Coisas que até um ateu pode ver

Comentários sobre o livro Mind & Cosmos, do filósofo americano Thomas Nagel, escrita pelo Rev. Augustus Nicodemus e publicada originalmente no blog Tempora-Mores.


Um número razoável de cientistas e filósofos ateus ou agnósticos vem em anos recentes engrossando as fileiras daqueles que expressam dúvidas sérias sobre a capacidade da teoria da evolução darwinista para explicar a origem da vida e sua complexidade por meio da seleção natural e da natureza randômica ou aleatória das mutações genéticas necessárias para tal. Poderíamos citar Anthony Flew, o mais notável intelectual ateísta que, no início do século 21, anunciou sua desconversão do ateísmo darwinista e adesão ao teísmo, por causa das evidências de propósito inteligente na natureza. Mais recentemente o biólogo ateu James Shapiro, da Universidade de Chicago, publicou o livro Evolution: A View from 21st Century, que desconstrói impiedosamente o darwinismo.

E agora é a vez de Thomas Nagel, professor de filosofia e direito da Universidade de Nova York, membro da Academia Americana de Artes e Ciências, ganhador de vários prêmios com seus livros sobre filosofia, e um ateu declarado. Ele acaba de publicar o livro Mind & Cosmos (“Mente e Cosmos”), com o provocante subtítulo Why the materialist neo-darwinian conception of nature is almost certainly false” (“Por que a concepção neo-darwinista materialista da natureza é quase que certamente falsa”), onde aponta as fragilidades do materialismo naturalista que serve de fundamento para as pretensões neo-darwinistas de construir uma teoria de tudo. (Não pretendo fazer uma resenha do livro. Para quem lê em inglês, indico a excelente resenha feita por William Dembski e o comentário breve de Alvin Plantinga). Estou mencionando estes intelectuais e cientistas ateus por que quando intelectuais e cientistas cristãos declaram sua desconfiança quanto à evolução darwinista são descartados por serem “religiosos”. Então, tá. Mas, e quando os próprios ateus engrossam o coro dos dissidentes?

Neste post, eu gostaria apenas de destacar algumas declarações de Nagel, no livro, que revelam a consciência clara que ele tem de que uma concepção puramente materialista da vida e de seu desenvolvimento, como a evolução darwinista, é incapaz de explicar a realidade como um todo. Embora ele mesmo rejeite a possibilidade de que a realidade exista pelo poder criador de Deus, ele é capaz de enxergar que a vida é mais do que reações químicas baseadas nas leis da física. A solução que ele oferece – que a mente sempre existiu ao lado da matéria – não tem qualquer comprovação, como ele mesmo admite, mas certamente está mais perto da concepção teísta do que do ateísmo materialista. Ele deixa claro que sua crítica procede de sua própria análise científica e que, mesmo assim, não será bem vinda nos círculos acadêmicos:

“O meu ceticismo [quanto ao evolucionismo darwinista] não é baseado numa crença religiosa ou numa alternativa definitiva. É somente a crença de que a evidência científica disponível, apesar do consenso da opinião científica, não exige racionalmente de nós que sujeitemos este ceticismo [a este consenso] neste assunto. (…) Eu tenho consciência de que dúvidas desta natureza vão parecer um ultraje a muita gente, mas isto é porque quase todo mundo em nossa cultura secular tem sido intimidado a considerar o programa de pesquisa reducionista [do darwinismo] como sacrossanto, sob o argumento de que qualquer outra coisa não pode ser considerada como ciência.” (p.7)

Ele profetiza o fim do naturalismo materialista, o fundamento do evolucionismo darwinista: “Mesmo que o domínio do naturalismo materialista está se aproximando do fim, precisamos ter alguma noção do que pode substitui-lo” (p. 15). Para ele, quanto mais descobrimos acerca da complexidade da vida, menos plausível se torna a explicação naturalista materialista do darwinismo para sua origem e desenvolvimento:

