Precisamos repensar nosso urbanismo

Proponho uma experiência simples: Abra o Google Maps, escolha uma cidade brasileira qualquer e dê um zoom em um bairro residencial de classe média. Pela imagem de satélite, você provavelmente verá que a paisagem é predominantemente cinza (de cimento, concreto e asfalto) e marrom (dos telhados), com poucos pontos verdes (das árvores). Solte o bonequinho do Street View em uma rua qualquer e constatará que as casas são todas muradas e com grades. As calçadas são irregulares e desniveladas.

Mooca - SP
Mooca, bairro central de São Paulo

Agora escolha uma cidade aleatória dos Estados Unidos (ou de qualquer outro país desenvolvido no mundo) e dê um zoom em um bairro residencial também de classe média. Pela imagem de satélite, você provavelmente verá que a paisagem é predominantemente verde, por causa das muitas árvores e dos quintais gramados. Solte o bonequinho do Street View em uma rua qualquer e constatará que as casas não têm muros nem grades. As calçadas são todas padronizadas e planas.

Bronx - NYC
Bronx, distrito mais pobre de Nova York

Qual ambiente urbano você considera mais agradável para se viver? Certamente não é aquele com o qual estamos acostumados. Isso significa que precisamos repensar nosso urbanismo, nossa forma de organizar as cidades. É claro que, antes de mudar a cultura dos muros nas casas, precisamos garantir o mínimo de segurança pública. Mas há algo que já podemos começar imediatamente: a questão do verde, a arborização, o cultivo de jardins e gramados. Só isso já transforma surpreendentemente a paisagem urbana, deixando-a muito mais agradável.

Faça uma dieta de leituras

Passar o dia inteiro lendo bobagem nas redes sociais é tão saudável para a mente quanto viver à base de fast-food é para o corpo. Esse é o tema do artigo de opinião a seguir, escrito por Danilo Venticinque e publicado na revista Época:


O Facebook está insuportável hoje. Pelo menos foi isso o que um amigo me disse. Não duvido: com a quantidade de assuntos polêmicos em pauta, poucos resistem à tentação de entrar em debates acalorados e intermináveis sobre tudo. Quanto mais pitoresco o tema, maior a vontade de se debruçar sobre ele para escrever um post “definitivo”. Perdi a conta de quantas vezes sucumbi a essas armadilhas. Tenho tentado não cair nelas. Estou de dieta. Houve um tempo em que os pessimistas diziam que, no futuro, passaríamos o dia inteiro assistindo à televisão e não leríamos mais nada. Estavam errados. Ironicamente, nunca lemos tanto quanto hoje. E, infelizmente, nunca lemos tão mal.

Nutricionistas costumam organizar os tipos de alimentos numa pirâmide. Na base estão os cereais, frutas e verduras que precisamos comer várias vezes ao dia. O meio é reservado às carnes magras e derivados do leite, que devemos comer com moderação. No topo, tudo aquilo que devemos evitar no dia-a-dia, como doces, frituras e carnes gordurosas. Poderíamos fazer um gráfico semelhante com as leituras. Na base estariam os livros. No topo, as discussões vazias nas redes sociais. No meio ficariam os artigos e reportagens, online e offline. Alguns podem ser tão enriquecedores quanto um livro. Outros, tão superficiais quanto uma polêmica no Facebook.

Não é preciso levar o exercício mental muito adiante para perceber que nossa dieta anda péssima. As redes sociais tomam a maior parte do nosso tempo de leitura. Elas nos levam com frequência a blogs ou sites de notícias. Aproveitamos um texto ou outro, mas nos esquecemos da imensa maioria. Aos livros, que teoricamente deveriam ser nossa principal fonte de leituras, reservamos apenas uma pequena fração do nosso tempo. Por acreditar que os livros exigem concentração e silêncio, preferimos nos distrair com textos irrelevantes o dia inteiro e deixar as leituras sérias para o dia seguinte ou para mais tarde, quando já estamos cansados de ler bobagens e mal aguentamos manter os olhos abertos. É como se tivéssemos um banquete à nossa disposição, mas nos entupíssemos de balas, guloseimas e salgadinhos antes de sentar à mesa.

O primeiro passo para mudar a sua dieta de leituras é reconhecer que aproveitamos muito mal nosso tempo. Vale repetir a pergunta proposta pelo escritor suíço Rolf Dobelli em seu livro A arte de pensar claramente: “De todas as notícias e posts em redes sociais que você leu no último ano, quantos realmente fizeram diferença na sua vida?”. Minha resposta foi alarmante: apenas dois ou três posts em blogs e, com sorte, meia dúzia de reportagens. Nenhum post em redes sociais. Nada que justifique as dezenas de horas que dedico a essas leituras semanalmente. Quanto aos livros, lembro de todos os que li durante o período. Mesmo os que não gostei de ler me ensinaram algo.

Definitivamente, era hora de mudar meus hábitos. Seria um exagero abandonar o Facebook completamente, do mesmo modo que nenhum nutricionista que se leve a sério diria para alguém cortar os doces para todo o sempre. O mesmo vale para o fast-food da informação. As redes sociais nem sempre são prejudiciais. Basta usá-las com moderação e tirar algum proveito delas. Cada um sabe sua forma de aproveitá-las. Desde que decidi fazer uma dieta de leituras, abandonei as discussões no Facebook e no Twitter. Em vez disso, tenho usando as duas redes para receber e compartilhar reportagens sobre literatura. Por falar em reportagens, também reduzi o tempo que dedico a elas. Descobri que posso sobreviver tranquilamente lendo somente as principais notícias do dia e assinando três ou quatro publicações essenciais para quem trabalha na minha área.

