Pra que eu tenho que saber isso?

Artigo de opinião de Dani Duc.

Uma pergunta que todo professor parece temer que seus alunos façam é: “Pra que eu tenho que saber isso?”. De fato, para que serve saber números complexos, saber que os holandeses invadiram Olinda em 1630, saber balancear equações químicas ou saber o que José de Alencar escreveu há mais de 150 anos num português que nem se usa mais? Pode-se pensar em situações específicas em que essas informações venham a ser úteis, mas por que um adolescente que quer ser advogado tem que aprender sobre números complexos, ou um que quer ser químico deve saber sobre a invasão holandesa?

Bem que poderíamos pegar o tempo gasto ensinando coisas que nem um médico, advogado ou engenheiro irá precisar para continuar seus estudos na faculdade, e usar para ensinar coisas mais práticas, como dirigir, cozinhar ou algo assim. Caso alguém tenha interesse em seguir alguma carreira científica, que faça aulas extras daquela ciência, em outro período, por exemplo. Certamente ele não estará perdendo seu tempo aprendendo a dirigir também, e com isso não obrigamos dezenas milhões de estudantes a decorar coisas que nunca usarão em nome de alguns milhares de possíveis físicos que talvez possam a vir a usar aquelas coisas específicas caso realmente prestem a faculdade. Mas não, em vez disso fazemos todo mundo ler Eça de Queiroz e aprender a resolver contas com matrizes. Por que eu tenho que gastar um tempo, que eu bem que podia estar aprendendo algo útil de verdade, decorando fases da mitose? Para cada adulto que efetivamente usa o conhecimento das fases da mitose em sua vida eu acredito que é possível listar milhares e milhares que não usam, nunca usaram e morrerão após uma vida longa e bem sucedida sem sentir a menor falta de saber isso!

Embora eu acredite que um professor nem sequer admitirá discutir a questão do “pra quê” com o aluno, ela é, na verdade, muito pertinente, e conheço mais de um professor que reconheceu para mim não ter uma boa resposta para ela. Se nem o professor sabe porque ele está lá, muitas vezes em uma hora indecente da manhã, empurrando conhecimento que os alunos não querem, acho que o aluno tem todo o direito de questionar essa prática, classificando-a como arbitrária, abusiva e desnecessária. Entretanto, apesar de acreditar que eles tem esse direito, eu discordo destes alunos. Obviamente há espaço para melhorar nosso sistema de ensino, mas acredito que há um problema na noção que parece estar por trás da famosa pergunta “pra que serve isso”. Refiro-me à ideia errônea de que uma coisa só se justifica se tiver uma finalidade prática imediata, ou pelo menos a médio prazo; de que, se algo não me é útil de uma maneira prática e objetiva, não vale o esforço. Todo o estudo é feito em função de investimento e retorno. O problema que vejo com esta noção é que a escola básica não tem, na minha opinião, como função primordial formar operários, técnicos ou executivos, mas sim cidadãos. Antes de saber que profissão você vai seguir, se determinado conhecimento será prático ou não, você tem que aprender a funcionar em sociedade. Mas como ler Machado de Assis ou aprender matrizes vai te ajudar a ser um cidadão? A respostas tem mais de um nível.

Um monte de coisas que achamos que fazem parte da nossa natureza humana, que vem “de fábrica”, são na verdade habilidades adquiridas, e adquiridas a muito custo. A noção de nação, por exemplo, não nos é inata. Sem educação, é bem possível que um indivíduo não consiga se identificar com nada mais abrangente que sua família, ou grupo de amigos, pessoas de contato imediato. O que nos une é uma ideia abstrata que deve ser aprendida, ou nos esfacelaremos em milhares de pequenas gangues guerreando pelos recursos do outro lado da rua. O Estado moderno, formado por cidadãos, deve por sua vez formar estes cidadãos, pois eles certamente não aprenderão sozinhos a ideia que os une ou a sua função dentro dessa organização abstrata. E uma das coisas que une uma nação é uma cultura comum, um cânone de ideias e trabalhos feitos por outros que nos precederam, pois cultura é trabalho cumulativo. É preciso saber nossa história, como viemos a ser, qual nosso lugar na história mais abrangente da humanidade, que ideias formaram nossa cultura desde suas raízes até os dias atuais.

