Quantas moedas o Brasil já teve?

Desde a independência, em 1822, o Brasil teve nove moedas. A primeira, que já circulava por aqui desde o início da nossa colonização em 1500, foi o réis, nome derivado do real, a unidade monetária de Portugal nos séculos 15 e 16. O país só conheceria sua segunda moeda oficial em 1942, quando entrou em cena o cruzeiro. A partir daí, devido aos problemas da economia brasileira, as mudanças não pararam mais até 1994, quando entrou em vigor o real. As várias mudanças foram determinadas pela persistência da inflação elevada, que deteriorava rapidamente as moedas em circulação, forçando o governo a trocar a unidade monetária de tempos em tempos. Os famosos cortes de zero na passagem de uma moeda para outra também simplificavam a vida das pessoas. Afinal, se ainda usássemos a mesma unidade monetária dos anos 1980, por exemplo, você teria que pagar alguns bilhões de cruzados para comprar um simples refrigerante. Veja abaixo um infográfico produzido pela Folha contando essa história:


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15 cédulas antigas que circularam no Brasil:


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Mistério da Fazenda

Enquanto preparava minha declaração de Imposto de Renda à Receita Federal (IRRF) deste ano, me ocorreu uma pergunta curiosa: Por que o ministério que cuida da economia do Brasil se chama “da Fazenda”? Tudo bem que um terço do nosso PIB vem da zona rural, mas daí a chamar toda a economia de “fazenda” é demais, não? Hoje é. Mas talvez o termo não parecesse tão fora de contexto no Brasil do início do século 19, quando D. João VI fugiu para essas bandas, reformulou a colônia e fundou o órgão. O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero explica que, no português arcaico, a palavra “fazenda” era usada para designar coisas como riqueza, renda, dinheiro. Passados dois séculos, muita coisa mudou no ministério. A finalidade, no entanto, continua basicamente a mesma: pegar todo o dinheiro que o governo arrecada e decidir qual a melhor forma de gastá-lo. Em Portugal, a instituição passou por uma reforma geral ainda em 1910 e foi rebatizada de “Ministério das Finanças”. Nos Estados Unidos é simplesmente “Tesouro”. Em outros países o órgão recebeu o nome de “Ministério da Economia”. Mas por aqui ficou sendo “Ministério da Fazenda” mesmo. Bem em tempo de mudar para um nome mais atual.

Entenda a polêmica e o movimento que quer mudar o nome da capital da Paraíba

Joao_Pessoa_Cavalcanti_de_AlbuquerqueVeja também: João Pessoa: 430 anos

“João Pessoa nunca foi um herói. A verdade é que ele foi um grande filho da mãe”, diz o vereador Flávio Eduardo Ribeiro, popularmente conhecido como Fuba. Agitador cultural e presidente do maior bloco carnavalesco da capital paraibana, o Muriçocas do Miramar, Fuba é uma das principais lideranças de um movimento que vem ganhando força na Paraíba. Criado em fevereiro de 2008, o movimento “Paraíba, capital Parahyba” luta para mudar o nome da capital, retirando o nome do político João Pessoa.

A cidade ganhou esse nome em setembro de 1930 em homenagem ao então presidente da província e candidato a vice-presidente da República na chapa de Getúlio Vargas. Até então, a cidade chamava-se Parahyba. A mudança do nome aconteceu em meio a um clima de comoção após o assassinato de João Pessoa, em julho de 1930, no Recife. A morte é apontada por historiadores como o estopim da Revolução de 1930, que derrubou o então presidente Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder.

João Pessoa foi um político controverso. Implantou uma forte política de taxação do comércio, com barreiras tributárias a cada 20 km de estradas. Colecionou inimigos e perseguiu vários deles, sobretudo entre as famílias tradicionais do sertão paraibano. A morte dele, inclusive, é apontada como resultado de perseguição ao advogado João Dantas, membro de uma das principais oligarquias locais. Por ordem de Pessoa, Dantas teve um caso amoroso exposto para toda a sociedade. Meses depois, o rival se vingou dando três tiros em João Pessoa numa confeitaria no Recife. “A morte de João Pessoa não teve nada de crime político ou passional. Foi um crime de lavagem de honra”, diz Fuba, autor de Parahyba 1930: a verdade omitida e Contando a real história da Paraíba.

