Sobre o que há: Quine e o problema fundamental da ontologia

Artigo do filósofo americano Willard Van Orman Quine (1908-2000) sobre o problema fundamental da ontologia. Extraído do livro De um ponto de vista lógico: nove ensaios lógico-filosóficos (São Paulo: Editora UNESP, 2011, p. 11-35).


Algo curioso sobre o problema ontológico é sua simplicidade. Ele pode ser formulado com três monossílabos do português: “O que há?”. Ele pode ser resolvido, além disso, com uma palavra — “Tudo” —, e todos aceitarão essa resposta como verdadeira. No entanto, isso é simplesmente dizer que há o que há. Ainda há espaço para desacordo em cada caso; e, desse modo, a questão permaneceu viva ao longo dos séculos.

Suponhamos que dois filósofos, McX e eu, discordemos a respeito da ontologia. Suponhamos que McX sustente haver algo que eu sustente não haver. McX pode, de maneira completamente coerente com seu ponto de vista, caracterizar nossa divergência de opinião dizendo que eu me recuso a reconhecer certas entidades. Eu deveria objetar dizendo que ele está errado na maneira como formula nosso desacordo, pois eu sustento não haver nenhuma entidade do tipo que ele alega para que eu a reconheça; todavia, considerar que ele está errado na maneira como formula nosso desacordo é irrelevante, pois sou obrigado, de qualquer forma, a considerar sua ontologia incorreta.

Quando eu, por outro lado, tento formular nossa divergência de opinião, parece que me coloco em apuros. Não posso admitir haver coisas que McX sustenta e eu não, pois, ao admitir haver tais coisas, eu estaria contradizendo minha própria rejeição a elas. Se esse raciocínio fosse correto, em qualquer disputa ontológica o defensor do lado negativo padeceria da desvantagem de não poder admitir que seu oponente discorda dele.

Esse é o velho enigma platônico do não ser. O não ser deve, em certo sentido, ser; caso contrário, o que é aquilo que não há? Essa doutrina pode ser apelidada de a barba de Platão; historicamente, ela se mostrou resistente, fazendo frequentemente a navalha de Ockham perder o corte. É uma tal linha de pensamento que conduz filósofos como McX a atribuir ser, ali onde, em vez disso, eles deveriam se contentar em reconhecer que não há nada. Considere-se, pois, Pégaso. Se não houvesse Pégaso, argumenta McX, não estaríamos falando de nada quando usamos essa palavra. Seria um contrassenso, portanto, até mesmo dizer que não há Pégaso. Acreditando ter mostrado, com isso, que a negação de Pégaso não pode coerentemente ser mantida, ele conclui que Pégaso é.

McX não pode, na verdade, persuadir-se completamente de que alguma região do espaço-tempo, próxima ou distante, contém um cavalo alado de carne e osso. Pressionado a dar mais detalhes sobre Pégaso, ele diz, então, que Pégaso é uma ideia nas mentes dos homens. Aqui, no entanto, uma confusão começa a ficar evidente. Podemos, para manter o argumento, conceder que há uma entidade, e inclusive que há uma única entidade (embora isso seja bem pouco plausível), que seria a ideia-Pégaso mental; mas não é dessa entidade mental que se está falando quando se nega Pégaso.

McX nunca confunde o Partenon com a ideia-Partenon. O Partenon é físico; a ideia-Partenon é mental (ao menos segundo a versão de McX acerca das ideias, e não tenho nenhuma melhor para oferecer). O Partenon é visível; a ideia-Partenon é invisível. Seria difícil imaginar duas coisas mais diferentes e menos propensas à confusão do que o Partenon e a ideia-Partenon. Mas, quando passamos do Partenon para Pégaso, a confusão se instala — pela simples razão de que McX seria iludido pela falsificação mais grosseira e mais evidente antes de admitir o não ser de Pégaso.