O resultado? Além de conseguir mais tempo para os livros, não sinto a menor falta das polêmicas digitais. Da próxima vez que o seu Facebook estiver insuportável, não reclame dele. Feche a aba do navegador. Procure outras leituras. Se alguém insistir para que você diga algo sobre o assunto polêmico do dia, experimente a sensação libertadora de não ser obrigado a expressar sua opinião sobre tudo. Peça desculpas. Diga que está de dieta.


Antes de ler, faça o teste do “e daí?”

Nosso cotidiano foi tomado por leituras inúteis, mas há um método simples para evitá-las. É o que propõe Danilo Venticinque no artigo a seguir, publicado na revista Época.


Não custa repetir: lemos muito menos livros do que poderíamos porque desperdiçamos uma enorme quantidade de tempo lendo bobagens na internet. Deixar de gastar tempo com textos inúteis é a maneira mais eficiente de abrir espaço para os úteis. Nosso tempo de leitura é limitado. Meia hora dedicada a acompanhar a última fofoca é meia hora a menos de um bom livro. Mas o desinteresse por fofocas não é suficiente para garantir que fugiremos das leituras inúteis. O pior tipo de bobagem é a bobagem supostamente relevante. Você começa a ler achando que vai se informar e, quando percebe, já perdeu muito tempo e não aprendeu absolutamente nada de útil.

Nas faculdades de jornalismo, os alunos aprendem que uma notícia deve responder a seis perguntas: o que, quem, como, onde, quando e por que. A elas, alguns professores mais rigorosos acrescentavam uma sétima: e daí? O que aquela notícia traz de relevante para a vida de quem lê? Era impressionante a quantidade de sugestões de reportagens que desmoronavam quando submetidas a esse último teste. E são raríssimos os sites de notícias e blogs que aplicam essa lição. Isso para não falar na imensidão de bobagens que tomam as redes sociais. Publicamos primeiro e pensamos depois. Pior: lemos tudo indiscriminadamente sem fazer a pergunta fundamental: e daí?

Antes, a tarefa de perguntar “e daí” era de quem publicava algo, mas isso mudou. Diante de uma infinidade de textos que não trazem absolutamente nenhuma consequência ou aprendizado para quem lê, cabe ao leitor a tarefa de filtrá-los. Experimente aplicar o teste do “e daí?” às suas leituras online. Observe como a maioria delas fracassa vergonhosamente. Meia dúzia de manifestantes querem a volta da ditadura. E daí? A vice Miss Bumbum perdeu as chaves do carro em Ipanema. E daí? O primo de um amigo comprou um filhote de gato. E daí? Quanto mais rigorosos forem seus filtros, mais tempo sobrará para ler o que importa. São horas de leitura que você pode ganhar sem perder quase nada. No máximo, você se sentirá um pouco desinformado. Talvez você não fique por dentro dos delírios autoritários de meia dúzia de pessoas. Talvez a vice Miss Bumbum passe na sua frente e você não a reconheça. Tudo bem. E daí?


Três anos sem ler notícias

A decisão radical de um escritor para dedicar mais tempo aos livros – e o que podemos aprender com seus conselhos. Esse é o tema do artigo de opinião a seguir, escrito por Danilo Venticinque e publicado na revista Época.


Já imaginou se, depois de dedicar um ano inteiro à leitura, você percebesse que não conseguiu aproveitar nada do que leu? Descrita assim, a experiência parece ser a premissa de um livro de ficção científica ou uma doença neurológica à espera de um diagnóstico. Mas é um fenômeno comum. Entre atualizações de redes sociais, posts de blogs e notícias curtas, uma pessoa com acesso à internet dedica várias horas de seu dia à leitura. A quantidade de informações fragmentadas é grande e difícil de reter. Há uma enorme probabilidade de que este texto seja inútil – e de que, daqui a poucos meses, você não se lembre nada do que escrevi aqui.

A vida de um leitor, desde o início do dia, é uma maratona de decisões. Na internet ou no papel, a oferta de textos diferentes sobre os mais diversos assuntos é enorme. Como sei que o tempo de leitura é escasso, vou pular a parte óbvia deste texto em que eu diria que é impossível ler tudo. Também vou resistir à tentação de dizer que tipo de leitura é indispensável: cada leitor tem a sua resposta para essa pergunta, e o que é imprescindível para alguns pode ser menos importante para outros. Passo, então, para a questão principal: quais textos não merecem o tempo que gastamos com eles?

