Coleção “Os Pensadores” – Nova Cultural

A coleção “Os Pensadores” foi uma iniciativa única no Brasil de publicação das obras mais influentes do pensamento ocidental. Foi publicada originalmente pela editora Abril Cultural, na década de 1970. Nas últimas décadas, a Abril Cultural separou-se do grupo Abril, passando então a se chamar Nova Cultural. Atualmente, a coleção “Os Pensadores” publica obras de referência obrigatória para a grande maioria dos cursos universitários de ciências humanas no Brasil, especialmente os de filosofia. Ao todo, são mais de 50 volumes publicados, dos quais consegui reunir boa parte em arquivo PDF aqui.

Devido a um problema técnico, porém, os arquivos tiveram de ser removidos do servidor. Fazendo uma busca no Google, quase todos os resultados direcionam seus links para o Charlezine. Como os arquivos foram removidos, as respectivas páginas para as quais os links apontam não existem mais. Como tenho os arquivos em meu computador, eu bem que poderia subir tudo novamente para o servidor e reativar os links, mas, depois de uma busca mais apurada, consegui encontrar três páginas que disponibilizam as obras em PDF e resolvi disponibilizá-las aqui para facilitar a vida de vocês (e a minha).

Opção de download 1 | Opção de download 2 | Opção de download 3

Façam bom proveito!

A obsessão pela bibliografia

Artigo de opinião de Rafael Falcón.

A obsessão pela bibliografia é um dos erros mais cometidos pelos proto-intelectuais – classe mais promissora do país, já que intelectuais totalmente formados inexistem por aqui. Quando digo proto-intelectuais me refiro àqueles estudantes dotados de sincero e esforçado desejo de saber, e não a uma classe de falsários que, para esconder sua mediocridade, procuram ter aparências de sabedoria. É sem dúvida natural que um jovem estudante, almejando a torre do conhecimento, queira alcançá-la por uma escada de livros; isso é razoável e parcialmente verdadeiro.

Não escapa a ninguém, é verdade, a sutil obviedade de que livros são meios e não fins. Aparentemente, porém, essa obviedade não foi suficientemente absorvida por nossa classe estudantil, não se manifesta em suas inclinações e atos com a espontaneidade da natureza. Insistem esses jovens leitores em procurar livros, sem se perguntar para que querem esses livros e se de fato têm as forças e concentração necessárias para levar esse estudo específico a cabo. Preciso saber história, comprem-se livros; literatura, comprem-se livros; religião, comprem-se! O resultado é uma pilha crescente de livros sobre assuntos variados, cuja conexão entre si é, o mais das vezes, o círculo intelectual que os recomendou. Livros sobre mito e religião, literatura e metafísica, comparam entre si suas camadas de poeira, na esperança de que a espessura dessas camadas traga a curiosidade de revisitá-los a seu volúvel comprador. Este é quem mais padece, porque gastou seu dinheiro e parte de suas energias com livros que nunca leu inteiros, e que se leu não sabe bem para que lhe serviram. A sensação de frustração o acompanha.

Um livro é o bastante para um bom estudante. Não pode ser qualquer livro, naturalmente; tem de ser aquele que responde ao seu desespero, à sua esperança de agora. Não deveria ser, no princípio, um livro de René Girard ou Tomás de Aquino. Não deveria ser um livro de teses. Um só livro da alta literatura basta para um ano de padecimento intelectual, para levantar dúzias de perguntas fundamentais e talvez responder alguma. Não estou dizendo isso para soar bonito. É assim que as coisas são. Tentar ler muitos livros de literatura em geral também não levará a lugar algum. A leitura apressada, que já pensa no próximo livro, não se entrega ao que está lendo agora. Não presta atenção, não se pergunta por que nem o quê. Assim não há benefício em ler. Dever-se-ia comprar apenas um livro, sem sequer pensar no próximo, e lê-lo apenas, como uma criança que crê integralmente que sua rua é a totalidade do mundo. Ela explorará cada casa, cada jardim, sem se preocupar com o que há mais adiante.

