Sobre os nomes dos meses

calendar_icon1Desde criança, uma pergunta me inquieta, mas nenhum dos adultos que eu conhecia jamais foi capaz de respondê-la. Eu mesmo me tornei adulto, mas até pouco tempo atrás não conseguia ainda saciar a curiosidade da criança dentro de mim. A pergunta continuava insolúvel, e consistia nisso: Por que o mês de setembro não é o mês de número sete, outubro não é o oito, novembro não é o nove, e dezembro não é o dez? Ora, não precisa ser um gênio para notar que os radicais das palavras setembro, outubro, novembro e dezembro vêm de sete, oito, nove e dez, respectivamente. Mas por que, ainda assim, isso não condiz com a realidade? Por que insistimos que setembro é o mês nove, outubro é o dez, novembro é o onze e dezembro é o doze? Do ponto de vista linguístico, isso não tem sentido! Vejamos o que diz a História.

Apenas abrindo um parêntesis, o mesmo pode ser dito dos calendários que colocam a semana começando na segunda-feira, fazendo do sábado e domingo literalmente “fim de semana”. Isso pode até ser útil, porque na prática, é assim mesmo que funciona. Mas do ponto de vista linguístico não faz sentido, já que segunda, terça, quarta, quinta e sexta significam literalmente segundo dia, terceiro dia, quarto dia, quinto dia e sexto dia, respectivamente. Isso sem falar que o sábado recebeu esse nome da tradição judaica por ser o último dia da semana, o dia do descanso; e que o domingo foi instituído pelos romanos como o “dia do Senhor” (do latim “dies Dominicus”), justamente por ser o primeiro e mais importante da semana.

Veja também: Por que os dias úteis da semana têm “feira”?

Mas, voltando aos nomes dos meses, por que há essa confusão? Não sou nenhum especialista no assunto, mas, depois de uma pesquisada na internet, eis o que encontrei: setembro, outubro, novembro e dezembro são assim chamados porque eles de fato eram (pasmem!) o sétimo, oitavo, nono e décimo mês do ano. Essa ordem só mudou no ano 46 a.C., por decreto do imperador romano Júlio César. Mas acho melhor contar essa história do começo. Os nomes dos meses, tais como os herdamos na língua portuguesa, são de origem latina e foram instituídos na criação do calendário romano, que começa na própria fundação da cidade de Roma pelo lendário Rômulo, considerado seu fundador e primeiro rei, na data tradicionalmente estabelecida como o dia 21 de abril de 753 a.C. Neste primeiro calendário romano, o ano tinha apenas 10 meses, que totalizavam 304 dias (os demais 61 dias, que coincidiam com o inverno, não entravam no calendário, havendo pouco interesse de acompanhamento temporal neste período do ano).

A primeira reforma do calendário ocorreu com Numa Pompílio, o segundo dos sete reis de Roma, por volta de 713 a.C., que adicionou os meses de Januarius e Februarius no final do calendário, aumentando o seu tamanho para 355 dias. Este calendário fora baseado no calendário grego praticado em Atenas, que já era um calendário luni-solar e bem mais preciso que aquele primeiro calendário praticado em Roma e que, então, também passou a ser de 12 meses. É por isso que até hoje fevereiro tem menos dias, porque era o último mês do ano.

Mas qual a origem desses nomes? Alguns foram dados em homenagem a deuses, imperadores ou festas, enquanto os outros simplesmente simbolizam uma ordem numérica. Março é em homenagem a Marte, o deus da guerra. Para abril há duas versões: A primeira baseia-se em uma comemoração sagrada: aprilis, feita em homenagem a Vênus, deusa do amor. A segunda versão viria de aperire (abrir, em latim), referência à abertura das flores, já que, nesse período, é primavera no hemisfério norte. Maio é em homenagem à deusa romana Maia. Junho homenageia Juno, deusa que protegia a maternidade e as mulheres casadas. Quintil, sextil, setembro, outubro, novembro e dezembro refletem apenas a ordem numérica. Janeiro é em homenagem a Janus, deus que protegia as portas de Roma. E, por fim, fevereiro faz referência a um festival que era celebrado nessa época do ano, em Roma, chamado Februália, ou “Purificação”. Nessas festas, os romanos se preparavam para a chegada do ano novo, que começava em março, e ofereciam sacrifícios para expiar as faltas cometidas durante todo o ano.