O escritor suíço Rolf Dobelli acredita ter a resposta. Em seu livro A arte de pensar claramente (Editora Objetiva, 210 páginas, R$ 29,90, tradução de Karina Janini), ele afirma que as notícias são o principal inimigo do leitor. Elas estão fazendo mal para nossos cérebros, e todos nós deveríamos desistir de lê-las. “As notícias são para a mente o que o açúcar é para o corpo: apetitosas, fáceis de digerir – e muito destrutivas no longo prazo”, diz Dobelli. Ele afirma que somos estimulados por informações chocantes, escândalos e fofocas, mas nos sentimos desmotivados diante de textos complexos. A vontade de atrair a atenção do público levaria os meios de comunicação a privilegiar o conteúdo mais superficial. Com o tempo, as notícias deixariam de ser relevantes, e o sensacionalismo nos tornaria incapazes de lidar com as sutilezas da vida. É uma análise pessimista, mas que faz algum sentido quando estamos lendo a trigésima notícia do dia… e já nos esquecemos da primeira.

A profissão e a nacionalidade do autor, reconheçamos, facilitam sua missão de evitar notícias. Os políticos suíços são tradicionalmente mais comportados que os brasileiros, e talvez suas travessuras não mereçam ser acompanhadas diariamente pelo público. E, sendo escritor, Dobelli dificilmente se verá em apuros por não ler notícias. Um investidor ou executivo desinformado, por exemplo, seria um desastre. Mesmo nesses casos, Dobelli adverte que as informações, sozinhas, não fazem um bom profissional. “Se as notícias realmente ajudassem as pessoas a progredir, os jornalistas estariam no topo da pirâmide. Eles não estão lá – muito pelo contrário”, afirma. A provocação dolorosa não impediu que sites jornalísticos como o The Guardian e o Huffington Post publicassem resenhas do livro e reproduzissem seu capítulo sobre notícias. Não que o autor se importe: ele não deve ter lido nenhum deles.

Dobelli segue seus próprios conselhos à risca. Diz estar há três anos sem ler notícias e não tem planos para mudar seus hábitos. As principais informações do mundo, segundo ele, chegam por meio de conversas com amigos. Imagina-se que esses amigos leiam notícias – do contrário, as conversas não cumpririram o papel de informar o autor. Quando quer saber mais sobre um tema atual, ele recorre a livros (“Nada é melhor do que os livros para entender o mundo”) e a textos analíticos longos – que podem estar disponíveis em revistas, jornais ou sites, em maior ou menor quantidade. No mundo ideal de Dobelli, há espaço para o jornalismo que informa, mas não para o que distrai.

Desistir das notícias para sempre é uma solução radical, que dificilmente funcionaria para todos. Dobelli dá a impressão de estar exagerando para chamar a atenção dos leitores – curiosamente, um pecado tradicional do tipo de jornalismo que ele critica. Ainda assim, em tempos cheios de distrações, seu conselho merece ser ouvido. Antes de ler qualquer texto, pense se ele fará diferença na sua vida nas próximas semanas ou meses. Em caso de dúvida, parta para o próximo da lista. Se dedicarmos muitas horas a leituras fragmentadas, sobrará pouco tempo para textos mais longos e nenhum intervalo para a reflexão. Às vezes é preciso ler menos para ler melhor.


Infobesidade

A informação é, para a mente, aquilo que o alimento é para o corpo. A diferença é que não temos sempre à disposição toneladas e mais toneladas de comida para comermos quando quisermos. Por outro lado, a quantidade de informação disponível a qualquer pessoa com acesso à internet é potencialmente infinita. Outra diferença é que o nosso corpo instintivamente “sabe” a hora de parar. Quando estamos fartos, nosso cérebro é avisado de que as reservas estão cheias e que é preciso parar de comer. Esta é a sensação de saciedade. Uma vez fadigado de comer, recusamos penosamente qualquer prato, por mais saboroso que nos pareça. Se tentarmos guardar e acumular toda a comida disponível até que tenhamos fome novamente, deparamos com o fato natural de que toda comida estraga e se deteriora com o tempo. É claro que o sal e mais recentemente a geladeira ajudaram nesse quesito, mas apenas parcialmente. Por esse motivo, decidimos acumular dinheiro, que não se come nem se estraga, mas que pode depois ser trocado por comida fresca. Nossa mente, por outro lado, não reconhece com a mesma facilidade que o corpo quando é hora de parar. Juntando a isso o fato de que a quantidade de informação disponível, especialmente depois do advento da internet, é infinitamente vasta e potencialmente inesgotável, percebemos que a saciedade mental deve ser autoimposta, enquanto que a do corpo é instintiva e natural. Esta é uma questão de saúde mental. Muitos especialistas, inclusive, passaram a usar um neologismo para se referir ao problema: “infobesidade”. A analogia com o corpo e a alimentação é clara.


Um mar de informação

Vivemos numa época em que a informação é abundante como em nenhuma outra antes dela. Eis um dos clichês mais repetidos da atualidade. Tão repetido que Eric Schmidt, ex-CEO do Google, até o transformou em número: a cada 24 horas, a humanidade produz 2,5 bilhões de gigabytes de informação. Isso é mais do que tudo o que foi produzido desde o começo do mundo até 2003! Uau! Muito bacana! Mas e daí? Daí que a realidade é um pouco diferente. Vivemos sim numa era de abundância. Mas informação é uma coisa, conhecimento é outra. Uma está para a outra como o tijolo está para a casa. Uma pilha de tijolos tem potencial para fazer maravilhas, mas sozinha ela é só uma pilha. Eis então um dos maiores desafios (e oportunidades) que temos adiante: transformar esses milhares de tijolos em algo útil. Dá uma trabalheira, mas aqui no Charlezine eu me esforço para fazer a minha parte. Misturar cimento, construir as paredes, mostrar o contexto das coisas, dar sentido a elas, enfim, transformar informação em conhecimento.