Fuba credita ao magnata das comunicações Assis Chateaubriant a criação do mito em torno do então governador paraibano. Como seu assassinato impulsionou a revolução de 1930, João Pessoa virou herói. Passou a ser visto como um grande revolucionário, desses que mereciam todas as homenagens possíveis. E foram muitas homenagens. Muitas. Estátuas, passeatas com foto de corpo inteiro, nas quais as pessoas tinham que se ajoelhar ao passar, e até atribuição de milagres! Tudo em nome do “grande herói”. José Américo de Almeida – que, inclusive, dá nome a um bairro da capital – refere-se a esse tempo como “loucura coletiva e demência generalizada”, já que essa veneração criada em volta de João Pessoa era na verdade desmerecida. João Pessoa havia virado mito e seus partidários souberam usar sua morte a favor de um golpe de estado.

A verdade é que João Pessoa nunca viveu na cidade que recebeu seu nome. Nasceu em Umbuzeiro, no interior da Paraíba, viveu em Recife e foi enterrado no Rio de Janeiro. Em 1930, era candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas, o maior ditador que o Brasil já teve, e tudo que conseguiu na política foi através do seu tio, Epitácio Pessoa – que dá nome à principal avenida da capital. Ele brigou com os presidentes dos três estados vizinhos: Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, assim como seus irmãos e primos, e até com fazendeiros que anteriormente eram aliados. Cobrou pedágios absurdos pra quem viajasse por estradas paraibanas, aglomerando lucros exorbitantes.

Para levar a cabo a mudança de nome da capital, o movimento evoca a Constituição do Estado da Paraíba, que em seu artigo 82 prevê a realização de um plebiscito para a escolha do nome da capital, mas soa como letra morta desde a promulgação da Constituição de 1988. Na classe política local, o tema é tratado como um tabu: até hoje nenhum deputado estadual apresentou projeto de lei para a realização do plebiscito.

bandeira atual e antiga da paraiba

O grupo também defende a retomada da antiga bandeira da Paraíba (imagem acima à direita). A bandeira atual (acima à esquerda), criada em 1930, traz o preto do luto pela morte de João Pessoa e o vermelho que representa seu sangue. A palavra “NEGO”, escrita em branco, representa a negação do apoio de João Pessoa a Júlio Prestes, candidato a presidente da situação apoiado pelo então presidente Washington Luís. A versão é contestada pelos “mudancistas”: João Pessoa só teria negado apoio a Júlio Prestes após ter sido rejeitado para uma composição política com ele, de quem tentou ser vice. Em suma, todo o simbolismo da atual bandeira da Paraíba – o preto, o vermelho e a palavra “NEGO” – significam, respectivamente, o luto, o sangue e a politicagem. Dificilmente poderíamos encontrar outra bandeira tão negativa.

Com informações de: Folha de S.Paulo e Portal Paraíba.

Fotos antigas de João Pessoa

Veja também: João Pessoa 430 anos

Esta semana a minha cidade de João Pessoa completa 432 anos de fundação. Por isso quero compartilhar com vocês as raridades abaixo. São fotografias feitas em 1954 (em preto e branco) e 1979 (coloridas), que retratam algumas das principais avenidas e cartões postais da terceira capital mais antiga do Brasil.