Alguns se têm concentrado, graças a Olavo de Carvalho principalmente, nos exercícios do Trivium – o plano de educação fundamental da Idade Média. Conheço os exercícios do Trivium, e pretendo falar deles no futuro. Por ora, porém, lanço a pergunta: de que te adiantaria uma bibliografia? Você acabaria sabendo algo sobre a história do Trivium e o que já se disse sobre o assunto. Isso sem dúvida tem valor, pode ser usado para o bem da humanidade, etc. Mas seu objetivo é tornar-se um especialista no Trivium? Seu interesse é em técnicas pedagógicas? Ou você antes está interessado em aprimorar sua leitura e escrita com base nos clássicos da literatura? Se for esse o caso, não valeria mais seu tempo e seu esforço procurar – digamos assim – um clássico da literatura? Sem dúvida é possível amplificar os resultados com técnicas e exercícios específicos, e esse conhecimento pode ser obtido pela pesquisa. Mas o tempo e esforço que você gastaria nessa pesquisa não seriam melhor empregados na essência, que é a literatura, do que em aditivos que não têm nenhuma utilidade sem a literatura?

Imagino objeções: posso ler literatura e estudar outras coisas ao mesmo tempo; essas outras coisas vão ajudar-me com a literatura; não tenho condições de compreender livros tão profundos sem apoio, etc. Responder a todas essas objeções levaria muito tempo e não parece estritamente necessário. De todo modo, parece-me que o problema fundamental é que ler literatura dói. Literatura é difícil, é densa, não te dá respostas repetíveis, apenas fatos. A estrutura da literatura é semelhante à estrutura da vida e, por isso, compreender literatura é um esforço parecido ao de compreender a própria vida. Diante de um tal esforço, é natural que queiramos fugir para adendos, detalhes, interpretações, bibliografias e discursos em geral. É um modo de postergar o trabalho duro e fingir, para nós mesmos, que estamos sim ocupados, cumprindo as etapas necessárias, os requisitos, porque ainda não estamos prontos. Proponho a pergunta: você está inventando obrigações para postergar o que é mais importante? Você precisa realmente desse livro que quer comprar ou dessa bibliografia de apoio que está pesquisando? Sem essa sinceridade consigo mesmo, não me parece que alguém possa obter uma formação efetiva e muito menos descobrir sua vocação intelectual.

Por que a Bíblia católica tem mais livros?

Muita gente simples tem essa dúvida e acaba acreditando em versões completamente equivocadas e imparciais dadas pelos seus líderes religiosos, sejam eles católicos ou protestantes. Por isso, resolvi explicar essa questão aqui de maneira clara, sucinta e direta, para que seja facilmente entendida e finalmente esclarecida para os leigos.

pergaminho

A Bíblia protestante é constituída por 66 livros; 39 dos quais formam o Antigo Testamento (a Bíblia Hebraica, dos judeus), e 27 compõem o Novo Testamento. Já a Bíblia católica possui, além desses 66, outros sete livros completos (Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Baruque, Sabedoria e Eclesiástico) e alguns acréscimos aos livros de Ester (10:4 a 11:1 ou a 16:24) e Daniel (3:24-90; caps. 13 e 14). Todos esses livros e fragmentos adicionais, chamados de deuterocanônicos, pelos católicos, e de apócrifos, pelos protestantes, fazem parte do Antigo Testamento na Bíblia católica, de modo que o Novo Testamento é idêntico em ambas as Bíblias.

Os livros deuterocanônicos ou apócrifos foram produzidos, em sua maioria, durante os dois últimos séculos antes de Cristo; portanto, bem depois que o cânon da Bíblia Hebraica já estava concluído; daí serem chamados de “deuterocanônicos”. Embora nunca tenham feito parte da Bíblia Hebraica, porém, eles foram incorporados à tradução da Bíblia para o latim (Vulgata Latina) em 382 d.C., e declarados autênticos pelo Concílio de Roma, no mesmo ano. Essa versão preservou e popularizou os acréscimos durante a Idade Média. Em 1546, pouco depois da Reforma Protestante, o Concílio de Trento decretou que aqueles que não reconhecessem os acréscimos da Vulgata Latina como genuinamente sagrados e canônicos deveriam ser excomungados. Consequentemente, todas as versões católicas da Bíblia preservam até hoje esses escritos.