Biblioteca Pública Digital da América

Reunir todo o conhecimento já produzido pela humanidade, em pedra, placas de argila, peles de animais, papiros, pergaminhos, papel ou bits, é uma das ambições mais nobres e difíceis. Dos idealizadores da Biblioteca de Alexandria, no século 3 a.C., aos tecnófilos do Vale do Silício, passando pelos iluministas do século 18, muitos já se dedicaram a esse sonho. Com os esforços de grandes instituições para converter seus arquivos ao formato digital, surgiram novas tentativas de concretizá-lo. A recém-inaugurada Biblioteca Pública Digital da América é a mais recente delas – e um dos projetos mais ambiciosos.

Pôsteres da Segunda Guerra Mundial, a Declaração da Independência dos Estados Unidos escrita à mão por Thomas Jefferson e manuscritos de poesias originais de Emily Dickinson são alguns dos destaques do acervo de 2,4 milhões de itens, disponíveis gratuitamente para internautas de todo o mundo no site dp.la. Não é preciso fazer nenhum cadastro para acessar o conteúdo. A base de dados reúne arquivos digitalizados de museus, bibliotecas e outras instituições americanas. A expectativa é que essa coleção aumente muito nos próximos meses, à medida que outras bibliotecas do país se juntem à nova DPLA e que as antigas continuem a digitalizar seus acervos.

A página surge como uma reação ao Google Book Search, um ambicioso projeto do Google para digitalizar todos os livros do mundo. Até agora, mais de 30 milhões de obras já saíram de prateleiras e foram para o acervo digital. Apenas obras de domínio público ou sem restrições legais podem ser lidas na íntegra. É possível acessar apenas alguns trechos de obras protegidas por direitos autorais. Por oferecer aos leitores a possibilidade de comprar as obras, e definir o preço com seus parceiros comerciais, o Google foi alvo de críticas. As motivações comerciais também fizeram com que outras instituições impedissem o uso de seus dados pelo Google. Para evitar armadilhas dessa natureza, os idealizadores da DPLA dizem que o conhecimento deve ser gratuito, acessível para todos e defendem a superioridade técnica do projeto. “Teremos melhores descrições e materiais que não aparecem numa busca no Google. Será uma experiência muito superior”, assegura Dan Cohen, diretor executivo da DPLA.

O projeto foi criado pela Universidade de Harvard, sem a ajuda do governo americano. Embora alguns técnicos da Biblioteca do Congresso tenham participado, o financiamento coube a fundações sem fins lucrativos, além do Instituto de Museus e Bibliotecas, uma agência independente. O maior desafio, porém, não foi financiar a biblioteca, e sim superar as barreiras legais para digitalizar os acervos. Problemas semelhantes foram enfrentados pelo Google, quando a empreitada de digitalizar milhões de livros foi limitada após decisões judiciais favoráveis às editoras. Em diversos países, a Justiça entendeu que o projeto não tinha respaldo legal. Com o trabalho de especialistas, a DPLA pretende evitar os erros cometidos pelo Google. Até 2014, seus organizadores querem firmar uma aliança com autores de livros fora de circulação, para fazer com que suas obras ressurjam na internet. “A vida comercial de um livro é muito limitada”, diz Darnton.

A inspiração para o projeto veio da Europeana, uma biblioteca digital europeia criada em 2008, que atualmente agrega 20 milhões de itens de 20 mil organizações europeias. Com o advento da DPLA, baseada nos mesmos padrões tecnológicos, os organizadores das duas bibliotecas já sonham com a fusão das coleções para criar um grande acervo mundial. “Num futuro próximo, podemos ter um sistema de bibliotecas transatlântico. Reuniremos recursos de toda a Europa e dos EUA para torná-los disponíveis a todo o mundo. Também espero a participação da América do Sul. Desejo que um dia as bibliotecas públicas do Brasil também façam parte disso”, afirma Darnton.

No Brasil, há poucos acervos digitais. Esforços públicos e privados têm sido somados para mudar isso. Uma das iniciativas foi a formação, em 2011, da Rede Memorial. Ela reúne bibliotecas, museus, arquivos e outros institutos para discutir o acesso aberto ao conhecimento, padrões de tecnologias de digitalização e formas de obter investimentos. Uma das principais articuladoras é a recém-inaugurada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolveu um sistema para implantação e gerenciamento de bibliotecas digitais. “Esperamos que, nos próximos dois anos, o país tenha um volume considerável de materiais digitalizados para criar um site semelhante ao da Europea­na”, afirma Pedro Puntoni, diretor da Brasiliana USP, que conta com mais de 3 mil títulos digitalizados.

Fonte: Época.

A futurologia de Murilo Gun

Série de vídeos produzida pelo humorista, palestrante e metido a futurólogo Murilo Gun sobre o futuro dos jornais, dos livros, dos idiomas, do Facebook, do celular, do videogame, da televisão, do carro, da indústria e dos crimes. Por fim, compartilho uma palestra dele no TEDx Fortaleza sobre o futuro da propriedade e do consumo e uma palestra na qual ele conta o que viu na Singularity, a escola de futurismo da Nasa e do Google.