“Durante muito tempo eu tenho achado difícil acreditar na explicação materialista de como nós e os demais organismos viemos a existir, inclusive a versão padrão de como o processo evolutivo funciona. Quanto mais detalhes aprendemos acerca da base química da vida e como é intrincado o código genético, mais e mais inacreditável se torna a explicação histórica padrão [do darwinismo]. (…) É altamente implausível, de cara, que a vida como a conhecemos seja o resultado da sequência de acidentes físicos junto com o mecanismo da seleção natural. (…) “Com relação à evolução, o processo de seleção natural não pode explicar a realidade sem um suprimento adequado de mutações viáveis, e eu acredito que ainda é uma questão aberta se isto poderia ter acontecido no tempo geológico como mero resultado de acidentes químicos, sem a operação de outros fatores determinando e restringindo as formas das variações genéticas.” (pp. 5, 6, 9)

Nagel surpreendentemente sai em defesa dos proponentes mais conhecidos da teoria do design inteligente na atualidade, Michael Behe e Stephen Meyer:

“Apesar de que escritores como Michael Behe e Stephen Meyer sejam motivados parcialmente por suas convicções religiosas, os argumentos empíricos que eles oferecem contra a possibilidade da vida e sua história evolutiva serem explicados plenamente somente com base na física e na química são de grande interesse em si mesmos. (…) Os problemas que estes iconoclastas levantam contra o consenso cientifico ortodoxo deveriam ser levados a sério. Eles não merecem a zombaria que têm recebido. É claramente injusta.” (p.11)

Num parágrafo quase confessional, Nagel reconhece que lhe falta o sentimento do divino que ele percebe em muitos outros: “Confesso (…) que não considero a alternativa do design inteligente como uma opção real – me falta aquele sensus divinitatis [senso do divino] que capacita – na verdade, impele – tantas pessoas a ver no mundo a expressão do propósito divina da mesma maneira que percebem num rosto sorridente a expressão do sentimento humano” (p.12). Para Nagel, porém, o evolucionismo darwinista, com sua visão materialista e naturalista da realidade, não consegue explicar o que transcende o mundo material, como a mente e tudo que a acompanha:

“Nós e outras criaturas com vida mental somos organismos, e nossa capacidade mental depende aparentemente de nossa constituição física. Portanto, aquilo que explica a existência de organismos como nós deve explicar também a existência da mente. Mas, se o mental não é em si mesmo somente físico, não pode, então, ser plenamente explicado pela ciência física. E então, como vou argumentar mais adiante, é difícil evitar a conclusão que aqueles aspectos de nossa constituição física que trazem o mental consigo também não podem ser explicados pela ciência física. Se a biologia evolutiva é uma teoria física – como geralmente é considerada – então não pode explicar o aparecimento da consciência e de outros fenômenos que não podem ser reduzidos ao aspecto meramente físico. (…) Uma alternativa genuína ao programa reducionista [do darwinismo] irá requerer uma explicação de como a mente e tudo o que a acompanha é inerente ao universo. (…) Os elementos fundamentais e as leis da física e da química têm sido assumidos para se explicar o comportamento do mundo inanimado. Algo mais é necessário para explicar como podem existir criaturas conscientes e pensantes, cujos corpos e cérebros são feitos destes elementos. (pp. 15, 20)

Menciono por último a perspicaz observação de Nagel: se a mente existe porque sobreviveu através da seleção natural, isto é, por ter se tornado mais esperta para sobreviver, como poderemos confiar nela? E aqui ele cita e concorda com Alvin Plantinga, um renomado filósofo de fé reformada:

“Eu concordo com Plantinga que, ao contrário da benevolência divina, a aplicação da teoria da evolução à compreensão de nossas capacidades cognitivas acaba por minar nossa confiança nelas, embora não a destrua por completo. Mecanismos formadores de crenças e que têm uma vantagem seletiva no conflito diário pela sobrevivência não merecem a nossa confiança na construção de explicações teóricas sobre o mundo como um todo. (…) A teoria da evolução deixa a autoridade da razão numa posição muito mais fraca. Especialmente no que se refere à nossa capacidade moral e outras capacidades normativas – nas quais confiamos com frequência para corrigir nossos instintos. Eu concordo com Sharon Street [professora de filosofia da Universidade de Nova York] que uma auto-compreensão evolucionista quase que certamente haveria de requerer que desistíssemos do realismo moral, que é a convicção natural de que nossos juízos morais são verdadeiros ou falsos independentemente de nossas crenças.” (p.28)

