Por que ler os clássicos?

Fotografias de grandes centros urbanos antes de 1870 mostram cidades aparentemente desertas. É claro que havia, no momento de captura da imagem, várias pessoas, cavalos e carruagens passando pela cena, em todas as direções. Mas, devido ao longo e demorado processo que a tecnologia da época exigia, ficavam gravados apenas objetos estáticos. Essa é uma boa metáfora para os clássicos. Muita coisa já foi escrita na história da humanidade, mas apenas algumas delas tiveram o mérito de permanecer relevantes através dos séculos. Sobre esse assunto, veja esse trecho da obra Heróstrato, do aclamado poeta português Fernando Pessoa (1845-1900):

“Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, são natimortas. Outras têm o dia breve que lhes confere a sua expressão de um estado de espírito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na infância. Outras, de maior escopo, coexistem com uma época inteira do país, em cuja língua foram escritas, e, passada essa época, elas também passam; morrem na puberdade da fama e não alcançam mais do que a adolescência na vida perene da glória. Outras, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu país ou da civilização a que pertence, duram tanto quanto dura aquela civilização; essas alcançam a idade adulta da glória universal. Mas outras duram além da civilização cujo sentimento expressa. Essas atingem aquela maturidade de vida que é tão mortal como os deuses, que começam mas não acabam, como acontece com o Tempo; e estão sujeitas apenas ao mistério final que o destino encobre para todo o sempre.”

Veja a seguir os 14 aforismos apontados pelo escritor italiano Italo Calvino para definir o que é um clássico na literatura. Todos foram extraídos da introdução à obra Por que ler os clássicos, publicada no Brasil em 1993 pela editora Companhia das Letras. Tradução de Nilson Moulin. Veja também: Como ler os clássicosQuem gosta de clássicos.


  1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer “estou relendo” e nunca “estou lendo”.

  2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá- los.

  3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, memetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

  4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

  5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

  6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

  7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

  8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

  9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

  10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

  11. O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

  12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

  13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

  14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.

Dicionário Houaiss redefine “família”

O conceito de família sempre possuiu um significado suficientemente claro: “Grupo de pessoas vivendo sobre o mesmo teto (especialmente o pai, a mãe e os filhos)”. Durante décadas, foi essa a definição dada pelo Houaiss, o mais importante dicionário de língua portuguesa, para o verbete “família”. É claro que a palavra pode assumir sentidos secundários, mas esse é o sentido imediato e primário. O complemento entre parêntesis na definição é necessário porque um “grupo de pessoas vivendo sobre o mesmo teto” pode ser uma república de estudantes, por exemplo, ou qualquer outra configuração habitacional cujos inquilinos não tenham entre si qualquer ligação afetiva ou sanguínea. De igual modo, parentes de primeiro grau que não vivem mais juntos são família apenas em sentido lato, de modo que não preenchem o significado estrito e primeiro de família.

Os tempos mudaram e os organizadores do dicionário já não estavam mais satisfeitos com essa definição clássica. Resolveram reescrever o verbete; e essa decisão foi tema de uma reportagem do Fantástico, exibida no último domingo (08), dia das mães. Para dar o tom da reportagem, ela começa com uma pergunta aparentemente despretensiosa, mas que carrega consigo o pressuposto do relativismo: “O que é família pra você?”. Note que a pergunta não procura pela definição objetiva de “família”, mas pelas opiniões subjetivas de cada um. A preocupação implícita ali era compreensível: não excluir ou discriminar os tipos menos comuns de família. Depois de apresentar alguns exemplos de famílias, digamos, mais “heterodoxas”, a reportagem dá a entender que a atual definição limita muito o termo. Ora, mas o que é uma definição, se não uma delimitação dos termos?

Além do mais, note que “especialmente”, na definição acima, tem o mesmo sentido de “normalmente”, “geralmente”, “na maioria dos casos”, e não de “exclusivamente”. Sendo assim, a definição continua aplicável a modelos familiares menos ortodoxos. Mesmo assim, fato é que os organizadores do dicionário sentiram que estava na hora de ampliar a definição de “família”. Fizeram então uma parceria com uma agência de publicidade e criaram uma campanha. Após ouvir mais de 3 mil opiniões diferentes, chegaram a um consenso. A partir da próxima edição do Houaiss, “família” será definida assim: “Núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”. Leia novamente. Agora compare com a definição original. Percebe como o relativismo é avesso à clareza?

Em nome do politicamente correto, trocaram uma definição clara, sucinta e objetiva, que vai direto ao ponto em poucas palavras, por uma definição obscura, prolixa e vaga. Se me perguntassem o que é um “núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”, eu certamente não saberia responder. Mas se me perguntassem o que é um “grupo de pessoas vivendo sobre o mesmo teto (especialmente o pai, a mãe e os filhos)”, eu teria a resposta na ponta da língua: é uma família!

