Gente que comenta sem ler

Artigo de Danilo Venticinque para a revista Época.

Clique em qualquer notícia de um grande portal, vá à seção de comentários e faça sua aposta: quantas pessoas realmente leram todo o texto antes de comentar? Quando comecei no jornalismo, ingênuo, acreditava que todos liam tudo. Os anos me tornaram cético. Hoje, tenho certeza de que o número é próximo de zero. Na internet, quase todos nós lemos muito mal. Num universo de leitura fragmentada, os comentaristas conseguem se destacar negativamente. Ao contrário dos outros maus leitores, que prestam conta apenas às suas consciências, quem comenta deixa registrada, definitivamente, a sua falta de atenção. Só não morrem de vergonha disso porque sabem que ninguém notará suas falhas. Afinal, se quase ninguém lê as notícias, é seguro apostar que mesmo o mais absurdo dos comentários passará despercebido.

Quanto maior a audiência de uma notícia, maior a chance de a caixa de comentários se transformar numa sala de bate-papo delirante, sem nenhuma relação com o assunto original. Não importa o assunto do texto: sempre haverá uma desculpa para transformá-lo em palco para brigas políticas. Quando a vontade de expressar uma opinião é irresistível, a lógica é o que menos importa. E sempre há um ou outro justiceiro que gasta seu tempo apontando incoerências nos comentários alheios. São criaturas exóticas: leem não só os textos, como também os comentários – e ainda se dão ao trabalho de notar quando não há qualquer relação entre uma coisa e outra. Os esforços desses bravos heróis são em vão: a horda de comentaristas enfurecidos imediatamente os descartará como lacaios de algum partido político ou, pior ainda, metidos a intelectuais. Bem feito. Quem mandou gastar seu tempo lendo um texto na internet?

Comentários em redes sociais são ainda piores. Lá, não é necessário nem mesmo clicar na notícia para palpitar sobre ela. Basta ler o título do post que um amigo compartilhou e o campo de comentários estará logo abaixo, com todos os seus encantos. Por muito tempo acreditei que a multidão que comenta sem ler era a escória da internet. Que o mundo seria melhor se lêssemos todos os textos antes de palpitar sobre eles. Eu estava errado. Hoje penso exatamente o contrário. A enorme maioria dos textos que circulam pela internet é inútil. Os comentaristas ensandecidos simplesmente decidiram parar de perder tempo com esse tipo de bobagem. São seres mais evoluídos do que nós. Basta aplicarem em algo útil todas as horas de leitura superficial que economizam e logo dominarão o mundo. Saber comentar sem ler é indispensável para ser bem sucedido no mundo digital. Se você ainda não aderiu, pare de ler agora e junte-se a nós.

O próximo passo rumo à iluminação digital é aprender a não ler e não comentar. As discussões na internet, convenhamos, nunca mudaram a opinião de ninguém. Nos meus anos menos esclarecidos, li muitos debates em seções de comentários. Nunca vi um crítico do governo terminar uma discussão com “pensando bem, acho que a culpa não é do governo”. Ou um ativista, após longas réplicas e tréplicas, decidir dar o braço a torcer: “diante de todos os argumentos aqui expostos, cheguei à conclusão que…”. As discussões virtuais são tão dispensáveis quanto as notícias que as antecedem. Abençoado seja quem guarda sua opinião para si e cultiva o silêncio digital.

Da pedra à internet

internetA humanidade demorou para evoluir suas formas de comunicação. Antes de inventar a escrita, passamos milhares de anos usando basicamente gestos e grunhidos. Até a fala custou a aparecer; quando começou a ser desenvolvida, as pinturas rupestres já existiam. Em compensação, depois disso, tudo se acelerou. Na base da conversa, começamos a trocar conhecimentos, principalmente de caráter mitológico e religioso. A escrita não demorou a surgir, como uma forma de registro do sonoro. No século 8 a.C., os poemas gregos Ilíada e Odisseia foram escritos a partir de relatos orais. Da linguagem escrita em diante, começamos a aplicar a tecnologia à comunicação. Nas últimas décadas, chegamos ao ponto em que um único emissor transmite sua mensagem para milhões de pessoas – é o caso do rádio e da televisão. Temos à disposição telefones fixos, celulares e internet. E o futuro promete.