Os protestantes, por sua vez, reconhecem o valor histórico dos livros apócrifos, mas não os consideram como canônicos ou inspirados. Essa posição deriva do fato de tais escritos (1) não fazerem parte do cânon hebraico do Antigo Testamento; (2) não haverem sido citados por Cristo ou pelos apóstolos no Novo Testamento; e (3) apresentarem ensinamentos contrários ao restante das Escrituras. Entre esses ensinamentos encontram-se, por exemplo, as teorias da existência do purgatório (Sabedoria 3:1-9; contrastar com Salmo 6:5; Eclesiastes 9:5, 10); das orações pelos mortos (II Macabeus 12:42-46; contrastar com Isaías 38:18 e 19); de que anjos bons mentem (Tobias 5:10-14; contrastar com Mateus 22:30; João 8:44); de que o fundo dos órgãos de um peixe, postos sobre brasas, espantam os demônios (Tobias 6:5-8; contrastar com Marcos 9:17-29); de que as esmolas expiam o pecado (Tobias 12:8 e 9; Eclesiástico 3:30; contrastar com I Pedro 1:18 e 19; I João 1:7-9).

A história do ponto de exclamação

De origem incerta, o ponto de exclamação é marcado pelas muitas utilidades, pouca frequência nos textos formais e visto como sinal de simpatia nas mensagens virtuais. É o que mostra em menos de 3 minutos este adorável vídeo produzido pelo jornal Nexo.

Sobre a reimpressão de “Mein Kampf”

Artigo de opinião de Stephen Hicks, professor de filosofia na Rockford University (EUA).

Adolf-Hitler-Mein-Kampf

As autoridades alemãs permitirão a reimpressão da obra Mein Kampf (Minha Luta) de Adolf Hitler, após décadas de censura. Pessoas decentes podem argumentar que o livro é muito perigoso para ser publicado. Mas o fato é que Mein Kampf é muito perigoso para não ser publicado. O grande medo é que as ideias de Hitler não estejam mortas e que seu livro precipite outro movimento social terrivelmente patológico. O nacionalismo e o socialismo ainda apelam a muitos. As combinações das duas ideologias atraem novos adeptos a cada dia na Europa e ao redor do mundo. Mein Kampf está disponível em muitas edições, em muitos idiomas e até mesmo online. Portanto, o furor relativo à sua reimpressão está mais ligado aos próprios alemães: eles podem lidar com isso? É sempre engraçado cutucar a reputação histórica alemã. Mas já se passaram três gerações desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mudanças culturais importantes ocorreram na Alemanha com respeito ao militarismo, autoritarismo, antissemitismo e outros elementos nacional-socialistas. Existe muita evidência de que a Alemanha de hoje está muito acima da média em civilidade e decência. Isso significa que o “controle cultural” pós-nazismo pode ser abolido.

Mesmo além do caso particular da Alemanha, existe um ponto importante e geral sobre a proibição de, até mesmo, as ideias mais repulsivas: a censura enfraquece nossa habilidade de combatê-las. Levi Salomon, palestrando para o Fórum Judaico para a Democracia e Contra o Antissemitismo, sediado em Berlim, opõe-se à reimpressão do livro Mein Kampf: “Esse livro está fora da lógica humana”. Talvez isso seja verdade. Mas o livro não está fora da experiência humana. Nós devemos entender a “lógica” das crenças nacional-socialistas, não importando o quão ilógicas possam ser na realidade. Estas crenças continuam a ter um apelo psicológico e social poderoso para muitos, então é crucial que toda a geração saiba exatamente quais são, por que atraem tantas pessoas – e como combatê-las. Os nazistas não eram somente alguns caras loucos que, por um golpe de sorte, chegaram ao poder. Por muito tempo uma visão caricatural do nacional-socialismo tomou conta da opinião pública.