Então é importante, sim, para você se sentir e ser brasileiro, saber que os holandeses invadiram Olinda e saber o que José de Alencar escreveu, porque essas coisas ajudaram a formar e compõem nossa nação até hoje. Mesmo que o português escrito por Alencar não seja mais usado, ou que um aluno ache o enredo de Iracema mais chato que o filme do Homem-aranha, é preciso conhecer suas ideias, sua linguagem, porque elas são a base do que temos hoje, no centro da nossa nação, da qual você, queira ou não, faz parte. E, para você dar sua contribuição, evoluir o que temos até agora, funcionar plenamente como cidadão, você tem que conhecer suas regras e origens, ou então ficará ignorante de seu papel e portanto incapaz de mudá-lo, incapaz de se conectar com a sua nação.

Mas um cidadão não está conectado somente à sua nação, pois todas as nações estão conectadas por algo em comum: o mundo em que vivemos. É preciso ter uma ideia de como esse mundo funciona, quais são seus princípios fundamentais e regras básicas para que não achemos as coisas ocorrem de maneira aleatória e assim, cairmos facilmente como presas das manipulações de quem efetivamente conhece essas regras. É aí que entra o papel da física, da química e da biologia. Você irá operar dentro deste mundo, e sem conhecer os princípios ficará a mercê de forças que não compreende, como uma criança de quatro anos que tem de viver e trabalhar em um submarino nuclear.

Mas esse aprendizado tem por trás mais um propósito, além de nos “inserir no contexto” do mundo em que estamos vivendo. Existem outras coisas que achamos que nascemos conosco, mas na verdade são habilidades adquiridas: a capacidade de raciocínio lógico e pensamento crítico. De maneira alguma nacemos com eles. Pode-se argumentar que nascemos com a capacidade de adquiri-los, assim como nascemos com a capacidade de falar, mas não nascemos sabendo uma língua. Aprender a falar português e a raciocinar criticamente e logicamente são habilidades duramente conquistadas, a troco de grande trabalho que se estende por anos. Esse é o papel da matemática e das línguas.

Mesmo que você não vá decorar Iracema, você tem que saber ler e interpretar um texto além da historinha óbvia, e perceber que ela é uma alegoria. Ler nas entrelinhas, extrapolar, fazer conexões com outros textos, interpretar, são coisas que devemos praticar muito para aprendermos a fazer. Sem isso, ficaremos eternamente presos no imediato, no aparente, manipulados pela publicidade e propaganda (ideológica ou de outra forma), ingênuos num mundo malicioso. Mesmo que você não lembre como fazer conta envolvendo a raiz quadrada de menos um, a capacidade analítica de abordar um problema permanecerá com você e será ferramenta que te permitirá fugir do procedimento estabelecido por outros. Eu não sou de modo algum contra ensinarmos coisas úteis com finalidades práticas imediatas. Eu sou contra ficarmos apenas ensinando o que será útil e prático imediatamente. Se ficarmos nisso, estaremos formando peças condenadas a repetir apenas essas coisas úteis, sem autonomia, robôs eficientes em seguir roteiros pré-estabelecidos e ordens diretas, sem qualquer identidade com a nação ou mundo que os cerca, apenas recursos sendo explorados.

Argumentos contra as cotas raciais

São vários os nomes: ação afirmativa, discriminação positiva, política com­pensatória… Mas a ideia é uma só: corrigir a desigualdade social entre negros e brancos dando benefícios ao lado considerado “mais fraco”. Conheça abaixo os principais argumentos usados por quem é contra a política de cotas raciais nesta matéria da Superinteressante.

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Para poder se beneficiar das cotas, é preciso fazer uma escolha: ou se é branco ou se é negro. Essa proposta de divisão explícita dos brasileiros em duas categorias bem delimitadas é o primeiro ponto a tirar do sério os opositores das cotas. Questiona-se a criação de um sistema que subverte um pilar da democracia: a ideia de que todos somos iguais perante a lei. Para a antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, o efeito dessa produção artificial de etnias e raças é o fim da identidade nacional. Deixamos de ser simplesmente cidadãos do Brasil para nos tornar brasileiros negros ou brasileiros brancos. “É o caminho para a difusão do ódio racial no Brasil”, afirma o sociólogo Demétrio Magnoli.