Veja também: Murilo Gun nos anos 80 | Previsões para os próximos 100 anos













Como o advento da internet está mudando o funcionamento do cérebro humano

Artigo de Nicholas Carr, publicado originalmente em inglês no portal The Atlantic.

Há alguns anos tenho a impressão de que algo vem mexendo com meu cérebro, remapeando os circuitos neuronais, reprogramando a memória. Minha mente está mudando. Não estou mais pensando como costumava pensar. Percebo isso de modo mais acentuado quando estou lendo. Mergulhar num livro, ou num longo artigo, costumava ser fácil. Minha mente se enredava na narrativa ou nas voltas do argumento e eu passava horas lendo longos trechos de prosa. Isso raramente ocorre atualmente. Agora minha atenção começa a divagar depois de duas ou três páginas. Eu fico inquieto, perco o fio de meada, começo a procurar outras coisas para fazer. Sinto como se estivesse sempre arrastando meu cérebro divagante de volta ao texto. A leitura fluida e profunda que costumava ser tão natural para mim agora se tornou uma luta.

Creio que sei o que está acontecendo. Por mais de uma década venho passando mais tempo online, procurando, surfando e algumas vezes acrescentando informação à grande biblioteca da internet. A internet tem sido uma dádiva para um escritor como eu. Pesquisas que antes exigiam dias de procura em jornais ou na biblioteca agora podem ser feitas em minutos. Algumas procuras no Google, alguns cliques rápidos em hiperlinks e eu consigo os fatos reveladores ou as citações exatas que procurava. Mesmo quando não estou trabalhando acabo me surpreendendo, mais frequentemente do que deveria, à caça de informação na web ou lendo e escrevendo e-mails, escaneando manchetes e blogs, assistindo vídeos, ouvindo podcasts ou apenas vagando de um link para outro. Ao contrário das notas de rodapé, às quais eles são comparados, hiperlinks não apenas nos referem a trabalhos relacionados; eles nos arremessam em direção a eles.

A internet está se tornando um meio universal, o conduíte por onde passa a maior parte da informação que chega aos meus olhos, ouvidos e mente. As vantagens de ter acesso rápido a quantidades inacreditavelmente ricas de informação são muitas, e elas têm sido extensivamente descritas e justamente aplaudidas. Mas isso tem seu preço. Como disse o teórico da comunicação Marshall McLuhan nos anos 1960, a mídia não é apenas um canal passivo para o tráfego de informação. Ela fornece a matéria, mas também molda o processo de pensamento. E o que a internet parece fazer é pulverizar minha capacidade de concentração e contemplação. Minha mente agora espera absorver informação do modo como a internet as distribui: num fluxo veloz e intermitente de partículas. Antes eu era um mergulhador num mar de palavras. Agora eu deslizo pela superfície.

Não sou o único. Quando menciono meu problema com a leitura a amigos e conhecidos – tipos literários, em sua maioria – muitos dizem ter experiências similares. Quanto mais eles usam a web, mais precisam lutar para permanecerem concentrados em longos textos. Alguns dos blogueiros que acompanho também começaram a mencionar o fenômeno. Scott Karp, que escreve um blog sobre mídia online, confessou recentemente ter parado completamente de ler livros: “Eu era um graduando em literatura na faculdade e costumava ser um leitor voraz. O que houve?”. E especula em sua resposta: “E se eu leio exclusivamente na web não apenas porque o modo como eu leio mudou, isto é, estou apenas buscando conveniência, mas porque o modo como eu penso mudou?”.

Bruce Friedman, que escreve regularmente sobre o uso de computadores na medicina, também descreveu como o uso da internet alterou seus hábitos mentais. “Eu agora praticamente perdi toda a habilidade para ler e absorver um artigo mais extenso na web ou na mídia impressa”, confessou. Patologista e professor há algum tempo na Escola de Medicina da Universidade de Michigam, Friedman elaborou melhor suas impressões sobre o assunto numa conversa comigo por telefone. “Não consigo mais ler Guerra e Paz”, ele admite. “Perdi a capacidade de fazer isso. Mesmo posts de blogs com mais de três ou quatro parágrafos são demais para absorver. Eu apenas passo os olhos”.

Continuamos esperando pelos experimentos psicológicos e neurológicos de longa duração que irão desenhar o quadro definitivo sobre o modo como a internet afeta a cognição. Contudo, um recente estudo sobre hábitos de pesquisa online, conduzido por pesquisadores da University College London, sugere que podemos estar no meio de uma mudança radical no modo como lemos e pensamos. Parte do estudo, que durou 5 anos, consistia na análise de arquivos de acesso que documentavam o comportamento dos visitantes de dois sites populares de pesquisa, um operado pela Biblioteca Britânica e outro pelo Consórcio Britânico de Educação. Esses sites permitem acesso a artigos de jornais, e-books, e outras fontes de informação escrita. Os pesquisadores descobriram que os usuários dos sites apresentaram “uma forma de atividade mental associada à identificação rápida, na leitura, das ideias principais de um texto (em inglês, skimming)”, saltando de uma fonte a outra e raramente retornando a fontes já visitadas. Eles tipicamente não leem mais do que uma ou duas páginas de um artigo ou livro antes de pular para outro. Algumas vezes eles salvam algum artigo, mas não há nenhuma evidência de que realmente leem posteriormente o que salvaram.