Como o ano solar tem na verdade aproximadamente 365 dias e 6 horas, o calendário romano (de 304 dias), mesmo após a reforma de Pompílio (quando mudou para 355 dias) acabou ficando, depois de alguns séculos, com muita defasagem. Numa tentativa de corrigir essa falha no calendário, o então imperador de Roma Júlio César instituiu em 46 a.C. o calendário juliano, com 365 dias distribuídos em 12 meses, baseado em um modelo utilizado pelos egípcios. Além de aumentar os dias do ano para 365, Júlio César fez ainda outras três alterações significativas:

Primeiro, instituiu os chamados anos bissextos, usados até hoje, para corrigir defasagens no calendário de 365 dias. Depois, mudou o nome do mês “quintil” para “julho”, em sua homenagem. Seu sucessor, César Augusto, gostou da ideia e também mudou, no ano 8 d.C., o nome do mês “sextil” para “agosto”, também em homenagem própria. Por fim, a mudança mais importante: Mudou os meses de janeiro e fevereiro do final do ano para o começo. Dessa forma, o deus Janus, protetor das portas de Roma, deus das entradas e saídas, términos e recomeços, passaria a ser homenageado na passagem para o ano novo. E é por isso, amiguinhos, que os nomes dos quatro últimos meses do ano ficaram sem sentido.

O problema do calendário juliano é que, para ser bem preciso, um ano solar tem 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos; ou seja, cerca de 11 minutos a menos do que os astrônomos estimavam naquela época (eles calcularam 365 dias e 6 horas). Ao longo dos séculos, essa defasagem se acumulou novamente e, para corrigir isso, o papa Gregório XIII instituiu, em 1582, o calendário gregoriano, que substituiu em todo o ocidente o calendário juliano. Não houveram grandes mudanças nessa transição, mas um fato curioso merece ser relatado: É que, por decreto do papa, foram omitidos dez dias do calendário juliano. A bula papal determinava que o dia imediato à quinta-feira, 4 de outubro, fosse sexta-feira, 15 de outubro. Desse modo, os dias 5 a 14 de outubro de 1582 jamais existiram!

Bons textos de filosofia precisam ser difíceis?

Este artigo foi publicado originalmente no portal AEON. Como estou sem saco para traduzir, vou quebrar um tabu desse blog e publicá-lo em inglês mesmo.


Is great philosophy, by its nature, difficult and obscure?

Great philosophy is not always easy. Some philosophers – Kant, Hegel, Heidegger – write in a way that seems almost perversely obscure. Others – Kierkegaard, Nietzsche, Wittgenstein – adopt an aphoristic style. Modern analytic philosophers can present their arguments in a compressed form that places heavy demands on the reader. Hence, there is ample scope for philosophers to interpret the work of their predecessors. These interpretations can become classics in their own right. While not all philosophers write obscurely (eg, Hume, Schopenhauer, Russell), many do. One might get the impression that obscurity is a virtue in philosophy, a mark of a certain kind of greatness; but I’m skeptical.

To some degree, all texts need interpretation. Working out what people mean isn’t simply a matter of decoding their words, but speculating about their mental states. The same words could express quite different thoughts, and the reader has to decide between the interpretations. But it doesn’t follow that all texts are equally hard to interpret. Some interpretations might be more psychologically plausible than others, and a writer can narrow the range of possible interpretations. Why should philosophy need more interpretation than other texts? Academics assume an advanced knowledge of their field, as well as familiarity with conceptual nuances, contemporary references, cultural norms. All this background needs filling in for those outside the tradition. When dealing with work from another time or culture, different scholars might produce different interpretations of the original. But this openness to interpretation is merely an accident of distance. The text could have been quite clear to its original readers, and with sufficient knowledge we might settle on a definitive reading. This doesn’t explain the special difficulties presented by some philosophical texts.

Maybe these difficulties exist because great philosophers operate at a higher intellectual level than the rest of us, packing their work with profound insights, complex ideas and subtle distinctions. We might need these difficult thoughts unpacked by interpreters and, since these are usually less gifted than the original authors, they might differ on the correct reading. But then, if a clear interpretation of the ideas can be provided, why didn’t the original authors do it themselves? Such a failure of communication is a defect rather than a virtue. Skilled writers shouldn’t need interpreters to patch up holes in their texts.

Another explanation focuses on the nature of philosophical enquiry. Philosophers do not simply marshal facts: they engage reflectively with a problem, raising questions, teasing out connections, investigating ideas. Readers can respond with their own questions, connections and ideas. Consequently, great works of philosophy naturally generate different interpretations. But is that because readers engage with the problem being discussed and explore their own ideas about it? Or because they engage with the problem of what the author meant and try to come up with hypotheses? Only the former is the mark of good philosophy. A work can be tentative, exploratory and suggestive without being hard to understand. The options canvassed can be set out with precision and clarity.

