Como o advento da internet está mudando o funcionamento do cérebro humano

Artigo de Nicholas Carr, publicado originalmente em inglês no portal The Atlantic.

Há alguns anos tenho a impressão de que algo vem mexendo com meu cérebro, remapeando os circuitos neuronais, reprogramando a memória. Minha mente está mudando. Não estou mais pensando como costumava pensar. Percebo isso de modo mais acentuado quando estou lendo. Mergulhar num livro, ou num longo artigo, costumava ser fácil. Minha mente se enredava na narrativa ou nas voltas do argumento e eu passava horas lendo longos trechos de prosa. Isso raramente ocorre atualmente. Agora minha atenção começa a divagar depois de duas ou três páginas. Eu fico inquieto, perco o fio de meada, começo a procurar outras coisas para fazer. Sinto como se estivesse sempre arrastando meu cérebro divagante de volta ao texto. A leitura fluida e profunda que costumava ser tão natural para mim agora se tornou uma luta.

Creio que sei o que está acontecendo. Por mais de uma década venho passando mais tempo online, procurando, surfando e algumas vezes acrescentando informação à grande biblioteca da internet. A internet tem sido uma dádiva para um escritor como eu. Pesquisas que antes exigiam dias de procura em jornais ou na biblioteca agora podem ser feitas em minutos. Algumas procuras no Google, alguns cliques rápidos em hiperlinks e eu consigo os fatos reveladores ou as citações exatas que procurava. Mesmo quando não estou trabalhando acabo me surpreendendo, mais frequentemente do que deveria, à caça de informação na web ou lendo e escrevendo e-mails, escaneando manchetes e blogs, assistindo vídeos, ouvindo podcasts ou apenas vagando de um link para outro. Ao contrário das notas de rodapé, às quais eles são comparados, hiperlinks não apenas nos referem a trabalhos relacionados; eles nos arremessam em direção a eles.

A internet está se tornando um meio universal, o conduíte por onde passa a maior parte da informação que chega aos meus olhos, ouvidos e mente. As vantagens de ter acesso rápido a quantidades inacreditavelmente ricas de informação são muitas, e elas têm sido extensivamente descritas e justamente aplaudidas. Mas isso tem seu preço. Como disse o teórico da comunicação Marshall McLuhan nos anos 1960, a mídia não é apenas um canal passivo para o tráfego de informação. Ela fornece a matéria, mas também molda o processo de pensamento. E o que a internet parece fazer é pulverizar minha capacidade de concentração e contemplação. Minha mente agora espera absorver informação do modo como a internet as distribui: num fluxo veloz e intermitente de partículas. Antes eu era um mergulhador num mar de palavras. Agora eu deslizo pela superfície.

Não sou o único. Quando menciono meu problema com a leitura a amigos e conhecidos – tipos literários, em sua maioria – muitos dizem ter experiências similares. Quanto mais eles usam a web, mais precisam lutar para permanecerem concentrados em longos textos. Alguns dos blogueiros que acompanho também começaram a mencionar o fenômeno. Scott Karp, que escreve um blog sobre mídia online, confessou recentemente ter parado completamente de ler livros: “Eu era um graduando em literatura na faculdade e costumava ser um leitor voraz. O que houve?”. E especula em sua resposta: “E se eu leio exclusivamente na web não apenas porque o modo como eu leio mudou, isto é, estou apenas buscando conveniência, mas porque o modo como eu penso mudou?”.

Bruce Friedman, que escreve regularmente sobre o uso de computadores na medicina, também descreveu como o uso da internet alterou seus hábitos mentais. “Eu agora praticamente perdi toda a habilidade para ler e absorver um artigo mais extenso na web ou na mídia impressa”, confessou. Patologista e professor há algum tempo na Escola de Medicina da Universidade de Michigam, Friedman elaborou melhor suas impressões sobre o assunto numa conversa comigo por telefone. “Não consigo mais ler Guerra e Paz”, ele admite. “Perdi a capacidade de fazer isso. Mesmo posts de blogs com mais de três ou quatro parágrafos são demais para absorver. Eu apenas passo os olhos”.