Professor Roberto Bolzani Filho fala sobre o diálogo “A República” de Platão

No 35º programa Literatura Fundamental, exibido pela Univesp TV, Ederson Granetto entrevista o professor de filosofia Roberto Bolzani Filho, da Universidade de São Paulo (USP) que fala sobre o diálogo A República de Platão.

O legado de João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna para a cultura brasileira

Julho de 2014 ficou marcado como um mês de luto para a literatura brasileira. Neste momento deve estar acontecendo um festival literário no além. Aparentemente, só isso pode explicar que, no espaço de apenas uma semana, tenhamos perdido três grandes e notáveis escritores.

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Por ironia do destino, a semana que começou na última sexta-feira com a morte de João Ubaldo Ribeiro (dia 18), e que também teve a morte de Rubem Alves (dia 19) e Ariano Suassuna (dia 23), encerrou-se com o Dia Nacional do Escritor, comemorado em 25 de julho. Coincidências à parte, você conhece a importância que cada um deles teve para a cultura brasileira? Saiba mais sobre suas vidas e obras a seguir:

Veja também:
Rubem Alves (in memoriam)
Ariano Suassuna (in memoriam)
Ariano Suassuna (in vitae)

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João Ubaldo Ribeiro

Escritor, jornalista, roteirista, professor. Achou muito? O baiano João Ubaldo Ribeiro era, ainda, formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia e membro da Academia Brasileira de Letras. Ribeiro trabalhou como editor-chefe do jornal Tribuna da Bahia, foi colunista do jornal alemão Rankfurter Rundschau e colaborador em publicações nacionais e estrangeiras, como The Times Literary Supplement, na Inglaterra, Jornal de Letras, Portugal, e a Folha de S.Paulo. Suas obras integram o romance moderno brasileiro e revelam aspectos da cultura nacional, como é o caso da premiada “Sargento Getúlio”, na qual narra a história de um sargento da polícia militar do Sergipe usando diversos elementos e figuras da cultura típica do nordeste. A história tinha tantas características típicas que o próprio autor teve que traduzi-la para o inglês. Além dessa, “Viva o povo brasileiro” também recebeu o Prêmio Jabuti e ambas constam na lista dos 100 melhores romances brasileiros do século. Diversas de suas obras foram adaptadas para o cinema e a televisão, como “O Sorriso do Lagarto”, apresentada como minissérie na Rede Globo em 1991. João Ubaldo Ribeiro morreu no Rio de Janeiro no último dia 18, aos 73 anos, vítima de uma embolia pulmonar.

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Rubem Alves

Rubem Alves foi escritor, educador, filósofo e teólogo. Seus livros costumavam abordar temas espirituais e existenciais. Além desses, ele também escrevia histórias infantis e, semanalmente, escrevia crônicas para jornais de grande circulação, como a Folha de S.Paulo. O legado do autor envolve não só as obras literárias, mas também diversos artigos, monografias, dissertações e teses acadêmicas. Embora tenha nascido em Minas Gerais, Alves se aposentou e morou na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, onde recebeu os títulos de professor-emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e cidadão-honorário de Campinas, além de ter se tornado membro da Academia Campinense de Letras. Rubem Alves faleceu no dia 19 de julho em Campinas, aos 80 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos.

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Ariano Suassuna

O escritor Ariano Suassuna foi um dos maiores defensores da cultura regional brasileira. Em suas obras, o escritor, que também era dramaturgo e poeta, usava os elementos das tradições nordestinas para construir as suas histórias. Nascido em João Pessoa, na Paraíba, Suassuna logo foi morar com a família no sertão e teve o pai assassinado por motivos políticos na Revolução de 1930, no Rio de Janeiro. Após a fatalidade, mudou-se para Recife. Com apenas 20 anos o autor já escrevia a peça “Uma Mulher Vestida de Sol”, ganhadora do concurso do Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1955 estreou a peça “Auto da Compadecida”, sua obra máxima, considerada pelo crítico teatral Sábato Magaldi como “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. Nela, Suassuna conta a história dos amigos João Grilo e Chicó, que andam pelo sertão propagando A Paixão de Cristo. A peça foi escrita em formato de auto e dividida em 3 atos, usando diversas figuras de linguagem nordestinas e mesclando elementos dos cordéis. Seu sucesso foi tão grande que, mais tarde, foi adaptada para o cinema e a televisão. Em 1959, em parceria com o autor Hermilo Borba Filho, fundou no Recife o movimento do Teatro Popular do Nordeste, por meio do qual buscava oferecer produções teatrais de qualidade e encontrar uma forma nordestina de interpretar. Ariano Suassuna foi membro da Academia Brasileira de Letras e morreu no Recife na última quarta-feira (23), aos 87 anos, vítima de uma parada cardíaca.

