Sobre a reimpressão de “Mein Kampf”

Artigo de opinião de Stephen Hicks, professor de filosofia na Rockford University (EUA).

Adolf-Hitler-Mein-Kampf

As autoridades alemãs permitirão a reimpressão da obra Mein Kampf (Minha Luta) de Adolf Hitler, após décadas de censura. Pessoas decentes podem argumentar que o livro é muito perigoso para ser publicado. Mas o fato é que Mein Kampf é muito perigoso para não ser publicado. O grande medo é que as ideias de Hitler não estejam mortas e que seu livro precipite outro movimento social terrivelmente patológico. O nacionalismo e o socialismo ainda apelam a muitos. As combinações das duas ideologias atraem novos adeptos a cada dia na Europa e ao redor do mundo. Mein Kampf está disponível em muitas edições, em muitos idiomas e até mesmo online. Portanto, o furor relativo à sua reimpressão está mais ligado aos próprios alemães: eles podem lidar com isso? É sempre engraçado cutucar a reputação histórica alemã. Mas já se passaram três gerações desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mudanças culturais importantes ocorreram na Alemanha com respeito ao militarismo, autoritarismo, antissemitismo e outros elementos nacional-socialistas. Existe muita evidência de que a Alemanha de hoje está muito acima da média em civilidade e decência. Isso significa que o “controle cultural” pós-nazismo pode ser abolido.

Mesmo além do caso particular da Alemanha, existe um ponto importante e geral sobre a proibição de, até mesmo, as ideias mais repulsivas: a censura enfraquece nossa habilidade de combatê-las. Levi Salomon, palestrando para o Fórum Judaico para a Democracia e Contra o Antissemitismo, sediado em Berlim, opõe-se à reimpressão do livro Mein Kampf: “Esse livro está fora da lógica humana”. Talvez isso seja verdade. Mas o livro não está fora da experiência humana. Nós devemos entender a “lógica” das crenças nacional-socialistas, não importando o quão ilógicas possam ser na realidade. Estas crenças continuam a ter um apelo psicológico e social poderoso para muitos, então é crucial que toda a geração saiba exatamente quais são, por que atraem tantas pessoas – e como combatê-las. Os nazistas não eram somente alguns caras loucos que, por um golpe de sorte, chegaram ao poder. Por muito tempo uma visão caricatural do nacional-socialismo tomou conta da opinião pública.

Considere uma questão: Anos antes de os nazistas tomarem o poder, 3 vencedores do prêmio Nobel – Johannes Stark, Gerart Hauptmann e Philipp Lenard – apoiavam os nazistas. Também antes da chegada dos nazistas ao poder, muitos intelectuais com doutorado das melhores universidades alemãs escreveram livros que apoiavam a ideologia nacional-socialista. Entre eles estavam o historiador Dr. Oswald Spengler, que publicou seu best-seller The Decline of the West (A Decadência do Ocidente) em 1918. Spengler era o mais famoso intelectual alemão da década de 1920. O teórico jurista Dr. Carl Schmitt escreveu livros que ainda são reconhecidos como clássicos do século 20. O teórico e cientista político Moeller van den Bruck publicou The Third Reich (O Terceiro Reich) em 1923, o qual foi sucesso de vendas durante a década de 1920. E o filósofo Dr. Martin Heidegger, considerado por muitos como o detentor da mente filosófica mais original do século, apoiou ativamente os nazistas tanto na teoria como na prática. Muitos dos gênios apoiadores do nacional-socialismo eram extremamente cultos e se consideravam discípulos de Hegel, Marx e Nietzsche – e como responsáveis pelo trabalho vital e idealista de aplicação daquelas filosofias abstratas à política do mundo real. Então, o problema não é somente Adolf Hitler. Além do mais, se resolvermos censurar todos os escritos que influenciaram ou induziram ao nazismo, a lista seria muito longa.

Também é um fato relevante que muitos milhões de alemães votaram no Partido Nacional Socialista. Na decisiva eleição democrática de 1933, os nazistas venceram com 43% dos votos – mais que o total dos outros três partidos combinados. Em segundo lugar, estavam os Socialistas e em terceiro, os Comunistas, o que nos fala muito do clima político e intelectual da época. O sucesso eleitoral dos nazistas não foi também produto de um conjunto de ideias contidas somente em livros. Na construção do seu movimento, os nazistas utilizaram princípios modernos de marketing, logística e administração. Eles aplicaram novas teorias da psicologia e da sociologia para formar um movimento central de centenas de ativistas devotos, expandindo-se a um movimento de massa de milhões de seguidores. Mas por que tantos intelectuais concordavam com as ideias nacional-socialistas? Por que tantos voluntários, doadores e profissionais devotaram suas energias para a criação de um notável movimento político? Por que milhões de cidadãos alemães votaram – com frequência de forma entusiasmada – nos nazistas? Eram todos simplesmente estúpidos, depravados e insanos? Não, não eram. Gostando ou não do fato, o nazismo incorpora uma profunda filosofia de vida – e isso explica seu poder.