Continuamos esperando pelos experimentos psicológicos e neurológicos de longa duração que irão desenhar o quadro definitivo sobre o modo como a internet afeta a cognição. Contudo, um recente estudo sobre hábitos de pesquisa online, conduzido por pesquisadores da University College London, sugere que podemos estar no meio de uma mudança radical no modo como lemos e pensamos. Parte do estudo, que durou 5 anos, consistia na análise de arquivos de acesso que documentavam o comportamento dos visitantes de dois sites populares de pesquisa, um operado pela Biblioteca Britânica e outro pelo Consórcio Britânico de Educação. Esses sites permitem acesso a artigos de jornais, e-books, e outras fontes de informação escrita. Os pesquisadores descobriram que os usuários dos sites apresentaram “uma forma de atividade mental associada à identificação rápida, na leitura, das ideias principais de um texto (em inglês, skimming)”, saltando de uma fonte a outra e raramente retornando a fontes já visitadas. Eles tipicamente não leem mais do que uma ou duas páginas de um artigo ou livro antes de pular para outro. Algumas vezes eles salvam algum artigo, mas não há nenhuma evidência de que realmente leem posteriormente o que salvaram.

Os autores afirmam: Está claro que os usuários não estão lendo online no sentido tradicional; de fato há sinais de que um modo novo de leitura está aparecendo na medida em que os usuários navegam horizontalmente através de títulos, conteúdos de páginas e resumos buscando resultados rápidos. Parece até que eles procuram a informação online para evitar ler no sentido tradicional. Graças à ubiquidade do texto na internet – sem falar na popularidade das mensagens de texto nos telefones celulares – é realmente possível que estejamos lendo muito mais hoje do que nas décadas de 1960 e 1970, quando a televisão era o meio da moda. Mas é um tipo diferente de leitura, e por trás dele está um tipo diferente de pensamento – talvez até mesmo um novo senso de si mesmo.

“Nós não somos apenas o que lemos”, diz Maryanne Wolf, psicóloga da Universidade de Tufts. “Nós somos como lemos”. Wolf acredita que o estilo de leitura promovido pela internet, um estilo que coloca a eficiência e a imediatidade acima de qualquer outra coisa, pode estar diminuindo nossa capacidade de leitura profunda que emergiu quando uma antiga tecnologia, a prensa, tornou os longos e complexos romances algo comum. Quando lemos online, ela afirma, tendemos a nos tornar “decodificadores de informação”. Nossa habilidade para interpretar textos, para fazer as ricas conexões mentais que se formam quando lemos em profundidade e sem distrações, fica desligada.

Ler, explica Wolf, não é uma habilidade instintiva para os seres humanos. Não está impressa em nossos genes do mesmo modo que falar está. Somos obrigados a ensinar nossa mente a traduzir os caracteres simbólicos que vemos na linguagem que compreendemos. E a mídia e outras tecnologias que usamos no processo de aprendizado da arte de ler têm um papel importante na formação dos circuitos neurais em nosso cérebro. Experimentos demonstram que leitores de ideogramas, tais como os chineses, desenvolvem um circuito mental para leitura que é diferente do circuito encontrado naqueles, como nós, em que a linguagem escrita é alfabética. As variações se estendem por várias regiões do cérebro, incluindo aquelas funções cognitivas altamente importantes como a memória e a interpretação de estímulos visuais e sonoros. Nós podemos esperar, do mesmo modo, que os circuitos tecidos pelo uso da internet serão diferentes da trama costurada pela leitura de livros e outros tipos de mídia impressa.

Em algum momento de 1882, Nietzsche comprou uma máquina de escrever. Sua visão estava falhando e manter o foco na página havia se tornado um esforço doloroso e exaustivo, provocando fortes dores de cabeça. Ele foi forçado a limitar sua escrita e temia logo ser obrigado a desistir de escrever por completo. A máquina datilográfica o salvou, pelo menos por um tempo. Uma vez tendo dominado a habilidade de datilografar, ele conseguia escrever com os olhos fechados, usando apenas as pontas dos dedos. As palavras podiam mais uma vez fluir da sua mente para a página em branco. Mas a máquina teve um efeito bastante sutil no seu trabalho. Um dos amigos de Nietzsche notou a mudança de estilo na sua escrita. Sua prosa, já muito concisa, tornou-se telegráfica. “Talvez você, através deste instrumento, acabe criando um novo idioma”, escreveu o amigo numa carta. “Você está certo”, respondeu Nietzsche, “o equipamento para a escrita participa da formação dos nossos pensamentos”.