3800 a.C. – desenhos livres

Enquanto o homem não sabia falar, do jeito como fazemos hoje, valia fazer desenhos em cavernas a partir de pigmentos de argila, hematita e carvão vegetal. A motivação das pinturas não era clara, mas certamente elas transmitiam conhecimento.

3200 a.C. – Primeiras letras

Os sumérios criaram alfabetos formados por figuras que representam objetos do cotidiano. Com a sistematização desse tipo de desenhos, os fenícios também desenvolveram um modelo de escrita. Acabava a Pré-História, e a comunicação começava a evoluir bem mais rápido.

3000 a.C. – Telégrafo de fogo

Surgia o sinal de fumaça, uma maneira de informar à distância. Indígenas americanos foram os primeiros a usar os sinais, que seguiam um princípio depois adotado nos telégrafos: um cobertor abafava o fogo e soltava a fumaça em intervalos regulares.

2900 a.C. – Voe depressa!

Começava a ser usada uma das formas de se enviar dados mais resistentes ao tempo: o transporte de mensagens com pombos-correios. Os registros mais antigos datavam do Egito de Ramsés II, mas até 2002 as aves ainda eram usadas pela polícia indiana.

550 a.C. – Cartas a galope

O tataravô do correio atual nasceu com Ciro II, rei da Pérsia, que desenvolveu um sistema de postos de parada para os homens que levavam cartas a cavalo. Essa estrutura permitia que uma correspondência viajasse 2500 quilômetros com segurança.

1455 – Livros em série

Para a mídia surgir e facilitar o acesso à informação, foi necessário que Johannes Gutenberg melhorasse a impressão, que existia havia 14 séculos na China. Sua sacada foi criar uma forma com letras independentes.

1837 – Contatos imediatos

O americano Samuel Morse (1791-1872) criava o telégrafo. Ele queria um jeito de trocar mensagens que o governo americano não entendesse. Em 1835, ele tinha inventado o Código Morse, que seria fundamental para a navegação e a aviação.

1876 – Fala que eu te escuto

O inventor escocês Alexander Graham Bell (1847-1922) patenteava nos Estados Unidos seu aparelho de telefone. Há quem diga que o italiano Antonio Meucci (1808-1889) teria desenvolvido seu protótipo antes, mas foi Bell que o popularizou.

1893 – Ondas sonoras

Aparecia o rádio, atribuído ao italiano Guglielmo Marconi (1874-1937). No futuro, o croata Nikola Tesla (1856-1943) ganharia o crédito, porque a invenção de Marconi usava 19 patentes suas. Os primeiros aparelhos transmitiam apenas Código Morse. A emissão de áudio só começaria a partir de 1918.

1929 – Imagens na sala

O cientista russo Vladimir Zworykin (1889-1982) apresentava o kinoscópio, o precursor da televisão. Vários desenvolvimentos posteriores do aparelho de Zworykin levariamà industrialização e disseminação da TV, acelerada a partir de 1945.

1960 – Balão espacial

Lançado pelos Estados Unidos, o primeiro satélite refletia sinais enviados a partir da Terra. Batizado de Echo 1, o aparelho consistia em um balão de náilon de 30 metros de diâmetro, visível a olho nu em vários pontos do globo.

1994 – Todo mundo online

O governo americano liberava a circulação da World Wide Web, uma versão civil do sistema de troca de informações entre as redes de computadores militares.

Fonte: Guia do Estudante.

Mão ao alto: pornografia e masturbação

Pornografia online vicia, altera seu jeito de fazer sexo e pode causar impotência. Antes de apertar aquele play, é melhor ler essa matéria da revista Superinteressante.

porn

Um cara jovem, bonito, conquistador, que namora a Scarlett Johansson, mas prefere ver pornografia online. Parece filme, e é: Como Não Perder Essa Mulher estreou em dezembro passado. Mas, Scarlett à parte, o enredo não está tão longe da realidade. Com a banda larga e bundas variadas a alguns cliques de distância, todo mundo já deu uma espiadinha. O problema é que muitos não querem fazer outra coisa. Cada vez mais gente abre mão de uma pessoa real para passar horas se masturbando na frente de uma tela.