Não consegui ler Nagel sem lembrar do que a Bíblia diz: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Eclesiastes 3:11). “De um só Deus fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós” (Atos 17:26-27). Nagel tem o sensus divinitatis, sim, pois o mesmo é o reflexo da imagem de Deus em cada ser humano, ainda que decaídos como somos. Infelizmente o seu ateísmo o impede de ver aquilo que sua razão e consciência, tateando, já tocaram.

A obsessão pela bibliografia

Artigo de opinião de Rafael Falcón.

A obsessão pela bibliografia é um dos erros mais cometidos pelos proto-intelectuais – classe mais promissora do país, já que intelectuais totalmente formados inexistem por aqui. Quando digo proto-intelectuais me refiro àqueles estudantes dotados de sincero e esforçado desejo de saber, e não a uma classe de falsários que, para esconder sua mediocridade, procuram ter aparências de sabedoria. É sem dúvida natural que um jovem estudante, almejando a torre do conhecimento, queira alcançá-la por uma escada de livros; isso é razoável e parcialmente verdadeiro.

Não escapa a ninguém, é verdade, a sutil obviedade de que livros são meios e não fins. Aparentemente, porém, essa obviedade não foi suficientemente absorvida por nossa classe estudantil, não se manifesta em suas inclinações e atos com a espontaneidade da natureza. Insistem esses jovens leitores em procurar livros, sem se perguntar para que querem esses livros e se de fato têm as forças e concentração necessárias para levar esse estudo específico a cabo. Preciso saber história, comprem-se livros; literatura, comprem-se livros; religião, comprem-se! O resultado é uma pilha crescente de livros sobre assuntos variados, cuja conexão entre si é, o mais das vezes, o círculo intelectual que os recomendou. Livros sobre mito e religião, literatura e metafísica, comparam entre si suas camadas de poeira, na esperança de que a espessura dessas camadas traga a curiosidade de revisitá-los a seu volúvel comprador. Este é quem mais padece, porque gastou seu dinheiro e parte de suas energias com livros que nunca leu inteiros, e que se leu não sabe bem para que lhe serviram. A sensação de frustração o acompanha.

Um livro é o bastante para um bom estudante. Não pode ser qualquer livro, naturalmente; tem de ser aquele que responde ao seu desespero, à sua esperança de agora. Não deveria ser, no princípio, um livro de René Girard ou Tomás de Aquino. Não deveria ser um livro de teses. Um só livro da alta literatura basta para um ano de padecimento intelectual, para levantar dúzias de perguntas fundamentais e talvez responder alguma. Não estou dizendo isso para soar bonito. É assim que as coisas são. Tentar ler muitos livros de literatura em geral também não levará a lugar algum. A leitura apressada, que já pensa no próximo livro, não se entrega ao que está lendo agora. Não presta atenção, não se pergunta por que nem o quê. Assim não há benefício em ler. Dever-se-ia comprar apenas um livro, sem sequer pensar no próximo, e lê-lo apenas, como uma criança que crê integralmente que sua rua é a totalidade do mundo. Ela explorará cada casa, cada jardim, sem se preocupar com o que há mais adiante.