O cérebro humano é quase infinitamente maleável. Pensava-se que nossa malha mental, as densas conexões formadas pelos 100 bilhões de neurônios dentro dos nossos crânios, estava quase completamente formada quando atingíamos a idade adulta. Mas pesquisas descobriram que não é bem assim. James Olds, professor de neurociência e diretor do Instituto Krasnow para Estudos Avançados, afirma que até a mente adulta ainda é “muito plástica”. Células nervosas rotineiramente quebram velhas conexões e formam novas. “O cérebro”, de acordo com Olds, “possui a habilidade de se reprogramar, alterando o modo como geralmente funciona”. Quando usamos o que o sociólogo Daniel Bell chama de “tecnologias intelectuais” – as ferramentas que estendem nossas capacidades mentais – nós inevitavelmente começamos a assimilar as qualidades destas tecnologias.

O relógio mecânico, que teve seu uso popularizado no século 14, serve como exemplo particularmente convincente. Em Technics and Civilization, o historiador e crítico cultural Lewis Mumford descreve como o relógio “desassociou o tempo dos eventos humanos, ajudando a gerar a crença num mundo independente de sequências matematicamente mensuráveis”. A “estrutura abstrata do tempo dividido” tornou-se “a referência tanto para as ações quanto para o pensamento”. O tique-taque metódico do relógio ajudou no nascimento da mente científica e do homem científico. Mas também levou algo embora. Como observou o cientista da computação do MIT Joseph Weizenbaum em seu livro de 1976, Computer Power and Humam Reason: From Judgment to Calculation, o conceito de mundo que emergiu do uso disseminado do instrumento de medição do tempo “permanece uma versão empobrecida do antigo conceito de mundo, pois ele se baseia na rejeição daquelas experiências diretas que formavam a base e, na verdade, constituíam a antiga realidade”. Ao decidirmos quando comer, trabalhar, dormir, acordar, nós paramos de ouvir nossos sentidos e passamos a obedecer ao relógio.

O processo de adaptação a novas tecnologias reflete-se nas metáforas que usamos para nos compreendermos. Quando o relógio mecânico apareceu, as pessoas começaram a imaginar que seus cérebros operavam “como relógios”. Hoje, na era do software, nós imaginamos que eles operam “como computadores”. Mas as mudanças, diz-nos a neurociência, vão bem mais fundo do que a metáfora sugere. Graças à plasticidade do nosso cérebro, a adaptação se estende ao nível biológico. A internet promete um impacto de longo alcance na cognição. Num artigo publicado em 1936, o matemático britânico Alan Turing provou que um computador digital, naquele tempo apenas uma hipótese, poderia ser programado para cumprir a função de qualquer outro aparelho de processamento informacional. E é isso que vemos hoje. A internet, uma espécie de imensamente poderoso sistema computacional, está subsumindo a maioria das outras tecnologias intelectuais. Está se tornando nosso mapa e nosso relógio, nosso jornal e nossa máquina de escrever, nossa calculadora e nosso telefone, nosso rádio e nossa TV.

Quando a internet absorve uma mídia, essa mídia é recriada à imagem da internet. Ela contamina o conteúdo do meio com hiperlinks, anúncios, e outras bugigangas digitais; e encapsula o conteúdo com o conteúdo de todas as outras mídias já absorvidas. Um novo e-mail, por exemplo, pode anunciar sua chegada enquanto passamos os olhos pelas últimas manchetes num site de notícias. O resultado é a pulverização da atenção e a difusão da concentração. A influência da internet não acaba nas bordas do monitor, ademais. À medida que a mente das pessoas vai se ajeitando ao estofo maluco da internet, a mídia tradicional vai sendo obrigada a se adaptar às novas expectativas da audiência. Programas de televisão passaram a usar legendas e anúncios pop-ups; revistas e jornais diminuíram o tamanho das suas reportagens, introduziram boxes explicativos e lotaram suas páginas com infográficos didáticos.