O sexo solitário sempre teve sua graça – um estudo recente da Universidade de Cambridge concluiu que pornografia é tão viciante quanto drogas. Mas por que só agora aparecem os viciados? A resposta está na melhor ferramenta já criada na história da humanidade para estoque, distribuição e consumo de pornografia: a internet. Até o advento da rede mundial de computadores, você precisava ir a uma banca de jornal para comprar uma revista de mulher pelada. Se havia certo constrangimento em tirar um filme pornô na locadora, imagine alugar vários. Hoje você assiste de graça e a qualquer momento no celular tudo que tinha na locadora – e muito, mas muito mais. Tara por animais, anões, amputações, fezes, vômito, palhaços… Na internet, desejos bizarros encontram uma via de expressão. E ninguém precisa ficar sabendo.

A biologia evolutiva explica por que alguns não conseguem trocar sites pornô por nada neste mundo. A masturbação surgiu para que o estoque de sêmen fosse renovado, e assim uma semente mais jovem e competitiva pudesse brigar com a de outros machos. A pornografia simula e acelera esse processo: seu cérebro acredita que, a cada novo vídeo, uma fêmea diferente está sendo fecundada. Essa é a razão pela qual os homens são maioria nesse mundo. É difícil ter uma estatística exata, mas estima-se que 70% do público dos sites adultos é masculino. As mulheres ficariam com os 30% restantes.

O curioso é que a masturbação não vem de um instinto animal, mas da imaginação humana. Sabemos disso graças a pessoas como a antropóloga Starin, que passou cinco anos na Gâmbia observando macacos e registrou apenas cinco casos de masturbação com ejaculação. Detalhe: os machos estavam em contato visual com outras fêmeas, algumas delas copulando com outros machos. Ou seja, por mais que chimpanzés cocem a virilha no zoológico e constranjam visitas escolares, o homem ainda é o único animal que se masturba de forma consciente, para atingir o orgasmo.

Para Jesse Bering, doutor em psicologia e autor do recém-lançado Devassos por natureza: provocações sobre sexo e a condição humana, contexto é fundamental. “Da próxima vez que você se sentir no clima, deite na cama, apague a luz, não pense em nada e não veja nada. Em seguida, tente só com o toque atingir o clímax”. Acredite, não é fácil. É a cognição que faz com que um adulto se masturbe a cada 72 horas (em média), com ampla e folclórica variação. O problema é quando a cognição vira compulsão.

O estudo de Cambridge, citado no começo do texto, mostrou que o pornô vicia da mesma maneira que algumas drogas, desregulando o cérebro. Quando um vídeo proporciona prazer, esse prazer leva você a buscar outro vídeo. Cada novo clique é um estímulo para o centro de recompensa, que se torna dependente dessa anestesia constante. “Como o álcool e as drogas, a pornografia enfraquece nossa capacidade de enfrentar certos tipos de sofrimento. (…) Ela reduz a nossa capacidade de tolerar nossos dois humores ambíguos e oscilantes: a preocupação e o tédio”, diz o filósofo Alain de Botton.

Longas maratonas de pornografia podem ser uma fuga de problemas. Outra coisa: chega uma hora em que os vídeos corriqueiros não são mais suficientes. Você não se excita mais vendo o papai-e-mamãe de sempre, nem o mamãe-e-mamãe ou papai-e-papai. Como nas drogas, você vai desenvolvendo uma tolerância e precisa de mais para se satisfazer. Logo, logo, o sujeito está indo atrás de coisas pesadas e ilegais, como cenas reais de estupro e pedofilia. E é aí que muitos decidem procurar ajuda.

Há algum tempo, já existem grupos de apoio para usuários compulsivos de pornografia, mas agora surgem na internet grandes fóruns para discutir o tema e buscar soluções – nem que seja encontrar disposição para ir ao supermercado ou ao banco. O maior portal sobre o tema se chama yourbrainonporn.com e lá você encontra de estudos científicos a depoimentos informais. Gary Wilson, o psiquiatra por trás da ideia, chegou a dar uma palestra no TED sobre os efeitos da pornografia no cérebro – cujo vídeo alcançou uma audiência digna de hit pornô: 2 milhões de acessos. “As pessoas estão começando a questionar se é isso que elas querem para as suas vidas. Muitas chegam à conclusão de que pornografia demais é um atraso”, diz Wilson. Ele também atribui à pornografia mudanças de etiqueta (“nossas avós não faziam sexo oral e anal como se faz hoje”) e estética: “Depilações radicais, cirurgias íntimas e clareamento dos genitais, antes restritos a atrizes pornô, passaram a fazer parte do cotidiano”.

