Argumentos contra as cotas raciais

São vários os nomes: ação afirmativa, discriminação positiva, política com­pensatória… Mas a ideia é uma só: corrigir a desigualdade social entre negros e brancos dando benefícios ao lado considerado “mais fraco”. Conheça abaixo os principais argumentos usados por quem é contra a política de cotas raciais nesta matéria da Superinteressante.

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Para poder se beneficiar das cotas, é preciso fazer uma escolha: ou se é branco ou se é negro. Essa proposta de divisão explícita dos brasileiros em duas categorias bem delimitadas é o primeiro ponto a tirar do sério os opositores das cotas. Questiona-se a criação de um sistema que subverte um pilar da democracia: a ideia de que todos somos iguais perante a lei. Para a antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, o efeito dessa produção artificial de etnias e raças é o fim da identidade nacional. Deixamos de ser simplesmente cidadãos do Brasil para nos tornar brasileiros negros ou brasileiros brancos. “É o caminho para a difusão do ódio racial no Brasil”, afirma o sociólogo Demétrio Magnoli.

Outra distorção, na opinião dos críticos da política de cotas, é a supressão do mérito como critério de recompensa. Uma organização meritocrática é aquela que dá as melhores oportunidades a quem demonstrar mais habilidade e talento. Ao derrubar essa ideia, as cotas podem estigmatizar quem é beneficiado por elas. “Nos Estados Unidos, os estudantes asiáticos tiram dos brancos mais vagas nas universidades de ponta do que os negros. Mesmo assim, nas não são obrigados a lidar com o mesmo ressentimento. Isso porque existe a percepção comum de que eles entraram por mérito e não ajudados por um sistema de cotas. Ou seja: o ressentimento não é em relação à perda de vagas, mas ao modo injusto como isso acontece”, diz Thomas Sowell, economista da Universidade Stanford e autor de Ação Afirmativa ao Redor do Mundo.

Há ainda o temor de que a qualidade do ensino nas universidades piore com a entrada de alunos que não necessariamente obtiveram as melhores notas de acesso. Para os críticos das cotas, as funções primordiais da universidade pública são a pesquisa e a formação de alto nível, não a prestação de um auxílio social ao país. “Quando as universidades admitem alunos por critérios não acadêmicos, há um risco real de que percam qualidade”, alerta Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE.

Por fim, o time anticotas não tem dúvidas de que o seu caráter supostamente temporário é uma grande farsa. A maioria dos países que adotam a política de cotas acaba por prorrogá-la indefinidamente. Qual político quer se expor à impopularidade de suspender um benefício social? Ao contrário: as cotas costumam ser sempre ampliadas para beneficiar outros grupos em desvantagem. Quando a Índia adotou a ação afirmativa, em 1949, foi determinado um prazo de 10 anos. A reserva está até hoje em vigor. O motivo? Cotas não custam nada ao governo; e ainda dão aos políticos a chance de se gabarem por promover o avanço racial. Quem não quer uma mamata dessas?

Voltemos á realidade brasileira. Suponhamos que determinado governo analisou algumas estatísticas e decidiu que é preciso aumentar a presença de negros nas universidades públicas do país. Como seria possível fazer isso? Como determinar quem é negro e quem não é em um país miscigenado como o Brasil? Recentemente, a Universidade de Brasília (UnB) instituiu uma comissão para julgar se a autodeclaração de raça é verdadeira. Os integrantes da banca, cujos nomes não são revelados, dão uma bela olhada na foto do candidato e decidem, assim no olho, quem é negro e quem não é. Em 2005, 48% dos candidatos inscritos tiveram suas fotos rejeitadas e foram impedidos de concorrer a uma vaga pelo sistema de cotas. O “tribunal racial” da UnB, como ficou conhecido, recebeu uma enxurrada de críticas. Houve até um caso de dois irmãos gêmeos idênticos que se inscreveram nas cotas: um deles foi considerado negro e o outro não.


O que diz a ciência sobre a existência de raças humanas?

Nunca entendi por que sou obrigado a preencher, em formulários e documentos oficiais do governo, uma declaração de cor ou raça. Não vejo nenhum sentido em dividir as pessoas por cor ou raça, principalmente se isso é feito com a desculpa de combater o racismo. Na minha opinião, esse hábito é que é um tipo de racismo. Talvez o pior tipo: o racismo institucionalizado. Sorte a nossa que a ciência tem atuado para combater essa ideia equivocada de que cor ou raça é geneticamente importante nos humanos. É o que mostra o artigo abaixo, de Alexandre Varsignassi para a revista Superinteressante.


