser renovados. Ou seja, deve haver uma incessante busca por problemas. Quanto mais difíceis de serem resolvidos, melhor. Caso contrário, sua atividade cerebral diminuirá e sua inteligência será comprometida.

3. Pensar criativamente: Ao contrário do que diz a crença popular, criatividade envolve ambos os hemisférios do cérebro, não apenas o direito. Criatividade nada tem a ver com produção artística, mas com cognição criativa. Cognição criativa envolve a associação entre ideias aparentemente distantes, intercâmbio entre formas tradicionais e formas atípicas de pensamento, e a geração de ideias originais que sejam adequadas para as atividades que você exerce. Resolver problemas de matemática, por exemplo, apelando apenas para analogias com o mundo real, é o mesmo que matar a criatividade.

4. Seguir o caminho mais difícil: A tecnologia tem tornado o mundo mais eficiente, permitindo que as pessoas tenham mais tempo para se concentrar naquilo que é realmente importante. Certo? Errado. O emprego sistemático de GPS, por exemplo, piora a noção de localização espacial das pessoas. Mas nem todas as novas tecnologias são nocivas para o intelecto humano, ainda que compensações sejam necessárias. Faça contas sem usar calculadoras. Siga para um destino desconhecido sem usar GPS. Escreva textos impecáveis sem usar corretores ortográficos; e reescreva esses textos, para que fiquem realmente atraentes. Leia textos em idiomas estrangeiros sem usar tradutores. Faça sua própria comida. John Kennedy disse, no mais belo discurso que já ouvi: “Nós iremos para a Lua não porque é fácil, mas porque é difícil”.

5. Formar redes sociais: Não importa se suas redes sociais operam via Facebook ou contato pessoal. O fato é que a condição humana é de caráter social. Coloque a cara para bater. Exponha suas ideias. Mantenha contato com quem sabe muito mais do que você; é preciso aprender. Mantenha contato com quem sabe muito menos do que você; é preciso ensinar. Mantenha contato com aqueles que pensam como você, mas também com aqueles que pensam diferente. Troque ideias sobre ciência, educação, música, cinema, teatro, história, religião, vida. Uma vida social rica é fonte de novidades, é a oportunidade de encontrar desafios, é a inspiração para soluções criativas. Mas vida social rica não se traduz na forma de quantia de pessoas, porém na forma de diversidade de visões.

Faça uma dieta de leituras

Passar o dia inteiro lendo bobagem nas redes sociais é tão saudável para a mente quanto viver à base de fast-food é para o corpo. Esse é o tema do artigo de opinião a seguir, escrito por Danilo Venticinque e publicado na revista Época:


O Facebook está insuportável hoje. Pelo menos foi isso o que um amigo me disse. Não duvido: com a quantidade de assuntos polêmicos em pauta, poucos resistem à tentação de entrar em debates acalorados e intermináveis sobre tudo. Quanto mais pitoresco o tema, maior a vontade de se debruçar sobre ele para escrever um post “definitivo”. Perdi a conta de quantas vezes sucumbi a essas armadilhas. Tenho tentado não cair nelas. Estou de dieta. Houve um tempo em que os pessimistas diziam que, no futuro, passaríamos o dia inteiro assistindo à televisão e não leríamos mais nada. Estavam errados. Ironicamente, nunca lemos tanto quanto hoje. E, infelizmente, nunca lemos tão mal.

Nutricionistas costumam organizar os tipos de alimentos numa pirâmide. Na base estão os cereais, frutas e verduras que precisamos comer várias vezes ao dia. O meio é reservado às carnes magras e derivados do leite, que devemos comer com moderação. No topo, tudo aquilo que devemos evitar no dia-a-dia, como doces, frituras e carnes gordurosas. Poderíamos fazer um gráfico semelhante com as leituras. Na base estariam os livros. No topo, as discussões vazias nas redes sociais. No meio ficariam os artigos e reportagens, online e offline. Alguns podem ser tão enriquecedores quanto um livro. Outros, tão superficiais quanto uma polêmica no Facebook.