Alguns se têm concentrado, graças a Olavo de Carvalho principalmente, nos exercícios do Trivium – o plano de educação fundamental da Idade Média. Conheço os exercícios do Trivium, e pretendo falar deles no futuro. Por ora, porém, lanço a pergunta: de que te adiantaria uma bibliografia? Você acabaria sabendo algo sobre a história do Trivium e o que já se disse sobre o assunto. Isso sem dúvida tem valor, pode ser usado para o bem da humanidade, etc. Mas seu objetivo é tornar-se um especialista no Trivium? Seu interesse é em técnicas pedagógicas? Ou você antes está interessado em aprimorar sua leitura e escrita com base nos clássicos da literatura? Se for esse o caso, não valeria mais seu tempo e seu esforço procurar – digamos assim – um clássico da literatura? Sem dúvida é possível amplificar os resultados com técnicas e exercícios específicos, e esse conhecimento pode ser obtido pela pesquisa. Mas o tempo e esforço que você gastaria nessa pesquisa não seriam melhor empregados na essência, que é a literatura, do que em aditivos que não têm nenhuma utilidade sem a literatura?

Imagino objeções: posso ler literatura e estudar outras coisas ao mesmo tempo; essas outras coisas vão ajudar-me com a literatura; não tenho condições de compreender livros tão profundos sem apoio, etc. Responder a todas essas objeções levaria muito tempo e não parece estritamente necessário. De todo modo, parece-me que o problema fundamental é que ler literatura dói. Literatura é difícil, é densa, não te dá respostas repetíveis, apenas fatos. A estrutura da literatura é semelhante à estrutura da vida e, por isso, compreender literatura é um esforço parecido ao de compreender a própria vida. Diante de um tal esforço, é natural que queiramos fugir para adendos, detalhes, interpretações, bibliografias e discursos em geral. É um modo de postergar o trabalho duro e fingir, para nós mesmos, que estamos sim ocupados, cumprindo as etapas necessárias, os requisitos, porque ainda não estamos prontos. Proponho a pergunta: você está inventando obrigações para postergar o que é mais importante? Você precisa realmente desse livro que quer comprar ou dessa bibliografia de apoio que está pesquisando? Sem essa sinceridade consigo mesmo, não me parece que alguém possa obter uma formação efetiva e muito menos descobrir sua vocação intelectual.

Por que a Bíblia católica tem mais livros?

Muita gente simples tem essa dúvida e acaba acreditando em versões completamente equivocadas e imparciais dadas pelos seus líderes religiosos, sejam eles católicos ou protestantes. Por isso, resolvi explicar essa questão aqui de maneira clara, sucinta e direta, para que seja facilmente entendida e finalmente esclarecida para os leigos.

pergaminho

A Bíblia protestante é constituída por 66 livros; 39 dos quais formam o Antigo Testamento (a Bíblia Hebraica, dos judeus), e 27 compõem o Novo Testamento. Já a Bíblia católica possui, além desses 66, outros sete livros completos (Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Baruque, Sabedoria e Eclesiástico) e alguns acréscimos aos livros de Ester (10:4 a 11:1 ou a 16:24) e Daniel (3:24-90; caps. 13 e 14). Todos esses livros e fragmentos adicionais, chamados de deuterocanônicos, pelos católicos, e de apócrifos, pelos protestantes, fazem parte do Antigo Testamento na Bíblia católica, de modo que o Novo Testamento é idêntico em ambas as Bíblias.

Os livros deuterocanônicos ou apócrifos foram produzidos, em sua maioria, durante os dois últimos séculos antes de Cristo; portanto, bem depois que o cânon da Bíblia Hebraica já estava concluído; daí serem chamados de “deuterocanônicos”. Embora nunca tenham feito parte da Bíblia Hebraica, porém, eles foram incorporados à tradução da Bíblia para o latim (Vulgata Latina) em 382 d.C., e declarados autênticos pelo Concílio de Roma, no mesmo ano. Essa versão preservou e popularizou os acréscimos durante a Idade Média. Em 1546, pouco depois da Reforma Protestante, o Concílio de Trento decretou que aqueles que não reconhecessem os acréscimos da Vulgata Latina como genuinamente sagrados e canônicos deveriam ser excomungados. Consequentemente, todas as versões católicas da Bíblia preservam até hoje esses escritos.