A cor da pele não é assunto entre os chimpanzés. Se você depilar um, uma pele branca vai aparecer por baixo da manta de pelos. Passa a gilete em outro e surge uma pele preta. Manda mais outro para a cera quente e quem sai do centro de depilação é um chimpanzé rosa. Na verdade, eles mudam de cor ao longo da vida: nascem mais claros e vão escurecendo. Mas não importa. A cor da pele é tão relevante para eles quanto a do pâncreas é para a gente. Não que eles não sejam racistas. No mundo chimpanzé, o pelo pode ser de qualquer cor, contanto que seja preto. Quando nasce algum albino, com pêlo branco, não tem jeito: os outros chimpanzés não aceitam. Ele vai apanhar, ficar isolado e morrer logo – ou linchado ou de fome.

Nosso ancestral comum com os chimpanzés, um símio que viveu há 6 milhões de anos, provavelmente obedecia a mesma regra. A cor da pele não tinha importância, só a dos pelos. Mas uma hora essa história mudou. Há coisa de 2 milhões de anos alguns dos descendentes desse ancestral comum começaram a perder pelos. A cada mil partos nascia um macaco pelado. Um mutante. Algumas dessas aberrações genéticas tinham o mesmo destino dos albinos: bullying e morte prematura. Outros não. Talvez a falta de pelos os tenha ajudado a lidar melhor com o calor africano, e eles conseguiam ir mais longe para arranjar comida. Assim, viviam mais e melhor, então se reproduziam mais.

Deu tão certo que, uma hora, esses macacos pelados tinham formado uma super espécie – eram maiores e bem mais inteligentes que seus antepassados peludos. Nada mal para quem começou a vida evolutiva apanhando. Hoje esse animal sem pelos é conhecido como Homo erectus – são os nossos avós diretos. E as mutações não pararam, lógico. Quanto maior a inteligência de um erectus, maior era a chance de ele deixar mais descendentes. Então 1,8 milhão de anos depois já havia alguns erectus com cérebro gigante, e, de quebra, com traços idênticos aos dessa maravilha genética que você vê no espelho todas as manhãs. Era o Homo sapiens.

E você era negro. A pele escura era a melhor para aguentar o sol africano sem a proteção de uma camada de pêlos, já que é menos propensa a brindar seu dono com um câncer de pele. Por essas, nossa linhagem trocou o arco-íris de pigmentação que provavelmente tinha antes de perder os pêlos por uma tonalidade só. Ficamos monocromáticos. Mas não demorou e o sapiens começou a colonizar outras partes do mundo. Um dos momentos mais definidores dessa fase foi quando chegamos à Europa, há 40 mil anos, e exterminamos os neandertais. Eles eram nossos primos, também descendentes do erectus. A diferença é que os ancestrais deles tinham saído da África há 400 mil anos (200 mil antes de a nossa espécie surgir).

Por essas, os neandertais já nasciam adaptados ao frio: eram fortes que nem um bisão e, como todo mamífero que vive no gelo, tinham pele e cabelos claros. Não que camuflagem na neve fosse tão importante para eles quanto é para um urso polar ou uma raposa siberiana. Os neandertais mantiveram a mutação dos seus avós africanos – a de não ter pêlos (pelo menos não tantos pêlos). Então precisavam se cobrir de peles o tempo todo para aguentar as temperaturas negativas. A vantagem da pele clara era outra: ela sintetiza melhor a vitamina D nas altas latitudes, onde não existe sol o bastante para fazer esse trabalho a contento. Num tempo em que nutriente era tudo o que faltava, qualquer vantagem na absorção de algum deles fazia toda a diferença. O processamento mais eficaz de vitamina D era uma vantagem. Assim os neandertais foram embranquecendo.

Não que isso tenha ajudado muito quando nós, negros Homo sapiens, entramos na Europa. Nossa tecnologia àquela altura era bem superior à dos neandertais, com lanças mais leves e afiadas. Mas o que fazia mesmo a diferença era a nossa organização social: andávamos em grupos de 100, 200 pessoas. Eles, em famílias com no máximo 10 indivíduos. Cada encontro, então, era um massacre. Não demorou e já tínhamos matado todos os neandertais. Algumas fêmeas de neandertal, no entanto, conseguiam escapar da morte trabalhando como escravas sexuais.

