Sobre “O Nome da Rosa”

nome da rosaAssisti três vezes antes de começar a escrever. E escrever não foi uma opção: foi, antes, algo que eu não podia deixar de fazê-lo. Uma necessidade que surgiu enquanto eu me encontrava numa fascinante aventura ao lado de William de Baskerville e seu jovem discípulo Adso de Melk na grande biblioteca-labirinto de um mosteiro sombrio situado nas montanhas do norte da Itália, no final do outono de 1327. Esse é o cenário para onde o cineasta francês Jean Jacques Annaud nos leva com admirável competência por pouco mais de 2 horas.

E por “nos leva” entenda que estou falando sério: realmente me senti dentro da história, como que vivendo as experiências dos personagens. Experiências que, de tão marcantes e prazerosas, eu, como amante da literatura que sou, já cogito a compra do livro homônimo do qual o filme derivou. E não digo “prazerosa” só por causa da cena de sexo e nudez lá pela metade do filme, mas porque há prazer na busca pelo conhecimento livre e sem censura – este sim, tema acerca do qual o enredo se desenvolve. Outras discussões importantes sobre como a comédia (o riso), as riquezas ou a ciência afetam a cristandade – e até uma paixão reprimida – completam o conjunto de argumentos que o filme traz à tona, abrindo espaço para o debate de ideias.

O enredo começa a ganhar forma quando monges franciscanos de várias partes da Europa reúnem-se com representantes do papa no tal mosteiro para uma conferência. Mas a missão deles é ofuscada por um grande “desconforto espiritual” devido a uma série de assassinatos misteriosos dentro do mosteiro, os quais os religiosos passaram a atribuir aos “ardis do demônio”. Entra em cena, então, as habilidades do monge franciscano William de Baskerville (Sean Connery), que, auxiliado pelo seu noviço Adso de Melk (Christian Slater), começa a investigar as causas das mortes. “A única prova que vejo do demônio é o desejo de todos de vê-lo atuar”, diz William. “Não vamos nos deixar influenciar por boatos irracionais. Em vez disso, vamos exercitar os nossos cérebros e tentar solucionar este torturante enigma”, completa.

Com uma brilhante capacidade de dedução que chega a lembrar o famoso detetive Sherlock Holmes, William passa por grandes apuros, que vão desde a acusação de heresia pela Inquisição à acusação de ser o autor dos assassinatos – passando por um incêndio –, até conseguir desvendar este intrigante mistério de uma forma que eu, preocupado em não contar o desfecho do filme e lhe estragar a emoção, prefiro omitir. Em vez disso, considero muito útil fazer uma análise crítica de uma ideologia predominante e de um costume comum na Idade Média, e em torno da qual o filme se constrói. Por “ideologia”, refiro-me à ideia de que a sabedoria está ligada diretamente à tristeza, beirando o mau humor. Diversas vezes é apregoado que “um monge não deve rir”, pois “para isso existe o bobo, que levanta a voz em risos”. O problema do riso para a Igreja, na Idade Média, baseava-se em uma lógica muito simples, representada no filme pelas palavras de um monge, o venerável Jorge: “O riso mata o temor. E sem temor não pode haver fé. Se não há temor no demônio, não é necessário haver Deus”.

Finalmente, por “costume”, me refiro à prática da Igreja de censurar livros que eles mesmos consideravam “espiritualmente perigosos”, ou seja, livros que apresentavam ideias capazes de pôr em dúvida os dogmas das escrituras. Ou, nas palavras do próprio William: “É porque contêm uma sabedoria diferente da nossa”. Sentindo por admitir que tamanha intolerância ainda vigora, disfarçadamente, nos nossos dias, concordo totalmente com William quando ele, eufórico por ter descoberto uma das maiores bibliotecas de sua época, composta apenas por livros proibidos pela Igreja, diz: “Ninguém deveria ser proibido de consultar estes livros!”.

Palíndromos

O poema a seguir é de minha autoria. Digo isso não absolutamente, pois não criei nenhum desses palíndromos. Após reunir todos que pude encontrar em língua portuguesa, espalhados e isolados em diversas fontes, meu trabalho consistiu apenas em organizá-los, dispondo-os numa ordem lógica de modo a dar-lhes sentido semântico. Gostei do resultado e resolvi compartilhá-lo com vocês. O que acharam?

Ame o poema.
Soa como caos.
Amora me tem aroma.
Roma me tem amor.
O romano acata amores a damas amadas e Roma ataca o namoro.
O teu drama é amar dueto.
Saúda e paga o ágape a duas!
Raul ama Luar, Luar ama Raul.
Ana me rola, calor emana.
Ramon ama dama de Ed: a má dama no mar.
Ana, case, esse é sacana!
Marujos só juram.
A pateta ama até tapa.
Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na Moda da Romana: anil é cor azul.
Amada dádiva, a luz azula a vida da dama.
A diva ávida, dádiva à vida.
A miss é péssima!
A cara rajada da jararaca!
Ama fama? Vê lá, leva má fama!
Leon ama Noel, Noel ama Leon…
Livre do poder vil.
Ah, livre era papai noel: Leon ia papar é ervilha!
Sem o cu, tu comes?
O terrível é ele vir reto!
Roda esse corpo, processe a dor.
Sem o dote, é todo mês.
E temo-a no caso: no saco não mete.
O medo do certo é o treco do demo!
Acata o danado e o danado ataca!

A grama é amarga.
E assim a missa é.
Assim, a aluna anula a missa.
Assim, a sopa só mereceremos após a missa.
Oto come sopa, siri, sapos e mocotó.
A babá baba.
A rara arara.
Eva, asse essa ave!
Ave veloz o leve. Vá!
Me vê se a panela da moça é de aço, Madalena Paes, e vem.
E vou ao Batata Boa, ouve?
Morram após a sopa marrom!
A dama admirou o rim da amada.
E telas eram usadas à caneta até na casa da Sumaré, Salete!
Zé de Lima, Rua Laura, Mil e Dez.
A sacada da casa.
A porta rangia à ignara tropa.
A mala nada na lama.
Asnos levam a amável sonsa.
A Varig girava.
Salta o Atlas.
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!
Ias em missa?! Logo, o gol assim me sai.
O caso da droga da gorda do saco.
O pó de cocaína mata maníaco cedo, pô!
Lá vou eu em meu eu oval.

Charles Andrade

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