Outra distorção, na opinião dos críticos da política de cotas, é a supressão do mérito como critério de recompensa. Uma organização meritocrática é aquela que dá as melhores oportunidades a quem demonstrar mais habilidade e talento. Ao derrubar essa ideia, as cotas podem estigmatizar quem é beneficiado por elas. “Nos Estados Unidos, os estudantes asiáticos tiram dos brancos mais vagas nas universidades de ponta do que os negros. Mesmo assim, nas não são obrigados a lidar com o mesmo ressentimento. Isso porque existe a percepção comum de que eles entraram por mérito e não ajudados por um sistema de cotas. Ou seja: o ressentimento não é em relação à perda de vagas, mas ao modo injusto como isso acontece”, diz Thomas Sowell, economista da Universidade Stanford e autor de Ação Afirmativa ao Redor do Mundo.

Há ainda o temor de que a qualidade do ensino nas universidades piore com a entrada de alunos que não necessariamente obtiveram as melhores notas de acesso. Para os críticos das cotas, as funções primordiais da universidade pública são a pesquisa e a formação de alto nível, não a prestação de um auxílio social ao país. “Quando as universidades admitem alunos por critérios não acadêmicos, há um risco real de que percam qualidade”, alerta Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE.

Por fim, o time anticotas não tem dúvidas de que o seu caráter supostamente temporário é uma grande farsa. A maioria dos países que adotam a política de cotas acaba por prorrogá-la indefinidamente. Qual político quer se expor à impopularidade de suspender um benefício social? Ao contrário: as cotas costumam ser sempre ampliadas para beneficiar outros grupos em desvantagem. Quando a Índia adotou a ação afirmativa, em 1949, foi determinado um prazo de 10 anos. A reserva está até hoje em vigor. O motivo? Cotas não custam nada ao governo; e ainda dão aos políticos a chance de se gabarem por promover o avanço racial. Quem não quer uma mamata dessas?

Voltemos á realidade brasileira. Suponhamos que determinado governo analisou algumas estatísticas e decidiu que é preciso aumentar a presença de negros nas universidades públicas do país. Como seria possível fazer isso? Como determinar quem é negro e quem não é em um país miscigenado como o Brasil? Recentemente, a Universidade de Brasília (UnB) instituiu uma comissão para julgar se a autodeclaração de raça é verdadeira. Os integrantes da banca, cujos nomes não são revelados, dão uma bela olhada na foto do candidato e decidem, assim no olho, quem é negro e quem não é. Em 2005, 48% dos candidatos inscritos tiveram suas fotos rejeitadas e foram impedidos de concorrer a uma vaga pelo sistema de cotas. O “tribunal racial” da UnB, como ficou conhecido, recebeu uma enxurrada de críticas. Houve até um caso de dois irmãos gêmeos idênticos que se inscreveram nas cotas: um deles foi considerado negro e o outro não.


O que diz a ciência sobre a existência de raças humanas?

Nunca entendi por que sou obrigado a preencher, em formulários e documentos oficiais do governo, uma declaração de cor ou raça. Não vejo nenhum sentido em dividir as pessoas por cor ou raça, principalmente se isso é feito com a desculpa de combater o racismo. Na minha opinião, esse hábito é que é um tipo de racismo. Talvez o pior tipo: o racismo institucionalizado. Sorte a nossa que a ciência tem atuado para combater essa ideia equivocada de que cor ou raça é geneticamente importante nos humanos. É o que mostra o artigo abaixo, de Alexandre Varsignassi para a revista Superinteressante.


A cor da pele não é assunto entre os chimpanzés. Se você depilar um, uma pele branca vai aparecer por baixo da manta de pelos. Passa a gilete em outro e surge uma pele preta. Manda mais outro para a cera quente e quem sai do centro de depilação é um chimpanzé rosa. Na verdade, eles mudam de cor ao longo da vida: nascem mais claros e vão escurecendo. Mas não importa. A cor da pele é tão relevante para eles quanto a do pâncreas é para a gente. Não que eles não sejam racistas. No mundo chimpanzé, o pelo pode ser de qualquer cor, contanto que seja preto. Quando nasce algum albino, com pêlo branco, não tem jeito: os outros chimpanzés não aceitam. Ele vai apanhar, ficar isolado e morrer logo – ou linchado ou de fome.