Quando o New York Times decidiu reservar duas páginas de cada edição diária a resumos de artigos e reportagens, seu diretor gráfico, Tom Bodkin, justificou a opção explicando que estes “atalhos” iriam proporcionar aos leitores mais apressados um rápido “gostinho” das notícias do dia, poupando-os de realmente virar as páginas do jornal para ler os artigos. A velha mídia tem pouca opção a não ser jogar pelas regras da nova. Nunca os sistemas de comunicação cumpriram tantos papéis em nossas vidas – ou exerceram influência tão marcante em nossos pensamentos. Contudo, apesar do quanto se escreve sobre a internet atualmente, há pouca consideração sobre como, exatamente, ela está nos reprogramando. A ética intelectual da internet permanece obscura.

A internet é uma máquina desenhada para coletar, transmitir e manipular informação com o máximo de eficiência possível; e sua legião de programadores está empenhada em encontrar “o melhor método” – o algoritmo perfeito – para dar conta de cada movimento mental envolvido no que costumamos chamar “trabalho intelectual”. O quartel general do Google em Montain View, California, é a catedral da internet, e a religião praticada dentro de seus muros é o taylorismo. O Google, afirma seu presidente, Eric Schmidt, é “uma companhia fundada sobre a ciência da mensuração”, e luta para “sistematizar tudo”.

Baseado nos terabytes de informações comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, a empresa realiza centenas de experimentos por dia, de acordo com a Harvard Business Review, e aplica os resultados no refinamento dos algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e as interpretam. A empresa declarou que sua missão é “organizar toda a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil”. Quer desenvolver “o motor de busca perfeito”, que ela define como algo que “compreenda exatamente o que você quer dizer e te devolve exatamente o que você quer”. Na visão do Google, informação é um tipo de commodity, um recurso utilitário que pode ser minerado e processado com eficiência industrial. Quanto mais informação “acessamos” e mais rápido extraímos o que há de importante nela, mais produtivos nos tornamos enquanto pensadores.

Onde isso vai parar? Sergey Brin e Larry Page falam do desejo de transformar seu motor de busca num tipo de inteligência artificial que poderia conectar-se diretamente aos nossos cérebros. “O motor de busca perfeito deverá ser tão esperto quando as pessoas – ou mais”, afirmou Page numa conferência há alguns anos. “Para nós, trabalhar com buscas é um modo de trabalhar com inteligência artificial”. Numa entrevista à revista Newsweek, Brin disse: “Certamente, se você tiver toda a informação do mundo ligada diretamente no seu cérebro, você estará em vantagem”. Ano passado, Page disse a um grupo de cientistas que o Google está “tentando construir uma inteligência artificial”.

Tal ambição é natural, até mesmo admirável para um par de gênios matemáticos com muita grana e um pequeno exército de cientistas da computação. Um empreendimento fundamentalmente científico, o Google é motivado pelo desejo de usar a tecnologia, nas palavras de Eric Schmidt, “para resolver problemas que ninguém resolveu ainda”, e a inteligência artificial é o mais difícil deles. Porque Brin e Page não iriam querer resolvê-lo? Contudo, a pressuposição fácil de que estaríamos todos “melhores” se nossos cérebros fossem suplementados ou mesmo substituídos por uma inteligência artificial é preocupante. A ideia parece sugerir que a inteligência é o resultado de um processo mecânico, de uma série discreta de etapas que podem ser isoladas, medidas e otimizadas. No mundo do Google, há pouco espaço para a incompletude da contemplação. A ambiguidade não é vista como uma abertura para a criatividade, para o insight, mas um bug a ser corrigido. O cérebro humano é apenas um computador ultrapassado que precisa de um processador mais rápido e de um HD maior.

A ideia de que nossas mentes deveriam operar como máquinas de processamento de alta velocidade não está implicada apenas nas fundações da internet; ela é, na verdade, o modelo de negócios reinante na rede. Quando mais rápido surfamos na web – mais links seguimos, mais páginas vemos – mais oportunidades a Google e outras companhias têm de coletar informação sobre nós e nos enviar propaganda. A maior parte dos proprietários da internet comercial está financeiramente engajada na coleta de pedaços de informação que deixamos para trás ao saltar de um link para outro. A última coisa que estas companhias querem é encorajar a leitura prazerosa ou o pensamento concentrado e lento. Está em seu interesse econômico nos levar constantemente à distração.