Avenida Epitácio Pessoa em 1954
Avenida Epitácio Pessoa com o mar ao fundo em 1954
Avenida Getúlio Vargas com a Lagoa ao fundo em 1954
Avenida Getúlio Vargas com a Lagoa ao fundo em 1954
Orla da praia de Cabo Branco em 1954
Orla da praia de Cabo Branco em 1954
Praia de Tambaú sem o Hotel em 1954
Praia de Tambaú sem o Hotel em 1954
Praia de Tambaú sem o Hotel em 1954
Praia de Tambaú sem o Hotel em 1954
Praia de Tambaú sem o Hotel em 1954
Praia de Tambaú sem o Hotel em 1954
Orla da Praia de Tambaú em 1979
Orla da Praia de Tambaú em 1979
Ponto de Cem Réis em 1979
Ponto de Cem Réis em 1979

Por que as revoluções científicas não destroem nossos conhecimentos tecnológicos?

Pertinente sacada de Daniel Durante, professor de filosofia da UFRN.

É inegável que a ciência, através da história, mudou de ideia e retratou-se inúmeras vezes. A terra, outrora centro imóvel do universo, tornou-se um pequeno satélite de uma estrela insignificante. Os átomos de hoje, de indivisíveis só têm o nome. A combustão, que já foi liberação de flogisto, tornou-se consumo de oxigênio. Mas nenhuma dessas revoluções científicas, por mais radical que tenha sido, afetou certos conhecimentos estabelecidos.

Já sabíamos, no cosmo de Ptolomeu, prever com bastante exatidão os eclipses do sol e da lua. O novo cosmo copernicano inverteu completamente nosso visão do mundo, mas não abalou este conhecimento. Os instrumentos geolocalizadores adequados à astronomia ptolomaica, como o astrolábio, por exemplo, continuaram funcionando, mesmo depois que tiramos a terra do centro do universo. O universo mudou, mas a capacidade que tínhamos de prever eclipses e de nos localizarmos geograficamente através das posições dos astros não se perdeu. Da mesma forma, nossa capacidade de prever o tempo de queda dos objetos manteve-se quando substituímos os fundamentos do universo mecânico de Newton pelos de Einstein.

Consigo conceber a possibilidade de futuras revoluções radicais nas mais diversas áreas, mas não parece possível que as coisas que já sabemos sejam perdidas por causa destas revoluções. Eventuais mudanças na física ou na bioquímica não farão os aviões caírem ou os remédios pararem de fazer efeito. As revoluções científicas destroem nossas teorias e aspectos fundamentais de nossas concepções do mundo, mas parece que tanto nossa capacidade preditiva quanto nossos conhecimentos tecnológicos são imunes a elas. As revoluções científicas não destroem os objetos técnicos. Por quê?

Leia aqui um artigo sobre esse tema (PDF)

O mundo está muito complexo

Artigo de Denis Burgierman para a revista Superinteressante.

Tenho quase certeza de que você sabe do que eu estou falando. Uma certa angústia, uma sensação de que tudo está escorregando do controle. E também uma pitada de desânimo com a ordem geral do mundo, como se não adiantasse fazer nada, porque qualquer esforço vai se perder numa série de consequências inesperadas, e pode até acabar tendo efeito contrário ao pretendido. De onde vem isso? A vida está complicada demais. É muita senha para decorar, muita lei para seguir, muita conta para pagar. É muito trânsito. Muito carro na rua, disputando espaço com caminhão de lixo, e é também muito lixo na calçada à espera de alguém que o recolha. É muito risco, muito crime, muita insegurança.

É muito partido político, e nenhum deles parece minimamente interessado nas coisas que são importantes para você. É muita opção de trabalho, mais do que em qualquer outro momento da história, e ao mesmo tempo é muito difícil encontrar um trabalho que faça sentido. É muita doença estranha que eu nunca antes tinha ouvido falar, e muita gente morrendo disso. É muita indústria tradicional, de ares eternos, desmoronando de um segundo para o outro. É muita gente saindo da escola sem saber ler nem fazer conta. É muito problema, e cada um parece impossível de resolver. Só eu estou sentindo isso?