Nosso ancestral comum com os chimpanzés, um símio que viveu há 6 milhões de anos, provavelmente obedecia a mesma regra. A cor da pele não tinha importância, só a dos pelos. Mas uma hora essa história mudou. Há coisa de 2 milhões de anos alguns dos descendentes desse ancestral comum começaram a perder pelos. A cada mil partos nascia um macaco pelado. Um mutante. Algumas dessas aberrações genéticas tinham o mesmo destino dos albinos: bullying e morte prematura. Outros não. Talvez a falta de pelos os tenha ajudado a lidar melhor com o calor africano, e eles conseguiam ir mais longe para arranjar comida. Assim, viviam mais e melhor, então se reproduziam mais.

Deu tão certo que, uma hora, esses macacos pelados tinham formado uma super espécie – eram maiores e bem mais inteligentes que seus antepassados peludos. Nada mal para quem começou a vida evolutiva apanhando. Hoje esse animal sem pelos é conhecido como Homo erectus – são os nossos avós diretos. E as mutações não pararam, lógico. Quanto maior a inteligência de um erectus, maior era a chance de ele deixar mais descendentes. Então 1,8 milhão de anos depois já havia alguns erectus com cérebro gigante, e, de quebra, com traços idênticos aos dessa maravilha genética que você vê no espelho todas as manhãs. Era o Homo sapiens.

E você era negro. A pele escura era a melhor para aguentar o sol africano sem a proteção de uma camada de pêlos, já que é menos propensa a brindar seu dono com um câncer de pele. Por essas, nossa linhagem trocou o arco-íris de pigmentação que provavelmente tinha antes de perder os pêlos por uma tonalidade só. Ficamos monocromáticos. Mas não demorou e o sapiens começou a colonizar outras partes do mundo. Um dos momentos mais definidores dessa fase foi quando chegamos à Europa, há 40 mil anos, e exterminamos os neandertais. Eles eram nossos primos, também descendentes do erectus. A diferença é que os ancestrais deles tinham saído da África há 400 mil anos (200 mil antes de a nossa espécie surgir).

Por essas, os neandertais já nasciam adaptados ao frio: eram fortes que nem um bisão e, como todo mamífero que vive no gelo, tinham pele e cabelos claros. Não que camuflagem na neve fosse tão importante para eles quanto é para um urso polar ou uma raposa siberiana. Os neandertais mantiveram a mutação dos seus avós africanos – a de não ter pêlos (pelo menos não tantos pêlos). Então precisavam se cobrir de peles o tempo todo para aguentar as temperaturas negativas. A vantagem da pele clara era outra: ela sintetiza melhor a vitamina D nas altas latitudes, onde não existe sol o bastante para fazer esse trabalho a contento. Num tempo em que nutriente era tudo o que faltava, qualquer vantagem na absorção de algum deles fazia toda a diferença. O processamento mais eficaz de vitamina D era uma vantagem. Assim os neandertais foram embranquecendo.

Não que isso tenha ajudado muito quando nós, negros Homo sapiens, entramos na Europa. Nossa tecnologia àquela altura era bem superior à dos neandertais, com lanças mais leves e afiadas. Mas o que fazia mesmo a diferença era a nossa organização social: andávamos em grupos de 100, 200 pessoas. Eles, em famílias com no máximo 10 indivíduos. Cada encontro, então, era um massacre. Não demorou e já tínhamos matado todos os neandertais. Algumas fêmeas de neandertal, no entanto, conseguiam escapar da morte trabalhando como escravas sexuais.

A maior evidência disso é que 20% do genoma neandertal continua vivo no nosso DNA. Todo não-africano tem entre 2% e 3% de DNA neandertal dentro de suas células. Bom, pode ser também que machos neandertais tenham inseminado nossas fêmeas ao longo do processo, mas dificilmente essa foi a regra: mulheres são um espólio de guerra constante na nossa história, e talvez mais ainda na nossa pré-história.  Mas não foi a hibridização com os neandertais que empalideceu o sapiens na Europa. Não havia neandertais o bastante para fazer a diferença no pool genético da pigmentação e, provavelmente, os machos nascidos desses encontros eram inférteis, como acontece com machos filhos de tigres com leoas – aí complica mais ainda.

sapiens embranqueceu pelo mesmo processo de sempre: a cada mil, dez mil nascimentos, aparecia um mutante. Em alguns casos, a mutação era ter uma pele mais clara. Esses indivíduos deviam levar seus pescotapas na infância, por serem diferentes do resto. Alguns certamente eram mortos pela própria família logo que viam a luz. Mas naquele ambiente ser branco ainda era vantagem, também por causa da vitamina D. Uma vantagem grande o bastante para que, em poucas dezenas de milhares de anos, só nascessem sapiens de pele clara nas latitudes mais altas. Era a evolução emulando dentro da nossa espécie o que já tinha acontecido entre os ancestrais dos neandertais num passado ainda mais remoto.