Talvez eu seja apenas um paranoico. Do mesmo modo que há uma tendência à glorificação da tecnologia, há a tendência inversa de se esperar o pior de cada nova ferramenta ou máquina. No diálogo platônico Fedro, Sócrates reclama com tristeza do desenvolvimento da escrita. Ele temia que, a medida que as pessoas confiassem na linguagem escrita como um substituto para o saber que elas costumavam carregar na cabeça, elas iriam, nas palavras de uma das personagens do diálogo, “deixar de exercitar a memória e se tornar esquecidas”. E porque elas seriam capazes de “receber uma maior quantidade de informação sem a devida instrução”, elas iriam “se considerar muito sábias quando na verdade seriam, em grande parte, ignorantes”. Elas iriam estar “repletas do conceito de sabedoria ao invés de serem realmente sábias”. Sócrates não estava errado – a nova tecnologia teve, em grande parte, o efeito que ele temia – mas não viu longe o suficiente. Não percebeu que, de formas diversas, a escrita e a leitura iriam servir para disseminar informação, gerar novas ideias e expandir o conhecimento humano.

O aparecimento da imprensa, no século 15, disparou outra rodada de ranger de dentes. O humanista italiano Hieronimo Squarciafico defendia que a disponibilidade de livros levaria à preguiça intelectual, tornando os homens “menos estudiosos” e enfraquecendo suas mentes. Outros argumentavam que livros mais baratos e panfletos poderiam corroer a autoridade religiosa, tornar menos importante o trabalho de acadêmicos e escribas, além de espalhar a sedição e a concupiscência. Como afirma o professor da Universidade de Nova York, ClayShirky, “a maioria dos argumentos contra a invenção da imprensa estavam corretos, alguns eram até prescientes”. Porém, novamente, os apocalípticos não conseguiram imaginar a miríade de bençãos que a palavra impressa iria possibilitar.

Portanto, sim, você deveria ser cético quanto ao meu ceticismo. Talvez aqueles que descartam as críticas à internet classificando-as como nostálgicas e retrógradas estejam corretos e das nossas mentes hiperativas e abarrotadas de informação nasça uma era de ouro de descobertas intelectuais e verdades universais. Entretanto, a internet não é o alfabeto, e mesmo que ela substitua a mídia impressa, colocará algo diferente no lugar. O tipo de leitura profunda, dedicada, que uma sequência de páginas impressas promove possui valor não apenas pelo conhecimento que adquirimos das palavras do autor, mas também pelas vibrações intelectuais que tais palavras provocam em nossas mentes. Nos espaços tranquilos que se abrem através da leitura concentrada e sem distrações de um livro, ou por qualquer outro ato de contemplação, nós operamos nossas associações, produzimos nossas analogias e inferências, cultivamos nossas ideias. Ler profundamente, argumenta Maryanne Wolf, é indistinguível de pensar profundamente.

Se nós perdermos estes espaços de tranquilidade, ou preenchê-los com “conteúdos”, sacrificaremos algo importante não apenas em nós mesmos, mas em nossa cultura. Num recente ensaio, o dramaturgo Richard Foreman descreveu com eloquência o que está em jogo: “Eu venho de uma tradição da cultura ocidental na qual o ideal (meu ideal) era o de uma densa, complexa, altamente educada e articulada personalidade – um homem ou mulher que carregasse em si mesmo uma versão pessoal e única de toda a herança ocidental. Mas agora eu vejo em nós todos (eu incluso) a substituição de uma complexa densidade interior por um novo tipo de Eu (Self) – evoluindo sob a pressão do excesso de informação e da tecnologia do instantaneamente disponível”. A medida em que somos drenados do nosso “repertório interior da densa herança cultural”, conclui Foreman, nos arriscamos a nos tornarmos “pessoas pó-de-arroz” – espalhadas e superficiais a medida em que nos conectamos à vasta rede de informação acessível.

A morte de Sócrates

Extraído do prefácio do livro Apologia de Sócrates (Nova Fronteira, 2011).