Não é preciso levar o exercício mental muito adiante para perceber que nossa dieta anda péssima. As redes sociais tomam a maior parte do nosso tempo de leitura. Elas nos levam com frequência a blogs ou sites de notícias. Aproveitamos um texto ou outro, mas nos esquecemos da imensa maioria. Aos livros, que teoricamente deveriam ser nossa principal fonte de leituras, reservamos apenas uma pequena fração do nosso tempo. Por acreditar que os livros exigem concentração e silêncio, preferimos nos distrair com textos irrelevantes o dia inteiro e deixar as leituras sérias para o dia seguinte ou para mais tarde, quando já estamos cansados de ler bobagens e mal aguentamos manter os olhos abertos. É como se tivéssemos um banquete à nossa disposição, mas nos entupíssemos de balas, guloseimas e salgadinhos antes de sentar à mesa.

O primeiro passo para mudar a sua dieta de leituras é reconhecer que aproveitamos muito mal nosso tempo. Vale repetir a pergunta proposta pelo escritor suíço Rolf Dobelli em seu livro A arte de pensar claramente: “De todas as notícias e posts em redes sociais que você leu no último ano, quantos realmente fizeram diferença na sua vida?”. Minha resposta foi alarmante: apenas dois ou três posts em blogs e, com sorte, meia dúzia de reportagens. Nenhum post em redes sociais. Nada que justifique as dezenas de horas que dedico a essas leituras semanalmente. Quanto aos livros, lembro de todos os que li durante o período. Mesmo os que não gostei de ler me ensinaram algo.

Definitivamente, era hora de mudar meus hábitos. Seria um exagero abandonar o Facebook completamente, do mesmo modo que nenhum nutricionista que se leve a sério diria para alguém cortar os doces para todo o sempre. O mesmo vale para o fast-food da informação. As redes sociais nem sempre são prejudiciais. Basta usá-las com moderação e tirar algum proveito delas. Cada um sabe sua forma de aproveitá-las. Desde que decidi fazer uma dieta de leituras, abandonei as discussões no Facebook e no Twitter. Em vez disso, tenho usando as duas redes para receber e compartilhar reportagens sobre literatura. Por falar em reportagens, também reduzi o tempo que dedico a elas. Descobri que posso sobreviver tranquilamente lendo somente as principais notícias do dia e assinando três ou quatro publicações essenciais para quem trabalha na minha área.

O resultado? Além de conseguir mais tempo para os livros, não sinto a menor falta das polêmicas digitais. Da próxima vez que o seu Facebook estiver insuportável, não reclame dele. Feche a aba do navegador. Procure outras leituras. Se alguém insistir para que você diga algo sobre o assunto polêmico do dia, experimente a sensação libertadora de não ser obrigado a expressar sua opinião sobre tudo. Peça desculpas. Diga que está de dieta.


Antes de ler, faça o teste do “e daí?”

Nosso cotidiano foi tomado por leituras inúteis, mas há um método simples para evitá-las. É o que propõe Danilo Venticinque no artigo a seguir, publicado na revista Época.


Não custa repetir: lemos muito menos livros do que poderíamos porque desperdiçamos uma enorme quantidade de tempo lendo bobagens na internet. Deixar de gastar tempo com textos inúteis é a maneira mais eficiente de abrir espaço para os úteis. Nosso tempo de leitura é limitado. Meia hora dedicada a acompanhar a última fofoca é meia hora a menos de um bom livro. Mas o desinteresse por fofocas não é suficiente para garantir que fugiremos das leituras inúteis. O pior tipo de bobagem é a bobagem supostamente relevante. Você começa a ler achando que vai se informar e, quando percebe, já perdeu muito tempo e não aprendeu absolutamente nada de útil.

Nas faculdades de jornalismo, os alunos aprendem que uma notícia deve responder a seis perguntas: o que, quem, como, onde, quando e por que. A elas, alguns professores mais rigorosos acrescentavam uma sétima: e daí? O que aquela notícia traz de relevante para a vida de quem lê? Era impressionante a quantidade de sugestões de reportagens que desmoronavam quando submetidas a esse último teste. E são raríssimos os sites de notícias e blogs que aplicam essa lição. Isso para não falar na imensidão de bobagens que tomam as redes sociais. Publicamos primeiro e pensamos depois. Pior: lemos tudo indiscriminadamente sem fazer a pergunta fundamental: e daí?