Por outro lado, o mundo está cheio de possibilidades, inclusive a de acessar informação ao toque de um dedo. Dei um google, encontrei um texto chamado Complexity Rising (“O aumento da complexidade”), do físico americano Yaneer Bar-Yam, fundador do Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra. Arrá, está lá: o mundo está mesmo ficando mais complexo, não é paranoia minha. O texto explica o que é complexidade: é o número de coisas conectadas umas às outras. Quanto mais partes um sistema tem, e quanto mais ligações existem entre essas partes, mais complexo ele é. Um exemplo de coisa complexa é o recheio do seu crânio: 86 bilhões de neurônios, cada um deles conectado a vários outros, um emaranhado quase infinito de possíveis caminhos a percorrer.

Segundo Bar-Yam, a sociedade vem constantemente aumentando sua complexidade há milênios. No início, quando vovô era caçador-coletor e dava rolezinho na savana africana, vivíamos em grupos de no máximo umas dezenas de pessoas, e cada grupo era basicamente isolado dos outros. A complexidade da sociedade era mínima. Diante disso, nossas estruturas de controle eram bem simples. No geral, um chefe mandando e todo o resto da turma obedecendo. Mas a moleza não durou. Primeiro surgiram impérios vastos (Egito, Mesopotâmia, China, Índia) com maior diversidade de necessidades e papéis sociais (escribas, escultores, cozinheiros, prostitutas). A complexidade foi aumentando.

Diante disso, já não funcionava mais o sistema simples de controle direto. Segundo Bar-Yam, existe uma lei universal e sagrada dos sistemas complexos: “a complexidade de um sistema realizando uma tarefa deve ser tão grande quanto a complexidade da tarefa”. Como um faraó é menos complexo do que a sociedade egípcia, não seria possível para o faraó regular e controlar todos os aspectos dessa sociedade. Por isso, foram surgindo hierarquias intermediárias: o mestre de obras para organizar a peãozada, o capitão de navio para mandar na marujada, a madame para cuidar das garotas.

E a humanidade seguiu ficando cada vez mais complexa, mais intrincada, mais especializada. E, para dar conta disso, as hierarquias foram ganhando mais e mais níveis – diretor, vice-diretor, gerente, subgerente, auxiliar, terceiro-auxiliar do subgerente do vice-diretor… Só assim para cada chefe lidar com a complexidade do que está abaixo dele. Até chegar a hoje, quando vivemos na sociedade mais complexa de todos os tempos. Só que aí as hierarquias pararam de funcionar – colapsaram. O mundo ficou tão complexo que ficou impossível para um chefe dominar a complexidade abaixo dele.

Quando Bar-Yam tornou-se especialista em sistemas complexos, na década de 1980, esse não era um ramo glamouroso da ciência. Os físicos achavam o estudo de grandes sistemas uma coisa meio esotérica. Ele insistiu e sua dedicação valeu a pena. No mundo complexo de hoje, Bar-Yam e seu instituto estão atraindo um monte de clientes importantes. O exército americano procurou-o para entender como lutar contra inimigos ligados em rede, misturados à população civil em cidades labirínticas – situação bem mais complexa do que as guerras de antigamente. Bar-Yam também tem trabalhado como consultor na reforma dos sistemas de saúde e educação dos Estados Unidos, na estratégia do Banco Mundial para ajuda humanitária e na concepção de grandes projetos de engenharia. Definitivamente não está faltando trabalho para ele.

Parecia o sujeito certo para resolver meu problema. Escrevi um e-mail para ele, perguntando se há “algumas regras simples que ensinem a lidar com a complexidade” (editores de revistas adoram fórmulas simples). Bar-Yam já chegou detonando: “Não há regras simples para lidar com o que é complexo”. Mas, se eu quisesse aprender os princípios gerais da gestão da complexidade, eu poderia comprar o livro dele, Making Things Work (“Fazendo as coisas funcionarem”, sem versão em português). Comprei. O livro é ótimo. A tese central é que todo sistema complexo tem duas características: a escala e a complexidade. Para fazer um sistema complexo funcionar, é preciso ter uma estratégia para a escala e outra para a complexidade.