Por ocasião da morte de Sócrates, Platão estava doente. Não pôde participar das conversas do mestre com os discípulos aproveitando o atraso da execução da sentença, durante o qual Sócrates fazia versos sobre as fábulas de Esopo ou recusava a Críton a fuga oferecida, possivelmente com a própria complacência das autoridades públicas, que começavam provavelmente a reconhecer a fatal injustiça que haviam cometido, graças às intrigas dos acusadores. Platão não pôde tampouco acompanhar a Críton, Fédon, Apolidoro, Cebes e Símias – os cinco amigos e discípulos fiéis que participaram do memorável encontro do último dia de Sócrates, cujo resultado Fédon, depois da morte do mestre, foi contar a Echécatres e este referiu a Platão, que por sua vez o imortalizou no diálogo a que deu nome de Fédon. Aliás, toda obra de Platão está, de igual modo, penetrada pelos ensinamentos de Sócrates, a tal ponto que nenhum comentador conseguiu distinguir nela o que pertence ao discípulo e o que proveio do mestre.

As duas grandes acusações contra Sócrates, que levaram a maioria do júri a condená-lo à morte, foram atentar contra a religião do Estado ateniense e corromper a juventude: ateísmo e subversão. Foi fácil a ele, na sua defesa, destruir completamente tanto uma como outra acusação, como se percebe nas suas palavras perante o Areópago. Longe de ser um ateu, Sócrates mostra que foi a voz do oráculo de Delfos que sempre o guiou. Ao contrário de se considerar infalível, o que o oráculo lhe ensinara é que “toda a sabedoria humana não valia grande coisa e mesmo não valia nada”. E não foi outra a lição socrática: a voz da humildade e do reconhecimento de que “há mais coisas entre o céu e a terra do supõe nossa vã filosofia”, como Shakespeare exprime 23 séculos mais tarde. Meleto, seu acusador, não teve o que responder quando Sócrates pulverizou sua acusação de ateísmo, porque realmente não era verdadeira. A verdade é que Sócrates condenava o politeísmo oficial, a religião de Estado, que obrigava a um conformismo incompatível com a dignidade humana e com a liberdade de consciência.

De fato, a filosofia socrática estava longe de ser um ateísmo, pois considerava que as raízes do universo sensível estavam acima e fora deste universo – de modo que Platão sistematizou essas doutrinas em sua teoria das ideias e da divindade suprema. No entanto, era, isso sim, uma condenação do estatismo  isto é, da autocracia humana que se servia dos deuses para impor aos homens uma escravidão política e moral, pior do que a escravidão puramente social. Esse estatismo, para Sócrates, tanto podia ser democrático como oligárquico. Contra os 30 Tiranos fora ele a única voz no Pritaneu que ousou erguer-se contra um decreto injusto da ditadura. E foi morrer vítima de um governo democrático e até mesmo da facção “moderada” da democracia. O fanatismo “democrático” ou “ditatorial”, é que é o inimigo da dignidade humana e da liberdade de consciência que Sócrates representa.

Não era, pois, uma questão de regime. Na realidade, Sócrates não morria por um regime político, mas por um princípio mais alto do que todos os regimes – o da dignidade humana. O que ele não tolerava era a opressão do pensamento, fosse pelo Estado, fosse pela multidão, fosse em nome dos deuses ou de qualquer outra coisa. Por esse princípio é que Sócrates enfrentou a morte com a mesma serenidade com que passara a vida discutindo livremente com os cidadãos de Atenas. Se é verdade, como diz Faguet, que “Platão tinha ódio aos atenienses”, como tinha “ódio à democracia”, nesse ponto o platonismo nada tinha de socrático. Sócrates nunca sonhou em organizar uma República que pudesse, pela rigidez de suas leis, como pretendeu Platão, dar felicidade aos cidadãos. Pelo contrário, Sócrates dizia que sempre, desde criança, uma voz interior o aconselhava a não se meter na vida política. Não era esta a sua vocação.

Não era uma lição de escapismo, mas de sabedoria. Cada um no seu quadrado. E o de Sócrates era argumentar com os cidadãos, levá-los a pensar, pensar com eles… E não entrar na esfera política para governá-los ou mesmo para elaborar as leis que os deviam tornar felizes, como Platão queria que os filósofos fizessem e em vão o tentou junto aos tiranos. por aí se vê que nem todo platonismo é socratismo. A morte de Sócrates era pela liberdade e não pela autoridade. Era esta, a autoridade de um regime democrático, que praticava contra ele uma trágica injustiça. Contra isso é que ele se revolta, não por atos, mas por palavras, não por violência, mas por serenidade, não por emoção, mas por razão. Mais do que pela razão, pela sabedoria. E mais do que pela sabedoria humana, pela sabedoria sobre-humana, divina, oracular.