Mas o vício em pornografia pode estar trazendo problemas mais graves: disfunção erétil e dificuldade para ejacular têm complicado a vida de homens cada vez mais jovens. E há casos de quem não consegue ou nem faz mais questão de conhecer uma pessoa real ou sair de casa. Para a filósofa Márcia Tiburi, isso acontece porque é mais fácil se relacionar com um avatar: “Uma pessoa concreta me obriga a tomar posição, a reagir, a interagir. Uma imagem é só um objeto que se submete à manipulação”.

Quer dizer que fizemos a Revolução Sexual para ir para casa fazer sexo com nós mesmos? O futuro é um quarto escuro iluminado pela tela de um tablet trepidante? Calma. Muitos jovens têm chegado à conclusão que, assim como o uso exagerado do Facebook e Twitter, a pornografia está tirando um tempo precioso de suas vidas. Passar a noite de vídeo em vídeo pode ser prazeroso no curto prazo, mas vale a exaustão do dia seguinte? “Do modo como é hoje, a pornografia pede que deixemos para trás nossa ética, nosso senso estético e nossa inteligência”, constata Alain de Botton. Vem daí aquela sensação de repugnância e derrota quando a euforia chega ao fim.

Epistemologia de um vestido polêmico

cor do vestido

Um assunto banal como a cor de um vestido mobilizou milhões de pessoas, gerou muita polêmica e sacudiu a internet esta semana. E o mais interessante: fez muita gente sem nenhuma experiência em filosofia sair do senso comum e discutir epistemologia! A foto do vestido postada numa rede social viralizou de tal modo que foi parar em quase todos os portais de notícias na internet e virou pauta para ser discutida ao vivo em muitos programas de TV. Desde a noite da última quinta-feira, a cor do bendito vestido é o tema mais comum em conversas informais. A polêmica dividiu as pessoas em basicamente dois grupos: as que veem o vestido preto e azul e as que o veem branco e dourado.

Eu, particularmente, já tentei, já fiz de tudo, mas não consigo ver esse vestido branco e dourado de jeito nenhum. Aliás, não consigo ver nenhuma cor além de preto e azul. Mas tem muita gente jurando que só consegue ver branco e dourado; e eu não duvido delas. Minha esposa foi quem primeiro me mostrou a famosa foto do vestido. “Você ainda não tá sabendo dessa foto?! Em que mundo você vive?!”, indagou surpresa. Mas ainda mais surpreso fiquei eu, quando ela disse que só vê o vestido branco e dourado. A princípio fiquei preocupado e pensei que ela fosse daltônica, já que para mim o vestido é claramente preto e azul. Mas depois de dar uma pesquisada na internet e ler bastante sobre o assunto, descobri que não era nada grave e que muita gente enxerga assim.

Discussões, opiniões e polêmicas à parte, eis a pergunta que todos se fazem nesse momento: Será que é possível chegarmos a um consenso sobre a cor do vestido na foto? Ora, o problema com os daltônicos é simples de resolver: se 99,9% da população enxerga de um jeito e os outros 0,1% enxergam diferente, fica fácil definir essa minoria que enxerga diferente como portadores de uma falha cognitiva qualquer, causada por uma mutação genética ou sei lá o quê. Mas o problema com esse vestido é que as pessoas se dividem quase meio a meio: metade vê preto e azul e metade vê branco e dourado. Assim, fica bastante difícil definir qual grupo está certo e qual tem probleminha nos cones e bastonetes – o que tem levado muitos “especialistas” a afirmar que ambos estão certos.

vestido

Antes de responder essa pergunta, é preciso esclarecer uma série de outros problemas bem mais fundamentais: Existe uma opinião certa e outra errada sobre isso, ou ambas as opiniões estão certas visto que o assunto é relativo? Existe uma “cor verdadeira” do vestido, ou as cores que percebemos não existem na realidade, sendo apenas formas diferentes de perceber a luz? Existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para determinar a cor do vestido, ou tudo o que temos são nossos falhos e enganadores sentidos? Podemos nos posicionar objetivamente sobre o assunto, ou não faz sentido toda essa discussão porque as cores são subjetivas? Podemos investigar esse fenômeno cientificamente, ou estamos condenados a conviver para sempre com essa incerteza e contentarmo-nos com uma mera opinião?

