Os 10 idiomas mais falados no mundo

Segundo a última edição do livro Ethnologue: languages of the world, o número de línguas faladas no mundo hoje é 6912. Confira na lista abaixo as dez línguas mais faladas no mundo, com seu respectivo número de falantes e alguns países e regiões onde ela é o idioma oficial. Note que o Inglês, considerada hoje a língua franca, o idioma universal, é apenas o terceiro do mundo em número de falantes, atrás do Mandarim e do Hindi, que o superam devido à enorme população da China e da Índia, respectivamente. O nosso querido Português aparece em sexto colocado, com cerca de 218 milhões de falantes.

LÍNGUA

FALANTES

   PAÍSES E REGIÕES

Mandarim

1051 milhões

   China, Malásia e Taiwan

Hindi

565 milhões

   Índia (regiões norte e central)

Inglês

545 milhões

   EUA, Canadá, Reino Unido e Austrália

Espanhol

450 milhões

   Espanha e América Latina

Árabe

246 milhões

   Oriente Médio e norte da África

Português

218 milhões

   Brasil, Portugal, Angola e Moçambique

Bengalês

171 milhões

   Bangladesh e nordeste da Índia

Russo

145 milhões

   Rússia e Ásia Central

Francês

130 milhões

   França, Canadá e alguns países africanos

10º

Japonês

127 milhões

   Japão


As capitais linguísticas do mundo

Substituindo, na lista acima, os idiomas Hindi e Bengali pelo Alemão e o Italiano, acredito obter a lista das 10 línguas mais importantes do mundo (primeira coluna a esquerda na tabela abaixo). Essa escolha não foi arbitrária: embora possuam um maior número de falantes, especialmente na Índia e em Bangladesh, os idiomas Hindi e Bengali não têm a mesma importância cultural que o Alemão e o Italiano têm para o resto do mundo. Tendo obtido essa lista, escolhi, para cada um desses 10 idiomas, por ordem de importância política, econômica, histórica, cultural e demográfica, as três cidades mais influentes nas quais esse idioma é a língua oficial. Chamei-as de “capitais linguísticas do mundo”.

INGLÊS

Nova York (EUA)

Londres (ING)

Los Angeles (EUA)

ESPANHOL

Madri (ESP)

Cid. do México (MEX)

Buenos Aires (ARG)

FRANCÊS

Paris (FRA)

Montreal (CAN)

Bruxelas (BEL)

ALEMÃO

Berlim (ALE)

Frankfurt (ALE)

Munique (ALE)

PORTUGUÊS

São Paulo (BRA)

Rio de Janeiro (BRA)

Lisboa (POR)

ITALIANO

Roma (ITA)

Milão (ITA)

Nápoles (ITA)

RUSSO

Moscou (RUS)

São Petersburgo (RUS)

Kiev (UCR)

ÁRABE

Cairo (EGI)

Teerã (IRÃ)

Dubai (EAU)

MANDARIM

Shangai (CHI)

Pequim (CHI)

Hong Kong (CHI)

JAPONÊS

Tóquio (JAP)

Osaka (JAP)

Nagoia (JAP)

Experimentos sobre a percepção na leitura

Deixe que a sua mente leia corretamente o que está escrito nos dois textos abaixo:

De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO.

Poema com palíndromos

O poema a seguir é de minha autoria. Digo isso não absolutamente, pois não criei nenhum desses versos. Após reunir todos os palíndromos que encontrei em língua portuguesa (55 no total), isolados e espalhados por diversas fontes, meu trabalho consistiu apenas em organizá-los, dispondo-os numa ordem lógica de modo a dar-lhes sentido semântico. Gostei do resultado e resolvi compartilhá-lo com vocês. O que acharam?

