Como a reforma ortográfica do português prejudicou Tony Ramos e Cláudia Ohana

Comentário de Murilo Gun sobre as mudanças na língua portuguesa.

Começo a observar aos poucos nos veículos de comunicação a adoção das novas regras pós-reforma ortográfica. Até que eu gostei da extinção do trema, da inclusão das letras k, w e y no alfabeto e da supressão de alguns casos de hífen. Mas não entendi até agora a eliminação do acento diferencial. A diferenciação da preposição “para” e da forma verbal “pára” era essencial para evitar confusões do tipo “Trânsito para a cidade”. O acento diferencial também era fundamental para diferenciar a preposição “pelo” e o substantivo “pêlo”. Depois da reforma, a frase “Desculpe-me pelos pêlos”, frequentemente utilizada por Tony Ramos e Cláudia Ohana com seus respectivos parceiros sexuais, passou para “Desculpe-me pelos pelos”. A reforma deveria ter retirado, por exemplo, o acento da palavra “pá”, pois é totalmente desnecessário, já que não mudaria nada no som ou na compreensão da palavra “pá” se não houvesse acento. A justificativa dada para a reforma é que o objetivo não é necessariamente simplificar, e sim padronizar o idioma nos países de língua portuguesa. Mas até parece que com essas mudanças a gente fosse entender melhor o português de Portugal, por exemplo. Porque num lugar onde camisinha é chamada de durex, calcinha é cueca, grupo de crianças é canalha, pão francês é cacetinho, imposto é propina e injeção é pica… não vai ser a eliminação do trema que vai resolver o problema de comunicação.

As linguagens míticas da Bíblia

Comentário de Sóstenes Lima.

Quando cito um trecho do mito de Prometeu, não preciso dizer a ninguém que não estou tomando a narrativa como história, mas como mito. Mas se eu resolver citar um trecho da história da Torre de Babel, devo começar dizendo que se trata de um mito, para não ser tachado de estúpido. Por que preciso dizer que a Torre de Babel é um mito? Isso deveria ser um pressuposto básico. Quando digo que Prometeu é o inventor da tecnologia ninguém acha que estou tratando Prometeu como um sujeito histórico. Mas se falo de Jó, a maioria das pessoas acha que estou me referindo a um sujeito histórico. Caso eu queira ser compreendido de outra forma, devo dizer expressamente que Jó é personagem de uma narrativa da sabedoria trágica-épica judaica, não um sujeito histórico como Moisés.

Gostaria que certos pressupostos básicos aplicados às narrativas míticas e fantásticas também fossem aplicados a certas narrativas bíblicas. Por exemplo, quando conto a história da Branca de Neve, ninguém me pergunta se eu acredito ou não em Branca de Neve. As pessoas simplesmente ouvem e deixam a história fluir, tirando dela lições éticas e até valores transcendentes. Por que, então, quando conto a história da Serpente no Éden, as pessoas não aplicam o mesmo pressuposto? Por que preciso responder se acredito ou não em serpentes falantes? Rubem Alves dizia que Deus é poeta, não repórter ou historiador. Ele diz: “Eu leio os textos sagrados como quem lê poesia e não como quem lê jornal. Prefiro pensar que Deus é poeta a imaginá-lo como jornalista. Existirá ofensa maior para um poeta do que perguntar se o seu poema é reportagem?”.

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