Como eu disse, muitos “especialistas”, talvez pela preocupação de serem politicamente corretos, não se posicionam e chegam afirmar que ambas as opiniões estão corretas, que aquele vestido é ao mesmo tempo preto/azul e branco/dourado, que isso é relativo, depende da interpretação de quem vê, etc. Eu, no entanto, acredito e defendo que não é possível ambas as opiniões estarem corretas, de modo que apenas uma delas está com a razão; e que existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para indicar a cor verdadeira do vestido sem a interferência de qualquer interpretação subjetiva que a mente humana possa fazer. Em suma, acredito que é possível sim investigar esse fenômeno cientificamente e tomar uma posição objetiva sobre esse assunto.

Não duvido que muita gente esteja vendo branco e dourado, mas, independente do seu psicologismo e da sua subjetividade, o vestido é objetivamente preto e azul. E não afirmo isso porque eu o vejo dessa cor. Eu bem sei que poderia facilmente estar errado. Sei também que eu não posso de modo algum ser critério de objetividade. Invertendo a lógica do raciocínio, o que quero dizer com isso é que, mesmo enxergando preto e azul, se o vestido fosse branco e dourado e eu tivesse meios mais confiáveis do que os meus sentidos para descobrir isso, não teria motivos para duvidar que ele é branco e dourado. Eu apenas ficaria um pouco decepcionado com os meus sentidos por eles estarem me enganando, mas isso também não é tão incomum quanto parece.

vestido (2)

Mas como eu sei que o vestido na foto é preto e azul? Bom, primeiro porque tanto a dona do vestido quanto a loja que vende esse modelo já publicaram outras fotos do mesmo vestido e nelas não resta dúvidas de que ele é preto e azul. Mas isso ainda não quer dizer muita coisa, já que o fenômeno que causou toda essa polêmica não é o vestido físico, mas uma certa fotografia do vestido. Ou seja, nada impediria que o vestido fosse de fato preto e azul, mas que, devido à iluminação precária do ambiente no momento da foto ou à baixa qualidade da câmera (provavelmente de um celular), ele tivesse saído branco e dourado na foto. Mas não é esse o caso; e nós temos meios objetivos para comprovar que, mesmo na foto, o vestido é preto e azul.

As ferramentas mais confiáveis que temos hoje para determinar a cor exata do vestido na foto são os softwares de edição de imagem. Isso porque os computadores não têm olhos, nervos óticos, cérebro, emoções, opinião e tudo o mais que nós temos que influencia na senso-percepção. Como máquinas que são, os computadores são exatos e objetivos, não fazem interpretação subjetiva de nada (precisamente porque não são sujeitos, mas objetos). Enquanto nós vemos cores na foto do vestido, um computador “vê” apenas códigos de programação, símbolos lógico-formais, códigos binários, alternância de cargas elétricas em circuitos eletrônicos, elétrons pulando de um átomo para outro em determinada ordem. Tudo o que eles fazem com esses dados é calcular.

No Photoshop ou em qualquer outro programa de edição de imagens de sua preferência, esse teste pode ser feito de pelo menos duas maneiras, ambas muito simples (talvez um designer gráfico saiba de outras). Primeiro, com a ferramenta de selecionar cor, se você clicar em qualquer parte do vestido, o computador interpretará aquele pixel como algum tom de cinza (preto) ou azul. Mas há uma maneira ainda mais fácil de tirar essa dúvida: basta aumentar a saturação da foto. Conforme as cores presentes na imagem ficam mais vivas e mais fortes, você notará com maior clareza que o vestido é preto e azul (e não branco e dourado, como talvez pensasse). Como as coisas devem funcionar na ciência, você pode reproduzir esse experimento na sua casa e repeti-lo quantas vezes quiser, que sempre obterá o mesmo resultado.

vestido

Biblioteca Pública Digital da América

Reunir todo o conhecimento já produzido pela humanidade, em pedra, placas de argila, peles de animais, papiros, pergaminhos, papel ou bits, é uma das ambições mais nobres e difíceis. Dos idealizadores da Biblioteca de Alexandria, no século 3 a.C., aos tecnófilos do Vale do Silício, passando pelos iluministas do século 18, muitos já se dedicaram a esse sonho. Com os esforços de grandes instituições para converter seus arquivos ao formato digital, surgiram novas tentativas de concretizá-lo. A recém-inaugurada Biblioteca Pública Digital da América é a mais recente delas – e um dos projetos mais ambiciosos.