Exemplo: o corpo humano tem dois sistemas de proteção, um para escala, outro para complexidade. O sistema neuromuscular (cérebro comandando nervos, que acionam músculos, que movem ossos) serve para escala, enquanto o sistema imunológico (glóbulos brancos independentes agindo cada um por conta própria) lida com complexidade. O sistema neuromuscular nos defende de ameaças grandes – surras, atropelamentos, ladrões. O sistema imunológico lida com inimigos minúsculos – bactérias, vírus, fungos. Por terem funções diferentes, os dois sistemas adotam estratégias diferentes. No neuromuscular, a lógica é hierárquica, centralizada e linear – o cérebro manda, nervos e músculos obedecem, todos juntos, orquestrados, somando esforços numa mesma direção, para gerar uma ação em grande escala (um soco, por exemplo). Já no sistema imunológico, cada célula age com liberdade e se comunica com as outras, o que gera milhões de ações a cada segundo, uma diferente da outra, cada uma delas microscópica, em pequena escala – e o resultado final é uma imensa complexidade, com o corpo protegido de uma quantidade quase infinita de possíveis ameaças.

Para viver saudável é preciso ter os dois: o sistema neuromuscular e o sistema imunológico. Um sem o outro não adianta. Não há nada que um bíceps forte possa fazer para matar uma bactéria, assim como glóbulos brancos sarados são inúteis numa briga. É assim com todo sistema complexo: precisamos de algo hierárquico para lidar com a escala das coisas, e de algo conectado em rede para lidar com a complexidade.

O problema do mundo hoje e a razão para o desconforto descrito no começo deste texto é que nossa sociedade está toda ajustada para lidar com escala, mas é absolutamente incompetente na gestão da complexidade. Estamos combatendo infecção a tapa. Tudo por causa de uma invenção que está completando 100 anos. Foi talvez a invenção mais transformadora da era contemporânea, mas ninguém registrou o nome do inventor, nem a data do “eureca”. Na verdade, ninguém nem mesmo deu um nome ao invento. Só cerca de um ano depois, uma revista técnica de engenharia fez o batismo: linha de montagem.

Segundo as pesquisas feitas pelo historiador David Nye em seu livro America’s Assembly Line (“A linha de montagem da América”, sem versão em português), a invenção da linha de montagem ocorreu em algum momento de novembro de 1913. A dificuldade de estabelecer uma data precisa vem do fato de que a invenção foi gradual, coletiva e aconteceu quase espontaneamente. Ela não foi uma ideia pipocando do nada na mente de algum cientista brilhante – foi uma resposta social a uma necessidade premente. A necessidade era aumentar a produção de carros. Em 1900, só 5 mil americanos tinham carro – apenas 13 anos depois, já eram mais de 1 milhão. Centenas de fábricas trabalhavam sem parar para atender a essa explosão da demanda, mas ainda assim as fábricas recebiam mais pedidos do que eram capazes de atender. Isso gerou uma corrida entre as fábricas por ganhos de produtividade e eficiência.

Quem ganhou essa corrida foi a empresa de um mecânico chamado Henry Ford. No esforço de poupar segundos e assim fazer mais carros por dia, os engenheiros da Ford foram aprimorando seu processo. Começaram a padronizar milimetricamente cada peça do carro, para acelerar os encaixes. Cronometraram cada movimento dos mecânicos, para descobrir o melhor jeito de fazer cada tarefa. E, a cereja do bolo: inverteram a lógica da fábrica. Em vez de grupos de mecânicos andando de uma carcaça a outra para montar os carros, eram os carros que se moviam num trilho, puxados por cordas, no meio de um corredor de mecânicos. Cada mecânico realizava uma tarefa curta e repetitiva, de maneira que nenhum deles tinha mais o domínio do processo todo. Resultado: a fábrica começou a despejar nas ruas um carro novo a cada minuto.