Antes, a tarefa de perguntar “e daí” era de quem publicava algo, mas isso mudou. Diante de uma infinidade de textos que não trazem absolutamente nenhuma consequência ou aprendizado para quem lê, cabe ao leitor a tarefa de filtrá-los. Experimente aplicar o teste do “e daí?” às suas leituras online. Observe como a maioria delas fracassa vergonhosamente. Meia dúzia de manifestantes querem a volta da ditadura. E daí? A vice Miss Bumbum perdeu as chaves do carro em Ipanema. E daí? O primo de um amigo comprou um filhote de gato. E daí? Quanto mais rigorosos forem seus filtros, mais tempo sobrará para ler o que importa. São horas de leitura que você pode ganhar sem perder quase nada. No máximo, você se sentirá um pouco desinformado. Talvez você não fique por dentro dos delírios autoritários de meia dúzia de pessoas. Talvez a vice Miss Bumbum passe na sua frente e você não a reconheça. Tudo bem. E daí?


Três anos sem ler notícias

A decisão radical de um escritor para dedicar mais tempo aos livros – e o que podemos aprender com seus conselhos. Esse é o tema do artigo de opinião a seguir, escrito por Danilo Venticinque e publicado na revista Época.


Já imaginou se, depois de dedicar um ano inteiro à leitura, você percebesse que não conseguiu aproveitar nada do que leu? Descrita assim, a experiência parece ser a premissa de um livro de ficção científica ou uma doença neurológica à espera de um diagnóstico. Mas é um fenômeno comum. Entre atualizações de redes sociais, posts de blogs e notícias curtas, uma pessoa com acesso à internet dedica várias horas de seu dia à leitura. A quantidade de informações fragmentadas é grande e difícil de reter. Há uma enorme probabilidade de que este texto seja inútil – e de que, daqui a poucos meses, você não se lembre nada do que escrevi aqui.

A vida de um leitor, desde o início do dia, é uma maratona de decisões. Na internet ou no papel, a oferta de textos diferentes sobre os mais diversos assuntos é enorme. Como sei que o tempo de leitura é escasso, vou pular a parte óbvia deste texto em que eu diria que é impossível ler tudo. Também vou resistir à tentação de dizer que tipo de leitura é indispensável: cada leitor tem a sua resposta para essa pergunta, e o que é imprescindível para alguns pode ser menos importante para outros. Passo, então, para a questão principal: quais textos não merecem o tempo que gastamos com eles?

O escritor suíço Rolf Dobelli acredita ter a resposta. Em seu livro A arte de pensar claramente (Editora Objetiva, 210 páginas, R$ 29,90, tradução de Karina Janini), ele afirma que as notícias são o principal inimigo do leitor. Elas estão fazendo mal para nossos cérebros, e todos nós deveríamos desistir de lê-las. “As notícias são para a mente o que o açúcar é para o corpo: apetitosas, fáceis de digerir – e muito destrutivas no longo prazo”, diz Dobelli. Ele afirma que somos estimulados por informações chocantes, escândalos e fofocas, mas nos sentimos desmotivados diante de textos complexos. A vontade de atrair a atenção do público levaria os meios de comunicação a privilegiar o conteúdo mais superficial. Com o tempo, as notícias deixariam de ser relevantes, e o sensacionalismo nos tornaria incapazes de lidar com as sutilezas da vida. É uma análise pessimista, mas que faz algum sentido quando estamos lendo a trigésima notícia do dia… e já nos esquecemos da primeira.

A profissão e a nacionalidade do autor, reconheçamos, facilitam sua missão de evitar notícias. Os políticos suíços são tradicionalmente mais comportados que os brasileiros, e talvez suas travessuras não mereçam ser acompanhadas diariamente pelo público. E, sendo escritor, Dobelli dificilmente se verá em apuros por não ler notícias. Um investidor ou executivo desinformado, por exemplo, seria um desastre. Mesmo nesses casos, Dobelli adverte que as informações, sozinhas, não fazem um bom profissional. “Se as notícias realmente ajudassem as pessoas a progredir, os jornalistas estariam no topo da pirâmide. Eles não estão lá – muito pelo contrário”, afirma. A provocação dolorosa não impediu que sites jornalísticos como o The Guardian e o Huffington Post publicassem resenhas do livro e reproduzissem seu capítulo sobre notícias. Não que o autor se importe: ele não deve ter lido nenhum deles.