Hoje a cor da pele não faz diferença do ponto de vista evolutivo: por mais que a nossa dieta não seja uma maravilha, temos acesso a tantos nutrientes que a capacidade de sintetizar mais vitamina D não tem mais com apitar na cor da pele. Nem a vitamina D nem a quantidade de sol do ambiente. Um Nigeriano vai viver o mesmo tempo (e ter o mesmo sucesso reprodutivo) vivendo em Copenhague ou em Salvador. Um dinamarquês, idem. O mais provável, então, é que fiquemos todos marrons em alguns milhares de anos, já que mais hora menos hora todos os genes de pigmentação dos sapiens vão acabar misturados, em todos os indivíduos.

Não que isso vá ser a panaceia da humanidade. Na Índia todo mundo é marrom faz tempo, e isso não impediu que surgisse o sistema de castas. Os Hutus e os Tutsis, de Ruanda, são quase idênticos, mesmo para os ruandeses, nem por isso deixaram de protagonizar um dos maiores massacres étnicos da história, com 800 mil Tutsis assassinados por Hutus. Um corintiano pode ser geneticamente indiscernível de um palmeirense, mas mesmo assim, de vez em quando um acha motivo para espancar e matar o outro pela cor da camisa.

O problema é que sempre nos juntamos em tribos de “iguais” para lutar contra qualquer coisa que pareça “diferente”. É parte da nossa natureza. É parte da natureza de qualquer animal – por isso todos os mutantes sofrem, em todas as espécies. Mas, ironicamente, são os mutantes, os diferentes, que fazem a espécie evoluir. Não fossem por eles, a evolução simplesmente não teria acontecido. Mas, graças a ela, hoje temos neurônios o bastante para decidir não nos comportar como amebas, para entender que o próprio conceito de raça é uma ilusão, ainda que perpetrada por um instinto estúpido.

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Os negros loiros das Ilhas Salomão

Nas Ilhas Salomão, cerca de 10% da população nativa, de pele negra, tem cabelo loiro. Alguns insulares acreditam que a cor seria resultado da exposição excessiva ao sol, ou de uma dieta rica em peixe. Outra explicação seria a herança genética de ancestrais distantes — mercadores europeus que passaram pelo arquipélago. Mas essas hipóteses foram derrubadas por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos.

A variante genética responsável pelo cabelo loiro dos insulares é diferente da que causa a mesma característica nos europeus. “Este caso acaba com qualquer noção simplória que podemos ter sobre raça. Nós, humanos, somos diferentes, e esta é apenas a ponta do iceberg“, revela o geneticista Carlos Bustamante. Ele e sua equipe publicaram as descobertas na edição desta semana da revista americana Science, especializada em divulgação científica. Eles analisaram amostras da saliva de mais de mil insulares (com atenção especial para um subconjunto de 43 loiros e 42 pessoas de cabelos escuros) e conseguiram rapidamente identificar um gene responsável por essa variação. Chamado de TYRP1, ele é conhecido por influenciar a pigmentação nos humanos. Sua variante encontrada nos cabelos loiros dos nativos não é encontrada no genoma dos europeus.

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Cientistas já discutem os procedimentos padrão em caso de contato alienígena

Há décadas mandamos sinais (deliberados ou acidentais) ao espaço, além de procurar por emissões de sinais enviados por alienígenas. Mas qual seria o plano caso um dia ouvíssemos alguma coisa? Se isso acontecer, é mais provável que os cientistas da Seti (sigla em inglês para Search for Extra-Terrestrial Intelligence, ou “Busca por Inteligência Extraterrestre”) percebam primeiro os sinais. Este grupo de cerca de 20 cientistas monitora constantemente o universo na esperança de captar comunicações alienígenas, geralmente contando com recursos parcos e sendo ridicularizados. Eles buscam por algo estranho nos sinais dos maiores telescópios do mundo. A Seti começou com um único homem e um telescópio, em 1959. Hoje, computadores são usados para vasculhar ondas de rádio, enviando para astrônomos possíveis indícios de vida alienígena.