Os protestantes, por sua vez, reconhecem o valor histórico dos livros apócrifos, mas não os consideram como canônicos ou inspirados. Essa posição deriva do fato de tais escritos (1) não fazerem parte do cânon hebraico do Antigo Testamento; (2) não haverem sido citados por Cristo ou pelos apóstolos no Novo Testamento; e (3) apresentarem ensinamentos contrários ao restante das Escrituras. Entre esses ensinamentos encontram-se, por exemplo, as teorias da existência do purgatório (Sabedoria 3:1-9; contrastar com Salmo 6:5; Eclesiastes 9:5, 10); das orações pelos mortos (II Macabeus 12:42-46; contrastar com Isaías 38:18 e 19); de que anjos bons mentem (Tobias 5:10-14; contrastar com Mateus 22:30; João 8:44); de que o fundo dos órgãos de um peixe, postos sobre brasas, espantam os demônios (Tobias 6:5-8; contrastar com Marcos 9:17-29); de que as esmolas expiam o pecado (Tobias 12:8 e 9; Eclesiástico 3:30; contrastar com I Pedro 1:18 e 19; I João 1:7-9).

Sobre a reimpressão de “Mein Kampf”

Artigo de opinião de Stephen Hicks, professor de filosofia na Rockford University (EUA).

Adolf-Hitler-Mein-Kampf

As autoridades alemãs permitirão a reimpressão da obra Mein Kampf (Minha Luta) de Adolf Hitler, após décadas de censura. Pessoas decentes podem argumentar que o livro é muito perigoso para ser publicado. Mas o fato é que Mein Kampf é muito perigoso para não ser publicado. O grande medo é que as ideias de Hitler não estejam mortas e que seu livro precipite outro movimento social terrivelmente patológico. O nacionalismo e o socialismo ainda apelam a muitos. As combinações das duas ideologias atraem novos adeptos a cada dia na Europa e ao redor do mundo. Mein Kampf está disponível em muitas edições, em muitos idiomas e até mesmo online. Portanto, o furor relativo à sua reimpressão está mais ligado aos próprios alemães: eles podem lidar com isso? É sempre engraçado cutucar a reputação histórica alemã. Mas já se passaram três gerações desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mudanças culturais importantes ocorreram na Alemanha com respeito ao militarismo, autoritarismo, antissemitismo e outros elementos nacional-socialistas. Existe muita evidência de que a Alemanha de hoje está muito acima da média em civilidade e decência. Isso significa que o “controle cultural” pós-nazismo pode ser abolido.

Mesmo além do caso particular da Alemanha, existe um ponto importante e geral sobre a proibição de, até mesmo, as ideias mais repulsivas: a censura enfraquece nossa habilidade de combatê-las. Levi Salomon, palestrando para o Fórum Judaico para a Democracia e Contra o Antissemitismo, sediado em Berlim, opõe-se à reimpressão do livro Mein Kampf: “Esse livro está fora da lógica humana”. Talvez isso seja verdade. Mas o livro não está fora da experiência humana. Nós devemos entender a “lógica” das crenças nacional-socialistas, não importando o quão ilógicas possam ser na realidade. Estas crenças continuam a ter um apelo psicológico e social poderoso para muitos, então é crucial que toda a geração saiba exatamente quais são, por que atraem tantas pessoas – e como combatê-las. Os nazistas não eram somente alguns caras loucos que, por um golpe de sorte, chegaram ao poder. Por muito tempo uma visão caricatural do nacional-socialismo tomou conta da opinião pública.