A ideia de que Pégaso deve ser, porque do contrário seria até mesmo um contrassenso dizer que Pégaso não é, levou McX, como vimos, a uma confusão elementar. Mentes mais perspicazes, partindo do mesmo ponto, apresentam teorias sobre Pégaso cujos defeitos são menos patentes que os de McX e, proporcionalmente, mais difíceis de sanar. Uma dessas mentes chama-se, digamos, sr. Y. Pégaso, afirma o sr. Y, tem ser enquanto possível não realizado. Quando dizemos que não há algo que seja Pégaso, estamos dizendo, precisamente, que Pégaso não possui o atributo específico da atualidade. Dizer que Pégaso não é atual equivale logicamente a dizer que o Partenon não é vermelho; em ambos os casos, estamos dizendo algo sobre uma entidade cujo ser não se questiona.

O sr. Y, aliás, é um desses filósofos que se uniram para destruir a boa e velha palavra “existir”. Apesar de sua adesão a possíveis não realizados, ele limita a palavra “existência” à realidade, preservando, assim, uma aparência de acordo ontológico entre ele e nós, que repudiamos o resto de seu universo hipertrofiado. Todos nós sempre tendemos a dizer, em nosso uso de “existir” conforme o senso comum, que Pégaso não existe, querendo dizer que não há, de forma alguma, uma entidade dessa natureza.

Se Pégaso existisse, estaria, de fato, no espaço e no tempo, mas apenas porque a palavra “Pégaso” tem conota­ções espaço-temporais, e não porque “existe” tem conotações espaço-temporais. Se, quando afirmamos a existência da raiz cúbica de 27, falta a referência espaço-temporal, isso se deve simplesmente ao fato de que a raiz cúbica não é um tipo de coisa espaço-temporal, e não porque nosso uso de “existir” seja ambíguo.

No entanto, o sr. Y, em um esforço mal-intencionado para parecer agradável, concede-nos cordialmente a não existência de Pégaso e, então, contrariamente ao que nós queríamos dizer por não existência de Pégaso, insiste que Pégaso é. Existência é uma coisa, diz ele, e subsistência é outra. A única maneira de lidar com esse emaranhado de problemas é entregar a palavra “existir” ao sr. Y. Tentarei não usá-la novamente; ainda tenho “há” e “é”. Basta de lexicografia; voltemos à ontologia do sr. Y.

O universo superpopuloso do sr. Y é, em muitos sentidos, desagradável. Ele ofende o senso estético dos que, como nós, apreciam paisagens desertas; mas isso não é o pior. O cortiço de possíveis do sr. Y é um local fértil para elementos que causam desordem. Considere, por exemplo, o homem gordo possível diante daquela porta; e agora o homem calvo possível diante daquela porta. São eles o mesmo homem possível ou dois homens possíveis? Como decidimos? Quantos homens possíveis há diante daquela porta? Há mais magros possíveis do que gordos possíveis? Quantos deles são semelhantes? Ou sua semelhança os torna um único? Não há duas coisas possíveis semelhantes? Isso é o mesmo que dizer que é impossível que duas coisas sejam semelhantes? Ou, finalmente, o conceito de identidade é simplesmente inaplicável a possíveis não realizados? Mas que sentido pode haver em falar de entidades que não podem significativamente ser ditas idênticas a si mesmas e distintas umas das outras? Esses elementos são quase incorrigíveis. Por meio de uma terapia fregiana de conceitos, um esforço de reabilitação poderia ser feito; mas pressinto que o melhor seria limpar o cortiço do sr. Y e deixá-lo.

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A inevitabilidade da filosofia

Crônica de Desidério Murcho, professor de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), publicado no jornal Público do dia 26 de fevereiro de 2008, em Portugal.


À parte alguns estudiosos, poucas pessoas sabem que Aristóteles (384-322 a.C.) escreveu uma humilde introdução à filosofia, hoje conhecida pelo seu título grego: Protréptico. O livro foi muitíssimo influente durante cerca de mil anos. Quando Boécio (480-524 d.C.) escreveu a sua famosa Consolação da Filosofia, tinha em mente a obra de Aristóteles, cujas ideias lhe chegaram através do Hortênsio, de Cícero (106-43 a.C.) — que, por sua vez, era uma espécie de versão romana do original de Aristóteles.