Mas o que aconteceria caso fosse detectada uma comprovada comunicação alienígena? Teorias da conspiração defendem que os governos impediriam a divulgação desta informação, mas o principal astrônomo da Seti, Seth Shostak, pensa diferente. “A ideia de que os governantes iriam manter isso em segredo para evitar pânico não faz sentido”, diz ele. A primeira coisa a ser feita caso os computadores detectem algo seria confirmar a autenticidade com outros telescópios, o que levaria alguns dias. “Neste período, você pode ter certeza de que muita gente falaria sobre isso em e-mails ou blogs: o assunto não ficaria secreto”. É provável, portanto, que a notícia de um contato alienígena fosse divulgada primeiro por um astrônomo da Seti. Em 1997, um “alarme falso” mostrou a reação provável. “Observamos este sinal durante todo o dia e a noite, aguardando alguém de algum governo se manifestar. Nem mesmo políticos locais telefonaram. Os únicos interessados eram da imprensa”, revelou Shostak. Não há nenhum plano de ação detalhando quais organismos internacionais devem ser informados primeiro. “O protocolo é simplesmente fazer o anúncio”, diz Shostak.

As Nações Unidas têm um pequeno escritório em Viena chamado Office for Outer Space Affairs (UNOOSA), ou “Escritório para Assuntos do Espaço Sideral”. Os cientistas da Seti tentam sem sucesso há anos estabelecer um plano comum de ação. Perguntados o que aconteceria no caso de mensagem alienígena, a UNOOSA respondeu que seu mandato atual “não inclui nada referente à questão colocada”. Portanto, o planejamento fica a cargo de pessoas como Paul Davies, da Universidade do Arizona (EUA), que lidera a equipe de pós-detecção da Seti. Mas não sabemos que tipo de informação estaria contida em algum sinal. E sua decodificação poderia levar anos ou mesmo décadas. E o que eles poderiam dizer? Poderia ser uma saudação simples, como um “Olá, terráqueos, estamos aqui”. Poderia ser algo totalmente transformador e revolucionário, como a forma de controlar o processo de fusão nuclear, que resolveria a crise energética mundial.

Pergunte a qualquer um na comunidade Seti se deveríamos responder e o consenso é de que sim. Mas o que dizer e como é motivo de discórdia. “Quando lidamos com uma mente alienígena – o que eles poderiam apreciar, o que eles considerariam interessante, belo ou feio – será muito relacionado com o desenho de sua arquitetura neurológica que realmente não podemos adivinhar”, diz Davies. “Portanto, a única coisa que devemos ter em comum pode ser no terreno da matemática e da física”. De volta ao instituto Seti na Califórnia, o diretor de composição de mensagens interestelares, Doug Vakoch, concorda. “É difícil entender como alguém poderia construir um transmissor de rádio se não souber que dois mais dois são quatro”, diz ele. “Mas como usamos este conhecimento em comum para comunicar algo que é mais idiossincrático para outras espécies? Como diremos a eles como é ser humano?”.

Alguns cientistas da Seti argumentam que, uma vez que saibamos para onde mandar um e-mail interestelar, poderíamos simplesmente enviar todo o conteúdo da internet por meio de um raio laser. Alienígenas teriam então informação bastante para construir padrões, identificar linguagens e ver imagens, de todos os tipos, sobre o que é ser humano. Mas Vakoch acredita que mandar um “carregamento de dados digitais” seria uma aproximação “feia”. “Deve existir algo mais elegante para dizer sobre nós mesmos do que isso”. Poderíamos expressar nossa ideia de beleza, embora de forma simples, ao enviar um sinal representando a sequencia de Fibonacci, na qual cada número é a soma dos dois anteriores: 1, 2, 3, 5, 8, 13 e assim por diante. Em uma sequência vista em galáxias espirais e como algumas conchas nautilus crescem, uma constante algébrica conhecida como Proporção Áurea, esteticamente prazerosa e usada na arquitetura clássica.