Considere uma questão: Anos antes de os nazistas tomarem o poder, 3 vencedores do prêmio Nobel – Johannes Stark, Gerart Hauptmann e Philipp Lenard – apoiavam os nazistas. Também antes da chegada dos nazistas ao poder, muitos intelectuais com doutorado das melhores universidades alemãs escreveram livros que apoiavam a ideologia nacional-socialista. Entre eles estavam o historiador Dr. Oswald Spengler, que publicou seu best-seller The Decline of the West (A Decadência do Ocidente) em 1918. Spengler era o mais famoso intelectual alemão da década de 1920. O teórico jurista Dr. Carl Schmitt escreveu livros que ainda são reconhecidos como clássicos do século 20. O teórico e cientista político Moeller van den Bruck publicou The Third Reich (O Terceiro Reich) em 1923, o qual foi sucesso de vendas durante a década de 1920. E o filósofo Dr. Martin Heidegger, considerado por muitos como o detentor da mente filosófica mais original do século, apoiou ativamente os nazistas tanto na teoria como na prática. Muitos dos gênios apoiadores do nacional-socialismo eram extremamente cultos e se consideravam discípulos de Hegel, Marx e Nietzsche – e como responsáveis pelo trabalho vital e idealista de aplicação daquelas filosofias abstratas à política do mundo real. Então, o problema não é somente Adolf Hitler. Além do mais, se resolvermos censurar todos os escritos que influenciaram ou induziram ao nazismo, a lista seria muito longa.

Também é um fato relevante que muitos milhões de alemães votaram no Partido Nacional Socialista. Na decisiva eleição democrática de 1933, os nazistas venceram com 43% dos votos – mais que o total dos outros três partidos combinados. Em segundo lugar, estavam os Socialistas e em terceiro, os Comunistas, o que nos fala muito do clima político e intelectual da época. O sucesso eleitoral dos nazistas não foi também produto de um conjunto de ideias contidas somente em livros. Na construção do seu movimento, os nazistas utilizaram princípios modernos de marketing, logística e administração. Eles aplicaram novas teorias da psicologia e da sociologia para formar um movimento central de centenas de ativistas devotos, expandindo-se a um movimento de massa de milhões de seguidores. Mas por que tantos intelectuais concordavam com as ideias nacional-socialistas? Por que tantos voluntários, doadores e profissionais devotaram suas energias para a criação de um notável movimento político? Por que milhões de cidadãos alemães votaram – com frequência de forma entusiasmada – nos nazistas? Eram todos simplesmente estúpidos, depravados e insanos? Não, não eram. Gostando ou não do fato, o nazismo incorpora uma profunda filosofia de vida – e isso explica seu poder.

Pode-se argumentar que a filosofia nazista não é lógica e racional. Eu concordo. Ainda assim, poucas filosofias o são. Também pode-se argumentar que o nazismo, se seguido à risca, leva à psicose. Concordo novamente. Mesmo assim, isso se aplica também a muitas outras filosofias. Mas tampouco é lógico, racional ou sadio ignorar um conjunto de ideias que continua a inspirar movimentos ao redor do mundo. Suprimir ideias perigosas é muito mais perigoso que lutar contra elas abertamente. Uma sociedade livre pode funcionar somente se a maioria de seus membros entender quais os princípios que a norteiam e a razão pela qual são melhores que as alternativas. Isso pressupõe que eles sabem quais são alternativas, obviamente. Portanto, não existem atalhos em nossa educação cultural continuada. Todas as gerações devem discutir e debater as grandes ideias – verdadeiras ou falsas, conhecidas e possíveis, saudáveis ou perigosas – tornando-se intelectualmente preparadas para defender e expandir a civilização liberal.

Às vezes, o impulso à censura foca no simbolismo de permitir que livros malignos sejam publicados. Não censurar Mein Kampf, por exemplo, poderia ser uma declaração, pelas autoridades, de que consideram as ideias nacional-socialistas dentro do limite da opinião aceitável. Contudo, nós deveríamos lembrar que a sociedade livre rejeita a ideia de que é função das autoridades decidirem quais opiniões são aceitáveis. Esse é nosso trabalho, de cada um de nós, individualmente. Em sua opinião dissidente em um caso clássico de censura americana, o juiz Potter Steward fez uma observação pertinente: “A censura reflete a falta de confiança de uma sociedade em si mesma”. Existe um importante simbolismo intrínseco ao encorajamento da livre expressão: nós podemos lidar com isso. Então, vamos fortalecer tal autoconfiança. Nós temos a inteligência e o caráter para lidar com os Hitlers potenciais, assim como seus talentosos teóricos.