Perhaps obscure texts are more open to reinterpretation. Philosophy, some argue, does not progress as science does. Philosophical problems aren’t solved but continually re-explored in new contexts, and each generation returns to great works of the past and reinterprets them for its own time. So texts that are obscure are more likely to become classics, since they naturally lend themselves to reinterpretation. By contrast, unambiguous texts can soon seem sterile and dated. Personally, I am skeptical of the view that philosophy does not progress but, even if we accept it, this doesn’t justify a preoccupation with reinterpretation. If one is grappling with the same problem as an earlier writer, it might be useful to study his work, but what is gained by effectively rewriting it in light of knowledge previously unknown? Why not produce a new work that draws on the old but is not bound by it? Devotion to reinterpretation betrays a misplaced focus on philosophers rather than philosophical problems.

But some great philosophy is creative in a way that is incompatible with clarity. It doesn’t seek to construct precise theories; rather, it reaches out to unmapped areas of thought, where we do not yet know what techniques to employ, what concepts to use, or even what questions to ask. It is more like art than science, and it makes its own rules. It is not that such work is defective by being ambiguous; it is trying to do something that cannot be done clearly, and its aim is precisely to stimulate diverse interpretations. This is, perhaps, the best justification for obscurity. However, it should be used with great caution. Work that respects standards of clarity can be evaluated against those standards, but how to tell if a difficult text is ground-breaking and creative or just pretentious nonsense? And how can we be sure that any good ideas it spawns were latent in the original, rather than the creation of ingenious interpreters? It’s prudent to be very suspicious of such texts; they must earn their status as serious works through a long history of intellectual fertility.

Finally, some philosophers might write obscurely because it creates an aura of profundity and mystery. This invites interpretation and scholarly attention: special effort is required to engage with the work, helping to create a cult following among scholars. The work is also harder to challenge, and criticisms can be dismissed as misinterpretations. Meanwhile, writing that is more transparent can seem less fertile or exciting, and its errors easier to spot. Not admirable, perhaps, but is it cynical to think that such motives for obfuscation sometimes play a role? In most cases, obscurity is a defect, not a virtue, and undue concern with interpretation puts the focus on people rather than problems. It is not easy to write clearly, especially on philosophical topics, and it is risky. Clear writers stand naked before their critics, with all their argumentative blemishes visible; but they are braver, more honest and more respectful of the true aims of intellectual enquiry than ones who shroud themselves in obscurity.

O poder da vírgula

Crônica de Martha Medeiros publicada no jornal Zero Hora do dia 06 de agosto de 2008.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) completou 100 anos e aproveitou para lançar uma campanha muito útil a todos os brasileiros, não só aos jornalistas. Ela defende o uso correto da vírgula. Todas as pessoas alfabetizadas escrevem. E-mails, bilhetes, cartões, teses, contratos, receitas, blogs... Algumas escrevem para si mesmas, e, nesse caso, até dá para perdoar um certo relaxamento, mas a maioria escreve para ser lida por outrem, e quem faz isso ambiciona ser compreendido. O uso correto da vírgula é crucial para alcançar esse objetivo. No entanto, o critério para o “uso correto” continua sendo, para muitos, o da respiração. As pessoas escrevem como se estivessem conversando, e se imaginam que fariam uma pausa dramática num determinado momento, pronto: decidem que ali cabe uma vírgula. Eu, às vezes, faço a mesma coisa. Por exemplo, deu vontade de não colocar entre vírgulas o “às vezes” que acabei de escrever. Preferiria ter escrito: “Eu às vezes faço a mesma coisa”, porque eu, normalmente, falaria essa frase de forma veloz, e não pausada. Mas a vida não é tão simples. Salvo algumas licenças poéticas, é preciso seguir à risca os mandamentos da vírgula. Não me pergunte quais são, não sei, sempre escrevi por instinto, mas a ABI sabe e resolveu entrar nessa campanha dando exemplos muito práticos, que transcrevo abaixo.

A vírgula pode ser uma pausa… ou não:

Não, espere.

Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro:

23,4%

2,34%

Pode ser autoritária:

Aceito, obrigado.

Aceito obrigado.

Pode criar heróis:

Isso só, ele resolve.

Isso só ele resolve.

E vilões:

Esse, Juiz, é corrupto.

