Pra que eu tenho que saber isso?

Artigo de opinião de Dani Duc.

Uma pergunta que todo professor parece temer que seus alunos façam é: “Pra que eu tenho que saber isso?”. De fato, para que serve saber números complexos, saber que os holandeses invadiram Olinda em 1630, saber balancear equações químicas ou saber o que José de Alencar escreveu há mais de 150 anos num português que nem se usa mais? Pode-se pensar em situações específicas em que essas informações venham a ser úteis, mas por que um adolescente que quer ser advogado tem que aprender sobre números complexos, ou um que quer ser químico deve saber sobre a invasão holandesa?

Bem que poderíamos pegar o tempo gasto ensinando coisas que nem um médico, advogado ou engenheiro irá precisar para continuar seus estudos na faculdade, e usar para ensinar coisas mais práticas, como dirigir, cozinhar ou algo assim. Caso alguém tenha interesse em seguir alguma carreira científica, que faça aulas extras daquela ciência, em outro período, por exemplo. Certamente ele não estará perdendo seu tempo aprendendo a dirigir também, e com isso não obrigamos dezenas milhões de estudantes a decorar coisas que nunca usarão em nome de alguns milhares de possíveis físicos que talvez possam a vir a usar aquelas coisas específicas caso realmente prestem a faculdade. Mas não, em vez disso fazemos todo mundo ler Eça de Queiroz e aprender a resolver contas com matrizes. Por que eu tenho que gastar um tempo, que eu bem que podia estar aprendendo algo útil de verdade, decorando fases da mitose?

Para cada adulto que efetivamente usa o conhecimento das fases da mitose em sua vida eu acredito que é possível listar milhares e milhares que não usam, nunca usaram e morrerão após uma vida longa e bem sucedida sem sentir a menor falta de saber isso! Pra quê? Embora eu acredite que um professor nem sequer admitirá discutir a questão com o aluno, ela é, na verdade, muito pertinente, e conheço mais de um professor que reconheceu para mim não ter uma boa resposta para ela. Se nem o professor sabe porque ele está lá, muitas vezes em uma hora indecente da manhã, empurrando conhecimento que os alunos não querem, acho que o aluno tem todo o direito de questionar essa prática, classificando-a como arbitrária, abusiva e desnecessária.

Entretanto, apesar de acreditar que eles tem esse direito, eu discordo destes alunos. Obviamente há espaço para melhorar nosso sistema de ensino, mas acredito que há um problema na noção que parece estar por trás da famosa pergunta “pra que serve isso”. Refiro-me à ideia errônea de que uma coisa só se justifica se tiver uma finalidade prática imediata, ou pelo menos a médio prazo; de que, se algo não me é útil de uma maneira prática e objetiva, não vale o esforço. Todo o estudo é feito em função de investimento e retorno. O problema que vejo com esta noção é que a escola básica (ensino fundamental e médio) não tem, na minha opinião, como função primordial formar operários, executores ou técnicos, mas sim cidadãos. Antes de saber que profissão você vai seguir, se determinado conhecimento será prático ou não, você tem que aprender a funcionar em sociedade. Mas como ler Machado de Assis ou aprender matrizes vai te ajudar a ser um cidadão? A respostas tem mais de um nível.

Um monte de coisas que achamos que fazem parte da nossa natureza humana, que vem “de fábrica”, são na verdade habilidades adquiridas, e adquiridas a muito custo. A noção de nação, por exemplo, não nos é inata. Sem educação, é bem possível que um indivíduo não consiga se identificar com nada mais abrangente que sua família, ou grupo de amigos, pessoas de contato imediato. O que nos une é uma ideia abstrata que deve ser aprendida, ou nos esfacelaremos em milhares de pequenas gangues guerreando pelos recursos do outro lado da rua. O Estado moderno, formado por cidadãos, deve por sua vez formar estes cidadãos, pois eles certamente não aprenderão sozinhos a ideia que os une ou a sua função dentro dessa organização abstrata. E uma das coisas que une uma nação é uma cultura comum, um cânone de ideias e trabalhos feitos por outros que nos precederam, pois cultura é trabalho cumulativo. É preciso saber nossa história, como viemos a ser, qual nosso lugar na história mais abrangente da humanidade, que ideias formaram nossa cultura.

Então, sim, é importante, para você se sentir e ser brasileiro, saber que os holandeses invadiram Olinda e saber o que José de Alencar escreveu, porque essas coisas ajudaram a formar e compõem nossa nação até hoje. Mesmo que o português escrito por Alencar não seja mais usado, ou que um aluno ache o enredo de Iracema mais chato que o filme do Homem-aranha, é preciso conhecer suas ideias, sua linguagem, porque elas são a base do que temos hoje, no centro da nossa nação, da qual você, queira ou não, faz parte. E, para você dar sua contribuição, evoluir o que temos até agora, funcionar plenamente como cidadão, você tem que conhecer suas regras e origens, ou então ficará ignorante de seu papel e portanto incapaz de mudá-lo, incapaz de se conectar com a sua nação, limitado pela ignorância.