Nesse sentido é que Sócrates foi uma prefiguração de Cristo. Sua morte, como a de Cristo, foi um protesto contra todas as formas de tirania, de César ou da multidão, dos teocratas, dos aristocratas ou dos democratas. Só há uma “cracia” autêntica – a “cracia” divina, do Bem, da Verdade, da Justiça, do Amor, aquela sob a qual Sócrates viveu e agora morria. A importância da morte de Sócrates e da sua apologia, que Platão exprimiu para a posteridade, como poeta e filósofo, tanto na própria Apologia de Sócrates, como no Críton ou no Fédon, transcendem, pois, de muito, o próprio mundo helênico e a própria cultura grega. Nunca a dignidade humana, a liberdade de consciência, a defesa da verdade, da justiça, da virtude, a serenidade perante a morte, a humildade de espírito e a grandeza de alma, a compreensão e a fortaleza de ânimo, a coragem sem jactância, nunca um pensamento tão alto, uma lição tão profunda, foi dada por um homem aos homens em termos tão perfeitamente belos. Só mesmo a divindade de Cristo poderia ultrapassar a humanidade de Sócrates.

Chegado o dia da execução, Sócrates enfim toma a cicuta, esse veneno tão sutil e fatal, com que ele ingressava não na morte, mas na eternidade. Não com lágrimas nos olhos, mas com um sorriso nos lábios. Condenando para sempre, na pessoa dos seus algozes, a arrogância dos fanáticos e a violência dos medíocres. “Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vós para viverdes. Mas quem vai para melhor sorte, isso é segredo, exceto para Deus.” (Sócrates, em suas últimas palavras).

A Apologia de Sócrates se coloca entre as mais belas páginas de eloquência que nos foram legadas pela antiguidade. A autodefesa do filósofo, feita perante seus impenitentes acusadores, evocada por Platão com devoção de discípulo fiel, é, não obstante à brevidade do texto, uma síntese da filosofia socrática, de grandíssimo valor literário e como documento humano. A admirável serenidade do sábio, só preocupado com o destino dos seus acusadores e com a sagrada verdade, manifesta-se em toda a sua grandeza nas páginas imortais deste pequenino e grande livro.

Veja também: O método de Sócrates

Não consigo mais ler livros

Crônica de Wagner Brenner no blog Update or Die.

Não consigo mais ler livros. Não que eu não queira: simplesmente não consigo. Sou um leitor, desde que me entendo por gente. Sempre li muito e continuo lendo. Mas de uns anos para cá, me alimentar compulsivamente através da internet tem causado em mim um efeito colateral que ainda não consigo explicar muito bem. Só sei que agora, toda vez que pego um livro nas mãos, não consigo ler, canso rápido. Se o texto não “embala” logo, preciso de muito esforço para continuar com a leitura. E não é só com o livro de papel. A mesma coisa acontece com o livro digital. Não tem nada a ver com essa comparação tão debatida. Tem a ver com o tamanho do texto. Essa situação me deixa angustiado. Será que desaprendi a ler? Será que fiquei preguiçoso? Será que agora só consigo ler coisas curtinhas e, de preferência, com uns links? Acho que não.

Na verdade, nunca li tanto como agora. Passo o dia inteiro lendo. Mais leio cacos, fragmentos. Sim, o efeito é conhecido e foi previsto anos atrás. Sai o disco, entra a música. Sai o filme, entra a série. Sai a série, entra o curta do YouTube. Sai a mesa de bar, entra o Facebook. Sai o livro, entra o post, o artigo. Tudo o que era consumido em pacote-família agora é consumido aos poucos. A gente já sabia que isso acontecer, faz tempo. Mas o que eu ainda não tinha sentido na pele é que esse fenômeno iria me impedir de ler textos longos. Porque uma coisa é você perceber que existe uma nova maneira de ler e passar a usá-la. Outra coisa é perder sua capacidade de concentração. O que eu queria era adicionar o jeito novo de ler, mas sem perder o jeito velho.

