A inevitabilidade da filosofia

Crônica de Desidério Murcho, professor de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), publicado no jornal Público do dia 26 de fevereiro de 2008, em Portugal.


À parte alguns estudiosos, poucas pessoas sabem que Aristóteles (384-322 a.C.) escreveu uma humilde introdução à filosofia, hoje conhecida pelo seu título grego: Protréptico. O livro foi muitíssimo influente durante cerca de mil anos. Quando Boécio (480-524 d.C.) escreveu a sua famosa Consolação da Filosofia, tinha em mente a obra de Aristóteles, cujas ideias lhe chegaram através do Hortênsio, de Cícero (106-43 a.C.) — que, por sua vez, era uma espécie de versão romana do original de Aristóteles.

Por mais que muitas gerações de leitores se sentissem gratos a Aristóteles por ter escrito uma lúcida e iluminante introdução à filosofia, este não é o tipo de obra que os acadêmicos e os intelectuais — do passado e do presente — tenham tendência para estimar. Acarinharam, releram e mantiveram em boas condições as obras mais sofisticadas de Aristóteles, mas não a sua modesta introdução. E foi assim que este livrinho de Aristóteles ficou perdido e praticamente esquecido, até Ingram Bywater redescobrir alguns fragmentos, já no século 19.

Uma das ideias expostas por Aristóteles nesse livrinho exibe com mestria a natureza da filosofia. Não temos uma citação direta da passagem em causa, mas temos várias menções indiretas, e todas concordam que Aristóteles usou algo como o seguinte argumento a favor da filosofia:

Se temos de filosofar, temos de filosofar.
Se não temos de filosofar, temos de filosofar.
Logo, em qualquer caso, temos de filosofar.

Isto parece um daqueles trocadilhos que dão mau nome à filosofia, mas há sabedoria nestas palavras. Trata-se de um pequeno argumento dedutivo, válido, com duas premissas apenas. A primeira é uma trivialidade, claro. A subtileza está na segunda. O que Aristóteles tinha em mente é que para argumentar que não temos de filosofar, temos de usar um argumento qualquer. Mas que tipo de argumento será? Quando pensamos nisso, vemos que não há argumentos biológicos, físicos, matemáticos ou históricos contra a filosofia. Qualquer argumento contra a filosofia teria de ser filosófico. Portanto, para rejeitar a filosofia temos de filosofar. O que demonstra que a filosofia é inevitável. Argumentar contra a filosofia é como gritar “Não estou gritando!”.

Não há maneiras não contraditórias de argumentar contra a filosofia porque a filosofia é o estudo cuidadoso das nossas ideias mais básicas. Mesmo quem pensa que a filosofia é uma besteira tem ideias filosóficas sobre a natureza do conhecimento (epistemologia) ou da realidade (metafísica). Filosofar é avaliar cuidadosamente essas ideias, em vez de as aceitarmos como se fossem as únicas alternativas viáveis. Assim, a opção não é entre ter ou não ter ideias filosóficas. É tão impossível viver sem ter ideias filosóficas como é impossível viver sem ter ideias físicas sobre o mundo à nossa volta. A opção é entre tê-las, estudando-as cuidadosamente, ou ter a ilusão de que não as temos, só porque não nos damos ao incômodo de as estudar.

Qual filósofo você é?

Se você tem alguma noção de filosofia e consegue ler razoavelmente em inglês, vai se divertir respondendo este pequeno teste. São 12 questões simples de múltipla escolha sobre variados temas e problemas filosóficos. Não há respostas certas ou erradas: o que se espera é a sua opinião honesta sobre cada tema. A partir de suas respostas, um algoritmo irá dizer com qual filósofo (ou escola) suas ideias mais se assemelham. Sem nenhuma surpresa, meu resultado deu majoritariamente Platão (82%) e Aristóteles (78%). Os filósofos aos quais eu menos me assemelho são Nietzsche e Sartre.

Mas então, qual filósofo você é?

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Como se lê um ensaio de filosofia

Artigo do professor James Pryor, da Universidade de Princeton (EUA),
traduzido por Álvaro Nunes para o portal Crítica.

Veja também:
Como ler um texto de filosofia
Como ler um texto filosófico
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Vais ter dificuldade em compreender alguns dos textos que iremos ler. Isto é em parte devido a esses textos discutirem ideias abstratas em que não estás acostumado a pensar. Podem também usar vocabulário técnico que é novo para ti. Algumas vezes não será evidente qual é o argumento geral do texto. A prosa pode ser complicada e podes precisar de separar cada frase do texto. Eis algumas indicações para tornar o processo mais fácil e mais eficaz.