Pode-se argumentar que a filosofia nazista não é lógica e racional. Eu concordo. Ainda assim, poucas filosofias o são. Também pode-se argumentar que o nazismo, se seguido à risca, leva à psicose. Concordo novamente. Mesmo assim, isso se aplica também a muitas outras filosofias. Mas tampouco é lógico, racional ou sadio ignorar um conjunto de ideias que continua a inspirar movimentos ao redor do mundo. Suprimir ideias perigosas é muito mais perigoso que lutar contra elas abertamente. Uma sociedade livre pode funcionar somente se a maioria de seus membros entender quais os princípios que a norteiam e a razão pela qual são melhores que as alternativas. Isso pressupõe que eles sabem quais são alternativas, obviamente. Portanto, não existem atalhos em nossa educação cultural continuada. Todas as gerações devem discutir e debater as grandes ideias – verdadeiras ou falsas, conhecidas e possíveis, saudáveis ou perigosas – tornando-se intelectualmente preparadas para defender e expandir a civilização liberal.

Às vezes, o impulso à censura foca no simbolismo de permitir que livros malignos sejam publicados. Não censurar Mein Kampf, por exemplo, poderia ser uma declaração, pelas autoridades, de que consideram as ideias nacional-socialistas dentro do limite da opinião aceitável. Contudo, nós deveríamos lembrar que a sociedade livre rejeita a ideia de que é função das autoridades decidirem quais opiniões são aceitáveis. Esse é nosso trabalho, de cada um de nós, individualmente. Em sua opinião dissidente em um caso clássico de censura americana, o juiz Potter Steward fez uma observação pertinente: “A censura reflete a falta de confiança de uma sociedade em si mesma”. Existe um importante simbolismo intrínseco ao encorajamento da livre expressão: nós podemos lidar com isso. Então, vamos fortalecer tal autoconfiança. Nós temos a inteligência e o caráter para lidar com os Hitlers potenciais, assim como seus talentosos teóricos.

Bons textos de filosofia precisam ser difíceis?

Este artigo foi publicado originalmente no portal AEON. Como estou sem saco para traduzir, vou quebrar um tabu desse blog e publicá-lo em inglês mesmo.


Is great philosophy, by its nature, difficult and obscure?

Great philosophy is not always easy. Some philosophers – Kant, Hegel, Heidegger – write in a way that seems almost perversely obscure. Others – Kierkegaard, Nietzsche, Wittgenstein – adopt an aphoristic style. Modern analytic philosophers can present their arguments in a compressed form that places heavy demands on the reader. Hence, there is ample scope for philosophers to interpret the work of their predecessors. These interpretations can become classics in their own right. While not all philosophers write obscurely (eg, Hume, Schopenhauer, Russell), many do. One might get the impression that obscurity is a virtue in philosophy, a mark of a certain kind of greatness; but I’m skeptical.

To some degree, all texts need interpretation. Working out what people mean isn’t simply a matter of decoding their words, but speculating about their mental states. The same words could express quite different thoughts, and the reader has to decide between the interpretations. But it doesn’t follow that all texts are equally hard to interpret. Some interpretations might be more psychologically plausible than others, and a writer can narrow the range of possible interpretations. Why should philosophy need more interpretation than other texts? Academics assume an advanced knowledge of their field, as well as familiarity with conceptual nuances, contemporary references, cultural norms. All this background needs filling in for those outside the tradition. When dealing with work from another time or culture, different scholars might produce different interpretations of the original. But this openness to interpretation is merely an accident of distance. The text could have been quite clear to its original readers, and with sufficient knowledge we might settle on a definitive reading. This doesn’t explain the special difficulties presented by some philosophical texts.

Maybe these difficulties exist because great philosophers operate at a higher intellectual level than the rest of us, packing their work with profound insights, complex ideas and subtle distinctions. We might need these difficult thoughts unpacked by interpreters and, since these are usually less gifted than the original authors, they might differ on the correct reading. But then, if a clear interpretation of the ideas can be provided, why didn’t the original authors do it themselves? Such a failure of communication is a defect rather than a virtue. Skilled writers shouldn’t need interpreters to patch up holes in their texts.