Por mais que muitas gerações de leitores se sentissem gratos a Aristóteles por ter escrito uma lúcida e iluminante introdução à filosofia, este não é o tipo de obra que os acadêmicos e os intelectuais — do passado e do presente — tenham tendência para estimar. Acarinharam, releram e mantiveram em boas condições as obras mais sofisticadas de Aristóteles, mas não a sua modesta introdução. E foi assim que este livrinho de Aristóteles ficou perdido e praticamente esquecido, até Ingram Bywater redescobrir alguns fragmentos, já no século 19.

Uma das ideias expostas por Aristóteles nesse livrinho exibe com mestria a natureza da filosofia. Não temos uma citação direta da passagem em causa, mas temos várias menções indiretas, e todas concordam que Aristóteles usou algo como o seguinte argumento a favor da filosofia:

Se temos de filosofar, temos de filosofar.
Se não temos de filosofar, temos de filosofar.
Logo, em qualquer caso, temos de filosofar.

Isto parece um daqueles trocadilhos que dão mau nome à filosofia, mas há sabedoria nestas palavras. Trata-se de um pequeno argumento dedutivo, válido, com duas premissas apenas. A primeira é uma trivialidade, claro. A subtileza está na segunda. O que Aristóteles tinha em mente é que para argumentar que não temos de filosofar, temos de usar um argumento qualquer. Mas que tipo de argumento será? Quando pensamos nisso, vemos que não há argumentos biológicos, físicos, matemáticos ou históricos contra a filosofia. Qualquer argumento contra a filosofia teria de ser filosófico. Portanto, para rejeitar a filosofia temos de filosofar. O que demonstra que a filosofia é inevitável. Argumentar contra a filosofia é como gritar “Não estou gritando!”.

Não há maneiras não contraditórias de argumentar contra a filosofia porque a filosofia é o estudo cuidadoso das nossas ideias mais básicas. Mesmo quem pensa que a filosofia é uma besteira tem ideias filosóficas sobre a natureza do conhecimento (epistemologia) ou da realidade (metafísica). Filosofar é avaliar cuidadosamente essas ideias, em vez de as aceitarmos como se fossem as únicas alternativas viáveis. Assim, a opção não é entre ter ou não ter ideias filosóficas. É tão impossível viver sem ter ideias filosóficas como é impossível viver sem ter ideias físicas sobre o mundo à nossa volta. A opção é entre tê-las, estudando-as cuidadosamente, ou ter a ilusão de que não as temos, só porque não nos damos ao incômodo de as estudar.

Os 10 mandamentos da lógica

10-logic

Tradução livre de uma imagem que circulou pela web em inglês:

1) Não atacarás a personalidade ou o caráter da pessoa,
mas apenas o seu argumento. (ad hominem)

2) Não modificarás ou exagerarás o argumento de uma pessoa
para torná-lo mais fácil de atacar. (falácia do espantalho)

3) Não usarás números pequenos para representar o todo.
(generalização apressada)

4) Não defenderás vosso argumento por assumir automaticamente
que uma de suas premissas está correta. (petição de princípio)

5) Não alegarás que só porque uma coisa ocorreu antes da outra,
a primeira obrigatoriamente é a causa da segunda. (post Hoc)

6) Não reduzirás toda a complexidade da argumentação
a apenas duas possibilidades. (falsa dicotomia)

7) Não argumentarás que, por causa de nossa ignorância, certa alegação é obrigatoriamente verdadeira [ou falsa]. (ad ignorantium)

8) Não imporás o ônus da prova de teu argumento àquele que questionas.
(inversão do ônus da prova)

9) Não assumirás que “isto” se segue a “aquilo” quando na verdade não há essa conexão lógica. (non sequitur)

10) Não alegarás que uma premissa está correta por ser popular.
(falácia da popularidade)


Hierarquia dos argumentos

Não lembro onde achei essa pirâmide. Estava entre meu arquivos. Ela mostra, pelo menos em teoria, quais tipos de argumentos deveriam ter mais peso em um debate e quais deveriam ser evitados ou ignorados por serem irrelevantes. Achei belo.

hierarquia dos argumentos

Entrevistas com Newton da Costa

O professor Newton da Costa, um dos mais iminentes cientistas do nosso tempo e um dos lógicos e matemáticos brasileiros de maior projeção internacional, foi entrevistado pelo canal Itajubá em Foco, de Minas Gerais. Na ocasião, ele fala sobre vários assuntos, que vão desde a lógica paraconsistente até Deus e a religião.


