O que os autores realmente queriam dizer em seus artigos científicos

Todo pós-graduando lê (ou deveria ler) semanalmente uma boa quantidade de artigos científicos, resumos, teses, dissertações e demais publicações de resultados de pesquisas e trabalhos acadêmicos. É possível identificar, com o passar do tempo, alguns padrões na redação científica que, com um pouco de senso crítico e muito de bom humor, nos faz pensar sobre como os textos seriam elaborados pelos autores se a sinceridade fosse possível neste universo acadêmico de cobranças exageradas por publicação a qualquer preço. Assim, apresentamos abaixo algumas interpretações sinceras e bem-humoradas das discussões de resultados encontrados em artigos publicados.

O que foi publicado no artigoO que significa na verdade
“Vários autores relatam que…”“Tive preguiça de procurar a referência”
“Como é de conhecimento geral”“Eu acho que é assim”
“Geralmente se afirma que…”“Eu e meus colegas pensamos assim”
“Há algumas discussões em torno do assunto”“Ninguém acredita em mim”
“Isto pode ser demostrado”“Acredite em mim”
“De grande importância teórica”“Eu acho isso interessante”
“De grande importância prática”“Isto justifica o meu emprego”
“De grande importância histórica”“Isto pode me tornar famoso”
“Com os resultados característicos podemos concluir que…”“Escolhemos os melhores resultados”
“Correto, em uma certa ordem de grandeza”“Errado”
“Valores obtidos de forma empírica”“Valores obtidos acidentalmente”
“Os resultados não são conclusivos”“Os resultados poderiam destruir minha hipótese”
“Outros trabalhos são necessários…”“Preciso de mais dinheiro para o projeto”
“Sintetizado de acordo com os protocolos padrões”“Comprado da Merck”
“Gostaria de agradecer a José da Silva pela assistência na parte técnica e a Maria José pelas valiosas contribuições”“Gostaria de agradecer a José da Silva por ter feito todo o trabalho e a Maria José por ter me explicado o que tudo significa”
“Por enquanto não é possível obter respostas precisas para este problema”“Mesmo não tendo a resposta, achei que poderia publicar um artigo com essas besteiras”
“Acredita-se que este efeito possa ser observado em intervalos maiores de tempo”“Não tive paciência para realizar um experimento mais demorado”
A concordância com o modelo proposto é:
1. Excelente
2. Bom
3. Satisfatório
4. Regular
5. Como esperado
A concordância com o modelo proposto é:
1. Regular
2. Fraco
3. Duvidoso
4. Péssimo
5. Inexistente
“Trabalhos adicionais são necessários para elucidar os resultados”“Não entendi os resultados obtidos”
“Lamentavelmente uma teoria com abordagem quantitativa não foi formulada ainda”“Todo mundo já percebeu que isso não faz o menor sentido”
“Espero que este trabalho estimule outras pessoas a investir neste campo de conhecimento”“Por favor, não me abandonem!”
“Composto de alta pureza”“Isto é o que afirmava o rótulo”
“Algumas amostras foram escolhidas para o estudo”“As outras amostras não faziam sentido”

E você, consegue acrescentar algum item nessa lista?

Fonte: Pós-graduando.

Sobre as recentes mudanças “drásticas” no sistema educacional brasileiro

Comentário irônico do professor Pier (Pierluigi Piazzi) sobre as recentes mudanças “drásticas” implementadas no sistema educacional brasileiro. O trecho foi extraído do livro Estimulando inteligência (São Paulo: Aleph, 2014, pp. 23 e 24).


Ao tomar conhecimento do vergonhoso resultado do Brasil no exame internacional PISA, as “autoridades de ensino” correram para repará-lo imediatamente. Adotaram uma providência “importantíssima”; eu diria até “crucial”. Em ocasiões anteriores, toda vez que se detectava o óbvio, ou seja, que o sistema educacional brasileiro é uma catástrofe, os “gênios” de Brasília sempre preconizavam “mudanças drásticas”. A primeira mudança foi denominar os cursos primário e ginásio de 1º grau, e o colegial de 2º grau; o que, é claro, manteve tudo catastroficamente ruim. Mas, pelo menos, eliminou-se o exame de admissão, que era a maior evidência da incompetência do sistema educacional brasileiro. Depois, ao verificar a inutilidade desta “drástica mudança”, os “gênios” resolveram fazer outra, mais “drástica” ainda: denominaram o 2º grau de “ensino médio” (talvez por ser indicativo de “mediocridade”), e o 1º grau de “ensino fundamental”, criando uma terrível confusão, ao ter que diferenciar o “Fundamental I” do “Fundamental II”, impedidos que estavam de usar a terminologia normal: primário e ginásio.