Esse Juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução:

Vamos perder, nada foi resolvido.

Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião:

Não queremos saber.

Não, queremos saber.

A campanha termina dizendo que a vírgula muda tudo. Dou outro exemplo. Dia desses, um moço mandou um e-mail para um programa de rádio que começava assim: “Eu como colono…”. O radialista ficou injuriado. Que pouca vergonha era aquela? A vírgula que faltou poderia ter evitado o mico. “Eu, como colono, gostaria de…”. Pois é. Pequeninha, mas salva até reputações.

A eficácia das palavras certas

Havia um cego sentado numa calçada em Paris. A seus pés, um chapéu e um cartaz em madeira escrito com giz branco gritava: “Por favor, ajude-me. Sou cego”. Um publicitário que passava por ele parou e viu umas poucas moedas no boné. Sem pedir licença, pegou o cartaz e com o giz escreveu outro conceito. Colocou o pedaço de madeira aos pés do cego e foi embora. Ao cair da tarde, o publicitário voltou a passar em frente ao cego que pedia esmola. Seu chapéu, agora, estava cheio de notas e moedas. O cego reconheceu as pisadas do publicitário e perguntou se havia sido ele quem reescrevera o cartaz, sobretudo querendo saber o que ele havia escrito. O publicitário respondeu: “Nada que não esteja de acordo com o conceito original, mas com outras palavras”. E, sorrindo, continuou o seu caminho. O cego nunca soube o que estava escrito, mas seu novo cartaz dizia: “Hoje é primavera em Paris e eu não posso vê-la”.

Pseudoprofundidade – Stephen Law

Trechos do artigo do prof. Stephen Law, traduzido por Aluízio Couto:

Pseudoprofundidade é a arte de soar profundo falando nonsense. Diferente da arte de ser de fato profundo, a arte de soar profundo não é difícil de dominar. Como veremos, há certas receitas básicas que podem produzir resultados bastante convincentes – bons o bastante para convencer os outros e talvez até a si mesmo de que você acaba de chegar a um tipo de insight profundo sobre a condição humana. Se você quer atingir o status de um guru, será bom possuir algum carisma natural e boa presença. Sinceridade e empatia, ou pelo menos a habilidade de simulá-las, podem ser úteis. Acessórios também ajudam. Mas mesmo sem o auxílio dos talentos naturais ou da parafernália, qualquer um pode proferir sentenças que soam profundas e significativas caso esteja preparado para seguir umas receitas simples.

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Se contradiga

Selecione palavras com sentidos opostos ou incompatíveis e, de forma enigmática, combine-as no que parecer uma óbvia contradição. A seguir alguns exemplos:

A sanidade é apenas mais uma forma de loucura.
A vida é frequentemente uma forma de morte.
O ordinário é extraordinário.

Essas sentenças são absolutamente impenetráveis e podem facilmente parecer profundas. Se você é um aspirante a guru, por que não produzir seus próprios comentários contraditórios? A grande beleza de tais comentários é que eles fazem com que a audiência faça o trabalho por você. O significado não é algo que você, o guru, dirá. Seus seguidores é que terão a tarefa de decifrar. Apenas sente-se, adote uma postura sábia e deixe-os fazer o trabalho intelectual. A ideia de que a contradição é uma marca de profundidade por vezes aparece em contextos religiosos. Não crentes irão supor que contradições no interior de uma doutrina religiosa revelam que ela contém falsidades. Os crentes provavelmente vão encarar as mesmas contradições como sinal de profundidade.

Contradições têm também outras vantagens: uma série de afirmações simples e não ambíguas é fácil de refutar, ao passo que não é tão fácil fazer o mesmo com tais afirmações enigmáticas. Assim, se você pensa em iniciar sua própria religião e quer dizer coisas que parecerão profundas e também invulneráveis à crítica, tente fazer afirmações contraditórias. Afirme, mas então negue. Por exemplo, diga que seu deus é – e, no entanto, não é. Que seu deus é tudo e nada. Que ele é um, mas ao mesmo tempo vários.

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Use jargões

Se você é um guru do business, consultor de estilos de vida ou místico, introduzir algum jargão pode incrementar ainda mais a ilusão de profundidade. Aqui vai um truque comum: invente algumas palavras que parecem ter significado similar ao de certos termos bem conhecidos, mas que deles difiram de uma maneira nunca completamente explicada. Por exemplo, não fale sobre as pessoas serem felizes ou tristes; fale sobre elas terem orientações atitudinais positivas ou negativas.