Ame o poema
Soa como caos
Amora me tem aroma
Roma me tem amor
O romano acata amores a damas amadas e Roma ataca o namoro
O teu drama é amar dueto
Saúda e paga o ágape a duas
Raul ama Luar, Luar ama Raul
Ana me rola, calor emana
Ramon ama dama de Ed: a má dama no mar
Ana, case, esse é sacana!
Marujos só juram
A pateta ama até tapa
Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na Moda da Romana: “anil é cor azul”
Amada dádiva, a luz azula a vida da dama
A diva ávida, dádiva à vida
A miss é péssima!
A cara rajada da jararaca!
Ama fama? Vê lá, leva má fama!
Leon ama Noel, Noel ama Leon
Livre do poder vil
Ah, livre era papai noel: Leon ia papar é ervilha!
Sem o cu, tu comes?
O terrível é ele vir reto!
Roda esse corpo, processe a dor
Sem o dote, é todo mês
E temo-a no caso: no saco não mete
O medo do certo é o treco do demo
Acata o danado e o danado ataca

A grama é amarga
E assim a missa é
Assim, a aluna anula a missa
Assim, a sopa só mereceremos após a missa
Oto come sopa, siri, sapos e mocotó
A babá baba
A rara arara
Eva, asse essa ave!
Ave veloz o leve. Vá!
Me vê se a panela da moça é de aço, Madalena Paes, e vem
E vou ao Batata Boa, ouve?
Morram após a sopa marrom!
A dama admirou o rim da amada
E telas eram usadas à caneta até na casa da Sumaré, Salete!
Zé de Lima, Rua Laura, Mil e Dez
A sacada da casa
A porta rangia à ignara tropa
A mala nada na lama
Asnos levam a amável sonsa
A Varig girava
Salta o Atlas
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!
Ias em missa? Logo, o gol assim me sai
O caso da droga da gorda do saco
O pó de cocaína mata maníaco cedo, pô!
Lá vou eu em meu eu oval

Charles Andrade

Origem de expressões populares brasileiras

Extraído dos livros De onde vêm as palavras: origens e curiosidades da língua portuguesa, de Deonísio Silva (1997); e O Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral (1982).


Uai: Há controvérsias quanto à origem desse típico dialeto caipira, muito falado nos estados de Minas Gerais e Goiás. Para o filólogo Amadeu Amaral (1875-1929), essa expressão, que indica surpresa ou dúvida, teria surgido da mudança da palavra “olhai” (com o sentido de “preste atenção”). Outra teoria remonta à construção de estradas de ferro com a ajuda dos ingleses, quando os caipiras teriam aportuguesado a palavra “why”, questionando o “porquê” de todo aquele esquema.

Tchê: São duas as teorias que explicam o nascimento dessa expressão tão usada no Rio Grande do Sul. A primeira é de que ela veio de “che” (algo como o nosso “ei”), termo comum entre os argentinos, uruguaios e paraguaios que vivem próximos à fronteira com o Brasil. Outra possibilidade é de que a expressão tenha vindo do idioma guarani, na qual pode significar algo como “eu”, “meu” ou “amigo”.

Diacho: De acordo com o professor e escritor Deonísio da Silva, esse termo é um eufemismo para diabo. Como na cultura popular brasileira citar essa palavra invocaria o próprio capeta, com o tempo, as pessoas foram criando versões “alternativas”, para não correrem esse risco. Essa é a mesma explicação para a popularização de “demo”, em vez de “demônio”. Outro eufemismo com essa origem seria “coisa-ruim”.

Vixe: Não há registros oficiais, mas são várias as referências de que o termo é uma forma reduzida da exclamação católica “Virgem Maria!”, dita em momentos de surpresa ou sustos. Uma forma ainda mais reduzida é o “ixe”, também muita usada em terras tupiniquins. Por aqui ainda temos o “nó”, uma espécie de “abreviação” de Nossa Senhora, e o “afe” ou “aff”, que abrevia a exclamação “Ave, Maria!”.

Eita: Registrada no dicionário Houaiss como uma interjeição que exprime satisfação ou espanto diante de alguma coisa, essa é uma dita “palavra expressiva”, sem origem definida e caracterizada por sons curtos e sem significado. Também grafada como “eta”, sua utilização é muito comum no Nordeste brasileiro.

Oxente: Interjeição utilizada com o significado de admiração ou surpresa. O termo, bastante popular na região nordeste do Brasil, é formado pela aglutinação da expressão “ó, gente!”. É comum, no entanto, ouvir a interjeição “oxe!”, que é uma forma ainda mais abreviada da expressão original que evoluiu da seguinte forma: Ó, gente! – Oxente! – Oxe!