Os autores afirmam: Está claro que os usuários não estão lendo online no sentido tradicional; de fato há sinais de que um modo novo de leitura está aparecendo na medida em que os usuários navegam horizontalmente através de títulos, conteúdos de páginas e resumos buscando resultados rápidos. Parece até que eles procuram a informação online para evitar ler no sentido tradicional. Graças à ubiquidade do texto na internet – sem falar na popularidade das mensagens de texto nos telefones celulares – é realmente possível que estejamos lendo muito mais hoje do que nas décadas de 1960 e 1970, quando a televisão era o meio da moda. Mas é um tipo diferente de leitura, e por trás dele está um tipo diferente de pensamento – talvez até mesmo um novo senso de si mesmo.

“Nós não somos apenas o que lemos”, diz Maryanne Wolf, psicóloga da Universidade de Tufts. “Nós somos como lemos”. Wolf acredita que o estilo de leitura promovido pela internet, um estilo que coloca a eficiência e a imediatidade acima de qualquer outra coisa, pode estar diminuindo nossa capacidade de leitura profunda que emergiu quando uma antiga tecnologia, a prensa, tornou os longos e complexos romances algo comum. Quando lemos online, ela afirma, tendemos a nos tornar “decodificadores de informação”. Nossa habilidade para interpretar textos, para fazer as ricas conexões mentais que se formam quando lemos em profundidade e sem distrações, fica desligada.

Ler, explica Wolf, não é uma habilidade instintiva para os seres humanos. Não está impressa em nossos genes do mesmo modo que falar está. Somos obrigados a ensinar nossa mente a traduzir os caracteres simbólicos que vemos na linguagem que compreendemos. E a mídia e outras tecnologias que usamos no processo de aprendizado da arte de ler têm um papel importante na formação dos circuitos neurais em nosso cérebro. Experimentos demonstram que leitores de ideogramas, tais como os chineses, desenvolvem um circuito mental para leitura que é diferente do circuito encontrado naqueles, como nós, em que a linguagem escrita é alfabética. As variações se estendem por várias regiões do cérebro, incluindo aquelas funções cognitivas altamente importantes como a memória e a interpretação de estímulos visuais e sonoros. Nós podemos esperar, do mesmo modo, que os circuitos tecidos pelo uso da internet serão diferentes da trama costurada pela leitura de livros e outros tipos de mídia impressa.

Em algum momento de 1882, Nietzsche comprou uma máquina de escrever. Sua visão estava falhando e manter o foco na página havia se tornado um esforço doloroso e exaustivo, provocando fortes dores de cabeça. Ele foi forçado a limitar sua escrita e temia logo ser obrigado a desistir de escrever por completo. A máquina datilográfica o salvou, pelo menos por um tempo. Uma vez tendo dominado a habilidade de datilografar, ele conseguia escrever com os olhos fechados, usando apenas as pontas dos dedos. As palavras podiam mais uma vez fluir da sua mente para a página em branco. Mas a máquina teve um efeito bastante sutil no seu trabalho. Um dos amigos de Nietzsche notou a mudança de estilo na sua escrita. Sua prosa, já muito concisa, tornou-se telegráfica. “Talvez você, através deste instrumento, acabe criando um novo idioma”, escreveu o amigo numa carta. “Você está certo”, respondeu Nietzsche, “o equipamento para a escrita participa da formação dos nossos pensamentos”.

O cérebro humano é quase infinitamente maleável. Pensava-se que nossa malha mental, as densas conexões formadas pelos 100 bilhões de neurônios dentro dos nossos crânios, estava quase completamente formada quando atingíamos a idade adulta. Mas pesquisas descobriram que não é bem assim. James Olds, professor de neurociência e diretor do Instituto Krasnow para Estudos Avançados, afirma que até a mente adulta ainda é “muito plástica”. Células nervosas rotineiramente quebram velhas conexões e formam novas. “O cérebro”, de acordo com Olds, “possui a habilidade de se reprogramar, alterando o modo como geralmente funciona”. Quando usamos o que o sociólogo Daniel Bell chama de “tecnologias intelectuais” – as ferramentas que estendem nossas capacidades mentais – nós inevitavelmente começamos a assimilar as qualidades destas tecnologias.

O relógio mecânico, que teve seu uso popularizado no século 14, serve como exemplo particularmente convincente. Em Technics and Civilization, o historiador e crítico cultural Lewis Mumford descreve como o relógio “desassociou o tempo dos eventos humanos, ajudando a gerar a crença num mundo independente de sequências matematicamente mensuráveis”. A “estrutura abstrata do tempo dividido” tornou-se “a referência tanto para as ações quanto para o pensamento”. O tique-taque metódico do relógio ajudou no nascimento da mente científica e do homem científico. Mas também levou algo embora. Como observou o cientista da computação do MIT Joseph Weizenbaum em seu livro de 1976, Computer Power and Humam Reason: From Judgment to Calculation, o conceito de mundo que emergiu do uso disseminado do instrumento de medição do tempo “permanece uma versão empobrecida do antigo conceito de mundo, pois ele se baseia na rejeição daquelas experiências diretas que formavam a base e, na verdade, constituíam a antiga realidade”. Ao decidirmos quando comer, trabalhar, dormir, acordar, nós paramos de ouvir nossos sentidos e passamos a obedecer ao relógio.