Três teoremas científicos que você provavelmente aprendeu errado na escola

A ciência avança mais rápido que os livros didáticos. Por isso, frequentemente eles ficam desatualizados. São inúmeros os exemplos de teoremas ou teorias científicas que já estão desatualizadas há bastante tempo, mas que ainda são ensinadas nas escolas. Escolhi aqui apenas três exemplos clássicos para ilustrar isso.

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Os cinco sentidos

sentidos-corpoTato, olfato, visão, audição, paladar. O clássico quinteto existe, mas você já ouviu falar em propiocepção? É nossa capacidade de saber onde está cada parte do corpo, sem precisar ver ou tocar. Dor e temperatura, outros sentidos óbvios, ficam na pele, mas não tem nada a ver com tato. Equilíbrio fica na orelha interna, mas não é audição. Você também tem sensores diferentes para notar que o pulmão, bexiga, estômago e intestinos estão cheios e percebe quando seu sangue está com pouco oxigênio, quando prende a respiração. Temos até mesmo um GPS no nariz. Então, quantos sentidos existem? Na verdade, não é tão fácil assim definir o que é um sentido. Podemos chamar nossa percepção da passagem do tempo, sem nenhum órgão associado a ela, de sentido? No fim, há quem fale em mais de 20 sentidos. A certeza é que são mais de cinco.

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As cores primárias

coresSegundo as aulinhas de educação artística, misturando amarelo, vermelho e azul, podemos obter todas as cores. E você não pode obtê-las misturando nenhuma outra cor. Pura balela. As verdadeiras cores primárias são ciano, magenta e amarelo. Simplesmente não dá para fazer qualquer cor com vermelho e azul. E dá para fazer azul com ciano e magenta e vermelho com amarelo e magenta. Qualquer um que já recarregou uma impressora deve ter percebido: as tintas vêm nessas três cores, e não nas do guache com que você sujou os dedos na terceira série. Só que isso não é tudo. Essas são as cores primárias substrativas. Mas existe outro tipo de cores primárias, as aditivas. Quando a gente fala em tintas, misturá-las é remover cores. Como ensinado na escola, a luz branca contém todas as cores. Quando ela reflete num material pintado, volta com menos cores (e percebemos uma só).

Quando você pinta uma parede branca de azul, o que está fazendo é impedir que ela reflita as outras partes do espectro luminoso. Misturando tintas, você reduz quais partes da luz branca são refletidas. O resultado é que, se você juntar as três cores primárias subtrativas, o resultado é preto, e não branco. O branco é a união de todas as cores de forma aditiva. E podemos produzir cores dessa forma emitindo luz. Se você acender uma luz vermelha e outra verde, o resultado é amarelo, e não o marrom desagradável produzido ao se misturar tintas da mesma cor. Isso porque estamos ampliando o espectro luminoso ao adicionar mais partes dele à uma emissão de luz. Dessa forma, as cores primárias aditivas são azul, vermelho e verde. De fato, é assim que seus olhos funcionam: eles tem receptores para essas três cores. As cores primárias erradas vem da Renascença, quando os pigmentos eram limitados. Desde o século 19 sabemos que não é assim.

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Os estados da matéria

estados-aguaSólido, líquido e gasoso, certo? Mas o que dizer do plasma, em que os elétrons se separam de seus núcleos, criando algo que parece gás, mas conduz eletricidade e pode ser controlado por campos magnéticos? Ou o cristal líquido, com propriedades tanto de sólido quanto de líquido, que também está na sua TV, mas não nos livros didáticos? E ainda o superfluido, um material que tem zero viscosidade, e corre para cima quando posto num recipiente? Assim como no caso dos sentidos, existem muitos outros estados da matéria. A maioria deles só existe em condições raras e extremas, observados apenas em laboratório. Então, para simplificar, lembre-se pelo menos do plasma, que é comum, existe na natureza (no Sol e em raios) e é fácil de explicar: basta aquecer qualquer gás imensamente ou expô-lo a uma grande corrente elétrica.

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Com informações de: Superinteressante.

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