A origem dos contos de fadas

disney-princessOs desenhos clássicos da Disney encantaram gerações e marcaram a indústria cinematográfica voltada ao público infantil. Mas as belas histórias retratadas nem sempre tiveram um final feliz: elas já foram bastante sinistras e macabras. No século 16, os contos de fadas não eram brincadeira de criança. Sexo, violência, vingança, medo e fome apimentavam as tramas inventadas e passadas oralmente de geração para geração por camponeses analfabetos nas poucas horas de diversão, quando passavam a noite ouvindo e contando histórias ao redor do fogo nas aldeias europeias.

Essas reuniões eram chamadas de veillées pelos franceses. As mulheres narravam seus casos enquanto fiavam e teciam, costume que originou expressões como “tecer uma trama” e “costurar uma história”. Enquanto isso, os homens consertavam suas ferramentas ou quebravam nozes, já que no universo dos camponeses franceses pré-Revolução não havia tempo para descanso. Nesse tempo, diversão e trabalho misturavam-se, como na história da pobre Gata Borralheira. Tanta inspiração nascia do cotidiano: a segurança da casa e da aldeia opunha-se aos perigos da estrada e da floresta, como em Chapeuzinho Vermelho. A crueldade fazia parte do roteiro pois era pobreza, miséria e morte que se esperava do mundo no século 16. A fome, o maior mal daquele tempo, protagonizava muitas das narrativas, como em João e Maria, em que os pais abandonam as crianças na floresta por não ter como alimentá-los.

Já imaginou se o lenhador não chegasse a tempo para salvar Chapeuzinho Vermelho e sua avó? Pior: e se a menina, antes de ser devorada pelo lobo mau, ainda fosse induzida por ele a beber o sangue da avó, além de tirar a roupa e deitar-se nua na cama? Você contaria tal historinha a seu filho? Os camponeses da França do século 16 contavam. Sem papas na língua, os contadores de histórias caprichavam nos detalhes, digamos, escabrosos. A Bela Adormecida, por exemplo, foi estuprada por um anão durante o sono na versão original. E os detalhes violentos e libidinosos desta e de outras histórias que povoam o nosso imaginário não param aí. Isso acontecia porque, nos contos originais, a intensão não era puramente vender algo bonito ao público infantil, mas sim trazer uma lição. Dessa forma, pouco importava se no final a princesa ou o príncipe viveriam felizes para sempre, ou sequer se viveriam, o que importava era a “moral da história”.

Se você nunca ouviu as versões apimentadas, foi por obra e graça de escritores como o francês Charles Perrault, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm (os famosos irmãos Grimm) e o dinamarquês Hans Christian Andersen, que, entre o fim do século 17 e o início do século 19 pesquisaram, recolheram e adaptaram as histórias contadas por camponeses criados em comunidades de forte tradição oral. Somente depois dessa adaptação, os contos foram sendo sucessivamente amenizados até chegarem às versões “censura livre” que conhecemos hoje. Veja o desfecho dos principais contos de fadas, como eram originalmente e como ficaram depois da adaptação, no site da Superinteressante.

Assista também a palestra ministrada pela professora Lúcia Helena Galvão, diretora da Nova Acrópole de Brasília, sobre o simbolismo dos contos de fadas:

Sobre “O Nome da Rosa”

nome da rosaAssisti três vezes antes de começar a escrever. E escrever não foi uma opção: foi, antes, algo que eu não podia deixar de fazê-lo. Uma necessidade que surgiu enquanto eu me encontrava numa fascinante aventura ao lado de William de Baskerville e seu jovem discípulo Adso de Melk na grande biblioteca-labirinto de um mosteiro sombrio situado nas montanhas do norte da Itália, no final do outono de 1327. Esse é o cenário para onde o cineasta francês Jean Jacques Annaud nos leva com admirável competência por pouco mais de 2 horas.

E por “nos leva” entenda que estou falando sério: realmente me senti dentro da história, como que vivendo as experiências dos personagens. Experiências que, de tão marcantes e prazerosas, eu, como amante da literatura que sou, já cogito a compra do livro homônimo do qual o filme derivou. E não digo “prazerosa” só por causa da cena de sexo e nudez lá pela metade do filme, mas porque há prazer na busca pelo conhecimento livre e sem censura – este sim, tema acerca do qual o enredo se desenvolve. Outras discussões importantes sobre como a comédia (o riso), as riquezas ou a ciência afetam a cristandade – e até uma paixão reprimida – completam o conjunto de argumentos que o filme traz à tona, abrindo espaço para o debate de ideias.

O enredo começa a ganhar forma quando monges franciscanos de várias partes da Europa reúnem-se com representantes do papa no tal mosteiro para uma conferência. Mas a missão deles é ofuscada por um grande “desconforto espiritual” devido a uma série de assassinatos misteriosos dentro do mosteiro, os quais os religiosos passaram a atribuir aos “ardis do demônio”. Entra em cena, então, as habilidades do monge franciscano William de Baskerville (Sean Connery), que, auxiliado pelo seu noviço Adso de Melk (Christian Slater), começa a investigar as causas das mortes. “A única prova que vejo do demônio é o desejo de todos de vê-lo atuar”, diz William. “Não vamos nos deixar influenciar por boatos irracionais. Em vez disso, vamos exercitar os nossos cérebros e tentar solucionar este torturante enigma”, completa.

Com uma brilhante capacidade de dedução que chega a lembrar o famoso detetive Sherlock Holmes, William passa por grandes apuros, que vão desde a acusação de heresia pela Inquisição à acusação de ser o autor dos assassinatos – passando por um incêndio –, até conseguir desvendar este intrigante mistério de uma forma que eu, preocupado em não contar o desfecho do filme e lhe estragar a emoção, prefiro omitir. Em vez disso, considero muito útil fazer uma análise crítica de uma ideologia predominante e de um costume comum na Idade Média, e em torno da qual o filme se constrói. Por “ideologia”, refiro-me à ideia de que a sabedoria está ligada diretamente à tristeza, beirando o mau humor. Diversas vezes é apregoado que “um monge não deve rir”, pois “para isso existe o bobo, que levanta a voz em risos”. O problema do riso para a Igreja, na Idade Média, baseava-se em uma lógica muito simples, representada no filme pelas palavras de um monge, o venerável Jorge: “O riso mata o temor. E sem temor não pode haver fé. Se não há temor no demônio, não é necessário haver Deus”.

Finalmente, por “costume”, me refiro à prática da Igreja de censurar livros que eles mesmos consideravam “espiritualmente perigosos”, ou seja, livros que apresentavam ideias capazes de pôr em dúvida os dogmas das escrituras. Ou, nas palavras do próprio William: “É porque contêm uma sabedoria diferente da nossa”. Sentindo por admitir que tamanha intolerância ainda vigora, disfarçadamente, nos nossos dias, concordo totalmente com William quando ele, eufórico por ter descoberto uma das maiores bibliotecas de sua época, composta apenas por livros proibidos pela Igreja, diz: “Ninguém deveria ser proibido de consultar estes livros!”.

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