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1. Lê superficialmente o texto para encontrar a sua conclusão e ter uma ideia da sua estrutura

Quando se tenta ler um texto difícil, uma boa maneira de começar é ler primeiro superficialmente o texto para identificar a conclusão principal do autor. Tem em especial atenção os parágrafos de abertura e de fecho, uma vez que frequentemente os autores dir-te-ão aí aquilo a favor de que tencionam argumentar. Quando souberes qual é a conclusão principal do autor, tenta reescrevê-la com as tuas próprias palavras. Isto ajudar-te-á a ter a certeza de que compreendes realmente aquilo que o autor pretende demonstrar. Quando estiveres a ler superficialmente o texto, tenta também ter uma compreensão geral do que trata cada parte da discussão. Qual é a estrutura do texto? Às vezes os autores dizem no início do texto como será a sua argumentação. Isto torna o teu trabalho mais fácil. Os textos que lemos nem sempre têm uma estrutura fácil de compreender. Nem sempre terão a forma: “Esta é a conclusão que quero que aceites. Aqui está o argumento a favor dessa conclusão…”.

Os filósofos frequentemente fornecem argumentos auxiliares, argumentos para premissas importantes a que apelam para suportar a conclusão principal. Por exemplo, a discussão do autor pode ter a forma: “A conclusão que quero que aceites é A. O meu argumento para essa conclusão é o seguinte: B e C são verdadeiros, e se B e C são verdadeiros, então A tem de ser também verdadeiro. É geralmente aceite que B é verdadeiro. Contudo, é controverso se C é verdadeiro. Penso que deves aceitar C pelas razões seguintes…”. Aqui o argumento principal do autor é para suportar a conclusão A. Ao defender A ele avança um argumento auxiliar para suportar C. Tenta identificar estes argumentos auxiliares e as alegações que pretendem suportar, evitando confundir um destes argumentos auxiliares com o argumento principal do autor.

Os textos podem ser igualmente complexos noutros aspectos. Nem tudo o que o autor diz é uma conclusão positiva ou uma premissa para suportar a sua conclusão. Às vezes o autor suportará o seu ponto de vista com uma experiência mental. Outras vezes argumentará a favor de uma distinção em que o seu ponto de vista se apoia. Outras vezes defenderá que o ponto de vista ou os argumentos de outro filósofo devem ser rejeitados. Outras ainda defenderá um ponto de vista contra as objecções de outra pessoa. Estejas atento a palavras como estas enquanto lês: porque, desde, dado este argumento, assim, portanto, por isso, segue-se que, consequentemente, no entanto, contudo, mas, em primeiro lugar, por outro lado… Estes são indicadores que te ajudam a compreender a estrutura da discussão. Por exemplo, um artigo filosófico pode ter este aspecto: “O filósofo X avançou o argumento seguinte contra o dualismo… O dualista tem duas respostas ao argumento de X. Primeiro… Contudo, esta resposta tem problemas, porque… Uma resposta melhor é dizer… X pode ser tentado a contrapor o seguinte… Contudo…”. E assim por diante.

Eis outro exemplo: “O cético diz que não podemos dizer se estamos a ver as coisas como elas realmente são, ou se somos cérebros numa cuba alimentados com experiências falsas, como os habitantes de Matrix. Y fez a seguinte objecção ao cético… Por isso, concluo, que não temos razão para pensar que a nossa situação é tão má quanto o cético diz. É tentador responder desta maneira ao cético, mas não creio que funcione, pela seguinte razão… Y pode responder a este problema de uma de duas maneiras. A primeira é… Contudo, esta resposta não é bem-sucedida porque… A segunda maneira é… Contudo, esta resposta também não é bem-sucedida porque… Pelo que no fim de contas penso que a objecção de Y ao cético não pode ser mantida”. Nesse caso, o autor não precisa ser um cético. Concorda com Y que a conclusão do cético é falsa, mas pensa que temos que refletir mais no assunto para ver qual é realmente o defeito do raciocínio do cético. Neste texto, o autor passa a maior parte do tempo a defender o cético contra as objecções de Y, e a examinar as respostas que Y pode dar. A principal conclusão do autor é que as objecções de Y ao cético não funcionam. Mas note que a conclusão principal não é que o ceticismo é verdadeiro.