Pôsteres da Segunda Guerra Mundial, a Declaração da Independência dos Estados Unidos escrita à mão por Thomas Jefferson e manuscritos de poesias originais de Emily Dickinson são alguns dos destaques do acervo de 2,4 milhões de itens, disponíveis gratuitamente para internautas de todo o mundo no site dp.la. Não é preciso fazer nenhum cadastro para acessar o conteúdo. A base de dados reúne arquivos digitalizados de museus, bibliotecas e outras instituições americanas. A expectativa é que essa coleção aumente muito nos próximos meses, à medida que outras bibliotecas do país se juntem à nova DPLA e que as antigas continuem a digitalizar seus acervos.

A página surge como uma reação ao Google Book Search, um ambicioso projeto do Google para digitalizar todos os livros do mundo. Até agora, mais de 30 milhões de obras já saíram de prateleiras e foram para o acervo digital. Apenas obras de domínio público ou sem restrições legais podem ser lidas na íntegra. É possível acessar apenas alguns trechos de obras protegidas por direitos autorais. Por oferecer aos leitores a possibilidade de comprar as obras, e definir o preço com seus parceiros comerciais, o Google foi alvo de críticas. As motivações comerciais também fizeram com que outras instituições impedissem o uso de seus dados pelo Google. Para evitar armadilhas dessa natureza, os idealizadores da DPLA dizem que o conhecimento deve ser gratuito, acessível para todos e defendem a superioridade técnica do projeto. “Teremos melhores descrições e materiais que não aparecem numa busca no Google. Será uma experiência muito superior”, assegura Dan Cohen, diretor executivo da DPLA.

O projeto foi criado pela Universidade de Harvard, sem a ajuda do governo americano. Embora alguns técnicos da Biblioteca do Congresso tenham participado, o financiamento coube a fundações sem fins lucrativos, além do Instituto de Museus e Bibliotecas, uma agência independente. O maior desafio, porém, não foi financiar a biblioteca, e sim superar as barreiras legais para digitalizar os acervos. Problemas semelhantes foram enfrentados pelo Google, quando a empreitada de digitalizar milhões de livros foi limitada após decisões judiciais favoráveis às editoras. Em diversos países, a Justiça entendeu que o projeto não tinha respaldo legal. Com o trabalho de especialistas, a DPLA pretende evitar os erros cometidos pelo Google. Até 2014, seus organizadores querem firmar uma aliança com autores de livros fora de circulação, para fazer com que suas obras ressurjam na internet. “A vida comercial de um livro é muito limitada”, diz Darnton.

A inspiração para o projeto veio da Europeana, uma biblioteca digital europeia criada em 2008, que atualmente agrega 20 milhões de itens de 20 mil organizações europeias. Com o advento da DPLA, baseada nos mesmos padrões tecnológicos, os organizadores das duas bibliotecas já sonham com a fusão das coleções para criar um grande acervo mundial. “Num futuro próximo, podemos ter um sistema de bibliotecas transatlântico. Reuniremos recursos de toda a Europa e dos EUA para torná-los disponíveis a todo o mundo. Também espero a participação da América do Sul. Desejo que um dia as bibliotecas públicas do Brasil também façam parte disso”, afirma Darnton.

No Brasil, há poucos acervos digitais. Esforços públicos e privados têm sido somados para mudar isso. Uma das iniciativas foi a formação, em 2011, da Rede Memorial. Ela reúne bibliotecas, museus, arquivos e outros institutos para discutir o acesso aberto ao conhecimento, padrões de tecnologias de digitalização e formas de obter investimentos. Uma das principais articuladoras é a recém-inaugurada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolveu um sistema para implantação e gerenciamento de bibliotecas digitais. “Esperamos que, nos próximos dois anos, o país tenha um volume considerável de materiais digitalizados para criar um site semelhante ao da Europea­na”, afirma Pedro Puntoni, diretor da Brasiliana USP, que conta com mais de 3 mil títulos digitalizados.

Fonte: Época.

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