O universal opõe-se a qualquer época

Fernando Pessoa (1888-1935), consagrado poeta português, na obra Heróstato:

É admissível que o gênio não seja apreciado na sua época porque a ela se opõe; mas pode-se perguntar por que razão é apreciado nas épocas vindouras. O universal opõe-se a qualquer época, pois as características desta são necessariamente particulares. Por que será então que o gênio, que se ocupa de valores universais e permanentes, é mais favoravelmente recebido por uma época do que por outra? A razão é simples: cada época resulta da crítica da época precedente e dos princípios subjacentes à vida civilizacional da mesma. Enquanto que um só princípio está subjacente, ou parece estar subjacente, a cada época, as críticas desse princípio único são variadas, tendo apenas em comum o fato de se ocuparem da mesma coisa. Ao opor-se à sua época, o homem de gênio critica-a implicitamente, integrando-se implicitamente numa ou noutra das correntes críticas da época seguinte. (…) Quanto mais universal é o gênio, mais facilmente será aceite pela época imediatamente a seguir, pois mais profunda será a crítica implícita da sua própria época. Quanto menos universal for, na sua universalidade substancial, mais difícil será o seu caminho, a menos que lhe aconteça coincidir com o sentido de uma das principais correntes críticas da época seguinte.

A inevitabilidade da filosofia

Crônica de Desidério Murcho, professor de filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), publicado no jornal Público do dia 26 de fevereiro de 2008, em Portugal.


À parte alguns estudiosos, poucas pessoas sabem que Aristóteles (384-322 a.C.) escreveu uma humilde introdução à filosofia, hoje conhecida pelo seu título grego: Protréptico. O livro foi muitíssimo influente durante cerca de mil anos. Quando Boécio (480-524 d.C.) escreveu a sua famosa Consolação da Filosofia, tinha em mente a obra de Aristóteles, cujas ideias lhe chegaram através do Hortênsio, de Cícero (106-43 a.C.) — que, por sua vez, era uma espécie de versão romana do original de Aristóteles.

Por mais que muitas gerações de leitores se sentissem gratos a Aristóteles por ter escrito uma lúcida e iluminante introdução à filosofia, este não é o tipo de obra que os acadêmicos e os intelectuais — do passado e do presente — tenham tendência para estimar. Acarinharam, releram e mantiveram em boas condições as obras mais sofisticadas de Aristóteles, mas não a sua modesta introdução. E foi assim que este livrinho de Aristóteles ficou perdido e praticamente esquecido, até Ingram Bywater redescobrir alguns fragmentos, já no século 19.

Uma das ideias expostas por Aristóteles nesse livrinho exibe com mestria a natureza da filosofia. Não temos uma citação direta da passagem em causa, mas temos várias menções indiretas, e todas concordam que Aristóteles usou algo como o seguinte argumento a favor da filosofia:

Se temos de filosofar, temos de filosofar.
Se não temos de filosofar, temos de filosofar.
Logo, em qualquer caso, temos de filosofar.

Isto parece um daqueles trocadilhos que dão mau nome à filosofia, mas há sabedoria nestas palavras. Trata-se de um pequeno argumento dedutivo, válido, com duas premissas apenas. A primeira é uma trivialidade, claro. A subtileza está na segunda. O que Aristóteles tinha em mente é que para argumentar que não temos de filosofar, temos de usar um argumento qualquer. Mas que tipo de argumento será? Quando pensamos nisso, vemos que não há argumentos biológicos, físicos, matemáticos ou históricos contra a filosofia. Qualquer argumento contra a filosofia teria de ser filosófico. Portanto, para rejeitar a filosofia temos de filosofar. O que demonstra que a filosofia é inevitável. Argumentar contra a filosofia é como gritar “Não estou gritando!”.

Não há maneiras não contraditórias de argumentar contra a filosofia porque a filosofia é o estudo cuidadoso das nossas ideias mais básicas. Mesmo quem pensa que a filosofia é uma besteira tem ideias filosóficas sobre a natureza do conhecimento (epistemologia) ou da realidade (metafísica). Filosofar é avaliar cuidadosamente essas ideias, em vez de as aceitarmos como se fossem as únicas alternativas viáveis. Assim, a opção não é entre ter ou não ter ideias filosóficas. É tão impossível viver sem ter ideias filosóficas como é impossível viver sem ter ideias físicas sobre o mundo à nossa volta. A opção é entre tê-las, estudando-as cuidadosamente, ou ter a ilusão de que não as temos, só porque não nos damos ao incômodo de as estudar.

Qual filósofo você é?

Se você tem alguma noção de filosofia e consegue ler razoavelmente em inglês, vai se divertir respondendo este pequeno teste. São 12 questões simples de múltipla escolha sobre variados temas e problemas filosóficos. Não há respostas certas ou erradas: o que se espera é a sua opinião honesta sobre cada tema. A partir de suas respostas, um algoritmo irá dizer com qual filósofo (ou escola) suas ideias mais se assemelham. Sem nenhuma surpresa, meu resultado deu majoritariamente Platão (82%) e Aristóteles (78%). Os filósofos aos quais eu menos me assemelho são Nietzsche e Sartre.

Mas então, qual filósofo você é?

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Entendendo o evolucionismo darwinista

Palestra do Rev. Augustus Nicodemus.

Debate sobre teologia natural

Os teólogos William Craig, Guilherme de Carvalho, Davi Charles Gomes e Jonas Madureira debatem sobre a possibilidade e os limites de uma teologia natural. O debate foi realizado durante o 8º Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova, que aconteceu nos dias de 13 a 16 de março de 2012, em Águas de Lindoia, São Paulo, cujo tema geral foi “Apologética contemporânea para um mundo de incertezas”.

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