O próximo passo é traduzir alguns truísmos para seu novo vocabulário. Pegue a observação banal de que pessoas felizes tendem a fazer as outras pessoas mais felizes. Ela pode ser remodelada como “orientações atitudinais positivas têm alto poder de transferência”. É também útil adotar o vocabulário de “forças”, “energias”, “equilíbrios” e “vibrações”. O uso dessas palavras irá sugerir que você descobriu algum poder profundo que pode ser aproveitado e usado pelas outras pessoas. Isso fará com que seja bem mais fácil persuadi-las de que elas podem perder algo de realmente importante caso não compareçam a um de seus seminários.

Assim, se você é um guru do marketing, tente fazer seminários sobre o “Aproveitamento das Energias Atitudinais Positivas dentro do Varejo”. E se algum espertinho for corajoso o suficiente para levantar a mão e perguntar o que exatamente é uma “energia atitudinal positiva”, defina utilizando mais jargão. Fazendo isso, você jamais terá de realmente explicar o significado da sua conversa fiada. Além disso, os vários truísmos embutidos no seu jargão irão gerar a ilusão de que você realmente tem algo a dizer, mesmo que audiência não faça muita ideia do que seja – o que é uma boa forma de deixá-la com mais vontade de ouvi-lo.

Adicionar algum jargão ou referência científica pode ser particularmente útil ao seu papo furado porque essas coisas emulam autoridade e substância. Referências à mecânica quântica são particularmente populares entre os vendedores de conversa fiada pseudocientífica. Uma vez que se espera que ela faça afirmações um tanto estranhas e difíceis de entender, é uma boa ideia abusar das referências em favor das bizarrices que você tem a dizer. As pessoas pensarão que você deve ser muito inteligente e sequer perceberão que você é um tapeador. Se você for ambicioso, pode ser uma boa ideia inventar uma palestra com o título “Energias Atitudinais Positivas e Mecânica Quântica”.

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Pós-modernismo

Infelizmente, alguns setores da academia são dominados por intelectuais cuja escrita não é muito mais do que pseudoprofundidade. Retire o jargão acadêmico e as referências pseudocientíficas de seus pronunciamentos grandiosos e pouco sobrará. Tais pensadores, frequentemente referidos como “pós-modernos”, possuem mais apetrechos do que sua justa cota de jargão pastoso. Mas, de qualquer forma, é muito fácil fazer algo soar como legítimo academiquês pós-modernista, tanto que um brincalhão chamado Andrew Bulhak criou um programa de computador que escreve ensaios “pós-modernos” para você – e com as devidas referências.

Acabei de testar e recebi um ensaio que começa assim: “O tema primordial do modelo de marxismo neo-estrutural de Cameron é o que há de comum entre a sociedade e a cultura. A análise de Sontag da situação debordiana afirma que a sociedade tem valor objetivo. Entretanto, promove o uso do marxismo para a análise de classe. A situação debordiana sustenta que o objetivo do observador é a desconstrução. O sujeito é interpolado em um marxismo neo-estrutural que inclui a arte como um paradoxo. Vários materialismos que dizem respeito à teoria subdialética semanticista podem ser encontrados”.

Isso até pode ser nonsense, mas dificilmente é pior do que os textos reais. Considere o seguinte exemplo, do intelectual francês Félix Guattari: “Claramente não há qualquer correspondência biunívoca entre ligações linearmente significantes ou arqui-escritos, dependendo do autor, e essa catálise maquínica multidimensional e multi-referencial. A simetria da escala, a transversalidade, o caráter prático e não discursivo de suas expansões: todas essas dimensões nos distanciam da lógica do terceiro excluído e reforçam o descarte do binarismo ontológico que criticamos anteriormente. Uma assembleia maquínica, através de seus componentes diversos, extrai sua consistência cruzando limiares ontológicos, limiares não lineares de irreversibilidade, limiares ontológicos e filogenéticos e limiares criativos de heterogênese e autopoiese”.

Em 1997, Alan Sokal, professor da Universidade de Nova York (e claramente qualificado para falar sobre os usos da terminologia científica), estava irritado porque alguns pós-modernos estavam surrupiando teorias e termos da física e os aplicando de forma nonsense. Juntamente com seu colega Jean Bricmont, publicou o livro Imposturas Intelectuais, que expunha de forma cuidadosa e muitas vezes bem humorada o nonsense científico aliado ao blábláblá academicista de vários intelectuais que escrevem dessa forma. Sobre a longa passagem da qual a citação de Guatarri é retirada, Sokal e Bricmont dizem que ela é a “mais brilhante mistura de jargões científicos, pseudocientíficos e filosóficos que jamais encontramos; apenas um gênio poderia tê-la escrito”.