A maior evidência disso é que 20% do genoma neandertal continua vivo no nosso DNA. Todo não-africano tem entre 2% e 3% de DNA neandertal dentro de suas células. Bom, pode ser também que machos neandertais tenham inseminado nossas fêmeas ao longo do processo, mas dificilmente essa foi a regra: mulheres são um espólio de guerra constante na nossa história, e talvez mais ainda na nossa pré-história.  Mas não foi a hibridização com os neandertais que empalideceu o sapiens na Europa. Não havia neandertais o bastante para fazer a diferença no pool genético da pigmentação e, provavelmente, os machos nascidos desses encontros eram inférteis, como acontece com machos filhos de tigres com leoas – aí complica mais ainda.

sapiens embranqueceu pelo mesmo processo de sempre: a cada mil, dez mil nascimentos, aparecia um mutante. Em alguns casos, a mutação era ter uma pele mais clara. Esses indivíduos deviam levar seus pescotapas na infância, por serem diferentes do resto. Alguns certamente eram mortos pela própria família logo que viam a luz. Mas naquele ambiente ser branco ainda era vantagem, também por causa da vitamina D. Uma vantagem grande o bastante para que, em poucas dezenas de milhares de anos, só nascessem sapiens de pele clara nas latitudes mais altas. Era a evolução emulando dentro da nossa espécie o que já tinha acontecido entre os ancestrais dos neandertais num passado ainda mais remoto.

Hoje a cor da pele não faz diferença do ponto de vista evolutivo: por mais que a nossa dieta não seja uma maravilha, temos acesso a tantos nutrientes que a capacidade de sintetizar mais vitamina D não tem mais com apitar na cor da pele. Nem a vitamina D nem a quantidade de sol do ambiente. Um Nigeriano vai viver o mesmo tempo (e ter o mesmo sucesso reprodutivo) vivendo em Copenhague ou em Salvador. Um dinamarquês, idem. O mais provável, então, é que fiquemos todos marrons em alguns milhares de anos, já que mais hora menos hora todos os genes de pigmentação dos sapiens vão acabar misturados, em todos os indivíduos.

Não que isso vá ser a panaceia da humanidade. Na Índia todo mundo é marrom faz tempo, e isso não impediu que surgisse o sistema de castas. Os Hutus e os Tutsis, de Ruanda, são quase idênticos, mesmo para os ruandeses, nem por isso deixaram de protagonizar um dos maiores massacres étnicos da história, com 800 mil Tutsis assassinados por Hutus. Um corintiano pode ser geneticamente indiscernível de um palmeirense, mas mesmo assim, de vez em quando um acha motivo para espancar e matar o outro pela cor da camisa.

O problema é que sempre nos juntamos em tribos de “iguais” para lutar contra qualquer coisa que pareça “diferente”. É parte da nossa natureza. É parte da natureza de qualquer animal – por isso todos os mutantes sofrem, em todas as espécies. Mas, ironicamente, são os mutantes, os diferentes, que fazem a espécie evoluir. Não fossem por eles, a evolução simplesmente não teria acontecido. Mas, graças a ela, hoje temos neurônios o bastante para decidir não nos comportar como amebas, para entender que o próprio conceito de raça é uma ilusão, ainda que perpetrada por um instinto estúpido.

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Os negros loiros das Ilhas Salomão

Nas Ilhas Salomão, cerca de 10% da população nativa, de pele negra, tem cabelo loiro. Alguns insulares acreditam que a cor seria resultado da exposição excessiva ao sol, ou de uma dieta rica em peixe. Outra explicação seria a herança genética de ancestrais distantes — mercadores europeus que passaram pelo arquipélago. Mas essas hipóteses foram derrubadas por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos.

A variante genética responsável pelo cabelo loiro dos insulares é diferente da que causa a mesma característica nos europeus. “Este caso acaba com qualquer noção simplória que podemos ter sobre raça. Nós, humanos, somos diferentes, e esta é apenas a ponta do iceberg“, revela o geneticista Carlos Bustamante. Ele e sua equipe publicaram as descobertas na edição desta semana da revista americana Science, especializada em divulgação científica. Eles analisaram amostras da saliva de mais de mil insulares (com atenção especial para um subconjunto de 43 loiros e 42 pessoas de cabelos escuros) e conseguiram rapidamente identificar um gene responsável por essa variação. Chamado de TYRP1, ele é conhecido por influenciar a pigmentação nos humanos. Sua variante encontrada nos cabelos loiros dos nativos não é encontrada no genoma dos europeus.

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