O mundo não é um bufê de festinha infantil

Crônica de Sérgio Gwercman na revista Superinteressante.

Nesta altura do campeonato já dá para dizer que todos concordam com a importância de deixar um planeta melhor para os nossos filhos. E que, exatamente por isso, a sustentabilidade é uma questão importante dos nossos tempos. O fato de termos atingido esse consenso, porém, não é motivo para a humanidade bater no peito e acreditar que deu um passo à frente. Dar o mundo de presente aos filhos? Vá a uma loja de brinquedos lotada às vésperas do Dia das Crianças ou a uma festinha de aniversário infantil, dessas que têm floresta com tirolesa e montanha-russa interna, e você descobrirá que os pais estão dispostos a dar muito mais para suas crias atualmente.

O problema de deixar um mundo melhor para os seus filhos é que, como tantos milionários descobrem ao entregar o patrimônio de presente aos herdeiros, isso não garante que também eles serão capazes de repassar a fortuna para a geração seguinte. E, do jeito que andam as coisas, com esta geração de crianças que se entope de brigadeiro nas festinhas, sem nem mesmo respeitar o silencioso pacto de espera até o momento do “Parabéns Pra Você”, é difícil de acreditar que o plano dê certo. Quanto mais vou a aniversários, menos confiante eu fico na possibilidade de meus netos receberem dos pais deles um planeta razoável. O que me leva a acreditar que está na hora de inverter um pouco o consenso – a conclusão não é minha, aliás, já ouvi um monte de gente boa defendendo a mesma coisa. Papel e caneta na mão porque aqui vai a nova receita: a missão que cabe a você, todos os dias, é lutar por filhos melhores. O que de certa forma até facilita as coisas. Não se trata de entregar tudo de bom no mundo para eles, mas de fazer com que eles entreguem ao mundo o melhor em tudo.

Isso não significa formar uma geração de monges altruístas. Pelo contrário, eles têm incontáveis opções de caminhos para produzir coisas boas. Mas precisam saber que algumas regras são imutáveis. As principais: honestidade não tem meio-termo; somos livres para fazer escolhas, mas não para decidir o preço a pagar por elas; você é o principal responsável por suas conquistas e fracassos; os brigadeiros não são infinitos e você está enganado se acha que tem mais direito a eles do que seu coleguinha. Agora junte tudo e você verá que alguém por aí claramente se enganou ao formular a famosa ideia do mundo melhor para as criancinhas. Deixar tudo pronto para elas desfrutarem é a maneira mais segura de garantir o fracasso da missão. O verdadeiro objetivo, portanto, não é entregar a chave de um mundo lindão de presente, mas a responsabilidade de cuidar dele como herança.

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A Pipoca – Rubem Alves

Crônica de Rubem Alves publicada no jornal
Correio Popular do dia 29 de agosto de 1999.


A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, picadinho de carne com tomate, feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos… Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi então a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros, quebra-dentes, se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer.

A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar. Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser que existe. Mas, de repente, vem o fogo.

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação. Imagino que o pobre milho de pipoca, fechado dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ele não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Com certeza, existe uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas, “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida a perderá”. A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira.

7 bilhões (e outros números)

Veja também: 
Explosão demográfica
Quantas pessoas o planeta aguenta?
Quantas pessoas já viveram no mundo?

O alerta chegou ao vermelho: somos 7 bilhões de humanos sobre o planeta! A Organização das Nações Unidas (ONU) convencionou que esta segunda-feira (31) marca o dia em que a população mundial chegará a este incrível número. Segundo um relatório divulgado pela ONU na semana passada, é preciso planejar mais e investir mais em novas políticas públicas para lidar com a crescente população mundial e suas consequências, como a necessidade por mais alimentos, água e energia e a maior produção de lixo e poluição. O numero motivou a National Geographic a produzir uma série de documentários com ênfase no principal desequilíbrio do planeta. O problema não é falta de espaço, mas a má distribuição dos recursos.