BÔNUS 1: Newton da Costa sobre Lógica e Direito

O professor Newton da Costa também foi entrevistado pelo canal do Tribunal Regional do Trabalho do Estado de Santa Catarina (TRT-SC). Na ocasião, ele fala sobre a relação entre a lógica e o Direito. Especialmente para os estudantes de ciências jurídicas, eis os vídeos:


BÔNUS 2: Newton da Costa sobre a leitura

Uma campanha de incentivo à leitura criada pelo Colégio Medianeira, do Rio Grande do Sul, conseguiu entrevistar o professor Newton da Costa, um dos mais iminentes cientistas do nosso tempo e um dos lógicos e matemáticos brasileiros de maior projeção internacional. Ouça o que ele tem a dizer sobre o hábito da leitura.

Gente que comenta sem ler

Artigo de Danilo Venticinque para a revista Época.

Clique em qualquer notícia de um grande portal, vá à seção de comentários e faça sua aposta: quantas pessoas realmente leram todo o texto antes de comentar? Quando comecei no jornalismo, ingênuo, acreditava que todos liam tudo. Os anos me tornaram cético. Hoje, tenho certeza de que o número é próximo de zero. Na internet, quase todos nós lemos muito mal. Num universo de leitura fragmentada, os comentaristas conseguem se destacar negativamente. Ao contrário dos outros maus leitores, que prestam conta apenas às suas consciências, quem comenta deixa registrada, definitivamente, a sua falta de atenção. Só não morrem de vergonha disso porque sabem que ninguém notará suas falhas. Afinal, se quase ninguém lê as notícias, é seguro apostar que mesmo o mais absurdo dos comentários passará despercebido.

Quanto maior a audiência de uma notícia, maior a chance de a caixa de comentários se transformar numa sala de bate-papo delirante, sem nenhuma relação com o assunto original. Não importa o assunto do texto: sempre haverá uma desculpa para transformá-lo em palco para brigas políticas. Quando a vontade de expressar uma opinião é irresistível, a lógica é o que menos importa. E sempre há um ou outro justiceiro que gasta seu tempo apontando incoerências nos comentários alheios. São criaturas exóticas: leem não só os textos, como também os comentários – e ainda se dão ao trabalho de notar quando não há qualquer relação entre uma coisa e outra. Os esforços desses bravos heróis são em vão: a horda de comentaristas enfurecidos imediatamente os descartará como lacaios de algum partido político ou, pior ainda, metidos a intelectuais. Bem feito. Quem mandou gastar seu tempo lendo um texto na internet?

Comentários em redes sociais são ainda piores. Lá, não é necessário nem mesmo clicar na notícia para palpitar sobre ela. Basta ler o título do post que um amigo compartilhou e o campo de comentários estará logo abaixo, com todos os seus encantos. Por muito tempo acreditei que a multidão que comenta sem ler era a escória da internet. Que o mundo seria melhor se lêssemos todos os textos antes de palpitar sobre eles. Eu estava errado. Hoje penso exatamente o contrário. A enorme maioria dos textos que circulam pela internet é inútil. Os comentaristas ensandecidos simplesmente decidiram parar de perder tempo com esse tipo de bobagem. São seres mais evoluídos do que nós. Basta aplicarem em algo útil todas as horas de leitura superficial que economizam e logo dominarão o mundo. Saber comentar sem ler é indispensável para ser bem sucedido no mundo digital. Se você ainda não aderiu, pare de ler agora e junte-se a nós.

O próximo passo rumo à iluminação digital é aprender a não ler e não comentar. As discussões na internet, convenhamos, nunca mudaram a opinião de ninguém. Nos meus anos menos esclarecidos, li muitos debates em seções de comentários. Nunca vi um crítico do governo terminar uma discussão com “pensando bem, acho que a culpa não é do governo”. Ou um ativista, após longas réplicas e tréplicas, decidir dar o braço a torcer: “diante de todos os argumentos aqui expostos, cheguei à conclusão que…”. As discussões virtuais são tão dispensáveis quanto as notícias que as antecedem. Abençoado seja quem guarda sua opinião para si e cultiva o silêncio digital.

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