O processo de adaptação a novas tecnologias reflete-se nas metáforas que usamos para nos compreendermos. Quando o relógio mecânico apareceu, as pessoas começaram a imaginar que seus cérebros operavam “como relógios”. Hoje, na era do software, nós imaginamos que eles operam “como computadores”. Mas as mudanças, diz-nos a neurociência, vão bem mais fundo do que a metáfora sugere. Graças à plasticidade do nosso cérebro, a adaptação se estende ao nível biológico. A internet promete um impacto de longo alcance na cognição. Num artigo publicado em 1936, o matemático britânico Alan Turing provou que um computador digital, naquele tempo apenas uma hipótese, poderia ser programado para cumprir a função de qualquer outro aparelho de processamento informacional. E é isso que vemos hoje. A internet, uma espécie de imensamente poderoso sistema computacional, está subsumindo a maioria das outras tecnologias intelectuais. Está se tornando nosso mapa e nosso relógio, nosso jornal e nossa máquina de escrever, nossa calculadora e nosso telefone, nosso rádio e nossa TV.

Quando a internet absorve uma mídia, essa mídia é recriada à imagem da internet. Ela contamina o conteúdo do meio com hiperlinks, anúncios, e outras bugigangas digitais; e encapsula o conteúdo com o conteúdo de todas as outras mídias já absorvidas. Um novo e-mail, por exemplo, pode anunciar sua chegada enquanto passamos os olhos pelas últimas manchetes num site de notícias. O resultado é a pulverização da atenção e a difusão da concentração. A influência da internet não acaba nas bordas do monitor, ademais. À medida que a mente das pessoas vai se ajeitando ao estofo maluco da internet, a mídia tradicional vai sendo obrigada a se adaptar às novas expectativas da audiência. Programas de televisão passaram a usar legendas e anúncios pop-ups; revistas e jornais diminuíram o tamanho das suas reportagens, introduziram boxes explicativos e lotaram suas páginas com infográficos didáticos.

Quando o New York Times decidiu reservar duas páginas de cada edição diária a resumos de artigos e reportagens, seu diretor gráfico, Tom Bodkin, justificou a opção explicando que estes “atalhos” iriam proporcionar aos leitores mais apressados um rápido “gostinho” das notícias do dia, poupando-os de realmente virar as páginas do jornal para ler os artigos. A velha mídia tem pouca opção a não ser jogar pelas regras da nova. Nunca os sistemas de comunicação cumpriram tantos papéis em nossas vidas – ou exerceram influência tão marcante em nossos pensamentos. Contudo, apesar do quanto se escreve sobre a internet atualmente, há pouca consideração sobre como, exatamente, ela está nos reprogramando. A ética intelectual da internet permanece obscura.

A internet é uma máquina desenhada para coletar, transmitir e manipular informação com o máximo de eficiência possível; e sua legião de programadores está empenhada em encontrar “o melhor método” – o algoritmo perfeito – para dar conta de cada movimento mental envolvido no que costumamos chamar “trabalho intelectual”. O quartel general do Google em Montain View, California, é a catedral da internet, e a religião praticada dentro de seus muros é o taylorismo. O Google, afirma seu presidente, Eric Schmidt, é “uma companhia fundada sobre a ciência da mensuração”, e luta para “sistematizar tudo”.

Baseado nos terabytes de informações comportamentais que coleta através de seu motor de busca e outros sites, a empresa realiza centenas de experimentos por dia, de acordo com a Harvard Business Review, e aplica os resultados no refinamento dos algoritmos que cada vez mais controlam como as pessoas encontram informação e as interpretam. A empresa declarou que sua missão é “organizar toda a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil”. Quer desenvolver “o motor de busca perfeito”, que ela define como algo que “compreenda exatamente o que você quer dizer e te devolve exatamente o que você quer”. Na visão do Google, informação é um tipo de commodity, um recurso utilitário que pode ser minerado e processado com eficiência industrial. Quanto mais informação “acessamos” e mais rápido extraímos o que há de importante nela, mais produtivos nos tornamos enquanto pensadores.

Onde isso vai parar? Sergey Brin e Larry Page falam do desejo de transformar seu motor de busca num tipo de inteligência artificial que poderia conectar-se diretamente aos nossos cérebros. “O motor de busca perfeito deverá ser tão esperto quando as pessoas – ou mais”, afirmou Page numa conferência há alguns anos. “Para nós, trabalhar com buscas é um modo de trabalhar com inteligência artificial”. Numa entrevista à revista Newsweek, Brin disse: “Certamente, se você tiver toda a informação do mundo ligada diretamente no seu cérebro, você estará em vantagem”. Ano passado, Page disse a um grupo de cientistas que o Google está “tentando construir uma inteligência artificial”.