Origens curiosas de algumas palavras

Ametista – Os gregos antigos se surpreenderiam ao saber que usamos essa pedra azul-violeta como um adorno e a guardamos numa caixinha de jóias. Para eles, a ametista era um amuleto para prevenir ressaca. Daí o nome: a, “sem”, e methystos, “embriaguez”.

Assassino – O mais antigo alucinógeno que se conhece é o haxixe, extraído das folhas do cânhamo. Há 18 séculos, os árabes já ficavam doidões mascando suas folhas. Acontece que algumas tribos árabes tinham também o hábito de torturar os inimigos capturados. E faziam isso em clima de festa, mascando haxixe. Essas tribos ficaram conhecidas como “comedoras de haxixe”, que em árabe se escreve hash-shas-hin, daí a palavra “assassino”.

Canário – O simpático passarinho amarelo tem nome de cachorro. Quando chegaram ao que hoje são as Ilhas Canárias, os romanos ficaram surpresos com a quantidade de cães selvagens. Por isso, chamaram o arquipélago de insula canaria, “a ilha dos cães”.

Companhia – As empresas estão ficando cada vez mais impessoais e, além disso, a própria expressão “Companhia Limitada” não deixa de ser uma afronta ao sentido original da palavra. Em latim, cum, “junto”, e panis, “pão”, significava “repartir o pão”. Pois é. Tudo mudou, desde as relações até o cardápio.

Cosméticos – A palavra grega para “ordem” era kosmos. Seu oposto era kaos, “bagunça”. Ao pé da letra grega, toda a parafernália hoje disponível de maquiagem e de produtos cosméticos serviria para consertar uma situação caótica.

Dizimar – Um caso típico de exagero numérico. Se a gente lê que uma população foi “dizimada”, o que se entende é que não sobrou quase ninguém, quando, na verdade, deveriam ter sobrado exatos 90%. “Dizimar” vem do latim decimo, “dez”. Quando havia alguma rebelião em suas legiões, os romanos executavam um de cada dez soldados.

Formidável – Quando alguém nos diz que um trabalho que apresentamos é formidável, nós agradecemos o elogio. Há mil anos, teríamos ficado deprimidos. Porque formidare queria dizer “assustar” em latim.

Ginástica – Quem decide malhar numa academia de ginástica sabe que vai ter, entre outras coisas, que gastar uma boa grana com equipamentos e roupas especiais. Os gregos achariam isso um desperdício de dinheiro, porque a palavra gymnos queria dizer, pura e simplesmente, “nu”. E gymnazo, de onde derivou “ginástica”, era “treinar pelado”.

Histérica – Para os gregos, as mulheres eram emocionalmente mais instáveis que os homens e, na falta de uma explicação mais científica, atribuíram essa instabilidade ao fato de elas possuírem útero, ou hystera.

Insulto – Um ataque físico é uma agressão, enquanto um ataque moral é um insulto. Mas houve um tempo em que o insulto era exatamente o mais físico dos ataques: a palavra vem do latim in, “em cima” e salio, “pulo”. Insultar era, literalmente, voar no pescoço do oponente. Quem disse que não estamos ficando mais civilizados?

Medíocre – Esse termo difamatório e seu irmão, “ordinário” eram, até há bem pouco tempo, usados com o sentido de “normal”. Ordinário é algo que está em ordem e medíocre é qualquer coisa que se situa na média. A mudança é o reflexo da competição acirrada dos tempos modernos: hoje em dia, ser igual aos outros ou atuar na média é uma tremenda desvantagem.

Nepotismo – A prática de arrumar uma boquinha para os parentes ganharem um troco sem precisar fazer muita coisa é um hábito antigo. O que mudou foi o grau de parentesco: nepotis era “sobrinho” em latim. Hoje, vale qualquer parente, até primo em quinto grau.

Precário – Precis, em latim, era “oração”, ou “prece”. Antigamente se acreditava que algo conseguido precariamente, ou seja, através da fé, era mais do que sólido. A mudança no sentido da palavra mostra que, com o tempo, os povos foram se convencendo de que ter fé é bom, mas insuficiente: além de rezar, é preciso fazer algo mais prático para conseguir se aprumar na vida.