Com informações de: Universia Brasil.

Machado de Assis é o autor brasileiro mais citado em teses de doutorado

O Itaú Cultural divulgou, durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty-RJ) deste ano, novas pesquisas sobre o estudo da literatura brasileira, aqui e no exterior. A doutoranda da Universidade de Brasília (UnB) Laeticia Jensen Eble mapeou os escritores nacionais mais citados nos trabalhos de doutores em literatura brasileira no país. A pesquisa teve como base os currículos disponibilizados na plataforma Lattes, banco de dados mantido pelo CNPq, de 2.176 pesquisadores. Machado de Assis lidera a lista com 122 citações. Depois dele, nos primeiros 5 lugares, aparecem Guimarães Rosa (100 citações), Clarice Lispector (63), Graciliano Ramos (54) e Mário de Andrade (44). Entre os autores vivos, Milton Hatoum é o mais citado, com 22 menções, à frente de Rubem Fonseca (20), Manoel de Barros (18) e Chico Buarque (13). A pesquisa identificou 477 autores diferentes. As mulheres são uma parte quase ínfima do grupo – apenas 21%. Depois de Clarice Lispector, Cecília Meireles é a segunda mulher mais lembrada.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) João Cezar de Castro Rocha apresentou uma pesquisa semelhante, só que realizada com 224 pesquisadores que vivem no exterior. Também neste grupo Machado de Assis lidera, com 135 menções. Depois estão Clarice Lispector (117), Guimarães Rosa (102) e Jorge Amado (82). Castro Rocha chamou a atenção para as diferentes posições ocupadas por Amado nas duas listas (ele é o 4º na lista dos pesquisadores que vivem no exterior e o 19º na dos brasileiros). “Isso ocorre porque, nos anos 1940 e 1950, Jorge Amado foi fundamental para a difusão da literatura brasileira no mundo. Mesmo que aqui no Brasil não seja mais tão estudado hoje, permanece como um símbolo da literatura brasileira no exterior”, comentou o professor. Castro Rocha também destacou que, proporcionalmente, pesquisadores estrangeiros citam mais autores contemporâneos do que os pesquisadores brasileiros ou residentes no Brasil. “Para o pesquisador fora do Brasil, a atualização é um valor em si. Já para os pesquisadores daqui, dedicar-se aos cânones é uma forma mais segura para conseguir fundos de pesquisas”, afirmou.

O jornalista Felipe Lindoso apresentou dados sobre a proliferação de feiras literárias no Brasil nos últimos anos. O portal da Biblioteca Nacional, comentou, tem 261 feiras registradas país. Lindoso apontou a mudança de perfil desses eventos. Até o final dos anos 1990, as feiras eram majoritariamente encontros comerciais, voltadas para a venda de livros. Nos últimos anos, contudo, ganharam relevo os debates e a troca de ideia entre o público e os escritores. “E de 2001 em diante, surgiram depois os festivais literários – Flip, Fliporto, Fórum das letras – nos quais a venda de livro é secundária”, afirmou. Luiz Ruffato relacionou esse crescimento das feiras literárias à profissionalização da carreira de escritor. “O ano da primeira Flip, 2003, é para mim um ano marcante da profissionalização da profissão de escritor. Foi quando eu larguei o jornalismo para me dedicar apenas à literatura”, explica. “Há 10 anos vivo como escritor profissional. Vivo de cachê de festival, júri de concursos literários. Vivemos um momento muito interessante. Antes eu era um dos poucos casos. Hoje sou só mais um”.

Fábio Malini, professor de jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), apresentou uma pesquisa sobre a presença da literatura brasileira na internet, em especial no Facebook e no Twitter. Nas redes sociais, Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade são os campeões de popularidade. Clarice, por exemplo, tem 743 mil “fãs” no Facebook. Caio tem 373 mil e Drummond, 108 mil. A lista no Twitter é liderada por Paulo Leminski, autor que alcançou a lista de mais vendidos com “Toda Poesia”. O cruzamento dos dados indica que fãs de Clarice tendem a ser fãs de Caio também. Representam um grupo mais heterogêneo, com usuários de perfis diferentes “curtindo” os dois autores. Já os que preferem Leminski e Machado formam um grupo mais homogêneo e especializado nesses dois escritores, com pouca relação com outros assuntos das redes sociais.

Fonte: Folha.

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