Mas um cidadão não está conectado somente à sua nação, pois todas as nações estão conectadas por algo em comum: o mundo em que vivemos. É preciso ter uma ideia de como esse mundo funciona, quais são seus princípios fundamentais e regras básicas para que não achemos as coisas ocorrem de maneira aleatória e assim, cairmos facilmente como presas das manipulações de quem efetivamente conhece essas regras. É aí que entra o papel da física, da química e da biologia. Você irá operar dentro deste mundo, e sem conhecer os princípios ficará a mercê de forças que não compreende, como uma criança de quatro anos que tem de viver e trabalhar em um submarino nuclear.

Mas esse aprendizado tem por trás mais um propósito, além de nos “inserir no contexto” do mundo em que estamos vivendo. Existem outras coisas que achamos que nascemos conosco, mas na verdade são habilidades adquiridas: a capacidade de raciocínio lógico e pensamento crítico. De maneira alguma nacemos com eles. Pode-se argumentar que nascemos com a capacidade de adquiri-los, assim como nascemos com a capacidade de falar, mas não nascemos sabendo uma língua. Aprender a falar português e a raciocinar criticamente e logicamente são habilidades duramente conquistadas, a troco de grande trabalho que se estende por anos. Esse é o papel da matemática e das línguas.

Mesmo que você não vá decorar Iracema, você tem que saber ler e interpretar um texto além da historinha óbvia, e perceber que ela é uma alegoria. Ler nas entrelinhas, extrapolar, fazer conexões com outros textos, interpretar, são coisas que devemos praticar muito para aprendermos a fazer. Sem isso, ficaremos eternamente presos no imediato, no aparente, manipulados pela publicidade e propaganda (ideológica ou de outra forma), ingênuos num mundo malicioso. Mesmo que você não lembre como fazer conta envolvendo a raiz quadrada de menos um, a capacidade analítica de abordar um problema permanecerá com você e será ferramenta que te permitirá fugir do procedimento estabelecido por outros.

Eu não sou de modo algum contra ensinarmos coisas úteis com finalidades práticas imediatas. Eu sou contra ficarmos apenas ensinando o que será útil e prático imediatamente. Se ficarmos nisso, estaremos formando peças condenadas a repetir apenas essas coisas úteis, sem autonomia, robôs eficientes em seguir roteiros pré-estabelecidos e ordens diretas, sem qualquer identidade com a nação ou mundo que os cerca, apenas recursos sendo explorados, ou seja, uma nação de escravos.

William Lane Craig debatendo sobre a existência de Deus com 7 ateus notáveis

Nos vídeos abaixo, o filósofo cristão William Lane Craig debate a existência de Deus com 7 ateus notáveis: o jornalista Christopher Hitchens, o químico Peter Atkins, os físicos Lawrence Krauss e Sean Carroll, e os filósofos Austin Dacey, Antony Flew e Stephen Law.

Craig vs Hitchens

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Craig vs Atkins

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Craig vs Krauss

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Craig vs Carroll

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Craig vs Dacey

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Craig vs Flew

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Craig vs Law

Motivando crianças a estudar

Artigo de Adonai Santanna, professor de matemática da UFPR.

A palestra mais marcante em minha carreira foi para uma turma de quarta série do primário de uma pequena escola particular de Curitiba. A professora daquela turma queria que eu falasse com seus alunos sobre água. É claro que fiz uma breve apresentação sobre o tema pedido. Mas logo em seguida aproveitei a oportunidade para provocar aquelas criaturas ainda pouco contaminadas pelo desestimulante sistema educacional de nosso país. O tema da água foi usado apenas como um gancho para falar sobre ciência.

Pedi às crianças que fizessem uma lista de três artistas brasileiros. Todos rapidamente citaram dezenas de nomes (apesar de demonstrarem conhecer apenas atores e atrizes de telenovelas). Em seguida pedi três nomes de atletas brasileiros, e eles também citaram, sem dificuldade, dezenas de nomes amplamente divulgados pela mídia e que se destacam principalmente no futebol. Por último, solicitei uma lista de três cientistas brasileiros. O silêncio foi absoluto. O mais surpreendente, porém, foi a conclusão deles: Disseram que não sabiam nomes de cientistas brasileiros simplesmente porque eles não existem. Expliquei àquelas crianças que existem, sim, cientistas brasileiros, sendo que muitos deles são conhecidos no mundo inteiro por trabalhos muito importantes. Mas não quis perder tempo com citações de nomes e obras que eles imediatamente esqueceriam.