Químico – Os árabes passaram séculos tentando encontrar uma maneira de transformar metais em ouro. Da palavra árabe para “ouro”, al-kimia, derivaram duas ciências: a própria alquimia, meio esotérica, e a química, mais científica, que se expandiu e hoje parece capaz de transformar qualquer coisa em qualquer coisa, menos metais em ouro.

Senador – A palavra latina senex quer dizer “velho”. É dela que vem, por exemplo, “senil”. Aqueles que conseguiam chegar à velhice sem caducar passavam a ser considerados sábios. E os povos antigos respeitavam esses velhinhos, tanto que eram reunidos numa espécie de Clube da Terceira Idade, a quem os jovens iam pedir opiniões e conselhos. Daí vieram os “senadores”, ou “associação de velhos”.

Sarcófago – Impressiona perceber que os sarcófagos egípcios conservaram as múmias quase intactas por milhares de anos. Mas os egípcios atribuiriam esse fato a uma falha de projeto. A palavra vem do grego sarx, “carne” e phagein, “comer”. Ou seja, a finalidade do sarcófago não era a de preservar o corpo do falecido, mas facilitar sua decomposição. Ou então, se não for isso, quem inventou a palavra estava falando grego.

Virilidade – Virtus, em latim, significa “virtude”. Por exemplo, falar com perfeição, ter excelentes padrões de moralidade, combater com coragem. A “virilidade”, ou a soma das virtudes, tanto se aplicava ao homem quanto à mulher. Mas aí o tempo foi passando, passando e “virilidade” se tornou sinônimo de “masculino”. Para a mulher, teve que ser criada a variação “virtuosa”.

Fonte: Superinteressante.

Sobre a escrita e o estilo

Texto do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
extraído do livro A Arte de Escrever (Porto Alegre: L&PM, 2012).


Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos que lhes parecem dignos de ser comunicados; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem. Pensam apenas para exercer sua atividade de escritores. É possível reconhecê-los tanto por sua tendência de dar a maior extensão possível a seus pensamentos e de apresentar meias-verdades, pensamentos enviesados, forçados e vacilantes, como por sua preferência pelo claro-escuro, a fim de parecerem ser o que não são. É por isso que sua escrita não tem precisão nem clareza. Desse modo, pode-se notar logo que eles escrevem para encher o papel. Assim que alguém percebe isso, deve jogar fora o livro, pois o tempo é precioso. No fundo, o autor engana o leitor sempre que escreve para encher o papel.

Só produz o que é digno de ser escrito quem escreve unicamente em função do assunto tratado. Seria uma vantagem inestimável se, em todas as áreas da literatura, existissem apenas alguns poucos livros, mas obras excelentes. Só que nunca se chegará a tal ponto enquanto houver honorários a serem recebidos. Pois é como se uma maldição pesasse sobre o dinheiro: todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro. As melhores obras dos grandes homens são todas provenientes da época em que eles tinham de escrever sem ganhar nada. A condição deplorável da literatura atual tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro. Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo. Uma grande quantidade de escritores ruins vive exclusivamente da obsessão do público de não ler nada além do que foi impresso recentemente, do que é atual. A consequência disso é a deterioração da língua.

Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros. Aquele escritor do segundo tipo, que adia o pensamento até a hora de escrever, é comparável ao caçador que busca ao acaso sua presa: dificilmente ele trará muita coisa para casa. Em compensação, a escrita dos autores do terceiro tipo, o mais raro, é como uma batida de caça em que a presa foi previamente cercada e encurralada, para depois ser conduzida a um outro lugar igualmente cercado, onde não pode escapar ao caçador, de modo que agora se trata apenas de apontar e atirar (expor). Esse é o tipo de caça que dá resultado.