Em 1910, a Ford tinha feito 19 mil carros. Em 1911, 34 mil. Em 1912, 76 mil. Em dezembro de 1913, a linha de montagem começou a operar. Em 1914, a empresa montou 264.972 carros – todos idênticos. Um aumento de produtividade descomunal, que possibilitou a Henry Ford dobrar o salário de seus operários e ao mesmo tempo baixar o preço dos carros, transformando operários em clientes. O sucesso foi tão grande que, nas décadas que se seguiram, a lógica da linha de montagem se espalhou por toda a indústria, em todo o mundo. Bicicletas, geladeiras, telefones, televisores passaram a ser montados em esteiras rolantes ou trilhos, com peças sempre iguais montadas por trabalhadores super especializados. Até mesmo a comida se encaixou nesse esquema: nossos alimentos também passaram a ser padronizados e montados industrialmente com acréscimos químicos de nutrientes. Prédios passaram a ser produzidos com peças idênticas e tarefas cronometradas, o que inaugurou a era dos arranha-céus nos anos 1930.

Nossa vida está cheia de linhas de montagem – o carrinho do supermercado passando entre corredores de produtos, o automóvel trafegando em rodovias rodeadas de lojas, as filas de carros nos drive-thrus do mundo. Ao longo do último século, a lógica da linha de montagem chegou a todas as esferas da vida. A educação, por exemplo. “As escolas hoje são organizadas como fábricas, educamos crianças em lotes”, disse o educador britânico Ken Robinson numa palestra TED, referindo-se ao hábito de separar os alunos em séries.

Saúde, governo, cidades, cultura, ciência. Praticamente tudo nessa alvorada do século 21 parece seguir o mesmo esquema: divisão do trabalho numa sequência linear de tarefas especializadas, montagem gradual das peças, ganhos constantes de eficácia, produtos padronizados. “A linha de montagem passou a ser muito mais que um arranjo físico de máquinas”, disse Nye. “Ela é o centro de um sistema cultural que se estende até muito além dos portões das fábricas”. Esse sistema cultural aumentou de maneira explosiva a escala de tudo. E esse aumento de escala mudou o mundo de uma maneira espetacular.

Quando a Ford concebeu a linha de montagem, havia menos de 2 bilhões de pessoas no mundo inteiro. Hoje, apenas um século depois, já passamos dos 7 bilhões – um aumento populacional quase inacreditável que só foi possível graças a um espetacular ganho de produtividade. A produção de comida, de casas e de bens de consumo aumentou astronomicamente para atender tanta gente. E, mesmo com a explosão populacional, hoje a proporção de pessoas no mundo com acesso a saúde e educação é maior que nunca, graças ao ganho de escala alcançado pelos serviços públicos. A população global produz mais, consome mais, vive mais, sabe mais do que em qualquer outro período da história humana. Esse é o resultado de 100 anos da era da escala. Sob muitos aspectos, foi o maior salto de progresso da história da humanidade. Por que então o mal-estar?

Lembre-se do que Bar-Yam escreveu: todo sistema complexo precisa ter uma estratégia para lidar com escala e outra para complexidade. A linha de montagem é como o sistema neuromuscular: ótima para escala. Ela é linear e hierárquica – são os executivos que mandam nos engenheiros, que por sua vez controlam os mecânicos, assim como o cérebro comanda nervos que acionam músculos. Por isso, ela só consegue dar uma resposta de cada vez: um soco no caso do sistema neuromuscular, um carro sempre idêntico no caso da linha de montagem. Nossa sociedade moldada ao longo dos últimos 100 anos à imagem da linha de montagem é ótima para ações de escala, mas não tem flexibilidade alguma para lidar com a complexidade. Estamos sem sistema imunológico.

“É fácil ficar pessimista com o mundo de hoje”, diz Bar-Yam. Em meio às inúmeras linhas de montagem que dominam a humanidade, parece que toda a complexidade do mundo está fugindo do nosso controle, enquanto nos sentimos impotentes para resolver problemas à nossa volta. Por todo lado, há exemplos de ações de escala que acabam esmagando a complexidade. Um bom exemplo é o nosso modelo de produção industrial, que aumentou prodigiosamente nossa capacidade de fazer coisas, mas está causando um acúmulo global de lixo e gases de efeito estufa e levando milhares de espécies à extinção e quase todos os ecossistemas ao colapso.