Alguns números do vídeo:

Em 1800, a população do mundo era de 1 bilhão.
130 anos depois: 2 bilhões.
Em 1960: 3 bilhões.
Em 1974: 4 bilhões.
Em 1987: 5 bilhões.
Em 1999: 6 bilhões.
Em 2011: 7 bilhões.
Em 2045, o número poderia chegar a 9 bilhões.

A cada segundo, cerca de cinco pessoas nascem e duas morrem.

No tempo que levará para você assistir a este vídeo, nossa população cresceu…

E em quase todos os lugares, nós estamos vivendo mais:

Em 2010, uma pessoa vivia em média 69 anos.
Em 1960, uma pessoa vivia em média 53 anos.
Em 2008, pela primeira vez, a maioria de nós vivia em cidades e não em áreas rurais.

Megacidades têm população de mais de 10 milhões de pessoas.
Em 1975, havia três megacidades: Cidade do México, Tóquio e Nova York.
Hoje existem 21 megacidades!
Em 2050, 70% de nós viveremos em uma megacidade!

Mas não ocupamos tanto espaço quanto você imagina.
Não falta espaço, mas sim equilíbrio.

5% de nós consomem 23% da energia mundial.
13% de nós não têm água potável.
38% não têm saneamento básico.

7 bilhões de pessoas, falando mais de 7 mil idiomas, vivendo em 194 países.
7 bilhões de motivos para pensar sobre os 7 bilhões.

Tradução: Blog do Tas.

Movimento de Extinção Humana Voluntária

A marca de 7 bilhões de pessoas vivendo neste planeta chega trazendo muita preocupação. O planeta está perigosamente sobrecarregado de pessoas! Não apenas isso, mas nós, como espécie, estamos mijando na cheirosa fonte da vida há muito tempo. Esse foi basicamente o tema da Rio+20. Entretanto, para um movimento fundado nos Estados Unidos, não há caminho real para que tantos os seres humanos vivam de forma equilibrada com o planeta, e a única forma de alcançar uma vida feliz para todos é o da extinção. Les Knight, líder do Movimento da Extinção Humana Voluntária, em entrevista ao G1, explica: “Somos uma ameaça à vida na Terra. Já passamos da capacidade de manter uma vida sustentável no mundo há muito tempo. Cada pessoa nova é um fardo para o planeta. Não há motivo para celebrar a chegada a 7 bilhões de pessoas. […] Estamos destruindo a cadeia alimentar e destruindo a nós mesmos. Não é possível saber quando, mas acreditamos que sem um movimento voluntário de extinção, chegaremos a uma situação em que seremos extintos de forma involuntária pela falta de condições do planeta em suportar a população mundial”.

A proposta é menos apocalíptica do que pode parecer. O movimento não defende suicídios coletivos ou um apocalipse voluntário. O Les quer que você morra, mas não agora. A proposta é apenas que você morra de velhice feliz no seu cantinho – mas por favor, não deixe nenhuma cria por aí. É só pararmos de fazer nenéns e deixar que os outros seres humanos vivam suas longas e gananciosas vidas antes de virar pó e finalmente deixar o planeta se recuperar. A extinção ocorreria em menos de um século, quando todos os humanos vivos hoje morressem naturalmente após uma longa vida. O movimento ressalta que evitar a reprodução não é o mesmo que parar de ter relações sexuais, mas apenas incentivar o uso de métodos contraceptivos. Lembra ainda que mesmo quem já tem filhos pode se apegar à ideia do movimento e fazer sua parte. “Não somos contra sexo e não somos contra crianças. Pelo contrário, achamos que precisamos cuidar muito bem das que já existem, e um dos passos para isso é evitar que surjam novas crianças”, explica Knight. Segundo Knight, milhares de pessoas apoiam o VHEMT na internet, mas deve haver milhões de outras pessoas espalhadas pelo mundo que seguem o que é defendido pelo grupo. Mesmo assim, ele sabe que o objetivo central do movimento é mais levantar a discussão, provocar, do que de fato alcançar a extinção. “O movimento não tem chance de ser bem-sucedido”, completa.

Com informações de: G1.

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