Vakoch também espera mostrar características possivelmente idiossincráticas como o altruísmo. Para isto, ele preparou uma animação simples de uma pessoa ajudando outra a subir um penhasco. Mas qualquer mensagem precisaria de consenso internacional antes de ser enviada, coisa que só seria atingida por meio de negociações se um sinal realmente for captado. Até lá, ele pretende continuar pensando no que dizer. “Talvez mais importante do que se comunicar com extraterrestres, este exercício de compor mensagens é uma oportunidade para refletir sobre nós mesmos, sobre com o que nos importamos e como expressamos o que é importante para nós”, diz.

Fonte: BBC Brasil.

Em terra de cegos

No conto Em Terra de Cegos, H. G. Wells descreve um vale remoto e quase inacessível em que todas as pessoas são cegas há 14 gerações. Não sabem o que é ver e, por isso, não têm consciência de que lhes falta uma capacidade que outras pessoas possuem; ou seja: não reconhecem ter um problema. São cegas mas não sabem que o são. Estão também convencidas que o vale é o mundo inteiro. Quando chega um forasteiro, que lhes fala do mundo exterior e lhes tenta explicar o que é a visão, não o acolhem nada bem e ele descobre que, afinal, em terra de cegos quem tem um olho não é rei. As semelhanças com a alegoria da caverna de Platão são óbvias.

Se a situação descrita por Wells ocorresse realmente, seria possível essas pessoas detectarem a sua falta de visão? Será possível que algo equivalente esteja a suceder à espécie humana, ou seja, que nos falte sem nós sabermos uma qualquer capacidade sensorial? Sabe-se que alguns animais têm capacidades sensoriais que nós não temos (como o sonar dos morcegos ou a sensibilidade ao campo magnético da Terra de algumas tartarugas e pássaros), mas as informações por elas fornecidas não parecem ser radicalmente diferentes das informações que recolhemos através dos nossos sentidos (e dos aparelhos científicos que os prolongam).

Será possível que nos falte uma capacidade sensorial que forneça informações radicalmente diferentes daquelas que temos através dos nossos sentidos (como é o caso da informação visual comparada à olfativa ou tátil, por exemplo); tão diferentes que a realidade seja, afinal, algo bastante diverso daquilo que percepcionamos? Em suma: e se fossemos uma espécie de cegos que não sabem que são cegos? O conto de Wells pode levar a colocar questões desse gênero, mas para encontrar respostas e para discutir as ideias envolvidas é preciso recorrer à filosofia.

Fonte: Crítica.

A arte de não se odiar

Crônica de Pablo Capistrano, professor de filosofia de Natal-RN, extraída do livro Simples Filosofia – A história da filosofia em 47 crônicas de jornal (Rocco, 2009, p. 109-112).


No dia 1º de março de 1580, o Barão Michel de Montaigne, senhor da terra de Bordeaux, no sul da França, escreveu a advertência que fica na introdução de seu livro Ensaios. Como eu já tenho um pouquinho de tempo nessa labuta de escrever, mais ou menos uns dezoito anos de teclado (isso levando em conta a máquina de escrever Remington que me introduziu no mundo da prosa), posso afirmar, sem muita dúvida, que esse dia foi o dia em que Montaigne terminou seu livro.

Ninguém começa um livro pela apresentação. Essa é a última coisa que a gente escreve. É como registrar um filho. Não dá para fazer isso antes de a criatura nascer e a gente olhar bem para cara dela para confirmar o nome que tinha imaginado. Na verdade, Montaigne viveu até os 38 anos como um nobre francês do século 16 ou uma socialite brasileira viveria: cercado de frivolidades. Mas, após a morte de um amigo, Montaigne mergulhou em profunda melancolia e, nessa tristeza, encontrou o caminho para escrever sua obra. Isolado em uma torre, cercado de livros e de citações em grego e latim gravadas nas ripas de madeira do teto, o senhor de Bordeaux, barão de Montaigne, tocou em um dos centros nervosos da modernidade: o “Eu”.

Na apresentação de seu livro, o barão escreveu: “Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. (…) Voltei-o em particular a meus parentes e amigos, e isso a fim de que, quando eu não for mais deste mundo (o que em breve acontecerá), possam nele encontrar alguns traços de meu caráter e de minhas ideias e, assim, conservem mais inteiro e vivo o conhecimento que de mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto”.