A internet causou em mim (e talvez em você) um déficit de atenção, um transtorno que consta da classificação internacional de doenças e que requer acompanhamento médico (não que eu tenha procurado um, pelo menos não por enquanto). Já tentei de tudo, busquei aquelas ficções bacanas, cheias de escapismo, com viagens para lugares distantes, coisas que eu devorava durante a adolescência. Mas 10 minutos depois o que escapa mesmo é minha atenção. Fico voltando para o começo do parágrafo. Fico repetindo para o autor “vai, já entendi, conta logo, para de enrolar”. Esse é outro sintoma: fiquei mais factual e perco fácil a paciência com aquela fase de contextualização e envolvimento com os personagens.

Sei que isso tudo soa como algo ruim, mas nem disso eu tenho certeza. A civilização humana já passou por isso muito antes da internet, por exemplo quando passamos da comunicação exclusivamente oral e acrescentamos a escrita. Colocar conteúdo por escrito livrou nossa memória e permitiu textos bem mais longos e precisos. Agora estamos de volta aos conteúdos curtos, mas ainda mais precisos. E se um dia desenvolvermos a telepatia? Certamente as palavras vão nos parecer ineficientes.

O Twitter e a habilidade de concisão

A máxima “menos é mais” nunca fez tanto sentido como faz hoje, depois da ascenção do Twitter, rede social cuja premissa é dizer algo – não importa o quê – em apenas 140 caracteres. Desde que o serviço foi criado, em 2006, o número de usuários da ferramenta é cada vez maior, assim como a diversidade de usos que se faz dela. Do estilo “querido diário” à literatura concisa, passando por aforismos, citações, jornalismo, fofoca, humor, etc., tudo ganha o espaço de um tweet (“pio” em inglês). Entender o sucesso do Twitter pode indicar um caminho para o aprimoramento de um recurso vital à escrita: a concisão. No fim das contas, fica a lição: desenrolar em uma linha vale muito mais do que enrolar em uma página. E o post termina aqui mesmo, porque tudo o que eu tinha pra dizer, disse em apenas um parágrafo. Acho que peguei o jeito.


A obsessão por textos longos

Artigo de Danilo Venticinque para a revista Época.

A proliferação de textos fragmentados e superficiais na internet provocou outra praga igualmente irritante: as divagações intermináveis disfarçadas de post. Longo virou sinônimo de bom. Há sites e páginas em redes sociais dedicados a reunir textos longos sobre os mais variados temas. O fetiche é mais importante do que o conteúdo. Numa época em que a maioria lê pouco e mal, enfrentar um texto longo e compartilhá-lo é uma espécie de troféu. Um sinal de resistência aos tempos de fragmentação.

Nada contra leituras de fôlego – muito pelo contrário. Mas tenho deparado frequentemente com textos longos demais. A impressão é que escrever muito virou obrigação para qualquer um que quer ser levado a sério. O resultado? Para não ser confundido com um palpiteiro virtual, quem quer compartilhar uma ideia simples se vê forçado a dar voltas em torno do próprio rabo, fazer rodeios e desperdiçar o tempo do leitor até chegar à ideia central do texto, escondida lá pelo décimo parágrafo. Outros decidem fazer o mesmo e a timeline alheia é infestada por textos “definitivos” sobre a polêmica do momento. Até no Twitter há quem seja prolixo. 140 caracteres são uma imensidão para quem não tem nada a dizer.

Talvez seja a hora de redescobrir a concisão. Escrever muito ou pouco é o de menos. O que importa é ir direto ao assunto. Eu ia incluir aqui um parágrafo sobre a importância das narrativas curtas na literatura e sobre como Tolstói soube dar o tamanho perfeito tanto para Guerra e paz (mais de 1500 páginas) quanto para A morte de Ivan Ilitch (menos de 100). Decidi cortar o trecho para este texto não ficar longo demais. No cotidiano, são raras as ideias complexas o bastante para precisarem ser divididas e explicadas em dezenas de parágrafos. Ideias curtas pedem textos curtos. Mesmo se o que o autor tem a dizer for uma bobagem, ao menos ele terá economizado o tempo do leitor.


Abolição da escravatura no Twitter:

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