No entanto, mesmo entre os escritores pouco numerosos que realmente pensam a sério antes de escrever, é extremamente reduzida a quantidade daqueles que pensam sobre as próprias coisas, enquanto os demais pensam apenas sobre livros, sobre o que outros disseram. Ou seja, para pensar, eles precisam de um forte estímulo de pensamentos alheios já disponíveis. Esses pensamentos se tornam seu próximo tema, de modo que os autores permanecem sempre sob a influência dos outros, sem nunca alcançarem a originalidade. Em contrapartida, aqueles que são estimulados pelas próprias coisas têm seu pensamento voltado para elas de modo direto. Apenas entre eles encontram-se os que permanecerão e serão imortalizados. Evidentemente, trata-se aqui de assuntos elevados, não de escritores que falam sobre a destilação de aguardentes.

Apenas aqueles que, ao escrever, tiram a matéria diretamente de suas cabeças são dignos de serem lidos. Mas os fazedores de livros, os escritores de compêndios, os historiadores triviais, entre outros, tiram sua matéria diretamente dos livros. É dos livros que ela é transferida para os dedos, sem ter passado por qualquer inspeção na cabeça, sem ter pagado imposto alfandegário, nem muito menos ter sofrido algum tipo de elaboração. (Como seriam eruditos alguns autores se soubessem tudo o que está em seus próprios livros!) Por isso, seu texto costuma ter um sentido tão indeterminado que os leitores quebram em vão a cabeça na tentativa de descobrir o que eles pensam afinal. Eles simplesmente não pensam. O livro a partir do qual escrevem muitas vezes foi resultado do mesmo processo. É por isso que se deve ler só raramente algum dos compiladores, já que evitá-los por completo é muito difícil.

Não há erro maior do que acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correta, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso. As cabeças pensantes são exceções. A regra, em toda parte do mundo, é a corja de pessoas infames que estão sempre dispostas, com todo empenho, a piorar o que foi dito por alguém após o amadurecimento de uma reflexão, dando a essa piora um aspecto de melhora. Por isso, quem quer se instruir a respeito de um tema deve se resguardar de pegar logo os livros mais novos a respeito, na pressuposição de que as ciências estão em progresso contínuo e de que, na elaboração desse livro, foram usadas as obras anteriores. De fato elas foram, mas como?

Com frequência, o escritor não entende a fundo os livros anteriores, além do mais não quer usar exatamente as mesmas palavras, de modo que desfigura e adultera o que estava dito neles de modo muito mais claro e apropriado, uma vez que foram escritos a partir de um conhecimento próprio e vivido do assunto. Muitas vezes, esse escritor deixa de lado o melhor do que tais obras revelaram, seus mais precisos esclarecimentos a respeito do assunto, suas mais felizes observações, porque não reconhece o valor dessas coisas, não sente sua relevância. Só tem afinidade com o que é superficial e insípido. Já ocorreu muitas vezes de um livro anterior excelente ser substituído por novos, muito piores, escritos apenas para ganhar dinheiro, mas que surgem com aspirações pretensiosas e são louvados pelos camaradas dos autores.

Nas ciências, cada um quer trazer algo novo para o mercado, com o intuito de demonstrar seu valor. Com frequência, o que é trazido se resume a um ataque contra o que valia até então como certo, para pôr no lugar afirmações vazias. Às vezes, essa substituição tem êxito por um breve período, em seguida todos voltam às teorias anteriores. Os inovadores não levam nada a sério no mundo, a não ser sua preciosa pessoa, cujo valor querem provar. Só que isso deve acontecer depressa e de uma maneira paradoxal: a esterilidade de suas cabeças lhes aconselha o caminho da negação, e então verdades reconhecidas há muito tempo são negadas. Assim, o curso da ciência muitas vezes é um retrocesso.

O mesmo vale para os tradutores que pretendem, ao mesmo tempo, corrigir e reelaborar seus autores, o que sempre me parece uma impertinência. Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe as outras obras como elas são. Sempre que possível, é melhor ler os verdadeiros autores, os fundadores e descobridores das coisas, ou pelo menos os grandes e reconhecidos mestres da área. E é melhor comprar livros de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão. Assim, em geral vale aqui, como em toda parte, a regra: o novo raramente é bom, porque o que é bom só é novo por pouco tempo. Continue reading “Sobre a escrita e o estilo” »

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