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2. Volta atrás e lê o texto cuidadosamente

Quando tiveres percebido qual é a conclusão principal do argumento e qual é a estrutura geral do texto, volta atrás e lê o artigo cuidadosamente. Toma atenção à forma como as várias partes se encaixam umas nas outras. Mais importante: vê quais são os argumentos centrais do autor. Que razões apresenta em suporte das suas conclusões? Em que parte do texto apresenta estas razões? Tem também em atenção o seguinte: Aponta onde o autor diz explicitamente o que entende por um determinado termo. Aponta que distinções o autor introduz ou defende. Tem em conta em particular os pressupostos injustificados em que pensas que o autor se apoia. Considera várias interpretações do que ele diz. Há alguma ambiguidade importante de que a sua argumentação não dê conta? Tudo isto te ajudará a compreender melhor o texto e será crucial quando tentares avaliar o argumento do autor e decidir se deves aceitar ou não a sua conclusão. Nas tuas notas podes esboçar as “peças” argumentativas mais importantes. Desenha esquemas de modo a representar a forma como achas que estas peças se encaixam. Se não o podes fazer, então precisas voltar a ler o texto de modo a compreender melhor o que o autor defende.

Deves estar preparado para ter de ler um texto filosófico mais de uma vez. Eu faço filosofia há mais de 10 anos e ainda tenho que ler os artigos várias vezes antes que consiga compreendê-los completamente. Digerir intelectualmente um texto de filosofia demora tempo e exige esforço e concentração. É mais do que certo que não vais compreender tudo num texto a primeira vez que o lês, e podem existir partes do texto que não compreenderás mesmo depois de o ler várias vezes. Deves fazer perguntas sobre essas partes do texto (nas aulas ou depois das aulas, como queiras). Podes dizer: O que é que se passa na página 13? Descartes diz X, mas não percebo como isto se ajusta com a sua anterior alegação Z. X segue-se supostamente de Z? Ou está a tentar aqui apresentar um argumento a favor de Z? Se é isso, por que pensa ele que X é uma razão a favor de Z?

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3. Avalia os argumentos do autor

Como é óbvio, só estarás em condições de avaliar os argumentos do autor quando tiveres feito o trabalho necessário para compreender o que o autor está realmente a dizer e como os seus argumentos funcionam. Quando o tiveres feito, podes começar a fazer perguntas como estas: Concordas com o autor? Se não, o que pensas que está errado no seu raciocínio? Apela ele a alguma premissa que penses ser falsa? (Por que pensas que é falsa?) Há algum pressuposto que o autor não explicite, mas que pensas ser falso? O argumento é confuso ou mal dirigido? Sentirás com frequência que os debates que examinamos são muito confusos e que não sabes em que argumentos acreditar. Não há forma de escapar a isto. Sinto-me assim constantemente. Tudo o que posso dizer é que se trabalhares muito, serás capaz de te orientares na confusão. Começas a compreender como os diferentes pontos de vista se relacionam mutuamente e quais são os seus prós e contras. Podes até chegar à conclusão de que as coisas são mais confusas do que pensavas, que são frustrantes e que tens de voltar aos esquemas. Isto pode repetir-se várias vezes e podes nunca chegar a uma conclusão definitiva. Mas cada vez que tentas entender o debate, descobres que compreendes as coisas um pouco melhor. É assim que progredimos em filosofia. Esse é o único caminho.

Às vezes uma questão filosófica conduz a três outras, que por sua vez conduzem a outras… e não podes explorar essas ligações imediatamente. De modo que tens que aprender a passar sem respostas definitivas. Podes não ser capaz de chegar a uma conclusão segura acerca de se deves aceitar um argumento filosófico, porque isso depende de outras questões P, Q e R, que ainda não abordaste. Isto é normal. Os teus próprios professores de filosofia sentem-se frequentemente desse modo a propósito de muitos argumentos que leram. Outras vezes, podes estar seguro de que um argumento é defeituoso, mas não tens tempo nem meios para compreender, ou explicar e sustentar tudo o que pensas estar errado no argumento. Nesses casos, podes provisoriamente aceitar uma das premissas do argumento, e avançar para outras que penses serem mais importantes ou mais fáceis de criticar. (É por este motivo que frequentemente ouves os filósofos dizerem que “Mesmo se admitirmos por hipótese tal e tal, continuo a pensar que o argumento de X é malsucedido, porque…”)

Hierarquia dos argumentos

Não lembro onde achei essa pirâmide. Estava entre meu arquivos. Ela mostra, pelo menos em teoria, quais tipos de argumentos deveriam ter mais peso em um debate (ponta da pirâmide) e quais deveriam ser evitados ou ignorados por serem irrelevantes (base da pirâmide). Achei belo.

Veja também: Os 10 mandamentos da lógica

hierarquia dos argumentos

Bons textos de filosofia precisam ser difíceis?

Este artigo foi publicado originalmente no portal AEON. Como estou sem saco para traduzir, vou quebrar um tabu desse blog e publicá-lo em inglês mesmo.


Is great philosophy, by its nature, difficult and obscure?