Dobelli segue seus próprios conselhos à risca. Diz estar há três anos sem ler notícias e não tem planos para mudar seus hábitos. As principais informações do mundo, segundo ele, chegam por meio de conversas com amigos. Imagina-se que esses amigos leiam notícias – do contrário, as conversas não cumpririram o papel de informar o autor. Quando quer saber mais sobre um tema atual, ele recorre a livros (“Nada é melhor do que os livros para entender o mundo”) e a textos analíticos longos – que podem estar disponíveis em revistas, jornais ou sites, em maior ou menor quantidade. No mundo ideal de Dobelli, há espaço para o jornalismo que informa, mas não para o que distrai.

Desistir das notícias para sempre é uma solução radical, que dificilmente funcionaria para todos. Dobelli dá a impressão de estar exagerando para chamar a atenção dos leitores – curiosamente, um pecado tradicional do tipo de jornalismo que ele critica. Ainda assim, em tempos cheios de distrações, seu conselho merece ser ouvido. Antes de ler qualquer texto, pense se ele fará diferença na sua vida nas próximas semanas ou meses. Em caso de dúvida, parta para o próximo da lista. Se dedicarmos muitas horas a leituras fragmentadas, sobrará pouco tempo para textos mais longos e nenhum intervalo para a reflexão. Às vezes é preciso ler menos para ler melhor.


Infobesidade

A informação é, para a mente, aquilo que o alimento é para o corpo. A diferença é que não temos sempre à disposição toneladas e mais toneladas de comida para comermos quando quisermos. Por outro lado, a quantidade de informação disponível a qualquer pessoa com acesso à internet é potencialmente infinita. Outra diferença é que o nosso corpo instintivamente “sabe” a hora de parar. Quando estamos fartos, nosso cérebro é avisado de que as reservas estão cheias e que é preciso parar de comer. Esta é a sensação de saciedade. Uma vez fadigado de comer, recusamos penosamente qualquer prato, por mais saboroso que nos pareça. Se tentarmos guardar e acumular toda a comida disponível até que tenhamos fome novamente, deparamos com o fato natural de que toda comida estraga e se deteriora com o tempo. É claro que o sal e mais recentemente a geladeira ajudaram nesse quesito, mas apenas parcialmente. Por esse motivo, decidimos acumular dinheiro, que não se come nem se estraga, mas que pode depois ser trocado por comida fresca. Nossa mente, por outro lado, não reconhece com a mesma facilidade que o corpo quando é hora de parar. Juntando a isso o fato de que a quantidade de informação disponível, especialmente depois do advento da internet, é infinitamente vasta e potencialmente inesgotável, percebemos que a saciedade mental deve ser autoimposta, enquanto que a do corpo é instintiva e natural. Esta é uma questão de saúde mental. Muitos especialistas, inclusive, passaram a usar um neologismo para se referir ao problema: “infobesidade”. A analogia com o corpo e a alimentação é clara.


Um mar de informação

Vivemos numa época em que a informação é abundante como em nenhuma outra antes dela. Eis um dos clichês mais repetidos da atualidade. Tão repetido que Eric Schmidt, ex-CEO do Google, até o transformou em número: a cada 24 horas, a humanidade produz 2,5 bilhões de gigabytes de informação. Isso é mais do que tudo o que foi produzido desde o começo do mundo até 2003! Uau! Muito bacana! Mas e daí? Daí que a realidade é um pouco diferente. Vivemos sim numa era de abundância. Mas informação é uma coisa, conhecimento é outra. Uma está para a outra como o tijolo está para a casa. Uma pilha de tijolos tem potencial para fazer maravilhas, mas sozinha ela é só uma pilha. Eis então um dos maiores desafios (e oportunidades) que temos adiante: transformar esses milhares de tijolos em algo útil. Dá uma trabalheira, mas aqui no Charlezine eu me esforço para fazer a minha parte. Misturar cimento, construir as paredes, mostrar o contexto das coisas, dar sentido a elas, enfim, transformar informação em conhecimento.


Filosofia da mente

Palestra ministrada pelo professor Dr. João Teixeira, da Universidade Federal de São Carlos-SP (UFSCAR), na universidade do Minho, em Portugal, sobre filosofia da mente.

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