Pressionados pelo vergonhoso resultado do PISA 2003, partiram, como já disse, para mais uma mudança. Alguém deve ter dito, numas das reuniões dos “gênios” de Brasília: “Olha pessoal, não dá mais para apenas mudar o nome. O povo já começou a desconfiar”. Provavelmente, depois de algumas horas remoendo e sugerindo absurdos, em uma atividade frenética que não poderíamos chamar de brainstorm (pois isso pressupõe a existência de um brain), finalmente alguém viu surgir uma luz no fim do túnel: “Pessoal, se não dá mais para mudar o nome, vamos mudar o número!”. E batizaram, no ensino fundamental, a primeira série de “segundo ano”, a segunda série de “terceiro ano”, e assim sucessivamente. Puxa! Nem as maiores mentes da história da humanidade teriam conseguido um lance de gênio como esse! Eu sempre brinco dizendo que deve existir algum acordo secreto entre o MEC (Ministério da Educação) e os pintores das placas colocadas em frente às escolas deste país.


O que mudou na educação brasileira em 40 anos

Esta famosa charge foi publicada em 2009 pelo jornal francês Ouest-France.
Ela sintetiza bem o que mudou na educação nas últimas 4 décadas.

que-notas

“As escolas particulares vivem em pânico, com medo de perder alunos, e a questão financeira se sobrepõe à pedagógica, gerando uma tolerância que leva ao caos. Antigamente, ao ocorrer um problema entre um professor e um aluno, a família era chamada para enquadrar o aluno. Hoje, quem é enquadrado é o professor! (…) Hoje o professor é um profissional desprestigiado, mal remunerado e destituído de autoridade. No passado, o pai entregava o aluno à professora com a seguinte recomendação: ‘Se ele não se comportar direitinho, por favor, me avise que eu dou um jeito nele!’. Hoje, pelo contrário, as famílias processam o professor por ter exigido melhora no comportamento do aluno e, o que é pior, ouvem apenas a versão do pequeno delinquente!”

PIAZZI, Pierluigi. Estimulando Inteligência. São Paulo: Aleph, 2014, pp. 68 e 152.


Um retrato das políticas educacionais

A reportagem a seguir é da afiliada da rede Globo no Amazonas. Ela mostra um garoto de 9 anos que será aprovado para o 3º ano do Ensino Fundamental mesmo sem saber escrever o próprio nome ou recitar o alfabeto. A situação deste garoto, como a de outros milhares pelo Brasil afora, retrata bem a política educacional adotada pelo governo brasileiro nos últimos anos, que, numa tentativa de disfarçar os altos índices de analfabetismo e reprovação, toma medidas ridículas, como aprovar os alunos a todo custo, mesmo sem aprendizado satisfatório. Leia a matéria completa no G1.

Veja também: 38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais

O cinema de antigamente

Crônica de Luis Fernando Verissimo.

Os filmes que víamos antigamente não nos prepararam para a vida. Em alguns casos, ainda continuam nos iludindo. Por exemplo: briga de socos. Entre as convenções do cinema que persistem até hoje está a de que socos na cara produzem um som que na vida real nunca se ouviu. O choque de punho contra o rosto fazia estrago nos rostos — ou não, já que era comum lutas em que os brigões quase se matavam a murros terminarem sem nenhuma marca nos rostos — mas poupava os punhos. E como bem deve saber quem, mal informado pelo cinema, entrou numa briga a socos, o punho quando acerta o alvo sofre tanto quanto o alvo.

No cinema de antigamente você já sabia: quando alguém tossia, era porque iria morrer em pouco tempo. Tosse nunca significava apenas algo preso na garganta ou uma gripe passageira — era morte certa. Quando um casal se beijava apaixonadamente e em seguida desparecia da tela era sinal que tinham se deitado. E depois, não falhava: a mulher aparecia grávida. Nunca se ficava sabendo o que acontecia, exatamente, depois que o casal desaparecia da tela, a não ser que o filme fosse francês. Pode-se mesmo dizer que o começo da mudança do cinema americano começou na primeira vez em que a câmera acompanhou a descida do casal e mostrou o que eles faziam deitados. Depois desse momento revolucionário, não demoraria até aparecerem o beijo de língua e o seio de fora. E assim chegamos ao cinema americano de hoje.