Imposturas Intelectuais foi lançado após o “Trote de Sokal”, feito em 1996. Sokal submeteu um artigo à revista americana Social Text, publicação pós-moderna da moda. O artigo soava pretensioso e estava recheado de conversa fiada pseudocientífica. Os editores da Social Text, incapazes de distinguir entre conversa fiada e profundidade, publicaram-no. Afinal de contas, o artigo de Sokal – “Transgredindo as Fronteiras: Por Uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica” – fazia tanto sentido quanto outros artigos lá publicados. Sobre o trabalho de Jean Baudrillard, cheio de referências à teoria do caos, mecânica quântica, geometria não euclidiana e outras coisas mais, escrevem Sokal e Bricmont:

“Em suma, vemos no trabalho de Baudrillard uma profusão de termos científicos usados sem a menor consideração pelo que eles realmente querem dizer e, acima de tudo, tal uso ocorre em um contexto onde os termos são obviamente irrelevantes. Mesmo admitindo que devemos entendê-los metaforicamente, é difícil ver que papel eles desempenhariam que não seja dar aparência de profundidade a observações banais sobre sociologia ou história. Além disso, a terminologia científica é misturada com um vocabulário não científico que, por sua vez, é empregado com o mesmo desleixo. No final das contas, é normal pensar sobre o que sobraria do pensamento de Baudrillard se todo o verniz que o cobre fosse removido.”

Incluo essa citação de Sokal e Bricmont porque ela resume bem o que poderia ser dito sobre a pseudoprofundidade de forma mais geral: a pseudoprofundidade consiste em uma refinada mistura de banalidades, nonsense e falsidades servida como um imponente soufflé linguístico. Espete-o com um garfo, deixe o ar quente sair e você perceberá que pouco sobra. Certamente nada que valha a pena comer.

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Lidar com a pseudoprofundidade

Espero que esse breve esboço de alguns dos modos de pseudoprofundidade possa ajudá-lo a detectá-la com mais eficácia. Mas e se você estiver no papel de receptor de tais tolices, como responder? Qual a melhor forma de revelar a pseudoprofundidade pelo que ela é? O maior inimigo da pseudoprofundidade é a clareza. Um dos modos mais eficazes de desarmá-la é traduzi-la em português corrente. Diga “certo, você está dizendo que…” e anote em prosa clara e sem ambiguidades o que realmente se quer dizer. Esse exercício de tradução revelará que o que foi dito pode ser uma das seguintes três coisas: (1) uma falsidade óbvia, (2) nonsense, ou (3) um truísmo.

Mas combater a pseudoprofundidade raramente é assim tão fácil. Aqueles que a despejam sobre os outros muitas vezes estão até certo ponto cientes que é provável que a clareza os desmascare e, assim, provavelmente resistirão às suas tentativas de reformular o que eles pretendem dizer em termos claros e não ambíguos. É quase certo que eles irão acusá-lo de estar entendendo as coisas de forma crassa. Obviamente, eles não irão explicar claramente o que querem dizer: somente enrolarão você mudando de assunto, levantando cortinas de fumaça, acusando-o de não entender outras coisas mais, e assim por diante. Por essa razão, desmascarar a pseudoprofundidade muitas vezes requer tempo e paciência.

Escárnio e sátira podem ter um papel a desempenhar. O riso pode quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre nós. Uma pequena sátira pode ajudar-nos a reconhecer que fomos enganados por alguém que diz pouco mais do que truísmos, falsidades ou nonsense travestidos de pensamento profundo. Eis aí a razão pela qual os adeptos da pseudoprofundidade com frequência se opõem à sátira e ao escárnio, ficando ofendidos com tais coisas. No entanto, há um cuidado importante que devemos ter quanto ao uso do humor. Obviamente, qualquer crença pode ser ridicularizada.

Não estou sugerindo que a piada deve substituir a crítica clara e rigorosa do tipo que eu procurei oferecer aqui. Ninguém deve ser incentivado a abandonar uma crença só porque as pessoas riem dela. No entanto, por causa da habilidade de ajudar a quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre suas vítimas, permitindo que vejamos por um momento ou outro que fomos crédulos ou tolos, um pouco de escárnio pode muito bem ser parte de uma resposta. Uma boa piada pode ser útil e legítima, se for merecida.

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