Tal ambição é natural, até mesmo admirável para um par de gênios matemáticos com muita grana e um pequeno exército de cientistas da computação. Um empreendimento fundamentalmente científico, o Google é motivado pelo desejo de usar a tecnologia, nas palavras de Eric Schmidt, “para resolver problemas que ninguém resolveu ainda”, e a inteligência artificial é o mais difícil deles. Porque Brin e Page não iriam querer resolvê-lo? Contudo, a pressuposição fácil de que estaríamos todos “melhores” se nossos cérebros fossem suplementados ou mesmo substituídos por uma inteligência artificial é preocupante. A ideia parece sugerir que a inteligência é o resultado de um processo mecânico, de uma série discreta de etapas que podem ser isoladas, medidas e otimizadas. No mundo do Google, há pouco espaço para a incompletude da contemplação. A ambiguidade não é vista como uma abertura para a criatividade, para o insight, mas um bug a ser corrigido. O cérebro humano é apenas um computador ultrapassado que precisa de um processador mais rápido e de um HD maior.

A ideia de que nossas mentes deveriam operar como máquinas de processamento de alta velocidade não está implicada apenas nas fundações da internet; ela é, na verdade, o modelo de negócios reinante na rede. Quando mais rápido surfamos na web – mais links seguimos, mais páginas vemos – mais oportunidades a Google e outras companhias têm de coletar informação sobre nós e nos enviar propaganda. A maior parte dos proprietários da internet comercial está financeiramente engajada na coleta de pedaços de informação que deixamos para trás ao saltar de um link para outro. A última coisa que estas companhias querem é encorajar a leitura prazerosa ou o pensamento concentrado e lento. Está em seu interesse econômico nos levar constantemente à distração.

Talvez eu seja apenas um paranoico. Do mesmo modo que há uma tendência à glorificação da tecnologia, há a tendência inversa de se esperar o pior de cada nova ferramenta ou máquina. No diálogo platônico Fedro, Sócrates reclama com tristeza do desenvolvimento da escrita. Ele temia que, a medida que as pessoas confiassem na linguagem escrita como um substituto para o saber que elas costumavam carregar na cabeça, elas iriam, nas palavras de uma das personagens do diálogo, “deixar de exercitar a memória e se tornar esquecidas”. E porque elas seriam capazes de “receber uma maior quantidade de informação sem a devida instrução”, elas iriam “se considerar muito sábias quando na verdade seriam, em grande parte, ignorantes”. Elas iriam estar “repletas do conceito de sabedoria ao invés de serem realmente sábias”. Sócrates não estava errado – a nova tecnologia teve, em grande parte, o efeito que ele temia – mas não viu longe o suficiente. Não percebeu que, de formas diversas, a escrita e a leitura iriam servir para disseminar informação, gerar novas ideias e expandir o conhecimento humano.

O aparecimento da imprensa, no século 15, disparou outra rodada de ranger de dentes. O humanista italiano Hieronimo Squarciafico defendia que a disponibilidade de livros levaria à preguiça intelectual, tornando os homens “menos estudiosos” e enfraquecendo suas mentes. Outros argumentavam que livros mais baratos e panfletos poderiam corroer a autoridade religiosa, tornar menos importante o trabalho de acadêmicos e escribas, além de espalhar a sedição e a concupiscência. Como afirma o professor da Universidade de Nova York, ClayShirky, “a maioria dos argumentos contra a invenção da imprensa estavam corretos, alguns eram até prescientes”. Porém, novamente, os apocalípticos não conseguiram imaginar a miríade de bençãos que a palavra impressa iria possibilitar.

Portanto, sim, você deveria ser cético quanto ao meu ceticismo. Talvez aqueles que descartam as críticas à internet classificando-as como nostálgicas e retrógradas estejam corretos e das nossas mentes hiperativas e abarrotadas de informação nasça uma era de ouro de descobertas intelectuais e verdades universais. Entretanto, a internet não é o alfabeto, e mesmo que ela substitua a mídia impressa, colocará algo diferente no lugar. O tipo de leitura profunda, dedicada, que uma sequência de páginas impressas promove possui valor não apenas pelo conhecimento que adquirimos das palavras do autor, mas também pelas vibrações intelectuais que tais palavras provocam em nossas mentes. Nos espaços tranquilos que se abrem através da leitura concentrada e sem distrações de um livro, ou por qualquer outro ato de contemplação, nós operamos nossas associações, produzimos nossas analogias e inferências, cultivamos nossas ideias. Ler profundamente, argumenta Maryanne Wolf, é indistinguível de pensar profundamente.

Se nós perdermos estes espaços de tranquilidade, ou preenchê-los com “conteúdos”, sacrificaremos algo importante não apenas em nós mesmos, mas em nossa cultura. Num recente ensaio, o dramaturgo Richard Foreman descreveu com eloquência o que está em jogo: “Eu venho de uma tradição da cultura ocidental na qual o ideal (meu ideal) era o de uma densa, complexa, altamente educada e articulada personalidade – um homem ou mulher que carregasse em si mesmo uma versão pessoal e única de toda a herança ocidental. Mas agora eu vejo em nós todos (eu incluso) a substituição de uma complexa densidade interior por um novo tipo de Eu (Self) – evoluindo sob a pressão do excesso de informação e da tecnologia do instantaneamente disponível”. A medida em que somos drenados do nosso “repertório interior da densa herança cultural”, conclui Foreman, nos arriscamos a nos tornarmos “pessoas pó-de-arroz” – espalhadas e superficiais a medida em que nos conectamos à vasta rede de informação acessível.

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