Procurei, então, seguir o caminho da provocação. E eu adoro perturbar a acomodada paz intelectual de pessoas, principalmente crianças. Falei para elas que a estrutura molecular da água é estudada, em parte, por um ramo da ciência conhecida como física quântica. Uma vez que o ramo mais elementar da física quântica é a mecânica quântica não relativística, parecia sensato falar algo sobre essa fabulosa teoria centenária. Ninguém sabe ao certo o que é mecânica quântica. Não existe na literatura especializada qualquer formulação axiomática que seja amplamente aceita como uma definição precisa dessa área do conhecimento. Mas sabe-se que a mecânica quântica tem características notáveis que se opõem drasticamente à mecânica clássica e até mesmo aos nossos modos intuitivos de pensar sobre o mundo que nos cerca.

Sobre o que eu poderia discutir com aquelas crianças? Eu poderia falar sobre probabilidades em mecânica quântica, sobre o fenômeno de não-localidade, sobre a discretização de níveis de energia e de estados de sistemas de partículas, sobre as peculiares propriedades topológicas de spin, sobre o problema da não-individualidade, etc. Mas tudo isso parece muito difícil de adaptar para uma linguagem acessível a crianças de 9 anos. Então decidi discutir com elas sobre realismo. Um realista é aquele que considera que o mundo dos fenômenos mensuráveis independe do ato da observação. E a mecânica quântica colocou em desconfortante xeque a visão realista que tão bem se aplica à mecânica clássica.

O teorema de Bell, por exemplo, e sua confirmação experimental devida a Alain Aspect, foi uma grande façanha intelectual que despertou discussões até hoje muito ativas sobre os aspectos não realistas da mecânica quântica. Evidências muito convincentes apontam que o ato da observação, de fato, afeta sistemas físicos quânticos. Lembrando disso e apontando para a mesa da professora, fiz a seguinte pergunta para a turma: “Se todo mundo sair desta sala e ninguém estiver olhando para a mesa da professora, esta mesma mesa continua existindo?”. A resposta imediata, animada e unânime foi: “Claro!”. Insisti: “Mas se ninguém estiver olhando para a mesa, como saber se ela continua existindo?”. A resposta agora foi um novo silêncio.

Meninos e meninas pareciam estar engajados em agoniados pensamentos. Aos poucos fui explicando para aquelas perturbadas criaturinhas que ninguém sabe ao certo se a mesa continua existindo ou não, se não houver pessoa alguma a observando. Falei para as crianças que algumas teorias dizem que a mesa ainda está lá; mas outras dizem que não. E as teorias que dizem que a mesa não está necessariamente no mesmo lugar onde foi observada pela última vez são as mesmas teorias físicas que ajudam a compreender a estrutura molecular da água. Os olhares daqueles alunos foram assombrosos. Ficaram simplesmente desnorteados.

O resultado mais animador dessa palestra veio dois ou três dias depois. Recebi uma carta de uma das meninas da turma. O nome dela é Sarah. Na carta, que ainda guardo, ela agradecia pela palestra e dizia que ainda estava pensando no problema da mesa da professora. Bingo! Objetivo alcançado. Educação científica não se faz com amontoados de fatos ou teorias que visem estabelecer uma zona de conforto intelectual. Educação científica se faz com o estímulo à busca pelo conhecimento. E a busca ao conhecimento somente pode ser promovida onde houver perguntas relevantes não respondidas.

Nosso sistema solar é um vórtice

Os astrônomos se debateram com isso por milênios. Do modelo geocêntrico ao heliocêntrico, muita gente foi condenada por heresia durante a Idade Média. Muitos séculos depois, surge o reconhecimento de que, no fim das contas, os gregos estavam certos: nosso sistema solar é um vórtice.

Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo – Galileu Galilei

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Galileu Galilei (1564-1642), físico, matemático e astrônomo italiano, é considerado o pai da ciência moderna. Vivendo a maior parte de sua vida em Pisa e Florença, desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente acelerado e dos movimentos pendulares. Descobriu a lei dos corpos e enunciou o princípio da inércia, ideias precursoras da mecânica newtoniana. Aprimorando o uso do telescópio refrator, foi um dos primeiros astrônomos a registrar as manchas solares, as montanhas da Lua, as fases de Vênus, quatro dos satélites de Júpiter e os anéis de Saturno. Foi também um dos mais corajosos defensores do heliocentrismo, desafiando a Inquisição e os dogmas da Igreja, e contribuiu decisivamente para o estabelecimento do método científico empírico.

A famosa obra Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo cobre o período de 1610 a 1632, no qual Galileu realiza uma impressionante campanha a favor do copernicanismo e da liberdade de pensamento, que ultrapassa as fronteiras da ciência para dirigir-se ao público em geral, ao conjunto da cultura organizada de sua época. Por isso, o Diálogo é uma obra de combate, cujo objetivo indisfarçável é o de fazer rever o édito de 1616 da Inquisição romana que proibia o livro De revolutionibus, de Copérnico. Ao afirmar assim o caráter planetário da Terra, Galileu destrói os fundamentos antropocêntricos da visão tradicionalista cristã. E, de fato, será condenado em 1633 por esta obra que inaugura a ciência moderna e redesenha o mapa da cultura ocidental.

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