Considere uma questão: Anos antes de os nazistas tomarem o poder, 3 vencedores do prêmio Nobel – Johannes Stark, Gerart Hauptmann e Philipp Lenard – apoiavam os nazistas. Também antes da chegada dos nazistas ao poder, muitos intelectuais com doutorado das melhores universidades alemãs escreveram livros que apoiavam a ideologia nacional-socialista. Entre eles estavam o historiador Dr. Oswald Spengler, que publicou seu best-seller The Decline of the West (A Decadência do Ocidente) em 1918. Spengler era o mais famoso intelectual alemão da década de 1920. O teórico jurista Dr. Carl Schmitt escreveu livros que ainda são reconhecidos como clássicos do século 20. O teórico e cientista político Moeller van den Bruck publicou The Third Reich (O Terceiro Reich) em 1923, o qual foi sucesso de vendas durante a década de 1920. E o filósofo Dr. Martin Heidegger, considerado por muitos como o detentor da mente filosófica mais original do século, apoiou ativamente os nazistas tanto na teoria como na prática. Muitos dos gênios apoiadores do nacional-socialismo eram extremamente cultos e se consideravam discípulos de Hegel, Marx e Nietzsche – e como responsáveis pelo trabalho vital e idealista de aplicação daquelas filosofias abstratas à política do mundo real. Então, o problema não é somente Adolf Hitler. Além do mais, se resolvermos censurar todos os escritos que influenciaram ou induziram ao nazismo, a lista seria muito longa.

Também é um fato relevante que muitos milhões de alemães votaram no Partido Nacional Socialista. Na decisiva eleição democrática de 1933, os nazistas venceram com 43% dos votos – mais que o total dos outros três partidos combinados. Em segundo lugar, estavam os Socialistas e em terceiro, os Comunistas, o que nos fala muito do clima político e intelectual da época. O sucesso eleitoral dos nazistas não foi também produto de um conjunto de ideias contidas somente em livros. Na construção do seu movimento, os nazistas utilizaram princípios modernos de marketing, logística e administração. Eles aplicaram novas teorias da psicologia e da sociologia para formar um movimento central de centenas de ativistas devotos, expandindo-se a um movimento de massa de milhões de seguidores. Mas por que tantos intelectuais concordavam com as ideias nacional-socialistas? Por que tantos voluntários, doadores e profissionais devotaram suas energias para a criação de um notável movimento político? Por que milhões de cidadãos alemães votaram – com frequência de forma entusiasmada – nos nazistas? Eram todos simplesmente estúpidos, depravados e insanos? Não, não eram. Gostando ou não do fato, o nazismo incorpora uma profunda filosofia de vida – e isso explica seu poder.

Pode-se argumentar que a filosofia nazista não é lógica e racional. Eu concordo. Ainda assim, poucas filosofias o são. Também pode-se argumentar que o nazismo, se seguido à risca, leva à psicose. Concordo novamente. Mesmo assim, isso se aplica também a muitas outras filosofias. Mas tampouco é lógico, racional ou sadio ignorar um conjunto de ideias que continua a inspirar movimentos ao redor do mundo. Suprimir ideias perigosas é muito mais perigoso que lutar contra elas abertamente. Uma sociedade livre pode funcionar somente se a maioria de seus membros entender quais os princípios que a norteiam e a razão pela qual são melhores que as alternativas. Isso pressupõe que eles sabem quais são alternativas, obviamente. Portanto, não existem atalhos em nossa educação cultural continuada. Todas as gerações devem discutir e debater as grandes ideias – verdadeiras ou falsas, conhecidas e possíveis, saudáveis ou perigosas – tornando-se intelectualmente preparadas para defender e expandir a civilização liberal.

Às vezes, o impulso à censura foca no simbolismo de permitir que livros malignos sejam publicados. Não censurar Mein Kampf, por exemplo, poderia ser uma declaração, pelas autoridades, de que consideram as ideias nacional-socialistas dentro do limite da opinião aceitável. Contudo, nós deveríamos lembrar que a sociedade livre rejeita a ideia de que é função das autoridades decidirem quais opiniões são aceitáveis. Esse é nosso trabalho, de cada um de nós, individualmente. Em sua opinião dissidente em um caso clássico de censura americana, o juiz Potter Steward fez uma observação pertinente: “A censura reflete a falta de confiança de uma sociedade em si mesma”. Existe um importante simbolismo intrínseco ao encorajamento da livre expressão: nós podemos lidar com isso. Então, vamos fortalecer tal autoconfiança. Nós temos a inteligência e o caráter para lidar com os Hitlers potenciais, assim como seus talentosos teóricos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pág. 2 de 16123...10...Pág. 16 de 16
%d blogueiros gostam disto: