Ranking elege as 40 melhores pequenas cidades do Brasil para se viver na velhice

Símbolo de tranquilidade e qualidade de vida para alguns, as pequenas cidades se consagraram nos imaginário popular como o ambiente mais propício para se aproveitar a velhice. Com o aumento da expectativa de vida da população, a tendência é que elas entrem no radar dos brasileiros que buscam uma vida mais plena na terceira idade.

Das 348 cidades brasileiras que têm entre 50 mil e 100 mil habitantes, 40 se destacam por oferecer boas condições de vida para a pessoas com mais de 60 anos. É o que revela o Índice de Desenvolvimento Urbano para Longevidade, elaborado pelo Instituto de Longevidade Mongeral Aegon em parceria com a FGV. Os municípios foram classificados segundo sete variáveis: Indicadores Gerais; Cuidados de Saúde; Bem-Estar; Finanças; Habitação; Educação e Trabalho e Cultura e Engajamento, que receberam pesos com base nas principais necessidades da população com mais de 60 anos.

O clima também foi levado em conta para a finalização do ranking, que tirou pontos dos municípios de acordo com a frequência com que eles apresentam dias com altas temperaturas, chuvas intensas ou baixa umidade. Essas cidades também foram avaliadas segundo classificações específicas – com diferentes pesos para cada variável – com foco na parcela com idade entre 60 e 75 anos e para população acima dessa faixa.

De acordo com o ranking abaixo, das 40 melhores cidades brasileiras para se viver na velhice, mais da metade (25 delas) ficam no estado de São Paulo. As outras 15 ficam nos estados de Minas Gerais (3), Paraná (4), Santa Catarina (3) e Rio Grande do Sul (5). Nenhuma cidade das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste aparecem no ranking.


CidadePosiçãoNota
São João da Boa Vista, SP199.82
Vinhedo, SP299.49
Lins, SP396.61
Fernandópolis, SP495.70
Tupã, SP594.78
Votuporanga, SP693.92
Lajeado, RS792.69
Itapira, SP892.21
Rio do Sul, SC992.15
Bebedouro, SP1091.11
Pato Branco, PR1189.87
Jaboticabal, SP1289.13
São José do Rio Pardo, SP1389.05
Paulínia, SP1489.01
Olímpia, SP1588.82
Videira, SC1688.49
Jaguariúna, SP1788.08
Mogi Mirim, SP1887.96
Batatais, SP1987.37
Avaré, SP2087.01
Matão, SP2186.96
Capivari, SP2286.61
Lavras, MG2385.22
Pirassununga, SP2484.47
Mirassol, SP2584.28
Taquaritinga, SP2683.95
Marechal Cândido Rondon, PR2783.75
Concórdia, SC2883.50
Alfenas, MG2983.47
São Roque, SP3083.25
Cruzeiro, SP3183.24
Ijuí, RS3282.90
Esteio, RS3382.67
Ibitinga, SP3482.48
Montenegro, RS3582.02
Itajubá, MG3681.09
Francisco Beltrão, PR3780.83
Cianorte, PR3880.80
Andradina, SP3980.74
Farroupilha, RS4080.72

Fonte: Exame.

Como medir a qualidade de uma cidade

Artigo publicado na revista Gangorra para comemorar o Dia Mundial Sem Carro.

Quer saber se uma cidade é boa ou ruim? É simples: olhe para fora da janela e tente calcular a proporção de crianças entre as pessoas que estão na rua. A cada 100 pessoas que passam, quantas são crianças caminhando para a escola, pedalando pela rua, brincando na calçada? Se forem muitas, sua cidade está saudável. Se forem poucas, sua cidade está doente. Se não houver nenhuma, a doença é grave: sua cidade precisa de uma intervenção urgente. Seu prefeito está trabalhando errado. A quantidade de crianças na rua é o melhor indicador para medir a qualidade de uma cidade porque ele é multidimensional: traz ao mesmo tempo informação sobre saúde, segurança e educação, três itens centrais para definir qualidade de vida. Pelo seguinte:

Saúde: Caminhar ou andar de bicicleta por meia hora ao dia é o suficiente para uma criança afastar muito o risco de sofrer das típicas doenças de estilo de vida que estão afetando tanta gente nas grandes cidades: diabetes, câncer, doenças do coração. Criar condições para que todas as crianças façam exercício na ida-e-volta da escola é uma forma infalível de garantir uma população saudável e economizar uma fortuna de dinheiro público em hospitais.

Segurança: Está bem estabelecida a relação estatística entre o número de crianças e mulheres pedalando e a segurança no trânsito. Crianças de bicicleta são um indicador preciso: se há muitas delas na rua, praticamente não ocorrem acidentes, em parte porque seres humanos são geneticamente programados para tomar cuidado quando há pirralhos por perto. Além disso, crianças aumentam muito a quantidade de “olhos da rua”, que são as pessoas que ficam na entrada de casa olhando para o movimento da calçada, e que fazem com que o índice de crimes naquele lugar caia imensamente (um conceito criado pela grande urbanista americana Jane Jacobs). Ruas com muita vida comunitária tendem a ter muitos “olhos”, e portanto são bem mais seguras. Crianças ajudam muito a fazer com que haja vida comunitária.

Educação: Uma pesquisa divulgada este ano com 20.000 estudantes dinamarqueses entre 5 e 19 anos demonstrou que crianças que vão para a escola a pé ou de bicicleta têm uma capacidade bem maior de se concentrar na aula, e aprendem mais do que aqueles que vão de carro. A pesquisa revelou que, quatro horas depois do começo da aula, os alunos que pedalaram ou caminharam continuam mais atentos e aprendendo mais do que os outros. Outra pesquisa reveladora foi feita na Califórnia, em 1993. Os cientistas pediram a crianças que vão para a escola a pé, de bicicleta ou de carro para que elas desenhassem o bairro, e depois as entrevistaram. A conclusão foi que crianças que caminham ou pedalam tem habilidades cognitivas muito maiores: elas têm mais noção de espaço e desenvolvem mais suas capacidades sociais.

Enfim, para resumir: cidades onde não há crianças nas ruas têm índices maiores de obesidade infantil e gastam mais combatendo diabetes, câncer e doenças do coração, são mais violentas no trânsito e têm maior criminalidade, atrapalham o rendimento escolar das crianças, reduzem a eficácia da educação, prejudicam as capacidades cognitivas e sociais das crianças. E, ainda assim, muitas cidades brasileiras medem a qualidade de suas vias simplesmente contando quantos veículos passam por determinada rua em uma hora. Quanto mais veículos, maior a “eficácia da via”. Ou seja: para os administradores urbanos das principais cidades brasileiras, cidade boa é aquela onde as filas de carro não param jamais de passar, espalhando fumaça tóxica pelo espaço urbano e expulsando as crianças. É um critério ruim, e isso ajuda a entender por que nossas cidades estão tão ruins – como a blogueira Natália Garcia costuma dizer, uma cidade que define as metas erradas não tem nenhuma chance de chegar ao lugar certo. Deveríamos exigir dos nossos prefeitos que eles adotem esta nova meta: que contem a proporção de crianças no espaço público e que governem todos os dias com um objetivo central: aumentar essa proporção. Simples assim.

Vale a pena abandonar o Brasil?

Artigo de Gustavo Cerbasi para a revista Época.

brasil bandeira

Nunca se falou tanto sobre planos de mudança de brasileiros para o exterior. O turismo internacional, intenso nos últimos anos, apresentou aos viajantes o néctar da civilidade. Como uma criança que compara seu lar ao do colega, descobrimos como é a vida nos países em que impostos são efetivamente usados para o bem público, em que o capitalismo é democrático e em que a educação é levada a sério. Famílias de diversos níveis de renda têm feito contas para jogar tudo para o alto, em busca de uma vida menos sofrida, menos violenta, menos insegura e com mais perspectivas para seus filhos. Não é uma decisão fácil, pois os componentes desses planos não são apenas racionais. Ao fazer as contas, deduzimos que, com bem menos do que ganhamos aqui, vivemos melhor lá. Há falhas nessas simulações. Poucos levam em conta que os impostos sobre renda, investimentos e herança são maiores no exterior. Ao comparar preços de imóveis, automóveis e gastos cotidianos, também é fácil esquecer os impostos sobre o consumo – no exterior, eles não costumam estar embutidos nos preços. Mas é fato: morar na América do Norte e em alguns países europeus sai mais barato que no Brasil.

Deixando as contas de lado, é preciso fazer uma análise qualitativa dos aspectos emocionais da mudança. Sua família conseguiria viver muito tempo sem aquilo que lhe é familiar? Amigos, parentes, hábitos de fim de semana, nossa música e idioma, nosso histórico profissional e educacional? Não se deve desprezar que, em outros países, enquadramo-nos apenas na categoria de latinos, sujeitos a toda sorte de preconceitos – incluindo o bullying de nossos filhos na escola. Morei alguns meses no exterior e experimentei o impacto psicológico da distância. Foi no Canadá que aprendi a gostar de MPB e feijoada, antes neutros em minha vida.

A complexa decisão exige também que ponderemos entre o sentimento de fracasso ao jogar a toalha e o dever cívico de engrossar o coro da mudança e construir o futuro que hoje não temos. Se queremos boa educação para nossos filhos, sobram aqui oportunidades de darmos exemplo para uma necessária transformação. Mas é preciso contar menos com governos e agir mais como cidadãos. Não é fácil. Tom Jobim dizia que morar nos EUA era bom, mas era uma merda. E que morar no Brasil era uma merda, mas era bom. Nada mudou. Morar fora é como trabalhar num emprego de que você não gosta, mas que paga muito bem. Ficar no Brasil é como comprar um carro muito mais caro do que você pode pagar. A decisão de abandonar o navio ou de ficar depende de nossa consciência em relação ao que pesa mais: o emocional ou o racional. A resposta, sem dúvida, está em cada um de nós.

Os destinos de João e Kim

Crônica de Ricardo Amorim, economista que escreve para a revista IstoÉ.

executivosJoão e Kim nasceram em 21 de junho de 1970, dia em que o Brasil ganhou a Copa do México. Os pais de Kim eram professores; os de João também. Kim sempre estudou em escola pública; João também. Kim ama futebol; João adora. Kim é da classe média de seu país; João também. Os pais de Kim já se aposentaram; os de João também. Kim e João trabalham na mesma empresa, uma multinacional líder mundial em tecnologia. Kim é engenheiro e ganha R$ 7.100,00 por mês. João não chegou a terminar o ensino médio, ganha R$ 1.900,00 por mês. Kim trabalha na sede da multinacional e é chefe do chefe de João, que trabalha aqui no Brasil.

Onde os caminhos de Kim e João se separaram? A cegonha deixou Kim na Coréia do Sul, João no Brasil. Em 1960, a renda per capita na Coréia era metade da brasileira. Em 1970, eram parecidas. Hoje, na Coréia, ela é 3 vezes maior do que a nossa. Como as vidas de centenas de milhões de Kims e Joãos tomaram destinos tão diferentes em poucas décadas? Educação, educação e educação. O país dos Kims investiu no ensino público básico, de qualidade e acessível a todos. O governo coreano gasta quase 6 vezes mais do que o brasileiro por aluno do ensino médio. Na Coréia, um professor de ensino médio ganha o dobro da renda média local; no Brasil, menos do que a renda média. Com isso, os Kims estão sempre entre os primeiros lugares nos exames internacionais. Os Joãos, melhor nem falar.

Só após garantir uma boa formação básica e bom ensino técnico, os coreanos investiram em ensino universitário. Ainda assim, a Coréia tem 3 universidades entre as 70 melhores do mundo. O Brasil não tem nenhuma entre as 150 primeiras. Hoje, a Coréia do Sul é, em todo o mundo, o país com maior percentual de jovens que chega à universidade – mais de 70%, contra 13% no Brasil. De quebra, o país dos Kims forma 8 vezes mais engenheiros do que nós em relação ao tamanho da população de cada um. Tudo isso com um detalhe: a Coréia gasta menos com cada universitário do que o Brasil, mas forma 4 vezes mais PhDs per capita do que nós. Para cada won gasto com a aposentadoria do pai de Kim, o governo coreano gasta 1,2 won com a escola do seu filho. No Brasil, para cada real gasto pelo governo com a aposentadoria do pai de João, ele gasta apenas 10 centavos com a escola do Joãozinho.

No ano que vem, os pais de Kim virão para a Copa do Mundo no Brasil. A mãe de João já tinha falecido, mas seu pai quis muito ir à Copa da Coréia e do Japão em 2002, mas não tinha dinheiro para isso. Há um ano, ele está fazendo uma poupancinha e ainda está esperançoso em ser sorteado para um dos ingressos com desconto para idosos para ver um jogo da Copa de 2014, nem que seja Coréia do Sul x Argélia. Como os ingressos com descontos são poucos e concorridos, as chances de seu João são baixas. Se conseguir, quem sabe ele não se senta ao lado do Sr. e Sra. Kim. Pena que seu João não teve a chance de estudar inglês. Eles poderiam conversar sobre os filhos…

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