Se a vida fosse como o cinema nos mostrava, nunca faltaria bala nas nossas pistolas ou gelo no balde para o nosso uísque quando chegássemos em casa. E sempre que tivéssemos de sair às pressas de um restaurante, atiraríamos dinheiro em cima da mesa sem precisar contá-lo e sem esperar que o garçom trouxesse a nota. Seria uma vida mais simples, em cores ou em preto e branco, interrompida a intervalos por números musicais em que cantaríamos acompanhados por violinos invisíveis; e quando dançássemos com nossas namoradas seria como se tivéssemos ensaiado durante semanas, e não erraríamos um passo, e seríamos felizes até the end.

A aliança – Luis Fernando Verissimo

Crônica extraída do livro As Mentiras que os Homens Contam
(Rio de Janeiro: Objetiva, 2001).

casamento1Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro. Ele estava voltando para casa, como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loteria ou furar-lhe um pneu.

Furou-lhe um pneu. Com dificuldade, ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências… Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro, onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las:

— Você não sabe o que me aconteceu!

— O quê?

— Uma coisa incrível.

— O quê?

— Contando ninguém acredita.

— Conta!

— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?

— Não.

— Olhe.

E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.

— O que aconteceu?

E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.

— Que coisa!

Diria a mulher, calmamente.

— Não é difícil de acreditar?

— Não. É perfeitamente possível.

— Pois é. Eu…

— SEU CRETINO!

— Meu bem…

— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.

— Mas, meu bem…

— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!

E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações.

Mas ele não fez nada disso. Chegou em casa sem dizer nada.

— Por que o atraso?

— Muito trânsito.

— Por que essa cara?

— Nada, nada.

E, finalmente:

— Que fim levou a sua aliança?

E ele disse:

— Tirei para namorar, para fazer um programa, e perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.

Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.

— O mais importante é que você não mentiu pra mim.

E foi tratar do jantar.

Grande Edgar – L. F. Verissimo

Crônica extraída do livro As Mentiras que os Homens Contam
(Rio de Janeiro: Objetiva, 2001).

grande edgar - verissimoJá deve ter acontecido com você.

— Não está se lembrando de mim?

Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. O primeiro é curto, grosso e sincero:

— Não.

Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O “não” seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta (Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem). Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.

— Não me diga. Você é o… o…

“Não me diga”, no caso, quer dizer “me diga, me diga!”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:

— Desculpe, deve ser a velhice, mas…

Este também é um apelo à piedade. Significa “não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!”. É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor ideia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe:

— Claro que estou me lembrando de você!

Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:

— Há quanto tempo!

Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.

— Então me diga quem sou.

Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:

— Pois é.

Ou:

— Bota tempo nisso.

Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara, meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras:

— Como cê tem passado?

— Bem, bem.

— Parece mentira.

— Puxa…

Um colega da escola? Do serviço militar? Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus? E ele continua falando:

—Pensei que você não fosse me reconhecer.

—O que é isso?!

—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.

—E eu ia esquecer de você? Logo você?

—As pessoas mudam. Sei lá…

— Que ideia.

É o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O… o… como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. “Que bom encontrar você!” e paf, chuta uma perna. “Que saudade!” e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?

— É incrível como a gente perde contato.

— É mesmo.

Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso:

— Cê tem visto alguém da velha turma?

— Só o Pontes.

— Velho Pontes!

Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes…

— Lembra do Croarê?

— Claro!

— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.

— Velho Croarê.

Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte:

— Rezende…

— Quem?

Não é ele. Pelo menos isto está esclarecido.

— Não tinha um Rezende na turma?

— Não me lembro.

— Devo estar confundindo.

Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado. Ele fala:

— Sabe que a Ritinha casou?

— Não!

— Casou.

— Com quem?

— Acho que você não conheceu. O Bituca.

Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?

— Claro que conheci! Velho Bituca…

— Pois casaram.

É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque:

— E não avisou nada?

— Bem…

— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?

— É que a gente perdeu contato e…

— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.

— É…

— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.

— Desculpe, Edgar. É que…

— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam.

Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima ideia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de “Já?!”.

— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?

— Certo, Edgar. E desculpe, hein?

— O que é isso? Precisamos nos ver mais.

— Isso.

— Reunir a velha turma.

— Certo.

— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca…

— Bituca.

— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?

— Tchau, Edgar!

Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer “Grande Edgar”. Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar “Você está me reconhecendo?” não dirá nem não. Sairá correndo.

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