Great philosophy is not always easy. Some philosophers – Kant, Hegel, Heidegger – write in a way that seems almost perversely obscure. Others – Kierkegaard, Nietzsche, Wittgenstein – adopt an aphoristic style. Modern analytic philosophers can present their arguments in a compressed form that places heavy demands on the reader. Hence, there is ample scope for philosophers to interpret the work of their predecessors. These interpretations can become classics in their own right. While not all philosophers write obscurely (eg, Hume, Schopenhauer, Russell), many do. One might get the impression that obscurity is a virtue in philosophy, a mark of a certain kind of greatness; but I’m skeptical.

To some degree, all texts need interpretation. Working out what people mean isn’t simply a matter of decoding their words, but speculating about their mental states. The same words could express quite different thoughts, and the reader has to decide between the interpretations. But it doesn’t follow that all texts are equally hard to interpret. Some interpretations might be more psychologically plausible than others, and a writer can narrow the range of possible interpretations. Why should philosophy need more interpretation than other texts? Academics assume an advanced knowledge of their field, as well as familiarity with conceptual nuances, contemporary references, cultural norms. All this background needs filling in for those outside the tradition. When dealing with work from another time or culture, different scholars might produce different interpretations of the original. But this openness to interpretation is merely an accident of distance. The text could have been quite clear to its original readers, and with sufficient knowledge we might settle on a definitive reading. This doesn’t explain the special difficulties presented by some philosophical texts.

Maybe these difficulties exist because great philosophers operate at a higher intellectual level than the rest of us, packing their work with profound insights, complex ideas and subtle distinctions. We might need these difficult thoughts unpacked by interpreters and, since these are usually less gifted than the original authors, they might differ on the correct reading. But then, if a clear interpretation of the ideas can be provided, why didn’t the original authors do it themselves? Such a failure of communication is a defect rather than a virtue. Skilled writers shouldn’t need interpreters to patch up holes in their texts.

Another explanation focuses on the nature of philosophical enquiry. Philosophers do not simply marshal facts: they engage reflectively with a problem, raising questions, teasing out connections, investigating ideas. Readers can respond with their own questions, connections and ideas. Consequently, great works of philosophy naturally generate different interpretations. But is that because readers engage with the problem being discussed and explore their own ideas about it? Or because they engage with the problem of what the author meant and try to come up with hypotheses? Only the former is the mark of good philosophy. A work can be tentative, exploratory and suggestive without being hard to understand. The options canvassed can be set out with precision and clarity.

Perhaps obscure texts are more open to reinterpretation. Philosophy, some argue, does not progress as science does. Philosophical problems aren’t solved but continually re-explored in new contexts, and each generation returns to great works of the past and reinterprets them for its own time. So texts that are obscure are more likely to become classics, since they naturally lend themselves to reinterpretation. By contrast, unambiguous texts can soon seem sterile and dated. Personally, I am skeptical of the view that philosophy does not progress but, even if we accept it, this doesn’t justify a preoccupation with reinterpretation. If one is grappling with the same problem as an earlier writer, it might be useful to study his work, but what is gained by effectively rewriting it in light of knowledge previously unknown? Why not produce a new work that draws on the old but is not bound by it? Devotion to reinterpretation betrays a misplaced focus on philosophers rather than philosophical problems.

But some great philosophy is creative in a way that is incompatible with clarity. It doesn’t seek to construct precise theories; rather, it reaches out to unmapped areas of thought, where we do not yet know what techniques to employ, what concepts to use, or even what questions to ask. It is more like art than science, and it makes its own rules. It is not that such work is defective by being ambiguous; it is trying to do something that cannot be done clearly, and its aim is precisely to stimulate diverse interpretations. This is, perhaps, the best justification for obscurity. However, it should be used with great caution. Work that respects standards of clarity can be evaluated against those standards, but how to tell if a difficult text is ground-breaking and creative or just pretentious nonsense? And how can we be sure that any good ideas it spawns were latent in the original, rather than the creation of ingenious interpreters? It’s prudent to be very suspicious of such texts; they must earn their status as serious works through a long history of intellectual fertility.

Finally, some philosophers might write obscurely because it creates an aura of profundity and mystery. This invites interpretation and scholarly attention: special effort is required to engage with the work, helping to create a cult following among scholars. The work is also harder to challenge, and criticisms can be dismissed as misinterpretations. Meanwhile, writing that is more transparent can seem less fertile or exciting, and its errors easier to spot. Not admirable, perhaps, but is it cynical to think that such motives for obfuscation sometimes play a role? In most cases, obscurity is a defect, not a virtue, and undue concern with interpretation puts the focus on people rather than problems. It is not easy to write clearly, especially on philosophical topics, and it is risky. Clear writers stand naked before their critics, with all their argumentative blemishes visible; but they are braver, more honest and more respectful of the true aims of intellectual enquiry than ones who shroud themselves in obscurity.

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