Another explanation focuses on the nature of philosophical enquiry. Philosophers do not simply marshal facts: they engage reflectively with a problem, raising questions, teasing out connections, investigating ideas. Readers can respond with their own questions, connections and ideas. Consequently, great works of philosophy naturally generate different interpretations. But is that because readers engage with the problem being discussed and explore their own ideas about it? Or because they engage with the problem of what the author meant and try to come up with hypotheses? Only the former is the mark of good philosophy. A work can be tentative, exploratory and suggestive without being hard to understand. The options canvassed can be set out with precision and clarity.

Perhaps obscure texts are more open to reinterpretation. Philosophy, some argue, does not progress as science does. Philosophical problems aren’t solved but continually re-explored in new contexts, and each generation returns to great works of the past and reinterprets them for its own time. So texts that are obscure are more likely to become classics, since they naturally lend themselves to reinterpretation. By contrast, unambiguous texts can soon seem sterile and dated. Personally, I am skeptical of the view that philosophy does not progress but, even if we accept it, this doesn’t justify a preoccupation with reinterpretation. If one is grappling with the same problem as an earlier writer, it might be useful to study his work, but what is gained by effectively rewriting it in light of knowledge previously unknown? Why not produce a new work that draws on the old but is not bound by it? Devotion to reinterpretation betrays a misplaced focus on philosophers rather than philosophical problems.

But some great philosophy is creative in a way that is incompatible with clarity. It doesn’t seek to construct precise theories; rather, it reaches out to unmapped areas of thought, where we do not yet know what techniques to employ, what concepts to use, or even what questions to ask. It is more like art than science, and it makes its own rules. It is not that such work is defective by being ambiguous; it is trying to do something that cannot be done clearly, and its aim is precisely to stimulate diverse interpretations. This is, perhaps, the best justification for obscurity. However, it should be used with great caution. Work that respects standards of clarity can be evaluated against those standards, but how to tell if a difficult text is ground-breaking and creative or just pretentious nonsense? And how can we be sure that any good ideas it spawns were latent in the original, rather than the creation of ingenious interpreters? It’s prudent to be very suspicious of such texts; they must earn their status as serious works through a long history of intellectual fertility.

Finally, some philosophers might write obscurely because it creates an aura of profundity and mystery. This invites interpretation and scholarly attention: special effort is required to engage with the work, helping to create a cult following among scholars. The work is also harder to challenge, and criticisms can be dismissed as misinterpretations. Meanwhile, writing that is more transparent can seem less fertile or exciting, and its errors easier to spot. Not admirable, perhaps, but is it cynical to think that such motives for obfuscation sometimes play a role? In most cases, obscurity is a defect, not a virtue, and undue concern with interpretation puts the focus on people rather than problems. It is not easy to write clearly, especially on philosophical topics, and it is risky. Clear writers stand naked before their critics, with all their argumentative blemishes visible; but they are braver, more honest and more respectful of the true aims of intellectual enquiry than ones who shroud themselves in obscurity.

Escritor e dramaturgo Ariano Suassuna fala sobre as raízes populares da cultura brasileira

Selecionei abaixo as melhores palestras ministradas pelo falecido escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna que estão disponíveis no YouTube. Apesar de longas, as chamadas “aulas-espetáculo” passam longe de ser cansativas e maçantes. Vale a pena cada minuto. Que saudade desse velho da voz rouca e prosa cativante!

Conheça a Biblioteca Nacional

O vídeo a seguir foi divulgado há exatos 5 anos, em 29 de outubro de 2010, por ocasião do bicentenário da Fundação Biblioteca Nacional, no centro histórico do Rio de Janeiro. Pelo mesmo motivo, nesta data se comemora também o Dia Nacional do Livro aqui no Brasil. A Biblioteca Nacional é a maior biblioteca do país e recebe, por lei, um exemplar de cada livro publicado no Brasil. Todo o seu acervo fica disponível à consulta pública. Parada obrigatória pra quem for dar uma passadinha na cidade maravilhosa.

Carta a um jovem escritor

Crônica de Nelson Fonseca Neto publicada no Jornal Cruzeiro do Sul.

Não tente acertar vários alvos. O escritor é um caçador solitário. Não desperdice a parca munição. Não dá para se sair bem em todos os gêneros. Faulkner foi excepcional romancista e contista mediano. Machado de Assis foi primoroso na prosa (conto, crônica e romance) e raso na poesia. Manuel Bandeira nunca escreveu romance. Jorge Luís Borges ficou no conto, na poesia e no ensaio. Os contos de Graciliano Ramos são bem mais fracos que os romances. Siga o exemplo de Tchekhov (sempre ele!), que preferiu ficar no conto. Atingir a excelência num só gênero já é trabalho suficientemente árduo.