Era o próprio Michel de Montaigne o objeto de seu livro. Ele mesmo, com todos os seus defeitos, com suas peculiaridades, com sua biologia, sua calvície, sua barriga flácida, seus odores, seus hábitos alimentares e seus procedimentos intestinais. Montaigne usou a si mesmo como campo de batalha intelectual para diagnosticar um dos mais inquietantes sentimentos humanos: a inadequação. Vou confessar: durante algum tempo, antes de começar a praticar ioga, eu frequentei uma academia. Sim, eu sei, foram anos estranhos para mim, mas eu tinha minhas razões para participar desse mundo, algo que talvez, como Montaigne, eu possa vir a confessar com mais detalhes após os 38, quando o tempo começar a retirar de mim os sinais de minhas vaidades ridículas. O fato é que eu percebi que uma academia de ginástica é um ambiente perfeito para a inadequação.

Muitas pessoas sentem-se desconfortáveis com os próprios corpos. Existe uma sensação fundamental de vergonha com a matéria biológica que nos compõe. Hoje, se veem filas de mulheres se mutilando em salas de cirurgia plástica para esticar, cortar, desdobrar ou paralisar partes do corpo que são inadequadas para o modelo social de beleza. Observamos pela TV meninas definharem e morrerem de fome para enquadrar o corpo em uma medida de magreza construída socialmente por algum funcionário da moda que odeia o corpo feminino. Garotos atrofiados tomando medicamentos veterinários para inchar os músculos. Pessoas se medindo, pessoas se pesando ao lado de toneladas de lixo publicitário que vendem as mais miraculosas e ridículas formas de alguém ficar “em forma” (ou melhor, “em fôrma”).

Nossa neurose é a mesma do século 16. Precisamos nos sentir adequados, enquadrados, encaixados, embalados para presente. Nosso corpo tem que entrar no manequim, nosso quadril encaixar na calça. Nossas nádegas precisam estar rígidas e empinadas, nosso abdômen duro, nossas coxas torneadas, nossa silhueta esguia, ou então estaremos condenados à mais miserável infelicidade. Sabe o que é engraçado? Na época de Montaigne, também era assim. Só que os motivos pelo quais as pessoas torturavam o próprio corpo eram outros. Ao invés de mostrá-los, as pessoas os cobriam, escondiam seus defeitos, guardavam suas imperfeições. Naquela época de vestidos compostos e de golas fechadas, o francês médio sofria tanto pelo seu corpo como o “carioca saradão” da academia. Mas naquele tempo a inadequação vinha de dentro. Flatular, arrotar, excretar, menstruar e ejacular eram coisas consideradas hediondas e vergonhosas. Atos da mais miserável ignomínia.

Montaigne percebeu que essas ideias vinham da noção de que o corpo humano era a ligação com a faceta animal que nos compõe e, por isso, o corpo e seus processos biológicos precisavam ser negados, escondidos, ocultados. O corpo era mau. Os processos animalescos foram moralizados e transformados em expressões desse mal inerente à natureza que liga o homem à sua banda primitiva. Montaigne mostrou que a única coisa que conseguiríamos negando o dado fundamental de que todos nós temos um intestino grosso é nos sentirmos inadequados e padecermos de cólicas ou de uma desconfortável prisão de ventre. Acabamos então por cultivar um miserável sentimento de ódio contra nós, um pânico, uma obsessão contra uma imagem que temos de nós mesmos e que precisa ser negada. Hoje, os motivos de nossa tortura corporal são outros. Como o corpo ficou nu, ele precisa ser moldado para atingir a perfeição visual.

Ficamos nus para sermos vistos. Malhamos o tríceps para impor à irregularidade natural de nosso corpo um padrão geométrico de beleza que deve ter sido extraído de algum jarro grego do século 6 a.C. Comemos e depois corremos para o banheiro para vomitar, para deixar nosso corpo magro e fino, para que o nosso espelho não nos destrua. Aprendemos a nos odiar e, nessa luta constante contra o objeto de nosso ódio, nos mutilamos, nos cortamos, nos injetamos. Estamos ainda como o homem do século 16, negando a irregularidade natural e biológica de nossa própria herança para conseguir mais aceitação social, mais fama e mais sexo. É bom nunca esquecer quem somos, e é isso que Montaigne nos lembra quando diz: “Mesmo no mais elevado trono do mundo, continuamos sentados sobre nossos cus”.

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