Outro exemplo são as nossas tentativas industriais de aumentar a segurança, o que hiperlotou o mundo de regras impossíveis de cumprir e de senhas impossíveis de lembrar. Ou nossos sistemas de alimentação e saúde, que focaram tanto na escala da produção de alimentos, de maneira a baratear a comida, que a complexidade dos micronutrientes se perdeu. E hoje, pelo visto, estamos pagando o preço, com a explosão das “doenças complexas”: males difusos, de causas múltiplas, como câncer, doenças autoimunes, degenerativas e psiquiátricas. Ou ainda nosso sistema de educação, concebido com uma lógica linear e padronizadora, para formar alunos idênticos, todos com os mesmos conhecimentos. Além de nivelar por baixo, detonando a qualidade da educação, esse modelo padronizador é justamente o contrário do que nosso mundo complexo precisa hoje – gente diversa, capaz de resolver problemas diversos.

Segundo Bar-Yam, desde o tempo das cavernas, sempre que algo começa a pifar porque a complexidade fica grande demais, temos uma forte tendência de tentar descobrir quem é o responsável. “Alguém tem que ser demitido, alguém tem que pagar, alguém tem que ser punido”, diz. E aí escolhemos um novo chefe ou criamos uma nova hierarquia para lidar com o problema. Só que hierarquias são péssimas para gerir complexidade. O único jeito de lidar com sistemas complexos é criando estruturas de controle complexas: redes de gente com autonomia de identificar e resolver problemas.

Perguntei a Bar-Yam como o Brasil deveria lidar com nossos políticos. Ele respondeu que o problema não é só do Brasil. “Precisamos de um novo tipo de democracia”, disse. “Nossa democracia usa o voto para agregar a capacidade de decisão da população. Isso não é eficiente, porque reduz uma grande quantidade de informação (o conhecimento de todos os cidadãos) a um pequeno número de respostas (os seus representantes)”. Faria mais sentido imaginar um sistema político mais imunológico, no qual cada cidadão reage com autonomia às ameaças que enxerga, como um glóbulo branco.

Política, economia, saúde, educação, sustentabilidade, clima, cidade. Em todo lugar onde há complexidade, parece estar ocorrendo uma espécie de colapso. Mas, assim como aconteceu 100 anos atrás com a linha de montagem respondendo à nossa necessidade de escala, desde a década de 1990, uma série de inovações parece estar surgindo espontaneamente em resposta à nossa necessidade de complexidade. Primeiro veio a internet, que nos conectou em rede, criando uma alternativa para as estruturas hierárquicas. E agora as inovações estão pipocando. Já existem vários esquemas de compartilhamento de recursos – quartos, casas, carros, bicicletas, ferramentas, espaço para trabalhar – nos ajudando a otimizar o uso desses recursos.

Tem os moradores que assumem a responsabilidade por cuidar dos espaços públicos e projetam praças melhores do que qualquer prefeitura seria capaz. Tem os sites de crowdfunding e outras formas de colaboração criativa, que geram um novo modelo de indústria. Tem os aplicativos de trânsito, como o Waze, que dão a cada motorista o poder de encontrar um caminho que flui, o que acaba melhorando o trânsito como um todo. Tem as redes de pacientes de doenças raras, trocando informações pela internet e muitas vezes ajudando uns aos outros mais do que nosso sistema super especializado de medicina. Tem manifestações populares forçando os dirigentes políticos a repensarem sua relação com os cidadãos. Tem grandes empresas trocando o comando vertical por estruturas de controle mais distribuído. O mundo parece estar preparado para uma transformação profunda. Talvez aí essa angústia com a complicação da vida passe.

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