Evite o “bloguismo”. Aposto que você conhece várias celebridades blogueiras. Diga a verdade: não é uma chatice ler 99,9% do que essas pessoas escrevem? Não dá para perceber a impostura? Tudo jogo de cena. Os caras forçam a barra. Temos o “blogueiro caubói”, que acha o máximo ser grosseiro e bancar o machão. Temos a “blogueira lírica”, que vê poesia até na caixa de leite longa vida. Temos o “blogueiro comentarista”, que dá palpites mordazes (e quase sempre sem qualquer fundamento) em política internacional, economia, cinema, teatro, arquitetura, televisão, educação, antropologia, filosofia e futebol. É o Da Vinci 2.0. Cada época com o Renascimento que merece. Sem contar a tara dessas pessoas pela confissão idiota. Tudo é importante em suas vidas. O carro quebrou? Post no blog. A data de validade do iogurte expirou? Post no blog. Trocou de celular? Post no blog. Seria a “cura pela palavra”? Que beleza!

Estude profundamente a língua portuguesa. Tem gente elogiando a ignorância. Fica bonitinho valorizar a naturalidade, como se escrever fosse um exercício de psicografia. Ora, escrita e artifício caminham juntos. Algumas coisas não mudam: o escritor trabalha com as palavras. Ele precisa escolhê-las e organizá-las. Léxico e sintaxe. Não custa nada entender o que é subordinação e o que é coordenação. Vale a pena colocar os adjetivos na balança. É importante saber como funciona o adjunto adverbial. Vírgula, ponto final e ponto-e-vírgula são apenas manchas no texto? Claro que não. Mas tome cuidado: conhecer a língua portuguesa não é a mesma coisa que bancar o esnobe. Não ache que, aqui, o passo mais importante é virar um mestre da nomenclatura. Tudo bem você conhecer análise sintática, mas não a transforme em jogo sem sentido. Entender como as palavras se organizam – função da sintaxe – é meio, e não fim.

Recomendo dois livraços que o ajudarão a refletir com maturidade sobre os mecanismos da língua: Comunicação em prosa moderna (Othon Garcia) e Estilística da língua portuguesa (Rodrigues Lapa). Essas duas obras não soterram o leitor com capítulos bobocas. Elas atiram para acertar: estrutura de parágrafos; posição de adjetivos e advérbios; importância dos “verbos de dizer”; seleção lexical; aplicação (muito bem justificada) da voz ativa e da voz passiva. Enfim, pontos cruciais do uso da linguagem escrita. Nada de coletivo de borboleta, por exemplo. Claro que não tem problema conhecer o coletivo de borboleta, mas muitos livros de gramática não enfatizam quais tópicos são importantes e quais são acessórios.

Leia com lupa. Infelizmente, ao escolher o ofício da escrita, você terá de mudar a maneira como lê literatura. Antes, você lia por prazer. Não reparava na construção das frases. Corria os olhos pelos diálogos. Você queria chegar ao final da trama, claro. Mas as coisas mudaram. Você precisa de exemplos, de lanternas que iluminem um pouco a floresta cerrada. Os grandes autores fornecem essa luz. Passe a reparar no estilo protocolar de Kafka. Em muitos momentos, aquelas palavras parecem saídas de um documento governamental. Repare na escassez de adjetivos do Antigo Testamento. Note a perfeição do conto “Os mortos”, que fecha Dublinenses, de James Joyce. Sinta a amargura dos últimos contos longos de Tchekhov. Transforme Memórias do Cárcere em livro de cabeceira. Compare as primeiras versões dos contos de Raymond Carver com as últimas. Aquilo é prática de corte. A faca é indispensável ao escritor.

A literatura não garantirá seu sustento. Você está no Brasil. Escritor brasileiro vende pouco. Escreva nas horas vagas. Aproveite as brechas que a rotina oferece. Trate de garantir o mínimo de conforto material. Não caia na conversinha do romantismo. Não veja a indigência como algo nobre. Cuidado com a síndrome do coitadinho. Estou cansado de ver candidatos a escritor chorando pelos cantos. Muitos desses caras são craques na hora de apontar o dedo na direção dos culpados. Para eles, todos são culpados. Eles sonham com a vitalícia subvenção do governo. Ou que uma Guggenheim os acolha. Eternos pidões, começam com um chororô que às vezes termina em estelionato. Aqui, as palavras de Flaubert são perfeitas: “O ideal é uma existência estável da vida externa para que a mente possa suportar suas tempestades e se revelar na página”. Viva como um burguês, pense como um artista. É o que posso dizer para você. Talvez sejam palavras um tanto amargas. Não ache que sou um cara azedo. O fato é que levo realmente a sério essa atividade chamada “literatura”.

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